Plinio Corrêa de Oliveira

 

São José de Cupertino – II

Heróica despretensão e confiança

em Deus e em Nossa Senhora
Cada episódio de sua vida é

uma lição para nós

 

Santo do Dia, 25 de outubro de 1968

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

Para ler os "Santos do Dia" anteriores clique em

São José de Cupertino - I

São José de Cupertino - III

 

Eu obtive a biografia de São José de Cupertino e nela sublinhei apenas os dados que não tinham sido expostos no Santo do Dia em que começamos a comentar sua vida. E para a sagrada despretensão, nada melhor do que a gente ver que pode ser até Fra Asno e valer muito mais do que um membro inteligentíssimo do Grupo, perspicaz, que vê as coisas de longe, sorrateiro, diplomata, simpático, agradável, capaz, eficiente, que dirige as coisas, que sabe, que pode, que faz e... que não é abençoado por Nossa Senhora porque é pretensioso.

Temos aqui alguns dados biográficos a mais sobre São José de Cupertino. Diz-se que chegaram, em determinado momento, a lhe tirar o hábito religioso. Quer dizer, tão nulo, que não prestava para nada, que o obrigaram a sair da ordem religiosa. Declarou ele mais tarde ter sofrido, nesse momento, como se lhe tivessem arrancado a própria pele.

Os senhores vêem a sabedoria desse homem e a diferença entre ele e tanto teólogo de hoje em dia, que conhece aramaico, que faz interpretações do outro mundo da Sagrada Escritura... e depois tira a batina com a maior naturalidade possível, não tem nenhum amor ao hábito religioso e vem dizer que Deus não existe. Para ele, não: ele sofreu como se lhe arrancassem a própria pele.

Depois continua a ficha:

Por cúmulo da infelicidade, perdera uma parte de suas vestes leigas”. 

Isso é bem o que haveria de acontecer com ele. 

Na hora de tirar a batina, não tinha veste leiga; faltavam o chapéu, as meias e o sapato”. 

Que época, hein? Faltava o chapéu!... 

Ele fugiu sem nada disso. Uns cães de um estábulo vizinho assaltaram-no e puseram em pedaços os andrajos que o revestiam”. 

Os senhores vejam como Nossa Senhora toca a vida dos santos. Para quem está habituado à psicologia do “happy end”, do fim feliz, isso é o tipo da coisa que não devia acontecer. Segundo essa mentalidade, sua vida deveria transcorrer assim: entrou para o convento. Se entrou, vai acabar logo Provincial, porque é um gênio, naturalmente... Não! Ele é posto fora, tem que tirar o hábito. No momento de fazer isto, já perdeu uma parte do que tinha quando entrou no convento. E depois ainda uns cães o atacam, saídos de um estábulo. Nem são os cães do senhor feudal do lugar, limpos e prestigiosos que o foram morder, mas cães imundos que rasgam os restos de seus andrajos. Acabou: a pretensão está reduzida a zero! 

Uns pastores, tomando-o por ladrão, quiseram lançar-se sobre ele”. 

Feliz a época em que os ladrões andavam tão mal vestidos... Hoje, pelo contrário, se o sujeito está assim, possivelmente é porque não roubou, porque quem rouba, não é esse o jeito que tem. 

Protegido por um deles contra a fúria dos outros, ele retoma a sua carreira”. 

 Deus que põe o peso, põe a mão. Afinal, acaba havendo um pastor que protege esse homem e que tem dele uma pena que os superiores religiosos não tiveram. Cada episódio dessa vida é uma lição para nós

Um cavaleiro se lhe apresenta adiante e, empurrando-o, de espada na mão, acusa-o de ser um espião”. 

 “Empurrando de espada na mão”: os senhores sabem a que isto corresponde. Ou seja, o homem a cavalo, com a espada em punho e ele correndo. Quer dizer, não são só os andrajos, mas é a insegurança, é o medo... e aquela espécie de furor que todo mundo tem contra o pobre coitado desvalido, desarmado, feio, roto, sujo e trapo. Aí é a hora de todos os “heróis” quererem brigar com ele. Eu garanto aos senhores que esse cavaleiro é um poltrão. Mas um poltrão, quando encontra um pobre São José de Cupertino, vira um “herói”...! 

José chegara à cidade de (..?..).  Atira-se aos pés do tio que o toca de casa”. 

Os senhores não acham que isso é bonito? Eu sei que é bonito post factum. Mas eu me permitiria dizer aos senhores o seguinte: as únicas coisas verdadeiramente bonitas o são post factum. São as tais coisas feias que, na hora de acontecer, ninguém acha que sejam bonitas. Mas depois aparece uma explicação que as torna belas.

Os senhores vejam a confiança que esse homem precisava ter em Deus, em Nossa Senhora, para não desanimar nessas circunstâncias. Ele naturalmente sentia qual era a causa de ser posto de lado e escorraçado. Com certeza lhe diziam: “Você é burro, você é feio, você é sujo, você é um cotozinho de gente, você não serve para nada. Fora daqui!”  Em resposta, ele não podia dizer que não era burro, nem sujo, nem feio, nem que não era cotó. Sabe qual é a resposta? É ainda pedir desculpa e ir embora, caso contrario apanha. E sai pensando em Nossa Senhora, sai pensando em Deus...

Isso não é mais bonito do que a Europa inteira, do que o mundo inteiro? Sei que o espírito moderno se arrepia com isso, eu sei. Eu trouxe para arrepiar, porque há certas coisas que a gente só cura arrepiando. Não cura de outra maneira. Eu trouxe para produzir esse santo arrepio. Aliás, nós estamos muito e muito habituados a não examinar a fundo as coisas.

Com efeito, o que São José de Cupertino sofreu em comparação com o que sofreu Nosso Senhor Jesus Cristo? O que é? E Ele, Quem era? Quem com “Q” maiúsculo e tão maiúsculo que chega daqui até o sol. Entretanto, não sofreu mil vezes mais? E por nosso amor? Por amor de cada um?...

Então São José de Cupertino vai àquela que é a própria imagem de Nossa Senhora na Terra; dirige-se àquela que é a fonte de todo socorro e de toda misericórdia: procura sua mãe. Atira-se aos pés dela. Resposta da mãe: 

Tu te fizeste expulsar de uma casa santa. Escolhe a prisão ou o exílio, porque só te resta morrer de fome. Sai daqui de casa”. 

Os senhores não acham que é mais bonito isso do que ser um “espírito forte”? do que ter toda a distância psíquica do mundo? do que ser um Churchill?

Ele sai dali e em vez de estar pensando “Eu, eu, eu, eu... o que está me faltando?”, olha para uma flor, para um lírio e se lembra de Nossa Senhora que é o lírio dos campos e reza enlevado. Vai andando pela estrada, enlevado, pensando em Nossa Senhora. Isso não é incomparavelmente superior, incomparavelmente mais bonito do que ser um homem inteligente?

Estou certo de que os Srs. fariam isso, e eu teria como honra singularíssima se eu pudesse fazer também: oscular os pés desse homem. Quem de nós quereria beijar os pés de Churchill? 

José acaba por ser admitido no convento de Grotella, para ser incumbido do tratamento da burra”. 

Havia uma burra lá para tratar... então, foi admitido. Afinal de contas, os senhores viram, ele conseguiu ser ordenado sacerdote quase que de contrabando. Voltou ao convento de Grotella e aí passou dois anos terríveis. 

A miséria material a que se condenara, complicou-se com uma miséria interior bem diversa. As consolações divinas com que fora amparado desde a infância, deram lugar a uma secura triste e sombria que aumentava cada dia. Escrevia ele a um amigo: ‘Eu me queixava muito de Deus com Deus’.” 

Vejam que linda frase! Só isso: “queixar-se de Deus com Deus”. Santa Teresa de Jesus sabia fazer isso: voltar-se para Deus “Ó meu Deus, por que me fizeste isso?” Nossa Senhora queixou-se de Nosso Senhor para com Nosso Senhor: “Meu Filho, por que fizeste isso conosco?”

Alguns teólogos interpretam isso como uma amorosa queixa. Mas que bonito uma alma que se queixa de Deus com Deus, que foge de Deus para dentro dos braços de Deus. Como isso é superior! 

Tinha deixado tudo por Ele e Ele, em vez de me consolar, me entregava a uma angústia mortal”. 

Considerem atentamente o valor dos bens do espírito que esse homem conhecia. Privado de todos os bens da Terra, não se incomodava. A partir do momento em que lhe faltou um bem do espírito, que é a consolação espiritual, aí soube pedir a Deus. Vejam a superioridade dessa alma, o quilate dessa alma! 

Um dia, como eu chorasse, como eu gemesse – só de pensar me sinto morrer – um religioso bate-me à porta. Não respondo”. 

Ele estava na “baixa”, em uma espécie de depressão. 

Ele entra: ‘Frei José, diz, que tens? Aqui estou para servi-lo. Olha, aqui está uma túnica. Pensei que não tinha túnica.’ Efetivamente, minha túnica caía aos pedaços. Vesti a que trazia o desconhecido e todo meu desespero desapareceu no mesmo instante. Ninguém reconheceu jamais o religioso que tinha trazido a túnica”. 

Para que comentar, hein? Não é o caso de dizer: “Olhai os lírios do campo que não tecem, nem fiam, entretanto Salomão em toda a sua glória não se vestiu como eles”? O que é o manto de Salomão perto dessa túnica humilde, trazida nessas circunstâncias, evidentemente, por um Anjo do Céu? Ou então por algum outro frade virtuoso de alguma ermida, ou de alguma Tebaida, que foi transportado assim pelos ares, por Anjos, com uma túnica que uma santa havia tecido para ele e que foi levada a São José de Cupertino. Depois os Anjos o teriam levado de volta para o ponto de partida. Quem sabe lá a beleza... Foi-lhe restituída toda a consolação.

Eu pergunto: não é melhor isso do que ser um Churchill? 

A partir desse momento, a vida de São José foi uma das maravilhas de que faz menção a história. A sua vida exterior foi, ao mesmo tempo, agitada e monótona. Para evitar as multidões que o buscavam, transportavam-no de um lugar para outro e o mantinham quase em prisão até um novo deslocamento”. 

Quer dizer, essa santidade estalou. Começaram todos a perceber e as multidões – naquela época ainda sob os sopros da Idade Média – não iam atrás dos demagogos, mas dos santos. Resultado: começaram a ir atrás dele. Ele que era o último dos leprosos, desprezado por todo mundo, agora todo mundo vai atrás dele. Então tinha que viver fugindo das multidões. Eram os anos da glória e do desapego: era uma glória desapegada.

Os senhores não podem pensar numa “glória” balofa e orgulhosa no estilo de um eclesiástico “progressista” embombado pelas tubas da Revolução gnostica e igualitária. Não é nada disso; é desapego completo! 

A sua vida interior oferece a reunião dos fenômenos de êxtase e de milagre mais variados e mais sublimes. Em vez de enxergar os homens sob a figura que têm no mundo, São José os via, às vezes, sob a forma do animal que lhes representava o estado de alma”. 

Que maravilha! 

Sentia cheiros que só existiam para ele; seres espirituais que se lhe afiguravam materiais. Encontrava um homem cuja consciência estava em mal estado: ‘Está cheirando muito mal’, dizia José para ele. ‘Vai te lavar’. E depois da confissão, se a confissão era boa, ele sentia outro cheiro no homem”. 

Não era todo mundo que tinha coragem de chegar perto dele, não é?... 

A sua pessoa tornara-se uma espécie de símbolo vivo; dominava o mundo visível por um reflexo sensível do mundo supra-sensível”. 

Ou seja, ele era o espelho de Deus. Era o que aquele advogado disse a respeito do Cura d’Ars, São João Batista Vianney. Perguntaram-lhe: “O que você viu em Ars?” Ele respondeu: “Eu vi Deus num homem!” Assim se diz de São José de Cupertino. 

A Madonna de Grotella era o ponto onde ele deixara o coração. Voltava sempre para lá”. 

Há muita coisa ainda para comentar. Acho melhor não desperdiçar todas essas maravilhas de uma vez só e no Santo do Dia de amanhã, se Deus quiser, continuamos. Nós fazemos assim, talvez, um pouquinho de mortificação. Porque em vez de conhecermos o fim da história, por amor à mortificação, aceitamos um suspense.

Vamos pedir o que a São José de Cupertino? Que tenha pena de nós; que ele olhe para o interior de nossa alma, que terá – talvez –  tanta pretensão; que nos alcance a simplicidade e a suma despretensão dele.