Legionário, N.º 598, 23 de janeiro de 1944

7 DIAS EM REVISTA

Lamentamos não possuir o texto completo da alocução dirigida pelo Santo Padre Pio XII aos membros da nobreza romana. Para conhecimento de nossos leitores, estamos reduzidos a publicar tão somente um resumo telegráfico transmitido pela agência "Reuters", devido à falta de comunicações normais com o Vaticano. Entretanto, esse simples resumo já contém pérolas inestimáveis. Sobretudo nesta época em que o sopro gélido da guerra parece querer apagar as últimas chamas da tradição cristã ocidental, as palavras do Sumo Pontífice têm uma inestimável oportunidade.

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O Santo Padre começa por mostrar a situação catastrófica em que nos encontramos. Não é difícil notar as calamidades materiais que a guerra acumula. Antes, seria impossível não as notar. Não é pois tanto sobre este aspecto da situação que o Santo Padre insiste. Ele fala principalmente das ruínas morais das almas que se perdem, das instituições representativas de milênios de cultura cristã e de civilização cristã que soçobram, dos turbilhões de idéias falsas, de paixões em ebulição, de ambições desregradas que de toda parte se levantam. Por isto, o Santo Padre não fala em reconstruir vilas, aldeias, cidades, mas em "reconstruir a sociedade humana". A sociedade humana é a maior de todas as ruínas contemporâneas. Se Londres ou Nova Iorque - as duas maiores cidades de nossos dias - ficassem arrasadas, constituiriam ruína menor do que é a humanidade neste triste século XX.

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Não é outro o pensamento do Soberano Pontífice, quando ele afirma que "atualmente estamos testemunhando um dos maiores incêndios da História". Incêndio material? O Santo Padre desfaz qualquer equívoco acrescentando imediatamente: "Estamos vivendo uma das épocas mais cheias de distúrbios políticos e sociais jamais registrados nos anais do mundo". Esse, o incêndio. Incêndio ideológico, que abrasa antes as idéias que as doutrinas, e só conseguiu arrasar lares, cidades, províncias inteiras porque havia posto previamente em delírio e em combustão o pensamento alucinado do homem contemporâneo.

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De onde tamanha desgraça? Porventura não somos filhos de Deus? Como então nosso Pai Onipotente assiste de braços cruzados a essa imensa catástrofe? Dorme a Divina Providência?

Nunca. Deus é misericordioso até mesmo quando castiga. Em certo sentido, poder-se-ia  dizer que a misericórdia de Deus transparece mais claramente sobretudo quando castiga. Ai daqueles sobre quem tarda a vir o castigo de Deus! Ai do pecador impenitente que vive feliz e despreocupado! Ai do homem iníquo, a quem cercam todas as venturas da vida temporal! O homem que continua feliz no crime é o maior dos desgraçados. Se não fosse tão grande sua degradação, talvez Deus o visitasse por meio de sofrimentos, e lhe abrisse os olhos para sua iniquidade. Mas chegou a cair tão baixo que nem essa desgraça amarga, mas salutar, lhe é concedida. Rolará inconsciente de abismo em abismo até que finalmente caia sobre ele o braço de Deus. Deus nunca falta com sua graça, nem ao ímpio, nem ao pecador. Mas como crescem, se acumulam, se multiplicam os castigos que Deus tarda em enviar!

Todo esse sofrimento é, pois, no fundo, um fruto da Divina Misericórdia. Pelo amargor do remédio que experimentamos, podemos medir a extensão da gravidade de nosso mal. Nada disso teria surgido "se cada um tivesse cumprido o seu dever de acordo com a Divina Providência", diz o Pontífice. Mas agora, o que nos resta é beijar a Mão que nos castiga, agradecer o castigo que nos salva, e salvar-nos por meio da punição que nos é enviada.

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O LEGIONÁRIO publicou em sua última edição um belíssimo artigo do Revmo. Sr. Pe. Valentim Armas, C.M.F. em que se fala da Jacinta, a santa pastorinha de Fátima.

Vendo o Santo Padre expressar-se em termos tão amargos sobre a situação contemporânea, não podemos deixar de nos lembrar que, aparecendo em Fátima quando chegava a seu termo a última guerra, Nossa Senhora advertiu ao mundo contemporâneo que se convertesse a Cristo e à Igreja, sob pena de nova guerra que traria consigo inenarráveis prejuízos e sofrimentos. Nossa Senhora profetizou um sinal celeste que deveria prenunciar os castigos contra os quais premunia maternalmente o mundo impenitente. Pouco antes da guerra, um fenômeno perfeitamente visível nas principais cidades da Europa, e classificado pelos técnicos como uma singular aurora boreal, se fez notar. Todos os telegramas, todos os jornais falaram do assunto. Do fundo da Casa Religiosa em que vive apagada e piedosamente Lúcia, a última sobrevivente dos três pastorinhos de Fátima, escreveu à Autoridade Diocesana, dizendo-lhe que era esse o sinal prenunciado pela Santíssima Virgem. Pouco depois, sobreveio a conflagração. Confirmava-se a ameaça, confirmou-se o castigo. Quanta razão tem o Santo Padre em dizer que nada disso teria acontecido, se tivéssemos ouvido a voz da Igreja, se tivéssemos obedecido à Lei de Deus!

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"Contudo, haverá um novo período de reconstrução. O novo mundo reorganizado que surgirá não nos foi ainda revelado". Que quer dizer o Pontífice? Não lhe foi ainda revelado como se reorganizará o mundo post-guerra?

Mas como assim? Não é ele o Vigário de Cristo? Se houver uma ordem cristã, a pedra angular dessa ordem, a chave de cúpula desse novo edifício não deverá ser a Santa Sé? E se a Santa Sé não sabe ainda o que se vai fazer, far-se-á  com ela, à sombra dela - sombra que é luz e é mesmo a única luz que há no mundo - com base nela, para a glória de Cristo e de sua Igreja o mundo de amanhã? Se assim fosse, o Papa já não estaria inteirado de tudo?

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"Haverá um novo período de reconstrução", diz o Pontífice. Ele não sabe como será essa reconstrução. Uma coisa há, entretanto, que o Papa sabe. Desde que Jesus Cristo fez de Simão uma Pedra, será essa a única pedra angular de tudo quanto se construa de sólido, de estável, de glorioso no mundo. Construir fora dela é construir ruínas.

Quereis ver uma ruína que nenhum incêndio material devastou, mas que as injúrias de dois ou três bárbaros arrasaram? Olhai para o palácio ermo da Liga das Nações. Foi bastante que a fera nazista ali penetrasse, que um punhado de aventureiros desse ali dentro alguns urros, que aquele conglomerado de estadistas humanitários se desfez.

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Mas, reciprocamente, há ruínas que ninguém consegue demolir até à última pedra. Os escombros dos edifícios sociais e políticos erguidos nos séculos de civilização cristã estão resistindo a tudo. Se o homem ocidental tivesse ficado integralmente católico, estas instituições teriam sofrido até certo ponto as inevitáveis transformações do tempo, mas não teriam caído em ruínas. Se estão em ruínas é porque sofrem o justo castigo de sua tibieza, de seu egoísmo, do olvido dos princípios que constituem o substractum de suas tradições. Mas, nesses velhos troncos corroídos por tantos vermes, a seiva cristã não desapareceu de todo. Daí vem esse fato verdadeiramente curioso: essas ruínas ainda conservam uma vitalidade que muita obra nova em folha está longe de possuir. E como são ruínas de uma obra nutrida com seiva divina, conservam não só mais vida, como mais glória e mais beleza, que todas as  obras humanas marcadas com o estigma do laicismo, do ateísmo, do paganismo de hoje.

Átila está em Roma. Suas legiões bárbaras dominam mais uma vez a Cidade Eterna. Mas do século V para cá, Átila piorou muito. Ele era um bárbaro que conhecia apenas alguns rudimentos da ordem natural. Hoje é um apóstata. Sua ferocidade se fez maquiavélica, sagaz, técnica. No século V Átila matava muito. Ele continua homicida. Suas mãos estão tintas de sangue. Mas no Século V, Átila só matava corpos. Batizado, aprendeu que há almas. Hoje, Átila, apóstata, prefere matar almas! No século V, Átila era sobretudo um bruto. Hoje, é antes de tudo um demônio.

E este demônio, como todos os seus congêneres, é igualitário. "Não serve", precisamente como Lúcifer. Revolta-se. Detesta toda desigualdade, exceto a hierarquia de suas milícias diabólicas. Por toda parte onde vai, marchando em fileiras rijamente disciplinadas, ele destrói a verdadeira disciplina; revolta as almas contra Deus, revolta os instintos materiais contra o domínio racional da alma, revolta a força contra o saber, revolta a barbárie contra a tradição, contra a civilização, contra a hierarquia dos valores culturais, tradicionais, espirituais. Tudo progrediu no mundo. Átila também. Hoje, Átila é assim...