Plinio Corrêa de Oliveira

 

São Tomás de Aquino explica o Purgatório Purgatório e o esmagamento do comunismo

 

 

 

 

 

 

 

 

Santo do Dia, 15 de abril de 1981, quarta-feira

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A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.


 

Ilustração: retábulo das almas do Purgatório com Nossa Senhora do Monte Carmelo e São Francisco de Assis, em uma igreja-museu de Santiago de Compostela. Foto de FERNANDES Gilbert – Wikipedia CC

Eu não sei se os senhores se lembram de que eu disse aqui uma certa ocasião, falando sobre os Novíssimos do homem (Morte, Juízo, Céu e Inferno) e acrescentando a isso o Purgatório que não é um Novíssimo do homem, mas é um acontecimento post mortem. Não é novíssimo porque Novíssimo quer dizer ultimíssimo. Novus é fim, final, em latim, o ponto terminal. O Purgatório é transitório, não é eterno, não é, portanto, um Novíssimo. Mas é um fato que ocorre depois da morte.

Mas nós devemos, de vez em quando, voltar a esses temas. E hoje eu tinha preparado alguma coisa – pretendo dar aqui a pouco – tirada de São Tomás a respeito do Purgatório.

Eu não tinha falado nenhuma palavra dispositiva sobre o Purgatório, apenas rápidas referências, assim, de beirada. De maneira que eu acho que esse é o momento de nós falarmos sobre isso.

Primeira noção é a seguinte: quem vai para o Purgatório? Vai para o Purgatório quem comete pecado venial ou falta.

A falta – para simplificar – é um pecado venial levíssimo, mas é uma imperfeição, uma incorreção. É uma ação incorreta muito levemente incorreta. Esta é falta.

O pecado venial e a falta não acarretam a pena do inferno. A pessoa não perde a graça de Deus, porque a natureza da ofensa não é tal que Deus corte a sua amizade com a alma e lhe tire a vida da graça. Mas aí os senhores podem calcular bem a justiça de Deus: para punir essas ações que constituem pecado venial, especialmente para isso, Deus criou e manterá até o fim do mundo o Purgatório. Aonde vão as almas. Para que?

Para expiar diante da justiça divina os pecados que cometeram nessa terra. Quer dizer, Deus ama essas almas, Deus as inunda com sua graça. Deus apoia, a Igreja dispensa a essas almas, no fim, a Extrema-Unção, todos os socorros, o Viático que dá para os seus filhos etc. As pessoas recebem sepultura cristã, morrem por assim dizer no regaço da Igreja.

Há uma frase da Escritura muito bonita que diz: “Beati mortui qui in Dominum moriuntur – Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor”. A gente entende o que isto quer dizer; aqueles que morreram no Senhor são mortos bem-aventurados, morrem na paz de Deus.

Uma semana depois  –  se o homem é prudente manda rezar no próprio dia por si mesmo  –  vem a Missa de 7º dia. Então vão todos os parentes, canta-se e tal, os senhores podem imaginar uma Missa constantiniana.

Esplendores etc., catafalco etc., como se usava antigamente. Quando está tudo para terminar, uma voz canta: “Requiem eterna dona eis Domine, ex lux perpetua lucis eis”. Quer dizer, Senhor dai-lhe o repouso eterno; quer dizer, provavelmente ele está no Purgatório; Senhor, tirai-o do Purgatório. É considerado quase o rumo comum das almas: morrem e vão para o Purgatório.

Santos – é da doutrina da Igreja - que é inteiramente admissível que santos de canonizar vão para o Purgatório antes de ir para o Céu.

Então os senhores estão vendo Deus que enche de dileção as almas que corresponderam à graça, mas cuja justiça é tal que antes de admitir na Sua presença na visão face a face, Ele quer que purguem os pecados, reparem diante dEle as ações más que cometeram. E são ações leves...

Os senhores estão vendo como é a divina intransigência de Deus. Mas que eu digo não é só para nós termos o temor de Deus – que é uma grande qualidade – mas é para nós termos o amor de Deus.

Em Deus tudo é infinitamente digno de amor; ora, a intransigência dEle está nEle; logo, ela é infinitamente digna de amor. E ou eu sou capaz de me entusiasmar pela intransigência de Deus enquanto punindo-me a mim, como réu, que me levantei contra ela, ou eu não sou capaz de ter amor de Deus.

Seria, aliás, uma coisa que se deveria dizer numa pregação sobre o inferno ou numa pregação sobre o Purgatório, obviamente. E só isto, que espécie de alma faria, como dispõe a pessoa à Contra-Revolução!

Tal espírito de obediência, de disciplina, que vem Deus com o látego e diz: Punir-te-ei pelo teu pecado!

Ó Senhor, três vezes santo!

Vamos imaginar uma cena que historicamente não se passou. É histórico com que Nosso Senhor flagelou os vendilhões do Templo, expulsou com açoite os vendilhões do Templo. Mas absolutamente não está contado – e tudo leva a crer que não tenha havido – que algum vendilhão deslumbrado pelo fulgor do desdenho dEle para com a profanação das coisas sagradas e a roubalheira, se tivesse ajoelhado e tivesse dito: Ó Senhor!

O que teria sucedido? Podia suceder que Ele parasse, deixasse o açoite cair no chão, e dissesse: ó meu filho! Podia suceder.

Podia suceder que Ele dissesse outra coisa: Meu filho, desnuda-te tuas costas para Eu te ferir. Tu mereces!

Qualquer das duas coisas poderia suceder. E nós deveríamos adorá-Lo numa situação ou noutra. À força de imaginá-Lo só numa atitude, quer dizer, perdoando, nós perdemos o senso pelo qual nós nos tornamos incapazes de adorar a severidade dEle.

Ora, na introdução desse assunto do Purgatório, eu quereria que nós fizéssemos um ato de adoração para com Ele. Dizer: “Senhor, assim Vós tratais vossos amigos”.

Porque é assim.

Eu contei já aos senhores – eu me lembro disso – que com Santa Teresa de Jesus segundo uma alma que teve uma revelação – Santa Teresa a magnífica, Santa Teresa a incomparável – eu elogio tanto o Cornélio (a Lapide, jesuíta), não se deve fazer comparação dessas, mas a fazer como a santidade da Santa Teresa parece ter estado acima da dele, nem tem comparação, e portanto, a admiração que ela merece.

Santa Teresa, a Grande, teve que passar pelo Purgatório, fazer uma genuflexão para depois subir. Ela! O que equivale a dizer hein: teve que entrar no fogo, entrar na fogueira, fazer uma genuflexão e subir. E essa é aquela para quem no Céu se preparava uma festa magnífica.

Aplicação concreta. Os senhores dirão: “É um pórtico grande demais para o tema”. Não é, esse pórtico é a bem dizer o pórtico e um dos encerramentos do tema.

É preciso também ter a confiança. A religião não nos manda apenas uma das duas atitudes, é preciso ver dos dois lados. Ver Nosso Senhor Jesus Cristo unilateralmente severo, é tão errado quanto vê-Lo unilateralmente bom, uma vez que Ele nos ensinou ambas as perfeições. O que eu não quero é que se adore uma perfeição só, fechando os olhos para a outra.

E, na introdução do Purgatório, a instituição do Purgatório leva a isso.

Agora, uma aplicação. Comenta-se alguma coisa a nosso respeito e chega aos nossos ouvidos: foi comentado tal. E evidentemente aquilo que chega aos nossos ouvidos muito raramente é elogio. Porque se fosse elogio a pessoa também diria na nossa presença. Se disse na nossa ausência, provavelmente, não é elogio.

Nós termos estado de alma assim...  reação natural:Está vendo! Ele não é meu amigo, é meu inimigo. Também, em compensação sou inimigo dele. Ele agora vai ver. Ele estava me enganando”.

Não senhor! Quem sabe se ele tinha razão no que ele disse? Eu devo examinar com toda imparcialidade, e se ele tinha razão, eu devo dizer: “É pena ele não ter dito a mim”.

- “Ah, mas aqui está, ele tinha obrigação de dizer”...

Obrigação não sei... como é que eu receberia o que ele disse? Eu receberia bem? Eu dei a ele, pelo meu modo de tratar, pelo meu modo de agir, eu dei as garantias de que eu receberia bem? Se eu não dei essas garantias, como é que eu posso exigir dele que diga?

- “Ah! Mas pelo menos que se calasse”.

Também não sei. Porque algumas coisas que se fazem publicamente, publicamente devem ser comentadas. A natureza pública do fato exige um comentário público comum. E, portanto, eu tenho que reconhecer que se pode dizer pelas minhas costas uma coisa que não me agrade, mas que seja justa, merecida, oportuna e que tenha sido dita para o bem dos outros. Não se escapa disso! E temos que ter a alma flexível para isso, preparada para isso.

O não estar preparado e receber mal uma censura que nos chegou aos ouvidos a nosso respeito – uma censura justa – isto já é matéria para Purgatório. Conforme o efeito concreto, pode dar numa falta ou pode dar num pecado venial. Essa falta ou esse pecado venial nós teremos no Purgatório um castigo por causa disso.

Meus caros, isto tudo está bem claro ou não?

Então, nós podemos considerar alguns pontos a respeito do Purgatório, dos quais o que mais é psicológico realçar-se no começo é o seguinte:

São Tomás diz – é São Tomás ou é um outro autor em que eu li? não me lembro bem; aqui deve estar nos apontamentos -, enfim, um autor inteiramente digno de crédito diz seguinte: que o infortúnio que cada um tem no Purgatório enquanto está lá, é maior do que a maior infelicidade que poderia ter nessa vida.

Então, os senhores imaginem as infelicidades que podem acontecer a alguém, perguntem-se como é o Purgatório para ser pior que aquilo. E os senhores compreendem como é que tem que ser vista essa perspectiva do Purgatório.

Eu devo acrescentar desde logo o seguinte: que essa perspectiva  –  para os senhores medirem bem, terem bem noção as perspectivas do Purgatório –  essa perspectiva terrível é compensada por um lado: a alma que entra no Purgatório sabe que ela não vai mais pecar e que ela tem o Céu diante de si, e que ela sabe, no estado em que está, pode avaliar melhor do que nesta terra, o que é a eternidade e o que é a felicidade que lhe está assegurada no Céu.

De maneira que ela tem, ao mesmo tempo que uma aflição enorme, um tormento enorme, ela tem uma esperança – mais de que uma esperança – uma certeza plena. E como ela está em estado de graça, ela no Purgatório está persuadida de que ela deve sofrer aquilo.

E ela sabe ainda que Deus lhe diminuiu o Purgatório. Porque se Deus diminui as chamas do inferno para os precitos, é claro que diminui as chamas do Purgatório para os homens, e que por mais que ela sofra, ela sofrerá menos do que ela merece. Mas, apesar disto, ela no Purgatório sofre enormemente, mas aqui já começa a tal bipolaridade nas considerações do Purgatório.

Porque é um sofrimento terrível, mas que tem um fundo de serenidade, de esperança e de conformidade, extraordinário! Não é como de um demônio que revoltado apanha mesmo! Não, a alma se entrega enlevada à dor e diz: “Senhor, como eu mereço! É terrível, Senhor, mas como eu vos agradeço de ser só isto. Senhor, sobretudo, para todos nós do Purgatório como para os que estão no Céu, é verdadeira a Vossa promessa: Sereis vós mesmo, nossa recompensa demasiadamente grande”!

Então, há qualquer coisa que é uma prova muito dura no Purgatório, mas ao mesmo tempo não há nada do lancinante, do estraçalhante que tem a dor do inferno. No inferno a dor é dilacerante, é chiar! No Purgatório ela é de chorar, de bater no peito: “Perdão Senhor! ai Senhor, como me dói essa dor, mas sobretudo, dói-me que Vós tenhais sido ofendido por mim, perdão Senhor, perdão, perdão...”

E ainda aí entram os tais conformes sublimes de Deus. Porque Deus é absoluto, mas no reger as coisas dos homens, Ele é cheio de conformes admiráveis, de adaptações admiráveis. Porque Ele condena ao Purgatório etc., etc., mas Ele deixa a Mãe dEle com o poder de rezar para obter que as penas do Purgatório sejam diminuídas. A alma não pode rezar por si, mas ela pode rezar por outros e pode, portanto, obter graças na terra. E a alma pode, com licença de Nossa Senhora, pode rezar para aparecer para alguém na terra e pedir orações.

E então, ela pedindo as orações, alguém reza para ela e abrevia o Purgatório. De maneira que aquilo tem, ao contrário daquela rigidez estraçalhante do inferno, o Purgatório tem certa flexibilidade, certa plasticidade por onde quem está lá ainda pode abreviar algo, pode reduzir algo. E os senhores compreendem a esperança que isso dá.

Vários desses autores espirituais que tratam do Purgatório, dizem que nos dias de festa de Nossa Senhora, Nossa Senhora desce Ela mesma ao Purgatório com uma revoada de Anjos e leva quantidades indefinidas de almas para o Céu. Porque Ela pediu...

E outra coisa: Ela leva alguns, mas Ela diminui os tormentos de outros. E mesmo daqueles que Ela não diminui o grau da pena, ao menos enquanto Ela está lá, Ela alivia um pouco.

Então, eu penso que através disso os senhores se dão bem conta do terrível admirável do Purgatório e como a severidade e a intransigência adoráveis de Deus, no próprio Purgatório, se compõe com a Sua misericórdia. Ele cria o Purgatório, mas Ele cria uma Advogada onipotente que Ele sabe que tem toda espécie de “parti pris” (predileção) pelos que estão no Purgatório, e que vão tirar muita gente. Não todos, nem a pequeno preço.

Eu me lembro que li algum tempo atrás a vida de soror Mariana de Jesus Torres, aquela freira do convento de Nossa Senhora do Bom Sucesso no Equador. E, a horas tantas, há esse fato que havia um partido – formou-se infelizmente dentro do convento de Nossa Senhora lá – formou-se uma. As freiras equatorianas eram novas, as espanholas eram as fundadoras. divisão entre freiras espanholas e freiras equatorianas

E as equatorianas – o livro não é muito claro, mas dá a entender que movidas por um instinto que haveria de dar futuramente no separatismo – elas se levantaram contra as espanholas acusadas de muito duras, de muito rígidas etc., etc., enquanto elas queriam a coisa mais acomodatícia. E havia uma freira que era a líder desse movimento revolucionário e que fez toda espécie de coisas contra a Madre Mariana de Jesus Torres – creio que manteve presa. Quanto tempo? Ela esteve duas vezes presa.

Os conventos naquele tempo tinham prisões e o superior religioso tinha o direito de prender em prisão o seu súdito, e se fugisse a polícia pegava. Porque ninguém tinha direito de ficando padre ou freira, ou religioso, deixar o seu estado sem licença da Igreja. Ficou pertencendo à Igreja, a Igreja agarra. E se foge, a polícia pega.

E então essas freiras, uma delas ficou prioresa, não me lembro bem dos pormenores. Enfim, uma superiora qualquer do partido do que chamavam as “criolas”, quer dizer as nacionais, as equatorianas, do partido das criolas manda prender duas vezes Sor Mariana de Jesus Torres etc., inocentemente e tal.

Afinal de contas, as coisas mudam, a soror Mariana é eleita prioresa e... vem uma revelação: A chefa desta criolas revolucionárias, muito expressivamente recebia o apelido de “la capitana”, e capitaneava a revolução.

E a revelação é essa: a “capitana” vai para o inferno! A Madre Mariana de Jesus Torres muito dolorida pelo fato pede, implora à Providência etc., etc., para não permitir e reza. É claro que a Providência noticiou com intuito que ela rezasse pela “capitana”. Afinal, aparece Deus ou Nossa Senhora, e comunica o seguinte:

Para ela não ir para o inferno, é preciso que vossa alma passe – eu não me lembro se 4 ou 5 anos, 5 anos no inferno. Quer dizer, vivendo por aqui no meio dos outros, mas padecendo continuamente os tormentos do inferno, inclusive padecendo a ideia de que fostes condenada para o inferno por toda a eternidade. E excetuando apenas o fato de que vós não deixareis de amar a Deus, todos os outros padecimentos tereis.

Ela aceitou e durante esse tempo inteiro sofreu as penas do inferno para a “capitana” ser salva. A revelação, quando a “capitana” morreu – se não me engano quando ela morreu, porque ela morreu antes da Madre Mariana e a Madre Mariana tratou dela com uma bondade indizível, ela correspondeu mal, injuriava, se queixava, a “capitana” era impossível!...

Quando a “capitana” morreu, sabem qual foi a revelação? Foi salva! Ficará no Purgatório até o fim do mundo!...

Então, vejam como é difícil, como é preciso ter equilíbrio de alma para se ver os vários aspectos do Purgatório. Mas esse equilíbrio prepara a alma para a posição flexível, firme e bela. É assim, mas também é assim, visão de conjunto e adoração. Sem fechar os olhos para nenhum dos dois lados, adorar: Vós sois assim, Vós revelastes que sois assim, eu ainda que não entendesse, eu creria e eu adoraria porque fostes Vós que revelastes, mas Vós me destes a luz da fé e a luz da razão. Servindo-me da razão para analisar os dados da Fé, eu vejo que é belo que sejais assim e que só assim poderíeis ser. Eu Vos adoro!

E até se pode fazer desta vida – a gente deve fazer orações e tudo o mais, para conseguir não ir ao Purgatório ou conseguir passar pouco pelo Purgatório. Há almas medíocres que passam menos pelo Purgatório do que grandes almas. Tudo isto é matizado – eu quase diria - ao infinito, segundo os desígnios de Deus, tal é a matização. Mas é assim.

Pode-se e deve-se fazer isto, mas sobretudo o que é bom fazer e que eu acho que abrevia o Purgatório é esta disposição: Minha Mãe, eu sei que eu provavelmente terei que passar pelo Purgatório, ajudai-me desde já a dar glória a Deus pela rejeição que Ele fará dos meus pecados e meus defeitos no Purgatório. Ter por bem as penas do Purgatório. Ajudai-me a desde já começar então a detestar os meus pecados e não comete-los. Menos para não sofrer do que para não ofender. Mas, minha Mãe, lembrai-vos que entre nós há um contato direto: Salve Regina, Mater misericórdiae...

Evidentemente, evidentemente, nem tem, nem tem dúvida!

Mas, minha Mãe, o resto é mistério, nós o confiamos a Vós.

Agora eu termino. Mas a questão é que cada vez eu me convenço mais de que o melhor modo de abreviar um tema, é alongar a introdução. Tudo fica simples se a introdução é bem feita, feita com cuidado. Ao menos é o que eu penso.

Nessa introdução então eu gostaria de dizer isto. Que a gente fixando bem um aspecto e outro e adorando a Deus de um modo e de outro e adquirindo essa espécie – se eu ousasse dizer – bivalência de espírito, nós já estamos de nossa parte adiantando muito no que diz respeito a pecados nossos contra o 1º Mandamento. Porque pecado venial não é só no trato dos outros, é até principalmente no trato de Deus, Nossa Senhora, a Igreja. Aí que a gente comete pecado veniais mais graves, que sensibilizam mais a Deus – se se pudesse usar essa expressão. Então, nós devemos ter isto bem fixo no espírito para ver se assim nós conseguimos abreviar o nosso Purgatório. É justo e legítimo.

Eu recomendo o seguinte: deixar nas suas últimas vontades que se for possível de acordo com o Direito Canônico, no dia mesmo em que os senhores morram, se mande celebrar Missa e de preferência de corpo presente. Claro!  Expirou? Começa uma Missa. Por que estar alongando?

- Não, mas a Missa de 7º dia!

Está bom, é a vigésima que se celebra, quinquagésima, sei lá o que. Está bom, uma Missa de 7º dia, é magnífico, é uma velha praxe da Igreja, mas expirou, celebra Missa.

Conta-se – eu vi no Escorial – o quarto onde morreu Felipe II. Aliás um quartozinho pequeno. Tem assim uma espécie de passagem para outros aposentos e tem um altar onde o padre estava celebrando. Quando o rei morreu, o padre suspendeu a Missa e o Evangelho ficou aberto para sempre no ponto em que o padre estava rezando.

É muito bonito – na medida em que o Direito Canônico do tempo permitisse isto – era uma coisa muito bonita. Não era muito melhor ter terminado a Missa? Parece-me evidente! Acho que se eu mandasse aqui levantar o braço opinando, acho que... o “parti pris” entusiástico a favor da ideia de terminar.

Essa introdução eu termino com duas coisas apenas, dois dados: um dado curioso que está em São Tomás. Eu fui habituado a ensinarem – e fiquei nessa convicção mais ou menos até meus 30 anos pouco mais ou menos – eu fui habituado a ensinarem que essa história de alma que aparece é crendice, é superstição, que alma não aparece nunca ou como que nunca, e que portanto, as aparições a gente não deve tomar em consideração, e que no total, pode ser o demônio porque o demônio sim pode aparecer.

Depois, fazendo outras leituras, eu vi que não é, mas em São Tomás eu vi esta afirmação categórica: o grosso das almas cumpre a pena no Purgatório; outras almas expiam sofrendo tanto quanto sofreriam se estivessem no Purgatório, mas em alguns lugares marcados por Deus. De maneira, por exemplo, num lugar onde a alma cometeu um crime, cometeu um pecado, ela expia lá.

E então vamos dizer, por exemplo...

Eu digo Santo Expedito porque era legionário romano e jurista também, padroeiro dos advogados, há uma imagem dele na igreja Santa Cecília. Então me veio a ideia de Santo Expedito na cabeça. Há duas imagens: Santo Expedito e uma relíquia insigne da mártir Santa Doroteia.

Então uma pessoa que foi muito devota lá, rezou muito etc., obtém de cumprir o seu Purgatório aos pés da imagem de Santo Expedito, enquanto Santo Expedito – do qual se diz que é rápido em conseguir as graças a ele pedidas – obtém uma tão pronta libertação quanto possível daquele que foi para o Purgatório. São Tomás diz que isto é assim!

Mas aí também dá-se uma outra coisa que é o seguinte: as almas que estão cumprindo penas nesses lugares, às vezes recebem licença para se manifestarem. Manifestarem pedindo oração. E essas manifestações são muito variadas: são gemidos, são jogos de luz e sombra, são movimentos, são compaixões interiores que a gente tem, alguma outra coisa. É a alma que aparece e que pede orações.

E é muito bonito isto, e quanto a gente recebe uma coisa dessas, deve prontamente atender, porque é uma alma que Deus ama muito e que Ele permitiu que aparecesse ela mesma, fazendo ela um ato bom, porque ela nos esclarece sobre o Purgatório, mas recebendo um benefício. A gente imediatamente reza por ela.

E daí aquela prática que foi muito tempo corrente entre nós – não sei se ainda o é – quando a gente quer levantar com hora marcada pedir para uma alma do Purgatório acordar. A gente reza pela alma, mas a alma acorda. Todos os que usam essa prática – eu a usei durante muito tempo – todos narram a coisa da mesma maneira: na hora marcada a gente acorda com toda naturalidade, mas acorda de uma vez... Acorda de uma vez, mas sem susto nem nada. Acordou. Pediu para acordar, acordou.

Eu creio ter contato aqui que um rapaz do Grupo, uma ocasião se queixava que ele chegava atrasado, que não levantava babá-babá-babá... eu disse: Por que você não reza para as almas do Purgatório? – “Dr. Plínio, elas são pontuais demais! Tanta vontade assim de acordar eu não tenho também”...

Bom, para terminar agora, outra coisa: nós compreendemos o que há de heroico na Consagração a Nossa Senhora segundo a fórmula São Luís Maria Grignion de Montfort. Porque o natural é que se faça entre os nossos méritos e os nossos pecados, uma balança. E que os nossos méritos atenuem o rigor de nossos pecados, atenuem, portanto, o rigor do Purgatório para nós.

Na Consagração, segundo o método de São Luís Grignion, a gente dá isso a Nossa Senhora, dizendo: Minha Mãe, esses méritos – eu sou vosso escravo – e portanto, nem esses méritos (quiçá bem minguados...) nem esses méritos eu quero dispor deles. Se Vós quereis dispor deles de outra maneira para salvar alguma alma ou para diminuir o purgatório de alguma “capitana”, eu estou à disposição. Porque Vós quereis, eu no Purgatório esperarei o tempo que Vós entendeis.

Nasce naturalmente – e eu me lembro que nasceu em mim quando eu li o “Tratado” pela primeira vez – um surto de esperança. Disse: é, Nossa Senhora premeia, e com certeza, mais adiante São Luís Grignion diz que a pessoa com isso abrevia mais do que se não renunciasse. Quando cheguei no texto, São Luís Grignion é sibilino, ele não diz nada. Ele diz só o seguinte: que Nossa Senhora nunca se deixará vencer em generosidade por alguém.

Mas, isso não garante a matéria do Purgatório... Pode ser que um de nós tendo feito essa Consagração com seriedade, Nossa Senhora resolva dar graças – e ter feito um ato de renúncia, portanto, grande – Nossa Senhora resolva nos dar nessa terra graças de outra natureza, graças de santidade, graças que vão repercutir eternamente em nossa situação, e não nos alivia o Purgatório. Nós não sabemos. E ele não é claro a respeito desse ponto onde eu, que gosto das coisas bem amarradas, folhei e refolhei para ver o que é que encontrava.

Eu encontrei – não é propriamente a imprecisão – eu encontrei mistério. E eu transmito como encontrei.

São Tomás antes de tudo fixa com a clareza que é a dele, portanto solar, princípio que eu abordei aqui de passagem: o Purgatório existe em virtude de uma exigência da justiça. Foi cometido um pecado, é preciso ser reposto. E há com isso uma purificação da alma.

Nós podemos usar de um exemplo para fazer compreender bem o alcance disso? Podemos.

Imaginem um pai que tem um filho preguiçoso, parecido com esse meu caro membro do Grupo – eu nem me lembro quem é – que acabou não recorrendo às almas do Purgatório porque elas acordavam com demais pontualidade.

Vamos imaginar que um pai tem um filho preguiçoso desse jeito, e que o filho fica dormindo até, vamos dizer, duas horas da tarde todos os dias. Quando ele se levanta ele está ultra dormido, está molemente dormido, ele se espreguiça e ainda durante o dia algumas vezes ele se espreguiça e boceja. Porque como ele dormiu demais, ele tomou gosto de estar dormindo, e quando ele está acordado, ele tem saudades do momento em que estava dormindo e tem uma certa pressa de que a hora do sono chegue. E por causa disso, durante o dia ele tem “n” molezas que são as saudades e a esperança do sono. A moleza é um hífen entre as saudades e a esperança do sono.

Esse indivíduo passa o dia inteiro carregando dentro de si, circulando dentro de seu sangue por assim dizer, o tóxico dessa moleza que ele contraiu dormindo demais.

Imaginem que o pai diga o seguinte: “Você pensa que isto vai ficar impune? Mas você vai ter que correr por cada hora de atraso, na estrada, uma hora inteira ida e uma hora inteira volta. E eu vou mandar um funcionário meu acompanhá-lo, sem ajudá-lo. Você tem tal tempo para chegar entre tal e tal e fazer esse percurso várias vezes”.

O que é que o pai faz? Na ordem da justiça ele repara a Deus Nosso Senhor pela injustiça que Deus sofreu. Essa preguiça é uma injustiça com Deus e obrigando o preguiçoso a correr, a honra divina fica desagravada, a glória divina fica desagravada.

Mas ele ao mesmo tempo obrigando o filho a correr, ele como que obriga o filho a expulsar de si os resíduos daquela preguiça, os resíduos daquela moleza, o tóxico, a maconha do mau sono que ele teve e que o enche de moleza o dia inteiro. Liberta-o, limpa-o da lama do próprio pecado. É uma purificação.

O Purgatório faz isso. A pessoa morre levando consigo um estado pantanoso e venenoso, uma série de deleites que teve durante a vida dos quais não se tenha arrependido proporcionalmente e que constitui para ela uma espécie de tesouro que ela carrega. Então, é justo que a pessoa seja, pelo fogo, privada deste tesouro, perca este lamaçal que está dentro de si para aparecer diante de Deus. Porque não pode aparecer diante de Deus o homem que levanta da tumba espreguiçando. Não é possível.

Esse é o fundamento do Purgatório. Não sei se me exprimi com a clareza proporcionada, adequada. Mas esse é o fundamento do Purgatório.

A mera atrição do pecado – diz São Tomás – quer dizer o mero arrepender-se por medo do Purgatório e mesmo a mera contrição, quer dizer, “andei mal, ofendi-vos Senhor, ofendi-vos Senhora, e por isso Vos peço perdão”, isso também não basta para apagar o Purgatório.

É como um preguiçoso que levanta todo espreguiçado e um pregador faz a ele um sermão provando que ele faz mal estar preguiçoso. “É verdade, perdão, perdão...”

Não senhor! Agora, vá correr na estrada! Tem que pagar uma penitência.

Na Idade Média as penitências eram muito maiores do que hoje em dia. Eram penitências, o quê? De ir a pé a Santiago de Compostela e o homem morava na Suécia... E pelas estradas daquele tempo. Não é qualquer coisa.

Ir passar um mês, dois meses, três meses numa gruta sozinho; ou contar publicamente o seu pecado às pessoas a quem tenha desedificado. Procurar e contar. Daí para fora. Eram penitências duras.

Hoje não, é 3 Ave-Marias, 4 Ave-Marias... Está muito bem. O que é que fica depois? Quer dizer, se o homem não foi inteiramente coerente no que ele pecou, o que fica depois? Ah, é muito complicado!

Agora, o lugar do Purgatório.

São Tomás trata com aquele método dele: se o Purgatório é um lugar e onde é esse lugar.

Ele diz que a maioria das pessoas acham que o inferno é no centro da terra. Se o inferno é no centro da terra e é um lugar de horror, assim como o ar é respirável, é um lugar de agrado, então o Purgatório que é uma situação penitencial, mas não é uma coisa horrível como o inferno, deve estar acima do inferno. No fundo tem que estar o inferno, e próximo do inferno tem que estar o Purgatório e não tendo acesso ao ar. Acrescenta ele que o Purgatório convém que fique perto do inferno porque se aproveitam as chamas do inferno para queimar os que estão no Purgatório.

Os senhores têm ideia... os calores que a “capitana” deve sofrer até o fim do mundo! Se é que, outros já não abreviaram as penas da “capitana”. Mas não parece porque a previsão é taxativa: vai ficar até o fim do mundo.

Agora, no que consiste o Purgatório?

Consiste em duas espécies da pena. Em primeiro lugar a pena do dano. No seguinte sentido: não o desespero, mas assim como para o condenado no inferno é terrível não ver Deus face a face, também para o condenado no Purgatório – e é a maior pena do condenado no inferno é essa, ele nunca verá a Deus – assim também para o condenado no Purgatório é tremenda a ideia de que ele está retardado no ver a Deus. E que ele podia estar vendo Deus face a face, felicidade suma da qual ele tem no estado dele uma noção muito clara, ele está perdendo tempo, perdendo tempo, perdendo tempo, ele podia estar vendo a Deus, podia estar vendo a Deus, não vê, não vê, não vê... E a pressa dele é uma pressa terrível.

Agora, outra pena é a pena dos sentidos que o fogo material purga. O fogo do inferno tem isso de próprio que ele queima as almas espirituais e a pessoa sente – o corpo não está no Purgatório, depois da ressurreição não haverá Purgatório – mas a alma está e ela tem a pena dos sentidos.

Sobre a pena dos sentidos há coisas incríveis. Por exemplo o seguinte: no corpo – diz São Tomás – há partes em que, ele não entra nessa precisão anatômica, mas é assim – as células, as ramificações nervosas são mais abundantes e outras em que as ramificações nervosas são menos abundantes. Sofre-se mais nas partes em que as ramificações nervosas são mais abundantes. Ele diz que o mesmo é com a alma. Que a alma quando está no Purgatório ela sente sobretudo nos pontos em que ela foi mais sensível, em que a sensibilidade dela pecou mais.

Então, nós já podemos ter uma ideia por onde é que vamos ser queimados. Não sei se está clara... Porque eu notei um silêncio na sala, um pouco desconcertante...

Agora, como a alma é muito mais sensível do que o corpo – diz São Tomás – as dores da alma no Purgatório farão sofrer muito mais do que as dores do corpo aqui na terra, e portanto, nós imaginando um corpo cheio de dores, temos uma imagem apenas insuficiente do que é uma alma condenada ao Purgatório.

Contínuo claro ou não? Porque eu vejo que positivamente não estou entusiasmando... Mas era preciso: [exclamarem] “Mas que divino!! Que intransigência!” Eu quisera encontrar essa reação...

Diz ele (São Tomás) mais ainda. Que como na alma bem ordenada – e as almas do Purgatório o são e para usar uma expressão que ele não usa – o que o homem tem de mais dinâmico é o desejo de ver a Deus, ele ali é queimado não só pelo desejo não satisfeito, mas por uma especial punição, um fogo especial se soma a isso e ele tem torturas com isso. É uma coisa, portanto, terrível.

Depois, diz ele, o fogo do Purgatório é criado por Deus. Ora, tudo quanto Deus faz é muito bem feito, logo o fogo do Purgatório é muito bem feito. E queima de maneira a proporcionar verdadeiramente o sofrimento que nós estamos imaginando.

Mas, há uma coisa que aí é um lenitivo. É que a cada – falemos em dia – cada dia que passa – a expressão não é inteiramente própria - mas a cada dia que passa ou a cada instante que sofre, a alma percebe que ela está por assim dizer mais leve, e nisto tem uma certa sensação de caminhar rumo a Deus, que constitui uma compensação.

Ele dá uma coisa que é um princípio anti-igualitário tremendo. Duas pessoas que cometeram o mesmo pecado venial são desigualmente punidas, não são igualmente punidas. Porque os apegos nunca são iguais e a pessoa não é punida apenas pelo ato que pratica, mas é punida pelo apego com que praticou o ato. De maneira que aí há alguma certa desigualdade. Pode ser até muito pronunciada.

Aí, meus caros, a alma que está no Purgatório deve pensar assim: “A” e eu cometemos juntos o mesmo pecado venial. Mas eu vejo que ele está subindo mais depressa do que eu.

Qual é a minha reação? Não é a seguinte: Olhe, segura porque este aqui também...

(Risos)

Mas é o contrário: Que alívio! pelo menos ele está subindo!

Aí os senhores conectem as duas atitudes de alma: adorar a Deus na sua infinita severidade, e alegrarmo-nos porque os nossos cúmplices estão subindo mais depressa do que nós e vão ver a Deus mais depressa do que nós e de dentro do braseiro escuro dizer: “Feliz dele, a essa hora ele estará vendo a Deus. Como ao menos isso me consola!” dão o perfil de um homem que está no Purgatório rumo ao Céu, de uma alma que se salvou.

Tomem esse perfil moral, quando a gente o tem verdadeiramente, é possível a gente ser revolucionário? Toda a Revolução com os estilos, modos de ser dela vai de pernas para o ar, desde que se saiba ensinar essas verdades em função da Revolução.

Não é nem sequer preciso fazer referência à Revolução. Eu estou fazendo porque temos essa liberdade, mas um bom pregador que falasse apenas disso em tese com muita força, um Santo Antônio Maria Claret por exemplo, que falasse isso com muita força, quando chegasse a hora do comunista meter inveja, meter ódio, essas coisas todas, ele encontrava as portas fechadas:

- Nós não nos entendemos, pelo contrário, eu censuro muito esse homem. Começa a discussão.

- Então você não vê aquele que é rico?

- Graças a Deus, eu fico tão contente quando eu vejo que ele é rico.

- Como? Você é louco?

- Não, mas não é bom? Ele é nosso irmão. Você não falou de fraternidade há pouco? A gente não fica alegre quando o irmão da gente é rico?

- Nunca! Exige que ele dá.

- Não, não. Eu fico contente quando passo pela casa dele, imagino a felicidade dele.

Não está presente a matéria-prima para fazer comunismo.

Meus caros, com isso está terminada a nossa reunião. Tivemos, pelo menos, uma hora e vinte de reunião e já é quase meia-noite e meia.


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