Plinio Corrêa de Oliveira

 

Santa Rosa de Lima:

o poder de uma pessoa apenas, desde que tenha a coragem de se santificar

 

 

 

 

 

Santo do Dia, 29 de agosto de 1967

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério tradicional da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

Amanhã (30 de agosto) é festa de Santa Rosa de Lima (20-4-1586 + 24-8-1617), Virgem. Hoje é celebrada a degolação de São João Batista e é também aniversário da primeira lacrimação da Imagem de Nossa Senhora de Siracusa.

A respeito de Santa Rosa de Lima temos uma ficha biográfica tirada da obra “L’Année Liturgique”, de Dom Guéranger:

“Infelizmente, algum tempo após a gloriosa conquista da América pelos espanhóis, em Lima, fundada aos pés das cordilheiras andinas como a metrópole de uma província, a corrupção era tal que São Francisco Solano precisou imitar ao profeta Jonas e ameaçá-la como Nínive dos castigos divinos. Mas a misericórdia divina já se manifestara na alma de uma criança capaz de todas as expiações.

“Tinha ela somente 31 anos quando em meio à noite que iniciava a festa de São Bartolomeu, no ano de 1617, ouviu o brado: ‘Eis o esposo’ (MT. 25, 6). Em Lima, em todo Peru, na América inteira, prodígios de conversão e graça assinalaram a passagem da humilde virgem desconhecida até então. Atestou-se juridicamente, afirma o Sumo Pontífice (em sua bula de canonização), que desde a descoberta do Peru nenhum missionário foi encontrado que tivesse produzido semelhante espírito universal de penitência. E cinco anos mais tarde era dedicado o mosteiro de Santa Catarina de Siena que devia continuar em Lima a obra de santificação, de cura, de defesa social, e que se chamaria o Mosteiro de Rosa, que ela de fato diante de Deus era fundadora e a mãe.

“E esta criança que só fizera rezar e sofrer, que no meio da corrupção do mundo oferecera a Deus sua virgindade, que só buscava o silêncio e a obscuridade, tornou-se a padroeira do Peru e mesmo o Papa Clemente X estendeu a sua proteção às Índias, às Filipinas e à América inteira”.

A seguir, uma ficha de Daras:

“O zelo da casa de Deus a devorava. Quando voltava os olhos para as nações infiéis da América meridional, sofria em sua alma torturas indizíveis e chorava. Concitava os sacerdotes, religiosos, de voarem em socorro dessas almas. Ela pensou em adotar e educar um menino para consagrá-lo depois às missões. A morte impediu-a de realizar este projeto.

“Um dia ela pensou que ia colher a palma do martírio e grande foi o seu entusiasmo. Avistou-se ao largo uma frota holandesa que parecia querer tentar um desembarque em Lima. Para os marinheiros heréticos isto era o sinal para a pilhagem das igrejas. O alarme foi dado à cidade. Rosa dirigiu-se à igreja de São Domingos e demonstrou sua intenção de se fazer massacrar cobrindo o tabernáculo com seus braços. Viu-se esta virgem tímida rasgar a barra de seu vestido para ter mais agilidade e, desarmada, colocar-se ao pé do altar em postura de guerreira. Mas Deus contentou-se somente com essa demonstração de zelo. A frota inimiga afastou-se sem fazer dano.

“Esta santa colocara em Deus toda sua esperança. Cantava com frequência esse versículo familiar aos Padres do deserto: Ó Deus vinde em meu auxílio, dignai-vos socorrer-me. Aconteceu que sua alma fosse abalada considerando o mistério da predestinação. O Senhor a acalmou assegurando Ele mesmo: Minha filha, eu só condeno aquele que se quer condenar. Guarda em paz a tua alma”.

 

 

Procissão na festa da santa, pelas ruas de Lima. Ela é a padroeira da Polícia Nacional e dela recebe suas homenagens.

Estes fatos da vida de Santa Rosa de Lima nos põem um pouco diante das condições da América Latina naquele tempo. Aconteceu que no Brasil, tanto quanto na América Espanhola, a vinda dos ibéricos para cá produzia um trauma moral dos mais perigosos. Eles eram os homens que vinham da Europa, que tinham sede de aventura, de natureza rústica e selvagem, e que chegando aqui se entregavam às aventuras. Encontrando aqui uma natureza tropical exuberante, com condições climáticas que favoreciam a luxúria e a nudez, eles de todos os modos se deixavam dissolver num ambiente onde a vulgaridade e a corrupção moral ombreavam, o que determinava uma baixa de nível tremenda.

 Santa Rosa de Lima viu que se não houvesse uma grande graça e uma grande reação, seria impossível evitar que essas povoações frustrassem os desígnios santos da Providência, quando encaminhou exatamente os povos ibéricos para cá. Povos que haveriam de ser tão fiéis à fé católica, o que determinaria exatamente a formação desse imenso bloco católico que ia antigamente desde os Estados Unidos até o litoral extremo sul da Argentina e do Chile.

Nessas condições, era preciso fazer uma grande obra. O curioso é que Deus não suscitou para a América inteira um grande pregador. Ele pôs aqui, lá, acolá grandes pregadores, mas de âmbito restrito. Uma pessoa que tivesse uma missão de caráter universal foi Santa Rosa de Lima! E o foi porque era uma alma penitente, uma alma suplicante e Deus queria que se fizesse, no plano da Comunhão dos Santos, aquilo que era necessário para salvar a América.

Veio daí exatamente que sua fama de santidade percorreu toda América e determinou incontáveis milagres e conversões. E - fato particularmente precioso - o espírito que ela suscitava em torno de si era o de penitência, o espírito de mortificação, que é tão duro e tão difícil de despertar.

Com isso naturalmente ela freou em grande parte a corrupção dos costumes e por sua ação, que foi correspondida pelas pessoas de um modo apenas incompleto, criaram-se condições menos favoráveis à Revolução, o que determinou por sua vez uma marcha mais lenta da Revolução em nosso continente.

Vemos assim o que pode uma alma só, desde que se entregue a Nossa Senhora de fato, desde que resolva renunciar a todas as vantagens e todas as molezas da terra, entregando-se realmente à misericórdia de Deus e à penitência.

Aqui está uma grande lição!

Uma pessoa que corresponda inteiramente à graça pode fazer um bem indizível, se se santificar. E é a coragem de se deixar fazer santo de altar que se deve pedir a Nossa Senhora.

Que Ela nos dê essa coragem pela via que entender e, especialmente, pela pequena via de Santa Teresinha do Menino Jesus, em que não é o homem que vai à frente da coragem, mas é a coragem que vai de encontro ao homem e nele habita quando menos se espera, a fim de realizar grandes obras.

Vamos pedir, portanto, a Santa Rosa de Lima que tanto bem faz a este continente, para que ela faça bem a nós também para preservação e continuação de sua obra, para que realmente a América Latina possa ser o campo de escol para o Reino de Maria.