Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

São Miguel Arcanjo:

amor à hierarquia e à ordem

 

 

 

 

 

 

 

 

Santo do Dia de 30 de setembro de 1975

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A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.


 

... ele (São Miguel Arcanjo) foi, portanto, o ponto de partida da reação dos anjos bons contra os anjos ruins. Que tendo ele sido o primeiro que se jogou na luta, também é verdade que ele comandou, que ele capitaneou a luta. E por causa disso ele é representado, habitualmente, como precipitando Satanás no inferno.

Quer dizer, há inúmeras imagens de São Miguel, inclusive aquela que temos na Sede do Reino de Maria, representam Satanás esmagado sob ele, ele vestido como guerreiro medieval, Satanás calcado aos pés por ele e no ato de ser atirado ao inferno.

O que podemos desse fato, tão sintético, tão resumido, mas ao mesmo tempo tão cheio de significação, o que poderemos tirar como aquilo que poderíamos considerar a mentalidade de São Miguel?

Há uma coisa que quando eu li me causou uma certa surpresa – mas é uma coisa da Teologia e não se pode pôr em dúvida, e que aliás eu não tenho dificuldade, embora a coisa me tenha causado surpresa, eu não tenho nenhuma dificuldade em admitir – é a respeito dos anjos rebeldes. Isso nos levará a compreender melhor o papel de São Miguel Arcanjo como o chefe que levantou a reação dos anjos fiéis.

Está dito a respeito dos anjos rebeldes que eles se dividem em duas categorias: uns que se atiraram desde logo à rebelião. Estes foram direto para o inferno e ali estão. Outros, pelo contrário, tiveram se não propriamente uma vacilação, pode-se dizer que eles não tiveram uma insurreição que tenha sido motivada inteiramente pelo seu próprio ódio, mas se deixaram arrastar, se deixaram levar pelos anjos maus. Quer dizer, houve uma certa influência dos anjos revoltados sobre eles, que com a cumplicidade, e a inteira culpabilidade deles, os arrastou.

Pode-se dizer, portanto, que se os anjos péssimos, os piores anjos – os péssimos não, porque todos são revoltosos, todos são péssimos dos que se revoltaram – mas nos piores anjos, se o ódio que eles tiveram contra Deus foi suficiente para motu próprio eles se jogarem contra Deus, nos anjos péssimos mas menos péssimos, o ódio não foi suficiente, foi preciso uma insuflação, foi preciso uma instigação, foi preciso um exemplo, foi preciso um impulso de Satanás e dos outros anjos maus para que eles se precipitassem também na luta.

De onde o fato de que esses anjos que entraram na luta instigados, insuflados, pairarem pelo ar. E atormentarem as almas, criarem condições para as almas cometerem pecados, criarem intencionalmente mas não tentarem eles mesmos diretamente. Eles nem estão no inferno – só irão para o inferno por ocasião do Juízo final – nem tentam diretamente para o pecado, mas eles criam condições temperamentais, emocionais etc., que levam as almas a caírem em pecado.

Em terceiro lugar, eles, entretanto, são desde agora inimigos de Deus, eternamente infelizes e totalmente infelizes. Não estão apenas sujeitos ao padecimento, aliás terrível, de se encontrarem no inferno desde já.

Mas, quarto lugar, eles sabem que irremissivelmente e inevitavelmente eles irão para o inferno. Já sabem que estão condenados, conhecem o inferno e sabem, portanto, que o agravamento dos tormentos deles é inevitável. E a perspectiva desses tormentos já envenena para eles, não digo nem de longe essa felicidade porque eles não podem ter nenhuma, mas essa espécie de minus sofrimento que eles têm agora.

Tanto mais que eles não estão sujeitos ao tempo como nós. Eles não sentem, portanto, a multidão dos séculos que desde a revolta dos anjos até agora os tenha aguardado para caírem lá. Para o anjo a coisa é mais instantânea. Tudo isso mostra como o alivio – se é que se pode falar em alívio, o não agravamento da pena deles – é uma coisa que tem de um lado muita expressão, e de outro lado quase nenhuma expressão, pouca expressão.

A partir desse ponto, nós percebemos que ao contrário da idéia que nós fazemos da natureza angélica, os anjos são susceptíveis de serem arrastados uns pelos outros. São susceptíveis de serem levados uns pelos outros.

Então nós compreendemos o papel de São Miguel dando o brado de reação no céu com sua exclamação “Quem é como Deus”? E começando, ele, a expulsar os outros anjos. Não que os anjos bons tenham hesitado, não que os anjos bons tenham, portanto, cometido qualquer infidelidade ou qualquer imperfeição. Mas de qualquer forma, um teve a gloria de ser o primeiro a reagir. E esse que teve a gloria foi São Miguel Arcanjo. E foi a reação dele que pôs em movimento uma porção de reações que certamente também se poria em movimento sem ele, mas que se puseram naquele momento – se é que se pode falar em momento quando se trata de acontecimentos dessa natureza – se puseram naquele momento, instantaneamente, dado o brado dele.

Quer dizer, nos espaços eternos e infinitos, diante dos anjos bons indignados e horripilados com a revolta, um viu mais rapidamente, um detestou mais imediatamente, um formulou com um brado aquilo que em todos eles estava em gestação para dar numa magnífica e celeste explosão, este que teve a palavra que moveu todos os outros, que deu a fórmula que desencadeou a Cavalaria celeste a sair magnífica e majestosamente na carga contra os anjos abomináveis, esse foi São Miguel.

E a palavra de ordem dessa luta, a indignação, o ódio sacral que moveu essa luta, foi um pensamento de São Miguel e foi uma fórmula de São Miguel que moveram. Quer dizer, ele foi, de algum modo, se tomarmos em consideração que os anjos cantam, ele teve uma exclamação magnificamente cantada. E foi a exclamação cantada dele no céu que moveu todos os espíritos angélicos como quem diz: é o que eu penso também, não pode demorar mais um minuto, vamos para a luta. Foi ele que teve essa exclamação magnífica. E a gloria dele, portanto, é em um determinado momento – evidentemente por ordem de Deus, era essa vontade de Deus – ter desatado a Contra-Revolução celeste. Essa é a gloria dele.

Nós podemos, então, nos imaginar o que seria a beleza desse brado ribombando pelo céu. Se eu fosse músico – os Srs. não fazem ideia que tristeza eu tenho de não ser nem músico, nem pintor, nem escultor para poder exprimir essas coisas que qualquer um de nós entrevê. Se eu fosse músico, como eu gostaria de entoar um Quis ut Deus que procurasse imitar na Terra o brado de inconformidade sagrada, de indignação sacrossanta e de ordenação perfeita com que São Miguel saltou em cima de Satanás.

E depois, então, a luta. Porque a luta também deveria ser musicada. Por que isso? Porque houve no céu uma batalha. Está escrito: praelium magnum, uma brande batalha foi realizada no céu.  O que para uma pessoa que não leu uma interpretação autorizada disso e que comenta apenas a olho nu  ––  porque a vida excessivamente sobrecarregada não permite de fazer leituras dessas  ––  mas para uma pessoa que não leu nenhuma interpretação como eu, parece querer dizer que houve realmente uma coisa que se tratasse de homens se chamaria corpo-a-corpo mas não se tratando de homens foi uma alma-a-alma. E que de um modo misterioso os anjos lutaram de fato contra os demônios e por assim dizer, se atracaram uns nos outros. E que uns precipitaram os outros no inferno.

E a precipitação dos anjos maus no inferno, a limpeza no céu que daí decorreu são coisas que vieram não por uma simples ordem de Deus, mas Deus agindo por meio dos seus anjos. E dando, portanto, aos anjos – que para isso utilizaram as suas forças naturais e sobrenaturais e as interferências de Deus - dando aos anjos a ordem para expulsar. Houve uma luta. Houve um empenho de uns contra outros, uma batalha.

Essa batalha a seu modo tem de ter produzido um ruído. Não um ruído físico. Os anjos não produzem ruído físico. Mas engana-se quem pensa que o mais terrível, o mais real dos ruídos é o físico. Exatamente o estrépito misterioso do entrechoque das almas, umas contra as outras, esse estrépito deveria ser tal que a ser transposto em termos físicos, deixaria um homem surdo e louco. De tal maneira é mais forte do que ele, superior a ele e incompreensível.

Esse estrépito deveria ser não como de dois homens que lutam, mas os anjos personificam, estão muito mais próximos de personificar as virtudes que eles têm, do que os homens. E por causa disto a luta entre entres seria uma luta muito mais terrível mas também muito mais simbólica, muito mais admirável do que uma mera luta entre os homens.

Eu procurarei me exprimir melhor através de um exemplo. Tomem um soldado mercenário, que está lutando – vamos dizer, não houve mercenários nas Cruzadas, pelo menos tanto quanto eu me lembre – mas vamos dizer que está lutando nas Cruzadas. Ele sabe que se tomar Damieta, ou tomar Jerusalém, ele ganha tanto. Ele luta, portanto, com o ódio, o furor que dá a vontade de ganhar dinheiro. Mas ele não simboliza, de nenhum modo, a causa que ele está servindo. Porque ele é um indivíduo pago pela causa, ele não tem amor à causa, nele não se reflete a nobreza da causa, nem a santidade da causa, ele é um tipo pago.

Imaginem que ao lado dele luta, contra os sarracenos, não um homem pago, mas um São Luís, com todo o furor e toda indignação do ódio religioso. Quer dizer, do amor de Deus. Imaginem que São Luiz lutasse contra um maometano que odiasse a Deus tanto quanto São Luís amava. Isso daria uma luta ultra simbólica porque em cada um transpareceria tudo da causa que eles representam. E o entrechoque poderia em tese ser desses entrechoques tais – como havia em certas batalhas medievais – que todo mundo parava de lutar para ver os dois lutarem.

E era a causa da Cruz contra a causa do Crescente. E era o amor de todos os homens que lutavam pela Cruz lutando contra o ódio de todos os homens que lutavam pelo Crescente, simbolizada na luta daqueles dois indivíduos. Que seria uma luta muito mais expressiva, muito mais tremenda, do que a luta entre dois exércitos, eram dois homens que representavam dois exércitos.

Ora, assim seria a luta de dois anjos. O anjo, pela sua própria natureza, está muito mais próximo e adequado a representar uma causa do que o homem, tanto para o bem quanto para o mal. Os Srs. podem imaginar, então, na luta celeste todos os anjos lutando uns contra os outros, e no cerne dessa luta em que haveria fragores, aclamações de amor a Deus, protestos, atos de reparação, de amor, de ação de graças a Deus, de pedido a Deus pela vitória... e de outro lado blasfemais. E os anjos bons revidando contra as blasfêmias e espancando. E os anjos maus tentando espancar também os anjos bons.

E nisso tudo “praelium magnum factum est”, foi feita uma grande luta. Nisso tudo, no centro, São Miguel e Satanás. São Miguel condensando em si o amor de todos os anjos bons, dando brados que cobriam o campo de batalha angélico e que glorificavam a Deus mais do que qualquer outro brado, magnificamente. E ouvindo os brados de Satanás, e se enfurecendo e revidando, até o momento em que, numa batalha difícil e longa – imaginemos... imaginemos que São Miguel é o primeiro a atirar no inferno o primeiro demônio, e cai Satanás.

Satanás arrasta, pela força da gravidade, todos os seus sequazes. E se passa como a água suja quando passa por um ralo: começa a escorrer sob as pancadas dos anjos bons. Quando os últimos saíram do céu, o céu brilhou diáfano e em paz de novo. E São Miguel foi se apresentar a Deus Nosso Senhor que assistia comprazido o combate, e apresentou as tropas vitoriosas. E deve ter havido algo como um rei faz com um general que ganhou a guerra, deve ter havido algo como uma glorificação de São Miguel em que todos cantaram o triunfo de São Miguel, a glória de São Miguel e ele se sentou no trono dele por toda a eternidade.

Não sei se será teológico, mas quem sabe até se São Miguel era um anjo de uma categoria menor do que Satanás e quem sabe se Deus lhe deu o trono que Satanás ocupava para São Miguel ocupar e ainda realçou esse trono com belezas e grandezas que não tinha no tempo de Satanás. Era possível.

Então, o cântico final é o cântico de todos os anjos aclamando São Miguel e a bênção de Deus Padre, Filho e Espirito Santo todos poderosos descerem sobre ele. Ele unido à Santíssima Trindade, e vendo na Santíssima Trindade verdades, esplendores e magnificências face a face, inenarráveis até para anjos de uma categoria inferior e recebendo ali um prêmio cuja grandeza nem podemos imaginar.

Nenhum triunfo de general, nem de longe a passagem sob o Arco de Triunfo de Paris, nem nenhum outro triunfo de general, em nenhum tempo, nenhuma vitória de Carlos Magno ou entrada de Carlos Magno em alguma de suas capitais depois de uma guerra, podem nem de longe ter representado o que foi a glorificação de São Miguel Arcanjo.

Eu só imagino no céu dois episódios capazes de se compararem, por superação, à glorificação de São Miguel Arcanjo. É o momento em que Nosso Senhor Jesus Cristo depois da Ascensão entrou no céu levando consigo todas as almas que estavam no Limbo. Aí deve ter havido no céu uma festa inimaginável, simplesmente inimaginável. Eu me comprazo em imaginar, com uma probabilidade que toca na certeza, que Nossa Senhora viu tudo isso e que Ela foi louvada, embora seu corpo estivesse na terra, Ela foi louvada e glorificada nessa ocasião também.

Depois, a segunda é quando Ela entrou no céu, e quando Ela foi coroada e ocupou o trono que lhe estava reservado desde toda a eternidade. Fora disso eu não posso imaginar na glória celeste coisa comparável a essa glória de São Miguel.

Aí os Srs. têm um pouco do que é uma biografia um tanto hipotética, mas muito verossímil de São Miguel. Como foi o papel de São Miguel no começo da luta, como foi o papel dele durante a luta, como foi a glorificação dele. E essa glorificação, naturalmente, dura por toda a eternidade. Porque no céu não há o “lendemain” de festa, o dia seguinte da festa, não se faz o chamado “enterro dos ossos” meio ainda gozando qualquer coisa e meio lamentando que a festa tenha acabado. No céu estas festas deixam ecos eternos. E quando ontem a Igreja comemorou São Miguel como sendo santo do dia de ontem, mas quando a Igreja comemora a festa de São Miguel então se renova toda esta festa no céu.

Os Srs. me dirão: Dr. Plinio, dentro deste quadro falta Nossa Senhora. E realmente eu tenho um propósito a que raras vezes eu falto, e quando falto é por causa de minha péssima memória, eu tenho um propósito que é de nunca falar em público sem pronunciar a palavra de Nossa Senhora, ou ao menos as palavras “Nossa Senhora”, sem fazer uma referência a Ela. Nunca falar. Referência mais extensa ou menos, conforme a natureza do assunto e as circunstancias comportam, mas falar de Nossa Senhora.

Eu quereria ser fiel a este propósito, aqui entre os Srs., lugar por excelência onde deve ser grato a nós falar de Nossa Senhora ou ouvir de Nossa Senhora. Pode-se perguntar: como fez São Miguel se ele não tinha a intercessão de Nossa Senhora, se Nossa Senhora estava ausente? Nós sabemos que Nossa Senhora foi mais imediatamente a razão da discórdia. Satanás ficou indignadíssimo porque lhe foi revelado que o Homem-Deus, com as duas naturezas divina e humana numa só pessoa, deveria ser adorado por ele por ocasião da Encarnação do Verbo.

Mas ele ficou ainda muito mais indignado quando soube que uma simples criatura humana, Nossa Senhora – Ela não tem união hipostática com Deus, Ela é uma mera criatura, Ela é a mais alta das meras criaturas, mas Ela é uma mera criatura – que essa mera criatura, Nossa Senhora, iria ser a rainha dele e tinha que receber o culto dele.

São Miguel aceitou, os anjos bons aceitaram, os anjos maus recusaram. Eu acredito que São Miguel terá pedido a Deus em união ou contando com as preces que Nossa Senhora, quando criada, faria. E invocando essas preces, para ele vencer, porque ele lutava pela glória dEla. De maneira que a intercessão dEla provavelmente – eu quase diria certamente – a intercessão dEla de algum modo esteve presente.

Se isto é verdade, os Srs. imaginem a beleza na vida dEla, Ela recebendo uma revelação e rezando pela vitória já realizada de São Miguel no céu, e associando-se a essa luta, Ela que esmagou a cabeça da Serpente. Uma verdadeira maravilha.

Se nós víssemos São Miguel, se ele aparecesse diante de nós  –– estou demorando um pouco, são 11.20 já, eu já termino  ––  qual é a impressão que ele produziria sobre nós? Uma impressão rutilante, de lutador, não tem dúvida. Mas lutador pelo que? Porque não basta ser lutador para ser bom. É preciso lutar pelo bem. Quando não se luta pelo bem, de que vale ser lutador? Não vale. Então, ele produziria sobre nós a impressão de um lutador pelo bem. Ele produziria uma impressão fundamentalmente ordenativa.

São Miguel, o brado dele Quem é como Deus, era um brado que reivindicava contra o revoltado por excelência, a Ordem: “Deus é como ninguém, e você que saiu de sua categoria, que saiu do papel que lhe compete para arrogantemente querer ser mais do que lhe toca, você tem que ser esmagado, porque rompeu a ordem que está na natureza de Deus e portanto de todas as criaturas de Deus. Você foi um violador da ordem. Um violador da ordem, na sua revolta, contra Aquele que é a fonte e a explicação de toda ordem, em função do qual a ordem é ordem, se não houvesse Ele não haveria ordem e é Deus Nosso Senhor”.

O brado dele, portanto, foi um brado repressivo, ordenativo. Ordenativo da ordem hierárquica, por onde um é infinito, é perfeito, é tudo; e outro são criaturas contingentes, são criaturas que dependem dEle e que devem aceitar a sua soberania. E inclusive quando Ela manda que adore o Homem-Deus e que preste o culto de hiperdulia Aquela mera criatura que vai ser a Mãe  de Deus.

Quer dizer, este é o ponto. Satanás fez uma desordem e rompeu a hierarquia. São Miguel Arcanjo reivindicou a ordem e afirmou a hierarquia.

Ele despertaria, portanto, em nós um senso de zelo por todas as hierarquias, por todas as categorias como sendo o próprio modo de estabelecer a ordem, como sendo a própria ordem. Isto é essencial à ordem, isto é a ordem. Ele, portanto, dar-nos-ia, ele nos ordenaria, ele poria em ordem nossos próprios seres, a Fé inspirando todos nossos próprios atos, inspirando a inteligência, inspirando a razão, a razão orientando, guiando a vontade; a vontade dominando a sensibilidade. E o homem caminhando inteiro, por essa hierarquia interna, para onde deve e como deve.

E depois todos os homens colocados nas respectivas hierarquias, uns com os outros, em relação a Deus Nosso Senhor. E aí ele cantaria de felicidade Quis ut Deus? como ele cantou de indignação quando ele viu que havia revoltados contra Deus.

Eu termino, então, dizendo que nós devemos ter o espírito eminentemente ordenativo e hierárquico. E quando nós queremos ter esse espírito e sentimos nisso alguma dificuldade, devemos pedir a São Miguel a intercessão dele para afastar os demônios que nos levam à complacência pândega, displicente, relativista em relação a essas coisas. Pedir que afaste de nós essa influência relativista, latitudinarista, relaxada por onde, em face dessas coisas, nós não nos alegramos, não nos entusiasmamos e não odiamos as violações dessas coisas.

Nós devemos pedir a São Miguel, que sejamos tais, que qualquer desordem, qualquer violação da hierarquia sobretudo, nos fira, nos indigne como toda manifestação de ordem nos alegre, nos contente e nos entusiasme. Aí a nossa vida será um continuo Quis ut Deus? até o momento em que, cada um de nós, em proporções quão mais modestas do que a de São Miguel mas autênticas, for coroado também no céu, porque irá para o céu com as palavras de São Paulo, palavras que eu reputo de uma beleza perfeita.

Quando ele ia ser decapitado, teve essas palavras: “eu combati o bom combate, completei a carreira que devia completar; Senhor, dai-me agora o prêmio de vossa glória”.

Nós como outros Migueis, poderemos dizer no fim da vida: combati o bom combate, eu percorri todo o esforço dessa corrida enorme, nessa pista que eu deveria correr; Senhora, agora por vossa misericórdia, dai-me o prêmio de Vossa glória, e antes de tudo esse prêmio excelso: um olhar Vosso, um sorriso Vosso, uma penetração de minha alma na Vossa alma sacralíssima, para que de lá eu possa penetrar até Deus Nosso Senhor.

Com isto, meus caros, fica terminada com um apelo ao senso contra-revolucionário este Santo do Dia a respeito de São Miguel. Lembro de um livro que o Professor me deu –– professor, até lhe agradeci, mas depois me veio uma dúvida se o sr. me deu ou não, ou se me emprestou, mas agora o Sr. vai ser obrigado a dizer que me deu, de maneira que o mal não tem remédio... bem  ––  um livro do Frei Reginaldo, que era o  assessor de São Tomas, que conta toda a biografia de Santo Tomás de modo magnífico.

(Prof. Furquim: inaudível)

Nesse livro há um discurso de São Tomás de Aquino – entre discurso e aula, é uma conferência um pouco pomposa de São Tomás ainda muito novinho, na Universidade de Paris. E ele trata exatamente e de um modo magnífico desta hierarquia no universo, do papel dos seres intermediários como veículos dos maiores para os menores, chegando assim até Deus.

Ele emprega uma comparação que poderá mover-nos a esse amor da hierarquia: ele diz que os seres intermediários representam um papel na ordem posta por Deus, como se pode ver pela difusão das águas. Dizia ele: as águas estão no céu, inatingíveis por qualquer homem, mas as montanhas que são intermediárias entre a planície – na ordem da altura – e a nuvem, atraem as chuvas. Então, o que há de mais alto que é a nuvem, chove sobre a montanha, e a água caindo na montanha depois escorre e se difunde por toda a terra.

Assim é a ordem intermediária, hierárquica no difundir as águas, sem as quais a terra não teria fertilidade. Ele diz que é um símbolo de tudo quando acontece no universo. Sempre assim, por este meio de intermediários, que tocam o céu e fazem com que do céu nos venha aquilo de que nós precisamos.

Eu fiz até um projeto – é um discurso rápido e esse é até um trecho apenas do discurso – de editar a tradução do discurso para o português e fazer em algum Santo do Dia o comentário desse discurso aqui com os Srs. Fica um aceno para esse discurso, em uma ocasião em que possamos fazê-lo.

Vamos terminar pedindo a São Miguel Arcanjo que a nós nos dê a graça de sermos inteiramente assim: hierárquicos até à pugnacidade; pugnazes até à vitória; e na hora da vitória voltados exclusivamente para Deus e atribuindo a Ele toda a gloria que Ele merece; fiéis a Nossa Senhora tanto, tanto, tanto que ele foi fiel a Ela até antes de Ela ter nascido. Quando Ela começou a ter o uso da razão, uma das coisas que talvez Ela tenha conhecido logo no começo, é o cântico de São Miguel contra Satanás, contra as blasfêmias de Satanás contra Nossa Senhora, aclamando Aquela que deveria vir.

E assim está terminado o nosso Santo do Dia.