Plinio Corrêa de Oliveira

 

Santo Odilon - I

 

Sua personalidade

 

Santo do Dia, 22 de maio de 1972

 

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

Hoje nós comemoramos a festa de Santa Joana, Virgem.

"Filha do rei D. Afonso V de Portugal, praticou na corte as mais altas virtudes. Tomou como emblema a coroa de Espinhos, e sob as ricas vestes trazia rudes cilícios. Professou na Ordem Dominicana onde, após longa e dolorosa enfermidade, falecia santamente no século XV".

Nós estamos na novena de Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos e de Nossa Senhora Rainha.

Não tenho dados biográficos maiores sobre a santa do dia, mas uma descrição muito bonita de Santo Odilon (994-1048, quinto abade de Cluny). A descrição é um pouco longa; me foi fornecida pelo professor (Fernando Furquim de Almeida) e está publicado na Circular-Boletim deste mês. Essa descrição da personalidade dele foi tirada de que livro, professor? O senhor se lembra?

(Prof. Furquim: Foi o primeiro biógrafo dele, Jotsald, cfr. Pe. Jardet, "Saint Odilon, abbé de Cluny – Sa vie, son temps, ses oeuvres", Imprimerie Emmanuel Vite, Lyon, 1898 - ndc)

Ah! Sei. Portanto é documento direto, de quem conheceu Santo Odilon. Os senhores podem, nessa descrição, ter a idéia do que era um varão monacal e sacral da Idade Média. E fazer a comparação entre esse tipo e o tipo do progressista por exemplo.

Para começar pelos seus menores méritos:

Basílica de Saint-Urbain, Troyes (França)

"Esse homem tinha um passo grave, uma voz admirável."

Um passo grave: os senhores estão vendo que é diferente do saltitar progressista, não é? É um homem que anda com passo firme, pisando onde pisa, mas sem corre-corre.

"Ele falava bem; era uma alegria vê-lo. Seu rosto angélico, seu olhar sereno, cada um de seus movimentos e de seus gestos, todo ato de seu corpo exprimia a honestidade".

A "honestidade" na antiga linguagem, não tinha o sentido de hoje, restrito à virtude por onde não se rouba o que é dos outros. É a honestidade no sentido latino da palavra, "honestas", que é a dignidade, a compostura e a elevação. Quer dizer, um modo exterior de ser que corresponde à virtude interior. É isto.

"Cada dobra de suas vestimentas revelava dignidade, o respeito de si mesmo e dos outros".

Os senhores vejam que beleza isto, um frade, um monge, com sua grande túnica beneditina, e que não anda nunca a não ser com esta dignidade, de tal maneira que qualquer dobra do seu traje revela o respeito que ele tinha de si e dos outros. E esta alma cheia de respeito de si e dos outros, como é uma alma diferente da alma revolucionária a que nós estamos tão habituados.

"Tinha em si qualquer coisa de luminoso que convidava a imitá-lo e a venerá-lo."

É bem o homem no qual está Deus e em que transparece a graça. Aquele comentário de um advogado do Cura de Ars, quando perguntaram: "o que é que vós fostes ver em Ars, o que vistes em Ars? E ele respondeu: Eu vi Deus num homem." Aí os senhores estão vendo Santo Odilon, esta espécie de presença, de transparência de Deus.

"A luz da graça que habitava nele, brilhava, por assim dizer, no exterior manifestando o quilate de sua alma. Porque o comportamento de uma alma, diz-se, transparece na apresentação do rosto.

"Falemos brevemente de sua aparência exterior. Era de porte mediano, seu rosto exprimia simultaneamente autoridade e benevolência".

Isto é uma outra coisa profundamente contra-revolucionária, porque para o revolucionário a autoridade nunca é benevolente, e a benevolência jamais é autoritária. E para o contra-revolucionário, não: a autoridade e a benevolência se aliam. Os senhores estão vendo o rosto deste abade, que era um dos mais altos dignatários da Igreja naquele tempo, e cuja fisionomia exprimia ao mesmo tempo autoridade e benevolência.

"Com os mansos mostrava-se sorridente, acolhedor; mas para com os orgulhosos e rebeldes tornava-se terrível, a ponto de eles não poderem suportar o seu olhar".

Se ele vivesse hoje, incutiria medo no revolucionário; o revolucionário chegando perto dele sentiria susto, sentiria mal estar. Pelo contrário, os contra-revolucionários sentiram nele a bondade, o acolhimento, a afabilidade.

"Nele a magreza acentuava a força e a palidez era elegância".

Não sei se os senhores vêem que espécie de homem é: quer dizer, asceta, esguio, magro, mas magro com elegância. Quer dizer, há um jeito de ser magro, que o sujeito é   desossado, uma geringonça. Mas há um ser magro que é todo animado pela alma. E que toma uma certa elegância. Ele é desse tipo. E a palidez nele era elegante. Há realmente uns pálidos nos quais a palidez é doença. Mas há uns pálidos nos quais a palidez é distinção, é quase uma cor de marfim, é uma coisa superior.

"Os cabelos brancos era uma  distinção. Seus olhos tinham um brilho singular que inspirava ao mesmo tempo o espanto e o temor. Eram olhos acostumados às lágrimas, porque tinha recebido a graça da compunção".

A graça da compunção é aquela pela qual a gente se condói tanto com as coisas de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Nossa Senhora e da Igreja, que se chora por causa disto. Então, eram olhares que tinham o brilho do pranto, que é um brilho suave, é um brilho doce, um brilho convidativo. Os senhores podem imaginar a beleza ver esse homem passar da consideração de Nossa Senhora, para um olhar terrível e fulminante, e depois acariciar um doente ou um pobre... Que diferença de modulações de alma deveria haver nisto, e que privilégio teria sido a gente conhecer esse homem.

"De seus movimentos, de seus gestos, de seu passo, emanava uma espécie de autoridade, de gravidade e de paz".

Os senhores vêem que coisa bonita: autoridade, seriedade e paz. Isto aí é bem a imagem do superior e o ambiente que o superior deve constituir em torno de si.

"Sua acolhida era um raio de alegria e de graça, uma extraordinária surpresa para quem chegava. Era perfeitamente senhor de si. Sem artifício, sem fraudes, a natureza tinha feito dele qualquer coisa de admiravelmente harmônico e todo posto em ordem. Santo Ambrósio tem razão em dizer que a beleza não tem lugar de virtude. Contudo, desprezaremos essa graça?"

Quer dizer, Santo Ambrósio tinha razão de dizer que o varão belo nem por isso é virtuoso. Mas, pergunta o biógrafo: por causa disso desprezaremos a beleza que Deus quis dar a um de seus santos? Santo Ambrósio era um desses homens assim. Os senhores vêem que é uma dessas culminâncias da humanidade, que Deus cria de séculos em séculos para iluminar a Igreja e para mostrar como deve ser um clérigo verdadeiro, inteiramente segundo o espírito de Deus, ou como deve ser o perfeito católico.

"Primeiro na dignidade ele era abade, ele se esforçava por ser igualmente o primeiro no trabalho, seguindo a palavra da Escritura: "Jesus se pôs a operar e a ensinar". Grande leitor, tinha freqüentemente um livro nas mãos, mesmo em viagem".

Não pensem os senhores que era a mesma coisa viajar de avião lendo e viajar a cavalo naquele tempo; cavalo assim... e com estradas péssimas e lendo... E depois, hoje livro é "pocket book"; naquele tempo, era um livraço assim... o sujeito ia carregando, ia andando a cavalo, coisa dura, hein!...

"Enquanto cavalgava, refazia na leitura as forças de sua alma".

Viagens terríveis, hein!... Mas ele ia lendo e refazendo as forças da alma, enquanto  andava a cavalo, gastava as do corpo.

"Quando meditava os livros da sabedoria mundana...

Quer dizer, os livros que não são inspirados pela Igreja.

"...observava com sagacidade aquilo que a voz divina dita ao legislador do Deuteronômio: "A cativa estrangeira poderá tornar-se a esposa de seu vencedor arrasado e de garras cortadas. Autorizado por esse exemplo, guardava na sua memória aquilo que de bom achava nos livros dos filósofos. O resto, quer dizer, o amor e o cuidado dos bens deste mundo, ele extirpava e alijava como coisa infecta e mortal".

Quer dizer, da literatura pagã, aquilo que não servisse de suporte à doutrina católica, ele abandonava, desprezava.

"Perscrutava a Lei Divina com espírito especulativo e penetrante. E sua aplicação à leitura santa, absorvia-o a ponto de torná-lo, por instantes, alheio aos outros e até a si mesmo".

Ele esquecia até de si mesmo no meio daquilo.

"Entregava-se, pode-se dizer, todo inteiro ao livro Sacro. Lá, ele auferia das fontes do Salvador o que distribuía em seguida gratuitamente. Ele rodeava-se de doutores, desejando sempre aprender deles."

Quer dizer, enquanto todos o consideravam um poço de ciência, disso ele não tinha vaidade, não se considerando um grande homem.

"Mas  perscrutava as coisas divinas como uma criança, desejando com toda alma aprender sempre e sempre. Ávido de leituras e incansável na oração, pode-se dizer que a  toda hora era útil aos outros e a si mesmo. Quando guardava o silêncio, estava com o Senhor, mas, se falava, era sempre no Senhor ou do Senhor."

Vejam que magnífico elogio! Quer dizer que quando ele se calava, estava com Deus. Quando ele falava, era de Deus e em Deus. Quer dizer, apoiado por Deus e estimulado por Deus.

Isto aí é uma parte da personalidade dele. Mas é tão longa a descrição, que creio que nós podemos validamente deixar o resto para outro Santo do Dia. Assim nós vamos, aos poucos, nos imbuindo dos traços característicos dessa grande figura. E nós vemos quanta razão tem a TFP em insistir na idéia de que a verdadeira prática da verdadeira religião católica não torna o indivíduo amesquinhado, apequenado, abobado, ou sem valor, mas pelo contrário desperta nele até mesmo o brilho dos valores naturais que ele tenha.

De maneira que pela influência da religião, o homem se torna uma plenitude de varão. Os senhores não podem imaginar uma descrição mais honrosa de um homem, do que esta daqui. Os senhores comparem com um Churchill – por mais genial que o Churchill tenha sido, não é isto que está aqui!... Há até uma baixa de nível a gente comparar com Churchill. Por que?  Porque é outra coisa, não tem comparação! São dessas obras primas que só a Igreja faz.

Santo Odilon, priorato de Souvigny (França)

No paganismo, a abominação se mistura até ao lado das coisas mais belas

Eu estou lendo um pagão, que é o Heródoto, caudaloso, cheio de historietas, mas que conta algumas coisas interessantes. Uma delas nos faz ver bem no pináculo das coisas dos pagãos como encontramos ao mesmo tempo a abominação, mesmo ao lado das coisas mais belas.

Ele conta que os gregos, no ponto de travar a grande batalha naval de Salamina (que se deu no estreito que separa Salamina da Ática, em Setembro de 480 A.C., ao cabo da qual a vitória coube aos gregos, ndc) com os persas, e o Temistocles que era o chefe da esquadra grega, aproxima-se, na proa do navio e faz um discurso para a tripulação dele e dos navios mais próximos, estimulando-os à batalha com os persas. Os srs. querem ver a elevação de inteligência dos gregos, e não só de inteligência, mas de alma?

O discurso dele – para aqueles soldados hein? – é uma tese metafísica! Na hora da batalha, ele faz filosofia. E a tese dele é que o as coisas no universo são desigualmente nobres; e que o homem deve desejar as mais nobres. Assim também devem, incansavelmente, desejar as ações mais nobres. Ora, entre as ações mais nobres, nada é mais nobre do que morrer pela pátria, e portanto, que os guerreiros se atirem com furor sobre os persas porque era o que eles de mais nobre tinham a fazer.

Este raciocínio frio, clássico, entretanto empolgante, agia tanto sobre os gregos que eles ganharam a  batalha.

Se os senhores comparam isso com boa parte da humanidade atual, que é tocada por histórias em quadrinhos, por propaganda... é uma tal baixa de nível que a gente quase não sabe o que dizer. Os senhores imaginem que alguém fosse dizer a um orador popular hoje: "Você quer entusiasmar a multidão? Ponha metafísica sólida no seu discurso!..." Ele diria: "é louco! A multidão, se há do que não quer saber, é de metafísica! Ainda mais essa metafísica sustentando que a gente deve procurar sempre o mais nobre... É positivamente o que a multidão não quer, porque houve uma decadência enorme na humanidade.

Vira-se a página desta narração de Homero. O homem que propugna de tal maneira a nobreza de alma, o que é que faz? Ele derrota o rei da Pérsia, mas percebe que este ficará encurralado se as pontes que construiu ligando a Ásia, forem destruídas. E faz o seguinte raciocínio: "Homem... o meu país é uma democracia. E eu hoje estou de cima, amanhã posso estar de baixo; e posso precisar de um apoio de um rei amigo. Esse Xerxes na Ásia, ainda é poderosíssimo. Ele perdeu a guerra com a Grécia, mas na Ásia é um potentado. Na hora de eu precisar apoio, eu posso precisar deste homem". Então ele manda um emissário ao Xerxes, dizer o seguinte: "Temístocles, vosso adversário, mas vosso admirador, manda vos avisar que vos retireis tranqüilamente, que ele não cortará as pontes; e vós podeis voltar tranqüilo à Ásia, porque ele quer contar com a vossa amizade". O homem que fez o discurso metafísico sobre nobreza!...

Isso dá como resultado uma coisa que, vista na aparência, é sublime. Por que? Porque não é católica; ela não tem a autenticidade, a homogeneidade e a coerência das coisas católicas. Sublime por um lado, vem a vergonheira logo depois, do outro lado.

Aí está uma reflexão ao rodapé desta admirável descrição de Santo Odilon. Com isto, meus caros, nós podemos terminar.

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1972-09-23 - Santo Odilon - II, Modelo de sacerdote e de varão plenamente católico: a benevolência aliada à autoridade, o respeito para com os outros e para com si próprio

1972-09-25 - Santo Odilon - III, O exemplo vale mais do que o ensinamento

1972-09-29 - Santo Odilon - IV, Os verdadeiros conceitos de alegria, felicidade, temperança, moderação e discreção

1972-10-02 - Santo Odilon V, O dever dos grandes de serem benfazejos para com os inferiores, e destes serem respeitosos para com os superiores

1972-10-09 - Santo Odilon – VI, Uma alma feita de equilíbrios capazes de todas as audácias e de audácias capazes de todos os equilíbrios

1972-10-13 - Santo Odilon - VII, Escravo de Nossa Senhora, na raiz de todos os esplendores da Idade Média, mantenedor da ordem e defensor dos direitos de Deus

 


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