Plinio Corrêa de Oliveira

 

São João Bosco e o Céu que viu em sonho

 

 

 

 

 

"Santo do Dia", 8 de setembro de 1979, sábado

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A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.


Afirmou São Miguel Rua, sucessor de Dom Bosco: "Ele era dotado em alto grau do dom da profecia", tendo previsto numerosos acontecimentos que se realizaram plenamente (cfr. "I sogni di Don Bosco", Eugenio Pilla, Editora Cantagalli, Siena, 2004, pag. 133).

Para ler outras matérias de e/ou a respeito de São João Bosco, clique aqui.

 

Vamos juntos passear pelos sonhos de Dom Bosco.

Sonhos mesmo? Quem os lê percebe bem que talvez fossem sonhos, mas sonhos nos quais Deus se servia da situação do sonho para lhe fazer ver uma porção de coisas que eram do Céu.

Foi em sonhos que um Anjo apareceu a São José e lhe explicou o mais indecifrável dos mistérios que houve na história, também o mais alto, o mais nobre, o mais belo dos mistérios que houve na história.

Em sonhos nós vemos que outros episódios do Antigo e do Novo Testamento se deram: nós podemos compreender que o grande São João Bosco tenha tido, portanto, nos sonhos, comunicações de Deus. Porque o fato é que tudo quanto ele narra parece vindo diretamente do Céu, e no lusco-fusco da linguagem que ele emprega com os filhos, ele parece traduzir bem o lusco-fusco da verdadeira situação dele. Não claras visões, mas coisa claramente comunicada pelo sobrenatural, e a dever ser tomada por aqueles que, com espírito de Fé, lessem as suas comunicações para os filhos dele. 

* São João Bosco descreve o Céu, que ele conheceu em um sonho

Os filhos dele que ele não chamava de "enjolras", mas para os quais ele tinha um nome e o nome era "birichini"... Birichino, eu não conheço italiano e não sei bem exatamente -- vários dos senhores devem conhecer italiano, talvez possam me esclarecer até nesta ocasião, nunca tive tempo de recorrer a um dicionário para isso -- mas birichino quer dizer, ao que parece, meninote, rapazola, adolescente, uma coisa desse gênero, sem classificação social. E se diria de qualquer pessoa: é um adolescente, é um meninote. Portanto, se poderia dizer de um príncipe birichino.

São João Bosco teve aquelas levas enormes de meninos que passaram pelas mãos dele e que se santificaram sob o olhar dele, e que ele chamava portanto de birichino. Mas acontece que São João Bosco foi chamado a educar sobretudo as classes mais modestas da população. E depois, não sei como, isto tomou o jeito de uma conotação inferior -- de inferior como educação, como classe social -- e não é o sentido próprio da palavra que quer dizer os adolescentes, segundo eu interpreto. Eu estou vendo o meu caro Bacelli acenar. Ele tem o sangue e tem a experiência da Itália, de maneira que provavelmente está certo. Bem, esses eram os enjolras de D. Bosco.

Eu tenho aqui os meus biriquinos e com todo o gosto falo com eles a respeito do sonho de D. Bosco, a respeito da antecâmara do Céu. Sonho de D. Bosco que, entretanto, me deixou uma determinada perplexidade, porque eu comecei a ler -- eu vou apresentar a coisa pura e simplesmente como ela é -- eu comecei a ler as fichas depois do jantar, quando eu estava deitado para descansar, para ter uma idéia que ficasse no fundo do cérebro, para eu vos poder dizer alguma coisa. E quando eu comecei a ler as fichas, eu comecei a me lembrar das fisionomias que, com tanto afeto, com tanta estima, eu tenho diante dos olhos nos sábados à noite. Não individualmente a fisionomia deste ou daquele, mas o conjunto fisionômico, a orquestração fisionômica.

A gente pode guardar nos ouvidos a lembrança de uma orquestra tocando -- ao menos eu posso, sem individualizar cada instrumento o que estava fazendo. Não sou bastante musical para individualizar os instrumentos, mas a orquestra eu pego. Assim, eu não individualizava ninguém, podem estar tranqüilos, mas eu tinha essa orquestração psicológica diante dos olhos quando ia lendo as fichas.

E me perguntava: quando eu começasse a ler, que efeito isso produziria nas almas daqueles que me ouviriam? É um desenrolar de harmonias, de gentilezas, de afabilidades, de esplendores, aonde tudo existe magnificamente e se relaciona magnificamente com tudo. E eu olhava as fisionomias e tinha a impressão de que, descrita assim à primeira vista a cena, ela seria muito bonita, mas que de outro lado causaria uma certa estranheza e uma certa sensação de insipidez, por não ter exatamente o choque, não ter o rangido, não ter o rugido, não ter a contradição, não ter a batalha, não ter a luta, e por isso produzir a sensação de uma vida não inteiramente apetecível.

Nós vivemos vencendo cacofonias tais... se, por exemplo, há pouco, os srs. falavam, a música acompanhava tão bem e os senhores falavam tão bem, se há pouco passasse por aqui o caminhão da limpeza pública fazendo aquele barulho que ele faz, os senhores seriam obrigados a fazer uma seleção interna, que fariam, de maneira a como que não ouvir aquilo para continuar a ouvir isso. Mas isso é um esforço subconsciente, mas dolorido, interno, que desmembra da alma uma categoria de impressões rejeitada e seleciona uma categoria de impressões bem-amada. E essa rejeição tem um vigor, tem uma força, tem uma varonilidade -- por que não dizer tudo logo de uma vez? -- tem um quê de áspero, de rude, que dá aquela forma especial de nostalgia que o velho lobo do mar tem quando ele navega em mares sem tempestades nem acidentes. 

* A natureza humana pede a luta, o ríspido, o choque, a força

Os senhores sabem que os navegantes dizem que uma coisa é navegar no Oceano Atlântico ou, ainda mais, no imenso Oceano Pacífico; outra coisa é navegar no Mediterrâneo. O Atlântico é um mar grande, é um mar misterioso, ele a todo momento se modifica; e depois de deitar os sorrisos mais encantadores e afagar com as placidezes mais atraentes, ele de repente se transforma não se sabe como, e está criando problemas, está fazendo balançar o navio e está dando dor de cabeça a todo mundo que está a bordo. E se a coisa é na zona norte, lá vêm os icebergs; se é na zona do meridiano, são os calores desoladores, desalentadores, desanimadores, arrasadores, espandongadores; e se se passa mais para o sul, já começa de novo a natureza com seus bafos gélidos, como o de São Paulo de hoje à noite. E assim o oceano tem as suas lutas, ele tem seus rangidos, ele tem seus problemas.

E um velho lobo-do-mar que viajasse no Mediterrâneo, muito mais tranqüilo, com seu mar azul, com suas belezas mais civilizadas, menos cheias de incógnitas, menos fascinantes também e mais proporcionadas ao homem, era possível que o velho lobo do mar se sentisse insipidamente num barco dentro de uma piscina. Ou numa dessas represas artificiais e sem graça, numa Billings qualquer, que no fundo é uma espécie de imensa piscina colocada entre montanhas, em que a água não se move -- ela tem uma placidez sem gosto, sem graça -- e em que as pessoas remam, remam e a gente pergunta: "O que você está fazendo aqui? Você não tem com que lutar, não tem com que se entreter, seu divertimento é estar no meio da água. Você sabe apreciar a água pelo menos? Também não sabe? O que você está fazendo aqui? É o que você faz por toda parte, quer dizer, nada! Você vem fazer nada aqui, amanhã você vai fazer noutro lugar: este é você". É a verdade que se gostaria de dizer a alguns, não a todos navegantes de uma represa como a Billings.

Ora, é legitimo que o lobo do mar sinta a saudade da tempestade, sinta a nostalgia da luta. E que se se for propor a ele uma viagem em que se diga a ele o seguinte: "O mar vai ser azul o tempo inteiro, liso o tempo inteiro, não vai haver um vagalhão, não vai acontecer nada; você vai poder dormir 12 horas em 24, e o resto é bebericar, jogo de dados; e você sai, por exemplo, de Barcelona e vai parar, por exemplo, em Alexandria, na mais tranqüila das viagens...". [é natural] que um velho lobo do mar hesitasse e dissesse: "vale a pena ir?" É uma coisa que é compreensível.

Quer dizer, há alguma coisa da natureza humana nesta terra que pede a luta, pede o ríspido, pede o choque, pede a força. E nós devemos compreender, saber interpretar essas descrições celestes de tal maneira que possamos sentir o pulchrum delas, mas de tal maneira que ali fique instalado também o senso de nossa combatividade e o senso da nossa idéia da batalha, do trágico; instalado no mar imenso e supremo da felicidade eterna. Sem que essas duas coisas estejam conjugadas, nós não nos sentimos completamente em casa; e é preciso essa conjugação para aí nós tomarmos o gosto da descrição celeste.

Para nós, que coisa linda, um belo dia todo azul, com mar azul, no mês de maio, o navio tocando. E podemos imaginar um veleiro, e podemos imaginar esse veleiro no Oceano Atlântico, uma vez que o Brasil é uma nação atlântica, não tem litoral para o Pacífico. Podemos imaginá-lo no Oceano Atlântico, atravessando -- ó coisa agradável! -- indo para a Europa. Já pensando em nossos amigos portugueses que nos esperam em Lisboa, nossos amigos espanhóis que nos esperam, vamos dizer, em Barcelona; e depois que nós atraquemos na França e atravessamos o doux pays de France para visitar nossos amigos franceses. Depois vamos à Itália visitar o Ufficio, e passamos para a Áustria, para a Alemanha (para ver onde vão ser as sedes da TFP). Que magnífica viagem, se todos nós aqui juntos estivéssemos no mesmo transatlântico!

Imaginem então um dia bem azul, temperatura moderada, ventos que são brisas, nós passeando no tombadilho de um lado para outro e gozando aquela suavidade da natureza que Deus fez e gozando ao mesmo tempo a alegria do mútuo convívio. Passamos, nos cumprimentamos, dizemos uma gentileza, temos alegria de estarmos juntos uns com os outros, de estarmos a bordo e sermos um só e sermos muitos, de maneira que há muita variedade; a cada um que encontra, tem uma sensação de que é uma novidade; e correm os burburinhos, correm os boatos, não há “máfias”, todo mundo está contente, não há rivalidades entre Estados do Brasil, não há zum-zum: "olha tal Estado assim, tal outro, aquele, cuidado, etc., etc.", mas há uma plena e serena confiança; não há rivalidades entre nações, não há nada, todos somos um só. Como é agradável, como é deleitável esse dia! 

* Por causa do pecado original, nossa natureza range e procura consonância com o rangido, e assim somos prisioneiros que sentem a necessidade da prisão

Mas a alegria desse dia é inteiramente sensível a nós entre duas tempestades. É preciso entender bem isso.

Quer porque nós fomos concebidos no pecado original e por causa disso nossa natureza range e procura uma consonância com o rangido — e aqui é um defeito; e há também um castigo: nós somos um prisioneiro que precisa da prisão onde mora e não se habituaria num palácio. É preciso bem notar isso.

Quer porque, de outro lado, nós somos chamados para a luta, e na luta somos chamados a uma confrontação onde nós sentimos que chegamos ao extremo limite da nossa vocação e da nossa realização. E procuramos e desejamos esse limite porque o homem deve desejar a perfeição. E o extremo limite de um homem é o extremo limite de suas virtudes; e o extremo limite de suas virtudes se chama santidade. A gente compreende, portanto, que um homem possa e deva desejar isso.

Haveria uma terceira razão que nos faria também estranhar essas harmonias celestes. E a terceira razão é negra como o pecado original, mas ela existe: é a Revolução. A Revolução implanta no espírito do homem contemporâneo uma disposição para não gostar do maravilhoso, para gostar do banal, para gostar do vulgar; para dizer tudo numa palavra só: para gostar do chulo. A todo momento tudo em torno de nós vai se transformando. E nós podemos tomar essas transformações uma por uma — para ser muito otimista, em cem transformações uma não tende para o mais chulo, não tende para o mais vulgar, não tende para o mais reles, não tende para o mais nojento, o mais asqueroso.

No fundo, nós todos estamos devorados pela atração do abismo e vamos caminhando para o abismo da negação de toda verdade, através de um relativismo insondável; de todo bem, através de um permissivismo sem conta; de todo pulchrum, através de uma indiferença indescritível em relação ao que é maravilhoso. Quase a preguiça do maravilhoso, quase a preguiça de alçar-se até os mais elevados paramos da admiração, e o desejo de ficar no terra-a-terra e no banal.

Dois recortes que eu li hoje à tarde, na reunião de Jasna Gora -- na Reunião de Recortes -- podem dar aos senhores uma idéia disso. Aliás, vários dos senhores que estão aqui presentes assistiram à reunião. Havia uma descrição tirada do jornal "O São Paulo", órgão oficioso da Arquidiocese, semanário conhecido. Nesse órgão havia uma referência à vida dos índios, então dizendo que a vida dos índios é muito boa porque não tem patrão nem empregado, todo mundo trabalha por volta de 4 horas por dia -- olhem que é pouco! -- o resto do tempo, os senhores já estão vendo, é rede, bebericagem, e maconha, sei lá, vida de selvagem, vagabundagem.

Bem, que trabalham 4 horas por dia e que cada família leva, em casas de habitação comum -- aliás, sabe-se disso: basta ver uma fotografia de uma taba que se percebe que é assim -- leva para casas de habitação comum o alimento que produziu. Esse alimento é colocado num canto e as pessoas vão comendo quanto querem. E se um produziu mais e outro menos, o que produziu menos pode servir-se daquele que tem mais. De maneira que -- dizia ele -- há uma igualdade completa.

Nesse quadro, quem pintava a cena levava a apresentar como um quadro melhor do que a atual situação, dizia: "É verdade que às vezes há fome. Mas, pelo menos, ninguém é superior a ninguém."

Não sei se os senhores veem o estado de espírito infame que transparece nisso. Quer dizer, ainda que haja fome para todos, é melhor do que numa situação onde não há fome, ou há pouca fome, mas alguns têm mais do que os outros. Quer dizer, isso é a ordem de coisas da inveja implantada. E é um dos pecados capitais a inveja. A gente deve ter alegria com o bem que sucede ao outro; não pode invejar a superioridade ou as qualidades que o outro possui. 

* O gosto da vulgaridade e da igualdade completa conduz ao auge da torpeza

Então, os senhores estão vendo que esse desejo de igualdade envolve necessariamente um desejo de vulgaridade. Porque se é para todos serem iguais, não podem ser iguais por cima. Não pode haver um povo de reis. Não pode haver um exército de generais, ou uma marinha de almirantes: isso é uma brincadeira. Se todo mundo tem que ser igual, tem que ser igual no nível soldado. Na melhor das hipóteses, no nível sargento. É a melhor das hipóteses. E o desejo da igualdade conduz para o gosto da vulgaridade.

Mas o gosto da vulgaridade e da igualdade completa conduzem, por sua vez, para o auge da torpeza. E eu tive ocasião de ler essa notícia publicada pelo "Estado de São Paulo", sem comentários, e com um desenho de brincadeira, portanto uma coisa que talvez se pudesse interpretar como simpatia — a mim não importa que a notícia seja verdadeira ou falsa, importa que ela tenha sido publicada, e o efeito que a publicação produziu, isso é que importa. Que  um agricultor japonês tinha terras, e para fazer render essas terras, ele aplicava o quanto podia de adubação na terra. E o resultado é que quando as pessoas passavam por perto da terra sentiam um cheiro detestável. Ele, preocupado com isso, numa tentativa de afastar o cheiro, inventou uma composição que era feita desse próprio material misturado com água e não sei mais o que, e inventou de dar aos porcos para beberem. E esse material, em fermentação, fez com que os porcos se embriagassem e deitassem no chão com as patas para o ar, completamente bêbados. Ele então compreendeu que a fermentação que ele tinha produzido era uma fermentação alcoólica com uma alta dosagem de açúcar, donde o estado de embriaguez em que ficavam os porcos. E por causa disso, ele resolveu então fazer vinho de fezes, e fez vinho de fezes humanas. E o jornal descreve esse vinho, mas como uma bebida atraente, uma bebida normal: é um vinho tinto, com tais e tais predicados, e que ele agora fabricava isso e contava dando gargalhadas, porque o vinho estava no comércio.

No primeiro momento, a notícia causa horror. Evidente. Mas não existe na nossa vida apenas o primeiro momento. Existe o segundo e o quinto e o centésimo e o milésimo. Se uma bebida dessas entrasse na moda, nós não conhecemos muita gente que beberia? Mas a degradação nessa linha de coisas pode ir mais longe?

Os senhores estão vendo a que horrores a Revolução nos conduz. Ela nos dá, portanto, o gosto do feio, do desordenado, do asqueroso, do contraditório, do chocante. E há o risco das pessoas ficarem habituadas a isso. De maneira que quando elas vão tomar contato com as coisas celestes, elas sentem também o desejo, a nostalgia do prazer péssimo da coisa chocante, da coisa contraditória, da coisa errada; se quiserem, a nostalgia de um antegosto do Inferno.

Não sei, meus caros, se a presença desse fator está bastante clara, para que possamos nos situar bem nas descrições do sonho de D. Bosco. Porque exatamente São João Bosco nos descreve verdadeiras maravilhas, mas para uma birichinada que ainda não estava imersa na civilização moderna, estava na ante-sala. Mas há uma diferença entre antecâmara e a câmara dos horrores. Na sombria moradia dos horrores, há uma diferença entre a câmara e a antecâmara. E, apesar de tudo, a situação do tempo dele era bem diferente da nossa.

Então, aquilo que poderia maravilhar, encantar os birichinos dele, até que ponto aos meus enjolras, sem essa introdução, não causará uma sensação de certa inadaptação, de certa falta de tomar sabor? Eu os ajudo então, a detectarem em si as razões explicáveis, legítimas e nobres, que vêm da vocação e do gosto da luta; a razão não culposa, mas lamentável, que é o pecado original: no Paraíso terrestre não havia essas coisas; e a razão culpável e péssima da adesão à Revolução. Todas essas coisas juntas se somam para produzir uma espécie de defasagem que eu não queria deixar de acentuar antes de tratar do assunto diretamente. 

* A parte do Céu mostrada a São João Bosco era um ambiente material no qual haviam belezas que o maravilharam, mas não era senão uma parte na qual ele, enquanto vivo, suportaria conhecer

Feita essa introdução, eu devo dizer então o que se passou: São João Bosco dorme e é introduzido no Céu Empíreo. Mas é um ambiente material no qual há belezas que o maravilham, que o deixam completamente deslumbrado. Ele encontra ali uma coorte enorme de meninos, que a gente vê que ele formou, que ele santificou etc, e dessa coorte se destaca com especial brilho São Domingos Sávio, um dos discípulos perfeitos que esse santo vitorioso e triunfante teve.

São Domingos Sávio entra numa interlocução com ele e explica a ele que aquela parte do Céu não é senão uma parte onde a natureza de quem não morreu ainda agüenta de estar – mas que a outra parte é tão bela que o homem ali não agüenta -- mas ainda é Céu material. Não é a visão face a face de Deus, que esta o homem não agüentaria de nenhum modo. E ele, São Domingos Sávio tem as três coisas: ele e a coorte dele saíram um pouco para a ante-câmara do Céu, para receber e homenagear São João Bosco. São João Bosco pede para ver um pouquinho do verdadeiro Céu — não da antecâmara do Céu. E São Domingos Sávio diz a ele: "eu vou fazer ver mais um pouco, porque vós mais não agüentareis."

E há um fenômeno qualquer no sonho que é tão empolgante, mas tão superior à carga emocional do homem, que São João Bosco dá um grito tão alto que acorda o padre que dormia na cela contígua à dele. É um grito de maravilhamento, mas um maravilhamento que está na iminência de quebrar e onde o instinto de conservação dele legitimamente brada e ele acorda e ele então está restituído a esta Terra.

Vamos ver a descrição desse Céu de antecâmara e vamos ver esse silvo, esse corisco, esse relâmpago do que poderíamos chamar o Céu mais alto, que passa assim num ziguezague, e vamos fazer a análise de tudo isso, que é o futuro bem-aventurado para o qual Nossa Senhora nos convida. Nós podemos então, com a devida reverência, entrar no encalço de São João Bosco e de São Domingos Sávio. 

* O conjunto que se conhece dos sonhos de São João Bosco é uma compilação selecionada de textos não mais existentes, devendo ser considerado como incompleto

Ainda aqui com duas ressalvas. Eu lamento, mas são necessárias. Corre o risco da introdução ser maior do que a ficha. Mas o que que eu posso fazer? Mas ela é necessária para nós estarmos introduzidos no tema.

Há uma primeira coisa a respeito desses sonhos  de São João Bosco, que é a seguinte: esses sonhos são editados pelos padres salesianos e são inteiramente autênticos. Mas acontece que nas "Boas-Noites" de Dom Bosco, ele contava esses sonhos e havia muitos que tomavam nota. Não havia gravador naquele tempo. Um padre salesiano, por designação dos superiores, um bom número de anos após a morte de D. Bosco, creio que vinte anos depois -- talvez mais -- recolheu os sonhos todos, fez uma compilação dos sonhos para poderem ser um livro só, e nisso andou bem. Mas fez uma coisa que é um desastre: pegou todos os [relatos dos] sonhos e queimou. De maneira que o "original", só o dele.

Ora, é forçoso, quem faz uma compilação faz uma seleção. É claro. Compilar é, até certo ponto, selecionar. Que tudo isso tenha sido sonhado por São João Bosco é certo. É só isso que foi sonhado? Com que critério foi feita a seleção? Aqui é legítimo que minha segurança seja bem menor. E com a minha, a dos senhores. E que, portanto, nós nos perguntemos se o Céu é só isso. Que é isso, é. Será só isso? Não sei.

Uma outra pergunta — eu li bom número de sonhos de São João Bosco -- não li todos, os srs. conhecem como é minha vida, mesmo quando era menos sobrecarregada do que hoje, como é minha vida os srs. conhecem -- mas não vi ainda um trecho ou algo que autorizasse a resolver o seguinte problema: essas coisas que ele via em sonho eram exatamente como ele descreve ou o que ele descreve é simbólico de uma realidade mais alta que nós devemos imaginar?

Aí também é preciso esclarecer a pergunta: que todo que é material é simbólico de algo espiritual, é fora de dúvida. E que, portanto, as belezas do Céu material são belezas que simbolizam belezas de alma, é fora de dúvida. Mas a pergunta é: se as próprias coisas materiais que ele descreveu são assim mesmo ou se são belezas que simbolizam uma matéria que é diferente. Eu não vi ainda uma elucidação desse ponto; talvez haja. Mas eu li este sonho com muita atenção e parece-me, ao menos no tocante a este sonho, que ele reproduz realidades materiais como ele viu.

Portanto, salvo melhor juízo, melhor explicação -- talvez os próprios teólogos salesianos dos bons tempos tenham elaborado uma explicação para isso -- salvo essa explicação que deve prevalecer sobre qualquer outra, quanto a este sonho me parece que a coisa pode ser entendida materialmente e que é materialmente que nós a devemos tomar.

Então, eu começo, afinal, a leitura do sonho. 

* Inicia-se a descrição do sonho de São João Bosco sobre o Céu

Ele vê o pórtico do Céu empíreo:  

"De pronto, me pareceu encontrar-me no alto de uma colina, nos bordos de uma imensa planície cujos confins se perdiam de vista na imensidade. Era de um azul cerúleo, como o mar em calma; ainda que a matéria que eu visse não era água, parecia entretanto um suave cristal reluzente. De baixo dos meus pés, por detrás de mim e dos lados, eu via uma região à maneira de um litoral à beira do mar oceano."  

A descrição é muito bonita, sobretudo vista de dentro dos olhos de um santo. Mas ela começa por levantar um problema que é muito interessante, a imaginarmos a coisa material. A ser verdadeira a interpretação, nos dá uma idéia desta terra que é uma idéia completamente nova e por certo anti-moderna até onde uma coisa anti-moderna ser possa; chega até os confins da anti-modernidade.

Eu levanto apenas o problema, não vou resolvê-lo: são coisas que têm o aspecto das coisas terrenas, mas não têm a natureza das coisas terrenas. O que parece mar não é mar, nem é água; ele dá a entender que é uma matéria de uma outra natureza. E aquele litoral não é, portanto, um verdadeiro litoral. Porque onde não há água, não há litoral. Há um encontro de matérias diversas, parecido com uma praia, mas não é praia. Eu apenas acentuo isto de passagem e continuo a descrição para depois nós vermos o ponto encantador aonde se desfecha.

Continua: 

"Largas e gigantescas avenidas dividiam a planície em vastíssimos jardins de inenarrável beleza." 

Vejam até que ponto não era água e até que ponto não era cristal, etc., porque era azul mas tinha jardim em cima. Se o compilador compilou bem, e eu creio que o tenha feito, parece real a coisa.  

"Todos como que repartidos em pequenos bosques, prados e canteiros de flores de formas e cores diversas."  

* Começa a caracterizar-se um enigma: presença de flores e outras plantas no Céu

Aqui o problema aparece de novo. Mas nós vimos outro dia que não há plantas no Céu Empíreo. Como há canteiros de flores? E por que se faz canteiro com isso? Qual é a razão de ser do canteiro? Dir-se-ia que esse jardim foi plantado por alguém. Não é a natureza como ela brota. Então, Deus ordenou que essas coisas se dispusessem à maneira de jardim? A gente entende que os homens façam jardins, porque dentro do mato as coisas não tomam toda sua beleza. O mato tem sua beleza específica. Mas, digamos, um campo não pode ter a beleza de um jardim com uma coleção de rosas. Precisa o homem plantar. Então, o jardim tem para nós uma razão de ser; está ligado à natureza das coisas. Ora, aqui o jardim parece não estar ligado em nada à natureza das coisa. Não se vê — aquilo que justifica o jardim aqui, que justifique o jardim lá. Como é que tem jardim lá? E jardim que fica em cima de uma água que não é água? Ora, tem que ter um pulchrum dentro disso para ser Paraíso. Qual é esse pulchrum?

Não sei se é fatigante a quantidade de perguntas... 

"Nenhuma de nossas plantas pode dar-nos a idéia daquelas, ainda que alguma semelhança têm.  As ervas, as flores, as árvores, as frutas..."  

Portanto, devemos ter a idéia de que são coisas semelhantes às ervas, flores, árvores e frutas nossas. Ele acaba de dizer: são semelhantes. 

"...eram vistosíssimas e de belíssimo aspecto. As folhas eram de ouro. Os troncos e ramos, de diamantes, correspondendo o resto a essa riqueza". 

Então os srs. estão vendo que assim como o mar era de uma água que não é água e de um cristal azul que não é cristal, porque dá planta em cima, as flores, os frutos e as folhas eram de uma consistência não vegetal, porque a criatura vegetal não entra no Céu. Era da consistência da matéria de lá, mas com as formas que se explicam de acordo com as necessidades da matéria daqui. Aqui está uma charada. Que uma árvore tenha folhas, é a coisa mais natural do mundo. Se a gente quiser assistir uma aula cacete, acaba compreendendo porque a folha é necessária para a árvore. Eu ao menos acharia essa aula mortalmente cacete, mas eu tenho alegria em saber que é necessária, que não é um puro enfeite, como enfeite de árvore de Natal. Aquilo brotou da árvore, que é necessária pela natureza da árvore. Assim também, está na natureza da árvore dar a fruta. Tudo está na natureza.

Ali, aqueles seres mais bem minerais -- eu hesito até em dar essa qualificação -- têm as formas dos seres daqui, mas não são os seres daqui. Qual é a razão de ser dessas formas 

* O mistério da presença, no Céu, de árvores que não são árvores, brilhantes que não são brilhantes, água que não é água, etc.

Aqui a pergunta vai mais para a frente. Não estamos fazendo apenas uma descrição, mas indo mais longe; é uma análise. Esses brilhantes não são brilhantes, esse ouro não é ouro embora pareça com o brilhante daqui, com o ouro daqui. Então, aqui nós compreendemos porque é brilhante: é carbono que em tal estado de pressão deu em brilhante. Mas lá, por que? Qual é a razão de ser disso? Por que a matéria lá tem uma semelhança com a nossa?

Alguém dirá: "Para o homem se sentir bem lá". Então Deus fez uma espécie de loja de brinquedo para o homem estar lá? Isso não é sério. A razão não é essa. Daqui a pouco, no momento que me parecer mais adequado, eu lanço uma hipótese, que tem exatamente o atrativo da hipótese, quer dizer, do incógnito. Nós devemos ser ortodoxos lobos-do-mar nas hipóteses. Sempre com o espírito obediente a Roma – os srs.  cantavam tão bem no começo da reunião o “Roma Eterna” — fazer hipóteses que serão boas na medida em que Roma aceite, ou ao menos que não proíba.

Eu estou procurando dar aos senhores, na descrição, mais a beleza da incógnita do que da árvore de ouro com brilhantes. Porque uma árvore de ouro com brilhantes, um fabricante de jóia falsa faz e os senhores tomam como verdadeira. O problema é ter o sentido espiritual disso. É mais atraente, mais entretido, ir à busca do sentido espiritual do que da pura descrição material.

E eu estou fazendo a tentativa de rumarmos juntos por esses mares. 

"Impossível é contar as diferentes espécies ..."  

Portanto, há espécies diversas dessas como que plantas.  

"... e cada espécie e cada flor resplandecia com uma luz especial."  

Então, os srs.  estão vendo focos luminosos que cada um desses seres deita, não só de acordo com sua natureza, mas com sua individualidade. Como é aqui na terra que as rosas são belas, mas cada espécie de rosa tem um tipo de beleza própria. E dentro de cada espécie, cada rosa tem sua beleza própria? Assim [é] a variedade prodigiosa dessa criação celeste, desse pequeno universo celeste. Cada uma com uma luz própria, que simboliza naturalmente, uma perfeição de Deus. É para nos falar de Deus, Nossa Senhora, os Anjos, os Santos. 

"No meio daquele jardim, e em toda a extensão da planície, eu contava inúmeros edifícios de uma ordem, beleza, harmonia, magnificência e proporção tão extraordinárias, que para a construção de um só deles não poderiam ser suficientes todos os tesouros da terra". 

Então, uma planície magnífica, porque os senhores acabam, no fim, não se encontrando na natureza solta, mas num jardim de uma cidade de palácios, e de palácios incontáveis: é uma cidade. Se quiserem, é uma praça pública da cidade que São João Bosco viu. Ora, nós sabemos que essa gente não mora em casas. Qual é o sentido dessas casas? Qual é sentido dessas fachadas? Por que isso é assim? Qual é o belo mistério meio encantador, mas meio desconcertante, dentro do qual caminhamos? 

"Eu dizia de mim para comigo: se meus meninos tivessem uma só dessas casas, como gozariam, como seriam felizes, e com quanta alegria viveriam dentro dela! E isso eu pensava quando só podia ver esses palácios por fora. Como não seriam por dentro?"  

Portanto, esses palácios, que não são palácios, têm um interior, não são meras fachadas. Porque não pode caber engano no Céu. E se elas têm ar de quem tem coisas por detrás, é porque têm. Para que essa coisa interior? Do que serve isso? Haverá uma arte decorativa lá? Haverá espelhos? Haverá jóias,  Haverá quadros pintados por anjos? Haverá tapetes de alguma Pérsia indescritível? [Terão sido]  diretamente criados por Deus esses tapetes? 

* As formas, cores, sons, deleites - e até mesmo as figuras geométricas - existentes na Terra,  representam propriedades de Deus das quais o homem sente necessidade

Agora eu vou tratar de dar a resposta. A resposta não é muito fácil de dar, porque sou obrigado a responder em termos puramente geométricos. Os srs. tomem as figuras geométricas: um quadrado, um losango, um círculo, etc. A gente pensando bem, a natureza humana não vive sem ter coisas que representem formas geométricas para ela. De tal maneira é feito nosso intelecto, de tal maneira são feitos nossos sentidos, que nós precisamos ter contacto e viver dentro de um universo definível em formas geométricas. Fora disso nós estaríamos mais ou menos como quem voa em vôo cego dentro de uma nuvem. Já deve ter acontecido com os senhores dentro do avião: a gente tem a impressão que está passeando dentro de uma garrafa de leite, completamente sem graça. Nuvem, nuvem, nuvem, não se vê de cima, não se vê de lado, não se vê nada, é um elemento gasoso e molhado que se condensa em gotinhas sujas na asa do avião, que o vento leva e que se desintegram dentro da massa úmida da qual se destacaram pela pancada da asa do avião.

O que é isso? Eu olho com tédio e digo: "Oh, caceteação! Se ao menos ali se desenhassem figuras geométricas, se aquilo tivesse o aspecto de um caleidoscópio — que é o passeio das formas geométricas diante do homem, com encanto para a natureza humana. E quem lhes fala é o menos geométrico dos homens, hein..., e como a natureza humana tem avidez da geometria!

E aqui entra um problema bonito: qual é a relação dessa natureza com a geometria? E entra um outro problema: essas formas geométricas, de que a alma humana é tão sequiosa, não representarão simbolicamente propriedades de Deus, sem cuja consideração o homem não pode viver? Então, as coisas não são redondas, quadradas ou losangulares, ou qualquer outra coisa principalmente por causa da natureza delas, mas elas são assim principalmente porque nos dão uma idéia de Deus. E Deus as criou com essa natureza, em segundo lugar, atendendo às necessidades naturais delas. Mas a razão de ser dessas formas todas é muito menos a natureza da coisa do que o próprio Deus.

Está dito no Gêneses que todas as coisas foram feitas à imagem e semelhança de Deus; para Ele, vistas as coisas, contemplá-las e considerar que cada coisa é boa e o conjunto é ótimo. Então, a razão de ser profunda pela qual as coisas têm as formas que têm não é a natureza das coisas, mas é que Deus quis que tivessem aquelas formas para Ele contemplar. E isso porque essas formas têm uma certa semelhança com Ele. Uma semelhança inefável, que não se pode exprimir em palavras humanas, mas uma certa semelhança com Ele; senão Ele não gostaria. E quando Ele criou as várias figuras geométricas, a principal razão das figuras não era a natureza das coisas a quem Ele deu essas figuras, mas é a natureza dEle que Ele queria espelhar ali.

Quem sabe se todo esse Céu Empíreo é uma imensa repetição, de forma magnífica, de puras formas, puras cores, puros sons, puros deleites que têm seu fundamento em Deus, e que ali nos deixam ver melhor a Deus? Então, olhando para as coisas desta terra, nós devemos também não nos contentar com a explicação científica, mas pensar: por que a laranja tem vagamente a forma de uma esfera? Não é principalmente pelas razões que a natureza da laranja explica, mas é principalmente porque Deus queria que houvesse seres esféricos, e queria que houvesse umas esferas cor de laranja com gosto de laranja, para melhor se assemelhar a Ele. É mais ou menos como um reflexo de espelhos, compreendo que pode desnortear um pouco. Isso nos faz ver esta terra com olhos muito mais maravilháveis, porque compreendemos o fundamento que essas coisas têm em Deus. 

* O Escorial e a Catedral de Notre Dame são representações de Deus na Terra, que nos fazem entender como e porque o Céu Empíreo espelha-O de maneira mais perfeita

As aulas de ciência natural quase que amputam isso, porque dando a pura explicação botânica da forma de uma laranja, os senhores não têm uma formação pela qual se dá o complemento que é filosófico, metafísico e até eventualmente com algum fundamento na Revelação a respeito da natureza da laranja. Então os senhores ficam com a idéia de que o mundo é assim só porque ele é assim. Ora, ele é assim para ser semelhante a Deus que no mais alto do Céu é assim. E nós temos outra noção de tudo que nos cerca.

Então, quando a gente vê o homem construir casas - Felipe II construir o Escorial, em Portugal se levantar a Torre de Belem, em Paris se levantar Notre Dame - nós pensamos em tudo quanto deu razão de ser àquilo. Mas esses homens, agindo retamente segundo seu senso artístico, entretanto faziam coisas que espelhavam a Deus. E era uma semelhança nova de Deus que vinha nascendo. Então todo esse Céu Empíreo é muito mais semelhante a Deus do que o nosso. E nisso tem uma beleza que não podemos imaginar como é, mas da qual podemos nos dar alguma conta através dessa reflexão.

Não sei se assim chega a tomar uma certa clareza o assunto.

(Pergunta: Então as coisas se explicam...)

Mais por Deus do que pela terra.

(Pergunta: Mais por fora do que por dentro?)

Sim, se o senhor tomar cuidado com o que é “o fora”. Quer dizer, o caldo da laranja está dentro dela, e ele mesmo se explica mais em função de Deus do que de si próprio. Está claro?

Como é que é Deus, por onde sendo infinitamente superior à laranja, de algum modo se reflete na laranja? Porque há uma semelhança ali. Como é essa semelhança? É dificílimo ter uma idéia. Mas vale a pena aguçar o espírito nisso, pensando e como que procurando prelibar. E assim vem o verdadeiro prazer da vida. 

* A música é um exemplo mais espiritual, melhor do que a simples matéria, para ilustrar a representação de Deus na Terra e no Céu Empíreo

A laranja não é um exemplo bem escolhido. O exemplo mais bem escolhido é a música porque é muito mais espiritual do que uma coisa que se come. Os comestíveis não haverá lá, o homem não terá fome. Mas a música continuará, como os srs. verão. A música da terra é um reflexo da música do Céu, que é um reflexo da música dos anjos, que é um reflexo da harmonia interna e insondável das Três Pessoas da Santíssima Trindade.

Então, se alguém estudasse harmonia musical, por exemplo, deveria pensar que tudo quanto está aparecendo ali é um reflexo de algum modo das Três Pessoas da Santíssima Trindade; da vida interna, ou da glória extrínseca dessas Três Pessoas da Santíssima Trindade. Aí é que apareceria para os músicos a verdadeira inspiração. Eu receio não estar claro...

Lembro-me agora da recomendação de Dona Lucília: fale pouco e agradarás, diziam os romanos. A expressão romana é muito saborosa: Esto brevis et placebis: fale pouco e, ao menos por aí, serás agradável. Eu não me esqueço desse conselho e pô-lo-ei em prática daqui a pouco.

Nós fizemos assim uma espécie de digressão pelos mistérios do Céu Empíreo. Como toda descrição bem ordenada, aqui está o habitat, está o lugar, não estão os que moram. Agora vamos ver os que moram. Vai começar a se encher de gente esse ambiente maravilhoso. Como é essa gente e que tipo de felicidade eles gozam lá? 

"Enquanto eu contemplava extasiado tão estupendas maravilhas que adornavam aquele jardim, chegou-me aos ouvidos uma música dulcíssima..."  

A música devia ser harmônica com as impressões que o jardim produzia. 

"... de tão grata harmonia, que eu não vos posso dar uma idéia adequada de como ela era. Eram 100 mil instrumentos..." 

Cem mil é numero simbólico. 

...que produziam cada um, um som diverso do outro, enquanto todos os sons possíveis difundiam pelo ar as suas ondas sonoras. 

Essa idéia de todos os sons possíveis é muito interessante. Quer dizer, dado o nosso universo como é, o numero de sons não é infinito. Porque só Deus é infinito. E há um número limitado de sons. Todos os sons que existem, e mais outros que na terra não se ouvem, mas que numa natureza mais perfeita podem ouvir-se, são os tais sons suprasônicos ou infrasônicos, e que provavelmente ali soam com uma beleza maior. Todos esses sons ao mesmo tempo tocavam lá.

Era “como cem mil instrumentos”, quer dizer, incontáveis instrumentos.  E ao ele dizer que um instrumento produzia um som diverso do outro, a gente está vendo que ele distinguia -- à medida que prestava atenção -- ele caracterizava como que instrumentos, que não são os nossos miseráveis violinos e pianos. Tudo isso é o que? Em comparação com essa orquestra, é nada, evidentemente.

E vem aqui uma coisa que eu gosto muito: 

* A voz humana, o mais belo dos instrumentos no Paraíso, que não o é na Terra por causa do pecado original

O mais belo instrumento que há é a voz humana. Por causa do pecado original não se nota isso. A gente pode ouvir uma harpa, que é mais bela do que qualquer cantor. Mas no Céu, a voz humana dos corpos gloriosos é mais bela do que todos os instrumentos. E esse cântico maravilhoso é mero fundo de quadro para o cântico dos bem-aventurados. Aí os srs. compreendem bem o papel da música com canto, a música instrumental com canto. 

Vi então, uma multidão de gente que naquele jardim se encontrava e que se regozijava, alegre e contente... 

Então, pessoas que andam, uma multidão, mas uma multidão que não se aperta. Deixaria de ser Paraíso... Uma multidão que também não é um pesadelo de gente, gente, gente, mas é uma multidão proporcionada com a capacidade de prestar atenção de cada um. E gente tão em harmonia uns com os outros que, quando se viam, se agradavam, tinham gáudio: "Oh, você  –  não, você não existe lá,  –  ó vós, ó mas também vós!" Quer dizer, esse gáudio da simpatia mútua, da plena compreensão mútua que nesta terra não existe. A gente tem ilusão que existe, mas não existe. É exatamente como se deve ver a terra.

Um dos nosso grandes erros é que a gente quando está na adolescência, procura gente que seja consonante conosco segundo esse modelo ideal. E encontra cada pontapé, de sair chiando! É que isso é para o Céu. Aqui nós temos que tolerar cada casca-grossa do outro mundo! E cada imperfeição do arco-da-velha, porque essa é a vida. Mas no Céu o convívio é outro. 

Alguns cantavam, outros tocavam. Cada nota fazia o efeito de mil instrumentos reunidos. 

Os senhores podem imaginar uma voz humana que faça o efeito de mil vozes. Os srs. podem imaginar um instrumento que faça o efeito de mil instrumentos? Aqui, eu não posso deixar de fazer um parêntese todo pessoal, mas enfim, fica dado o parêntese: um dos encantos que eu tenho pelo órgão é que cada nota do órgão me dá a impressão que tem uma porção de instrumentos que tocam ali mesmo, e que aquilo é um concerto de concertos. E nisso eu acho o órgão, a perder de vista, superior a qualquer outro instrumento. Completamente.

E eu me lembro ainda quando comecei a prestar atenção em órgão, eu dizia: "Mas essa gente não percebe que isso é um concerto de concertos? Eles falam em dó, ré, mi, etc. Em órgão isso, mas sobretudo existe mais do que isso. No piano existe um “lá”, no órgão existe um universo de “lás”, acentuado ainda por aqueles registros, que dão uma idéia global do universo dos sons. É uma coisa curiosa, dá uma idéia global da totalidade dos sons, é a perfeição das perfeições em matéria de harmonia. 

Contemporaneamente ouviam-se os vários graus de escala harmônica, desde os mais baixos aos mais altos que se possa imaginar. Mas tudo em acordes perfeitos. Ah, para descrever essa harmonia não bastam comparações humanas! Via-se pelo rosto daqueles felizes habitantes dos jardins que os cantores não só experimentavam extraordinário prazer em cantar ... 

O que torna o canto particularmente deleitável: quando a pessoa canta um canto perfeito e a gente nota as harmonias perfeitas, da alma perfeita cantando o canto perfeito, na alegria perfeita, a gente entra. Os senhores entendem o ambiente o que é. 

... mas, ao mesmo tempo, sentiam um imenso gáudio em ouvir cantar os demais. 

Notem bem, isso é um senso de harmonia que é pouco comum: um cantor gostar de ouvir cantar outros cantores em fazer de solo... Um músico gostar de ouvir os outros tocarem tão bem ou melhor do que ele na orquestra em que ele tenha clarineta... Ahh, ahh não é tão fácil.

Ali não: "Fulano como canta bem! E aquele, como é estupendo! Canta ainda melhor". É um universo sem inveja. É o contrário do universo daquela ficha que eu li hoje à tarde, de um admirador de D. Casaldáliga, que vimos há pouco no jornal "O S.Paulo". 

... mais um cantava, mais se acendia nele o desejo de cantar e quanto mais escutava, mais desejava escutar. 

É a convivência perfeita e a harmonia perfeita de alma, descrita de modo a impressionar a imaginação. É um verdadeiro tratadozinho de filosofia ou de moral que está contido aqui. 

* O hino para saudar, honrar e glorificar a Deus para sempre, que São João Bosco ouviu no sonho

Ele dá o pensamento do canto, que naturalmente está em latim:  

Salus, honor, gloria Deo Patri Omnipotenti, auctor saeculi, qui erat, qui est et qui venturus est judicare vivos et mortuos in saecula saeculorum. 

Podemos imaginar um pouco as inflexões. Porque o sentido é esse: Saudação, honra, glória a Deus Pai Onipotente, autor de todos os séculos, que foram, que são, e que serão, e que virá julgar os vivos e os mortos nos séculos dos séculos.

Ora, cada palavra dessas contém um pensamento; e cada pensamento desses é susceptível de ser musicado. Porque não há um pensamento que não seja susceptível de ser musicado. É questão de ter talento e saber musicar. Então, a saudação por exemplo, os srs. podem imaginar esse salus contendo a nobreza de todas as reverências, contendo a humildade de todas as genuflexões e contendo o élan de alma de todas as orações que nos ritos católicos orientais se fazem de pé.

Honor, a palavra honor falando da honra de Deus, que repercussões tem! A palavra honra, não sei se os srs. prestaram atenção, eu ouvi nas línguas que eu conheço, a palavra honra é sempre muito bonita -- mesmo nas línguas de origem não latina – a palavra honra é muito bonita: por exemplo, em alemão é Ehre, mas tem um “h” porque sem esse “h” não valia nada; Ehre... é uma coisa digna, superior, superior, honorífica. Mas como é bonito honneur! E como é bonita honra! Algo do pulchrum da idéia da honra se musica na palavra honra.

E eu tenho impressão que na linguagem que se perdeu na Torre de Babel, mas que ainda vinha do Paraíso, as palavras musicavam os conceitos. E que isso desapareceu por castigo nosso, deu nessa babel em que nós vivemos. Mas que isso cantado deveria ser assim: salus, podemos imaginar, uma profunda reverência; honor, um temor reverencial e um respeito; e gloria, uma explosão diante da manifestação de Deus. Três estágios da música.

Agora, não sei como pronunciar essa palavra Deo, porque a palavra Deus... precisa estar no céu para compreender que sonoridade possa ter. Porque é tudo: é inefável, é perfeito, é tudo. Quem poderá musicá-la? Os lábios da Santíssima Virgem e, assim mesmo, à maneira de uma criatura. Os senhores ouvem um pouco desse som quando Nosso Senhor reza no Evangelho: "Meu Pai"... levanta os olhos... Aí a gente tem algo assim, da vida trinitária. Mas é algo. Nós não chegamos até lá.

Depois "Deus Padre"; Padre enquanto gera o Filho e procede [dEles] o Espírito Santo, mas também porque é Pai de todos nós. Então, depois de pronunciar essa palavra inefável “Deus”, vem a palavra "Pai"; a intimidade, a junção, o afeto. "Onipotente", é de novo uma exclamação mas que eu imaginaria quase militar da glória de Deus.

Depois eu imagino uma cadência: Auctor saeculi; o tempo foi criado por Ele; e antes dEle havia uma uma eternidade misteriosa para trás como há outra para a frente. Então, esse Auctor, Aquele que fez. E fez o que? Fez os séculos. Procissão grandiosa das centúrias, andando pela história. Isso deve ser musicável.

Agora, para indicar bem o tamanho desses séculos: qui erat, qui est et qui venturus est - Que foi, que é e que será. Varre tudo, e depois, no fim, um misto de glória e de castigo: virá para julgar os vivos e os mortos, quer dizer, encerrar os séculos com chave de ouro. Acaba o tempo e o destino é eterno. Eles já estão julgados. Esperam no Céu apenas os seus próprios corpos. Isso é realmente uma beleza!

E termina in saecula saeculorum: deve seu um dos finais que se repetem, que se multipliam, e que se esvai de repente e se dilui numa música diferente.

Bem meus caros, com isso nós analisamos apenas duas fichas. E o diálogo de São João Bosco com São Domingos Sávio fica para uma outra ocasião, na medida em que possa apetecer aos srs. Porque essas coisas são de tal modo que a gente não pode tomar requentado. E a gente interrompendo, as vezes fica interrompido, não tem conversa. Mas eu estou para lá de cansado, os srs. compreenderão, não vai. Nós estamos dentro do tempo, dentro do século, eu gostaria de continuar, mas vamos cessar.

 


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