Plinio Corrêa de Oliveira

 

Santo Odilon - III

 

O exemplo vale mais do que o ensinamento

 

Santo do Dia, 25 de setembro de 1972

 

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

Nós tínhamos comentado na última reunião uma parte da descrição de Santo Odilon. E devemos continuar hoje lendo mais uma parte da ficha: 

Primeiro em dignidade...” 

Ele era o (quinto) abade de Cluny.

 

Santo Odilon se esforçava em ser, igualmente, o primeiro no trabalho, segundo a expressão da Escritura: ‘Jesus começou  a fazer e ensinar’ (At, I, 1). Grande leitor, ele tinha o mais das vezes um livro na mão, mesmo em viagem. Enquanto ele andava a cavalo, sua alma refazia assim as suas forças na leitura.” 

É muito bonito o trecho do Evangelho que está lembrado aqui. Falando de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Evangelho diz o seguinte: "Nosso Senhor começou a fazer e  ensinar". E como a interpretação da Sagrada Escritura comporta a maior precisão em tudo – ou seja, como ela foi inspirada pelo Divino Espírito Santo, nada nela foi deixado ao acaso, mas tudo tem sua razão de ser – a gente vê que o intérprete aqui se pergunta por que não está dito que no Seu apostolado, Nosso Senhor começou a ensinar e a agir, mas está dito o contrário: Ele começou a agir e ensinar.

E a resposta é que o exemplo vale mais do que o ensinamento, para salvar as almas. E que, portanto, Nosso Senhor praticou a virtude, ensinou a virtude, ensinou o caminho da salvação por aquilo que Ele fazia, e também pelo ensino que Ele dava. Então, há o primado do exemplo sobre o ensino.

E o biógrafo mostra que isso se verificava na vida de Santo Odilon também. Que Santo Odilon era o primeiro na dignidade, porque era o Abade, mas era por isso mesmo também aquele que mais trabalhava. 

Aspecto pitoresco da vida de Santo Odilon: seu gosto pela leitura 

E nos mostra um aspecto pitoresco da vida do santo: ele tinha continuamente um livro nas mãos. Quer dizer, apesar de ser o que mais trabalhava, era com certeza o que mais lia. Por que? Porque ele tinha continuamente um livro nas mãos. Quer dizer,  aproveitava todos os pequenos interstícios para ler alguma coisa, para estar desenvolvendo o espírito na meditação das coisas celestes.

E quando andava a cavalo, ele lia também continuamente. Mas os Srs. não devem entender isso à maneira moderna, na época do pocket-book impresso e do avião, em que o indivíduo tira do bolso um livrinho, que pode se chamar por exemplo "Meditações de Santo Odilon" que é de um tamanho pequeno, desse formatinho e lê comodamente sentado num avião. Já não é uma virtude tão pequena ler as meditações de Santo Odilon num avião, em vez de perder a distância psíquica e fazer mil reflexões perfeitamente idiotas a respeito de turbinas. Para um especialista, na hora de cogitar disso, que cogite. No resto pense em coisas sérias. O homem não nasceu para pensar em turbinas.

Os livros do tempo de Santo Odilon eram fólios pesadões. “Levava uma coisa na mão”: era o livro, em geral feito em pergaminho, quer dizer numa espécie de couro, e com capas grossas, carregando aquilo na mão. Provavelmente não era o livro todo encadernado, mas eram folhas avulsas que levava em rolo, desenrolava e lia.

Mas, qual era a locomoção dele? Era o cavalo, era o burro. E quais eram as estradas? As mais precárias possíveis. E depois, quem viajava passava horas e horas, porque as menores distâncias levavam muito tempo para serem transpostas. Vamos dizer, por exemplo, o trajeto de São Paulo a Itaquera devia ser imensamente mais humano, mas as condições de locomoção imensamente mais desumanas há cem anos atrás do que hoje.

Os Srs. imaginem no tempo de Santo Odilon, o que era uma estrada. Eram restos de estrada romana, e o resto picada, porque estava-se no começo da Idade Média e a Idade Média não tinha desenvolvido sua obra civilizadora, católica por excelência.

 

 

Então os Srs. podem imaginar a cena pitoresca: o burrinho ou cavalo andando ali no trote, Santo Odilon com uma rédea na mão e com um pergaminho lendo, umas letras enormes, enrolando, pensando um pouco, guardando, tirando outra página, olhando, depois enrolando... E o animalejo andando assim com ele, e por debaixo de grandes árvores frondosas. Ou então no meio de precipícios, em que ele parava, pedia o auxílio do Anjo da Guarda, e numa terra que ia caindo, com seixos caindo também, inclinava o cavalo, e por milímetros não caía no abismo ele próprio!... "Gloria tibi Domine...", etc. e continuava. Tudo isso com um sabor de “fioretti”, que é uma verdadeira maravilha! ["I fioretti" é uma coletânea de episódios encantadores pelo seu aspecto sobrenatural, maravilhoso, da vida de São Francisco de Assis; aqui, portanto, esta  palavra é empregada como um neologismo, ndc]

 

Por tudo quanto Santo Odilon foi, posto em contato com a TFP, teria entusiasmo por ela

 

Depois os Srs. imaginem Santo Odilon descrito na última vez: aquele homem magnífico, com uma grande dignidade, grande amenidade, grande suavidade, guiando o cavalo com a mão distraída e firme, dominando completamente o cavalo mais pela sua personalidade do que pela rédea. A gente tem a impressão que a rédea era mais convencional do que qualquer outra coisa. E lendo o seu pergaminho, e pensando em coisas teológicas elevadíssimas...

Isto é um Sacerdote! E aí nós podemos amar bem o ideal de sacerdócio da Igreja Católica, Apostólica, Romana! Por aí podemos compreender bem como esse varão teria entusiasmo pela TFP. Por essa TFP que tanto se entusiasma por ele!

 

 

Quando ele meditava os livros da sabedoria do mundo... 

Quer dizer, os livros não da doutrina católica; deveriam ser sobretudo livros dos autores pagãos. 

...observava com sagacidade o que a voz divina dita ao legislador no Deuteronômio [21, 12], isto é: ‘A cativa de estrangeiros poderá tornar-se esposa de seu vencedor, depois de raspados os cabelos e cortadas as unhas’. Autorizado por exemplo, ele guardava na sua memória o que ele encontrava de bom nos livros dos filósofos. De resto, quer dizer, o amor e a preocupação pelos bens deste mundo, ele os cortava e raspava, como infecto e mortal.” 

A Sagrada Escritura e o modo pelo qual se deve aproveitar a filosofia do mundo 

Está aqui uma coisa muito bonita, mas que pede uma explicação. Muitas vezes naqueles países da Antigüidade, antes da Idade Média portanto, quando um país dominava, o princípio era o seguinte: quando o país vencia uma guerra, todos os habitantes do país derrotado, em princípio ficavam escravos. Não tinham mais direito a nada, e apenas tinham suas casas e suas mulheres, na medida em que o vencedor deixasse ir morando.

Era comum, por exemplo, no tempo do Império Romano: os generais romanos tomavam conta de um país, então eram nomeados os governadores do país que venceram. Mas como eles representavam Roma, a qual, pela vitória se tinha tornado dona de todos os habitantes e haveres no país, por uma ficção jurídica que era para pagar o general – porque Roma tinha interesse em que os homens mais capazes ficassem generais, e então era preciso pagá-los bem –, por uma ficção jurídica o general ficava dono de tudo quanto havia no país.

Então, o governador romano, depois de se aboletar na cidade, mandava dizer aos grandes do país: "Diga ao Fulano que amanhã vou jantar em casa dele, ou vou almoçar em casa dele. Prepare uma festa". O outro preparava uma super festa. O general fazia a festa, e no fim ele dizia com toda a naturalidade: "Olha aqui, aquela bandeja de ouro, aquele leito de prata, aquele objeto de marfim, aquele escravo tal, aquele outro que toca harpa, aquela outra escrava, ou então, sua esposa, ou então você, já vão comigo para casa, porque vão entrar no meu serviço".

A resposta era: "Sim, senhor!" Já seguia para lá e ia pousar com os escravos. No dia seguinte mandava raspar a cabeça e cortar as unhas. Era o sintoma que tinha ficado escravo, cabeça raspada, aparadas as unhas, o mais cortadas possível, para não poder agredir, não poder fazer nada.

Então o biógrafo emprega uma expressão da Escritura que eu não conhecia, e que é a seguinte: que a escrava a quem se raspou o cabelo e a quem se cortou as unhas, entretanto poderá ser escolhida como esposa do vencedor. E a aplicação é esta: a sabedoria humana é preciso ser tratada como uma escrava. A gente tem que cortar-lhe tudo por onde ela possa ficar orgulhosa, são os cabelos, tudo por onde ela possa ser nociva, [são] as unhas.

 Assim é preciso fazer com a sabedoria terrena: ao se ler um livro não inspirado no Evangelho, tirar tudo quanto é nocivo e assimilar o resto. Mas é só depois de ter escravizado a sabedoria terrena que se pode pensar em aproveitá-la. Este era o pensamento.

Então ele afirma que Santo Odilon fazia assim também: raspava de tudo quanto há de censurável e de nocivo na sabedoria terrena, e hauria o resto, para colocar ao serviço da sabedoria divina. É uma muito bonita comparação. 

Espírito de penetração com que Santo Odilon estudava a Sagrada Escritura 

Ele perscrutava a lei divina com espírito investigador e penetrante. E sua aplicação à leitura santa o absorvia a tal ponto, que o tornava por um instante estranho aos outros e a si mesmo. Ele se entregava, por assim dizer, todo inteiro aos livros sagrados. E ele hauria nas fontes do Salvador o necessário para disseminar depois, distribuir gratuitamente o que ele tinha lido.”

Quer dizer, ele lia a Sagrada Escritura com tanta atenção, com tanta penetração, com um esforço tal para compreender todas as sucessivas profundidades de sentido da palavra de Deus que, quando lia a Sagrada Escritura ou seus comentadores, não só perdia a noção de quem estava perto dele – isto não é tão difícil – mas perdia a noção de si mesmo – isto é difícil!... Ou seja não pensava em si, a preocupação com a sua própria pessoa ia embora. Ele apenas ficava suspenso ao texto divino, querendo conhecer os  tesouros ali contidos. Era um homem completamente desapegado! E continua: 

Ele se rodeava de doutores... 

Os “doutores” quer dizer os que conheciam a Sagrada Escritura, doutores em Teologia. 

...desejoso sempre de aprender com eles, enquanto todos o consideravam um poço de ciência. Ele não ficava vaidoso com isso. Não se tomava em consideração de um grande homem. Mas ele perscrutava as coisas divinas como uma criança, procurando com todo o seu empenho saber sempre mais". 

Enlevo desinteressado de Santo Odilon: não ser ator diante dos próprios olhos 

Aqui é uma coisa muito bonita a gente entender o que quer dizer aqui "criança". Não quer dizer uma infantilidade boba, uma superficialidade de espírito, uma imaturidade. Mas quer dizer uma outra coisa: uma postura de alma tal, que tem o desapego, o desinteresse de si mesmo que tem a criança quando corresponde à graça do batismo.

Quando ela vai ficando mais velha, vai penetrando nela o que Napoleão chamava "a venalidade da idade madura". Mas quando ela é bem pequena ainda, ela se enleva com as coisas, ela é maravilhável, ela não pensa na sua carreira nem nos seus interesses, ela pensa no valor intrínseco das coisas a respeito das quais medita. Isto é a criança segundo Deus.

Então, ele afirma que Santo Odilon, apesar de sondar a Escritura com a maturidade de um homem, portava-se diante dela com o enlevo desinteressado de uma criança. E é a perfeição da alma.

Outro dia, conversando com um membro da TFP, este falava a respeito de alguém que não é da TFP que tinha visto muito sério. E não sei até que ponto refletidamente ou não deixou escapar uma expressão muito bonita – eu até lhe disse que era uma expressão muito bonita e que me tinha feito um presente – e utilizou a seguinte expressão: "com uma seriedade – mas queria dizer no sentido de uma seriedade profunda –, uma seriedade verdadeiramente infantil".

Parece um contraste nos termos porque a criança, para o espírito do mundo, não é séria. Uma seriedade infantil portanto, é uma oposição de coisas. A criança, segundo o espírito do mundo, é estouvada, tonta, imbecil, superficial. Mas ele queria dizer outra coisa: com a seriedade com que a criança desapegada presta atenção nas coisas, sem prestar atenção em si mesma.

Quer dizer, não sendo o ator diante de seus próprios olhos. E não ler olhando-se ler, nem pensar olhando-se pensar... Mas pensando no que pensa, lendo o que lê, fazendo o que deve fazer, sem ser um perpétuo ator a seus próprios olhos. Isto é o desprendimento infantil. Então o autor elogia a mesma coisa em Santo Odilon. E isto é muito bonito! 

Santo Odilon fazia tudo na presença de Deus 

Faminto de leitura, insaciável de oração, pode-se dizer que a toda hora ele era útil aos outros e a si mesmo. Quando ele guardava o silêncio, ele estava com Deus. Mas quando ele falava, era sempre em Deus e sobre Deus.” 

Eu tenho impressão que não se pode fazer maior elogio!...

 

 

Napoleão III (*Paris, 20-4-1808 + Chislehurst, 9-1-1873)

 

Vou baixar muito o nível – eu sei – mas de Napoleão III, os opositores dele diziam com uma concisão francesa lapidar: "Quando ele fala, ele mente; quando ele se cala, conspira"... Aqui os Srs. tem a diferença com Santo Odilon.  Para fazer um contraste rude, capaz de nos fazer saltar aos olhos a verdade, isto convém.  Santo Odilon era o contrário: quando se calava, ele pensava em Deus; quando  falava, ele falava em Deus e de Deus.

O que quer dizer “falar em Deus”? Quer dizer, habitado pela graça de Deus, com Deus dentro dele, e com ele posto no espírito de Deus. Quer dizer, tanto Deus como mirante daquilo que ele dizia, e como objetivo daquilo que ele fazia.

E “sobre Deus”, quer dizer sobre os temas que têm relação com Deus, sobre a doutrina católica. Falar “sobre Deus” é falar sobre qualquer assunto em função da doutrina católica. Por exemplo, aqui nós estamos falando sobre Deus. Não porque estamos analisando as perfeições absolutas e eternas de Deus, mas nós as estamos analisando no espelho criado dele que foi Santo Odilon. Por isso elevado por Deus, pela Santa Sé em nome de Deus, à glória dos altares. Aí os Srs. têm mais um lindo aspecto da vida de Santo Odilon. 

Mais do que qualquer chaminé, o que polui o mundo é a Revolução 

É ou não é verdadeiro que até descansa um pouco a gente da fuligem e da brutalidade do dia? É ou não é verdadeiro que despolui a gente, pensar um pouquinho em como foi Santo Odilon? Quando leio nos jornais a respeito de poluição, eu tenho vontade de dizer aos homens que cuidam disso: Vocês não percebem que o que mais polui o mundo contemporâneo é o homem revolucionário? Não há chaminé que polua mais do que a Revolução e que o mundo está poluído de Revolução? E que a verdadeira despoluição seria nós termos na terra Santos Odilons e tantos outros Santos?

Porque ele foi uma estrela num firmamento! Qualquer santo que encontre quem o descreva bem encontra magnificências diferentes dessas e do gênero dessas, equivalentes mais ou menos a essas. Tivéssemos nós santos assim e a pior de todas as poluições, que é a asquerosa poluição moral do século XX, cessaria. 

Reino de Maria: quando o mundo estará repleto de Santos 

Então, descansamos um pouco e nossos pulmões exaustos, nossa vista fatigada, nossa mente abatida, cobram um pouco de alento pensando no seguinte: houve um Santo Odilon na terra! E haverá uma época em que o mundo estará cheio de Santos Odilons, e até de santos maiores do que Santo Odilon. E que perfumarão a terra de modo extraordinário! E será o Reino de Maria, como escreveu São Luiz Maria Grignion de Montfort (cfr. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 47):   

“...o Altíssimo e sua santa Mãe devem suscitar grandes santos, de uma santidade tal que sobrepujarão a maior parte dos santos, como os cedros do Líbano se avantajam às pequenas árvores em redor.”

São Luiz Maria Grignion de Montfort

 

1972-05-22 - Santo Odilon - I, Sua personalidade

1972-09-23 - Santo Odilon - II, Modelo de sacerdote e de varão plenamente católico: a benevolência aliada à autoridade, o respeito para com os outros e para com si próprio

1972-09-29 - Santo Odilon - IV, Os verdadeiros conceitos de alegria, felicidade, temperança, moderação e discreção

1972-10-02 - Santo Odilon V, O dever dos grandes de serem benfazejos para com os inferiores, e destes serem respeitosos para com os superiores

1972-10-09 - Santo Odilon – VI, Uma alma feita de equilíbrios capazes de todas as audácias e de audácias capazes de todos os equilíbrios

1972-10-13 - Santo Odilon - VII, Escravo de Nossa Senhora, na raiz de todos os esplendores da Idade Média, mantenedor da ordem e defensor dos direitos de Deus

 


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