Plinio Corrêa de Oliveira

 

A coragem e a prudência em

Nosso Senhor Jesus Cristo

 

 

 

 

 

 

Auditório São Miguel, Sábado, 25 de agosto de 1979, Santo do Dia

  Bookmark and Share

 

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.


 

 

Qual é o papel da coragem e qual é o papel da prudência? A substância do valor da coragem está na firmeza. A coragem é fundamentalmente uma firmeza. Pode-se dizer que a firmeza heróica é a coragem.

A firmeza aí consiste em vencer todos os obstáculos interiores da preguiça da alma e de medo da alma.

Então os senhores tomem, por exemplo, Nosso Senhor na vida d´Ele. Quantos gestos de uma sagacidade maravilhosa em que Ele não mostrava a forma de firmeza que Ele mostrou expulsando os vendilhões do templo, ou falando aos fariseus “Ai de vós fariseus hipócritas, sepulcros caiados etc.,” mas em que Ele deixava o indivíduo a pé.

Os senhores conhecem o caso do imposto com César. Os fariseus perguntaram a Ele se deviam pagar imposto, se o dinheiro devia ser dado a Deus ou a César. Ele pegou a moeda e perguntou: “De quem é a efígie que está aqui?” De César. Então “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Deu um princípio genérico, mas não resolveu o caso, porque viu que os fariseus iam entrar com toda espécie de chicana a esse respeito. Ele estancou com uma palavra. O que foi da parte de Nosso Senhor? Prudência.

Agora, eu vou mostrar aos srs. como... Nós podíamos citar “n” outros lances da vida de Nosso Senhor. Quando Ele mandou São Pedro não continuar a usar a espada contra o pessoal que O vinha prender. A resistência era uma tolice, era impossível, e não era hora. Ele deveria não ter dormido, isto sim.

 Qual é o resultado da prudência de Nosso Senhor? Querem ver como Ele desenvolveu a Sua prudência de um modo divino?

O crime que era atribuído a Ele era o fato dele se dizer Homem-Deus, o Messias e Homem-Deus. Os judeus tinham a noção de que o Messias viria. Eles esperavam o Salvador. Mas eles negavam que Nosso Senhor fosse esse Salvador. Mas eles não tinham a noção de que o Messias que viesse fosse o Homem-Deus. Eles julgavam que era um homem. Lendo com atenção a Bíblia, percebe-se que seria um Homem-Deus. Nossa Senhora naturalmente sabia; Ela concebeu do Espírito Santo. Mas os judeus não sabiam; e ele se dizer Homem-Deus foi o pretexto para descarregarem todo o ódio contra Ele.

Ele tinha, portanto, que morrer provando que era Homem-Deus, e na prova esmagar os que contestavam. A vitória d´Ele era demonstrar a divindade d´Ele. Então, aqui já entra a prudência.

Em que consiste a vitória? A vitória não consiste em enxotar aquela gente, mas consiste em morrer provando que é Homem-Deus. Alguém dirá: “mas morrer por que?” Porque Ele veio para morrer e para expiar pelo gênero humano. Portanto, era hora de morrer. Mas Ele tinha que morrer de um modo onde não houvesse a menor dúvida de que Ele era o Homem-Deus.

Se os Apóstolos tivessem recebido aos judeus com espadas e tivessem lutado contra os judeus, teriam sido esmagados e Ele teria sido preso. Ele era um derrotado. Ele fez o contrário. Curvou se, tomou a orelha de Malco e colocou-a no lugar. Quer dizer, fez uma ressurreição de uma orelha. Milagre que toca na ressurreição de um morto, ali, diante de todo mundo.

Depois vem Judas e O trai. Aliás, Judas foi antes. Ele diz: “Judas, com um ósculo trais o Filho do Homem?”. Mas Ele ainda convida Judas a uma contrição. Depois disso Ele diz a São Pedro: Se eu quisesse, Meu Pai celeste enviaria miríades, legiões de Anjos para Me libertar, mas Ele não quer”. Quer dizer, Eu sou preso. Sou preso porque quero.

Então, os senhores percebem como Ele vai vencendo os outros. Ele pratica o milagre de restituir a orelha ao agressor, entretanto não pratica o milagre de se salvar a Si próprio. Com isso vê-se que Ele morria porque queria. Porque quem tem poder de curar uma orelha, tem poder de mandar aquele pessoal todo sumir. Quando perguntaram: “Tu és Jesus de Nazaré?” Ele disse: “Ego sum”, todos caíram no chão. A prova do poder d´Ele estava claríssimo no ato da prisão.

Ele teve a atenção de mostrar que era o Homem-Deus, mas ao mesmo tempo teve a intenção de mostrar que se morria, era porque queria. Porque, do contrário, poderiam duvidar que Ele fosse o Homem-Deus. Como se mata um Deus contra a vontade de Deus? Não é possível.

Não sei se perceberam que nesse lance infinitamente augusto, não reagindo Ele de fato começou o esmagamento; ao longo de toda a Paixão, continuamente, deixando-se espancar, e do modo mais vil possível. Diante das perguntas, poucas respostas. Respostas com desdém e caindo infinitamente de cima. E deixa-se matar.

Mas acaba sendo que, à medida que o adversário agride, vai minguando e, no fim, eles são umas formigas. São gigantes apenas no crime. No resto todo de manifestações de valor, a infâmia deles está... E Nosso Senhor vencendo apenas em não reagindo, até o último gemido “Consumatum est”. — Ele não reage.

Não reagindo de nenhum lado, Ele provou que sofreu aquilo tudo porque Ele queria, e que sofrendo aquilo tudo, tinha sofrido por amor ao gênero humano, para resgatar o gênero humano. Ele provou que era Deus e que era o Redentor. E quando Ele disse “Consumatum est”, Ele poderia ter dito “probatum est” está provado!...

Não sei se me exprimi com clareza.

Creio que isso dá, inclusive, uma meditação para o dia da Paixão, os dias de Semana Santa, ajuda-nos a meditar.

Esse “Consumatum est”, esse “demonstratum est” é a vitória da firmeza enquanto prudência.

Por que prudência? Porque Ele dispôs os meios para chegar até ao fim. Ele queria se anunciar ao mundo como Deus e Redentor. Ao longo de toda a sua passividade, Ele se provou Deus e provou Redentor. E como Ele se provou Deus? Com essas duas coisas tão simples se não houvesse todos os milagres anteriores d´Ele: a orelha de Malco que Ele cura e, depois, o “Ego sum”, em que todos caem.

Há uma prova. Essa prova é cheia de pus, é imunda: é o remorso de Judas. E o suicídio do homem que diz “eu vendi o sangue do Justo”; do justo quer dizer do santo por excelência. Só Ele é bom. O sangue d´Ele eu vendi. E se enforca. Quer dizer, reconhece o pecado péssimo que fez fazendo um pecado pior do que todos os outros, e afundando. Dante (na “Divina Comedia”) põe Judas condenado a ficar eternamente na boca de Satanás, que o tritura por toda a eternidade. Judas com o tronco dentro da boca de Satanás, e com as pernas para fora gesticulando desesperadamente. É o pior lugar do inferno. Como metáfora não podia ser feita outra coisa.

Outra prova da divindade de Nosso Senhor — não é uma prova no sentido estrito da palavra, mas é um fato que fala clamorosamente a favor da divindade d´Ele. Havia uma profecia a respeito d´Ele que dizia: “Quebraram minhas pernas e meus braços e contaram todos os meus ossos.” Ao lado d´Ele, intacta, a Mãe d´Ele. Ninguém tocou. Porque Ele proibiu.

Imaginem o prazer do demônio em poder atacar Nossa Senhora. E quanto ele queria enxovalhá-la ali, de um modo inexprimivelmente indigno, inclusive para levar o tormento de Nosso Senhor ao auge.

Uma prova clamorosa de que era Ele, Nosso Senhor quem mandava, é que n´Ela ninguém tocou. Os senhores estão vendo o poder d´Ele. Mas Ele queria morrer e aqueles homens, matando–O daquele jeito, contribuíram para a obra da salvação.

Por quê? Vejam a sabedoria infinita d´Ele: esses homens que O odiaram, colaboram com Ele para ser o Redentor do gênero do humano. Por que se não houvesse quem O matasse, como Ele nos redimiria? E ao longo dos séculos, todo o bem que tem feito a meditação da Paixão d´Ele nasceu da maldade dos que O perseguiram.

Então, há santos que se converteram, que se arrependeram, que mudaram de vida contemplando a flagelação; outros contemplando a coroação de espinhos; outros contemplando as três quedas ao longo da cruz, da Via Sacra; outros o episódio da Verônica etc., ao longo dos séculos. Esses tipos que estavam fazendo essas infâmias estavam, ao mesmo tempo, perdendo para o inferno as almas que se resgatariam, que se salvariam na meditação dessas coisas celestes.

Os senhores dirão: “Está bem, mas o coração do Nossa Senhora ficou inundado de dor. E isso Nosso Senhor não evitou.” É verdade, mas nasceu a devoção às sete dores de Nossa Senhora...! A Mater Dolorosa, com os sete punhais, ao pé da cruz e aflita; quanta graça e quanto bem deve-se a isso!

A palavra sagaz não se aplica a Nosso Senhor, é uma palavra mais humana. Para Ele se pode dizer “de uma sabedoria infinita”. Mas que em modelo humano, uma das maneiras da sabedoria, é a sagacidade. Ele foi sagacíssimo fazendo isso. Quer dizer, foi um ato verdadeiramente maravilhoso!

Eu pergunto: a prudência fica abaixo da coragem? Quem ousaria dizer isso depois do que estou falando? Quem ousaria dizer “eu admiro mais Nosso Senhor expulsando os vendilhões do templo do que caindo debaixo da cruz?” Quem ousaria dizer? É impossível.

Aí os senhores têm a glória da Ressurreição. Porque como Ele sofreu toda espécie de humilhações, era preciso que os recuos da prudência fossem compensados por uma glorificação.

Aquele que se dobra, que se oculta, que se faz pequeno por amor ao Rei do Céu, à Rainha do Céu, esse merece ser tão glorificado quanto se fez pequeno.

E como Ele se fez ínfimo – Ele diz de si pelos lábios do profeta Isaías: “vermo sum et non homo... Eu sou um verme e não um homem, eu sou objeto do desprezo de todos os homens e da gargalhada do povo”.

Realmente, no estado em que Ele ficou, ficou assim. Era preciso que, porque Ele aceitou de descer tão baixo, que Ele fosse elevado muito acima. Então, os senhores têm o esplendor da Ressurreição, que é a compensação das humilhações da prudência!

E os senhores têm depois o esplendor da Ascensão, que é ainda outra compensação da prudência, outro prêmio da prudência. Os senhores tem ainda outra compensação da prudência, Ele dizer “consumatum est”, e começam aqueles horrores: o céu se tolda, a terra treme, o véu do templo se rasgou e os justos da Antiga Lei andaram pela cidade, à maneira de cadáveres que falam, todos envolvidos naquelas bandazinhas e dizendo as coisas para as pessoas. Quer dizer, ahhh! acabou!

E por isso há um salmo profético que fala de Nosso Senhor, que eu gosto de lembrar e que recomendo aos senhores que lembrem na previsão do Reino de Maria — e esses salmos são bonitos a gente dizer em latim; traduzidos, perdem. Há qualquer sabor incomparável na língua latina — “de torrente in via bibet, proptera exaltabit caput suum”: Ele bebeu da torrente ao longo do caminho e por causa disso a sua cabeça será levantada.

Beber da torrente faziam os homens que viajavam como mendigos e que não tinham nem copo para beber. Estavam andando a pé – não havia veículos, era só o cavalo e quem tinha dinheiro não tinha cavalo – e tinha sede. Passava uma torrente, punham-se de quatro para beber da água da torrente. Era uma humilhação.

Então “ele bebeu da água da torrente, por isso a sua cabeça foi levantada, foi glorificada.” Faz parte da ofensiva e da glória final a coroa de louros da prudência.

Coragem, portanto, de ter prudência. A firmeza é a tintura-mãe da prudência, como é a tintura-mãe da coragem. E por isso eu não creio na verdadeira coragem do homem imprudente: é um estabanado. E não creio na verdadeira prudência do homem sem coragem: é um poltrão. O homem completo é feito de coragem e de prudência, de justiça e de fortaleza a serviço da fé, da esperança e da caridade.

E por isso quando um papa proclama a santidade de alguém - como eu vi Pio XII proclamar São Vicente Strambi, da ordem dos Passionistas – quando o papa proclama, ele proclamava com o cerimonial de outrora – ele era um homem muito esguio, alto, com a tiara alta, e ficava majestoso, parecia uma fumaça a subir e, no alto, uma tiara em que se condensava a fumaça – ele proclamou então do alto do trono papal: “pelo poder das chaves que Nosso Senhor Jesus Cristo tinha conferido, fazendo uso do carisma da infalibilidade, proclamamos, declaramos etc. que o bem aventurado Vicente Strambi, da ordem dos passionistas, praticou em grau heróico as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade; e as virtudes cardeais da justiça, da prudência, da fortaleza e da temperança.”

Aí, do alto da cúpula do Vaticano desenrolou-se um quadro enorme, representando São Vicente Strambi na glória eterna. Na cúpula de São Pedro, no ponto em que assenta sobre a basílica tem uma espécie de galeria; nessa galeria ficavam duzentos ou trezentos trombeteiros com trombetas de prata e começaram a tocar as trombetas em honra de são Vicente Strambi. E então tocavam os grandes sinos do Vaticano brooom-brooom...  Toda a assistência, emocionadíssima, e os sinos das 400 igrejas de Roma, que estavam à espera de ouvir tocar o do Vaticano para anunciar o novo santo, começaram todos a tocar; e de “proche en proche” en proche, aldeias, cidades trocavam; depois tocava-se já pelo rádio, e sinos das Igrejas pelo mundo inteiro tocavam também: Vicente Strambi praticou em grau heróico essas virtudes.

Passou-se verdadeiramente, verdadeiramente passou-se alguma coisa no Céu. Se Deus quiser, enquanto eu viver, eu me lembrarei desse momento. E a gente, naturalmente, em baixo, rezando: São Vicente Strambi, rogai por nós. É claro.

Bem, “de torrente in via bibet”: ele sofreu toda espécie de humilhações.

Os srs. aí têm um pouco a idéia do que é “bibet in torrente et exaltavit caput”.


Bookmark and Share