Plinio Corrêa de Oliveira

 

Amar o maravilhoso e  pensar  nas  arquetipias:

uma via rumo a Deus?

 

 

 

 

 

 

Santo do Dia, 12 de outubro de 1985, sábado

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A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.



 

 

Bom, para saber o que é um arquétipo, eu preciso saber o que é um tipo. Uma vez que os srs., firmes sempre na etimologia, sabem que a palavra arquétipo vem de “arqui-tipo”. Arquibancada é uma bancada por cima de outra, tem outra, tem outra, faz uma arquibancada, uma coisa em cima da outra, em cima da outra… Bem, tal coisa é arqui-conhecida, quer dizer, há uma porção de outras coisas que são conhecidas, esta é mais do que todas as outras, ou mais do que muitas ouras. Então cada degrau de uma escada é análogo ao outro, mas o mais alto degrau da escada pode ser mais ornado, tem um tapete que chega até lá, deita suas franjas etc., é mais enfeitado, é mais importante, porque é o fim da escada. Ele é de algum modo o arquétipo dos outros degraus. De algum modo….

Então, se isto é assim pode-se dizer o que é arquetipia. Nós chamamos de arquetipia, na nossa linguagem (das reuniões mais bem dadas a estudos filosóficos, com uma comissão de membros da TFP) do MNF, o fato de que Deus pôs nas criaturas dele uma ordem, uma relação pela qual umas são tipo das outras e a que está mais no alto é arquetípica. Quer dizer, é o tipo dos tipos.

Agora falta ver o que é que é um tipo. Os srs. imaginem uma rosa, por exemplo: bonita, agradável de ver etc. Mas, é possível que os srs. gostem de olhar a rosa, mas não a achem uma rosa típica. Mas se ela tem todas as formas de beleza próprias de uma rosa, os srs. dizem: rosa é isto! Quando se diz ‘rosa é isto’, diz-se: esta é um tipo de rosa. Quer dizer, é uma rosa que caracteriza, que resume em si, que apanha as qualidades de todas as rosas. É um tipo!

Fulano é um brasileiro típico. O que é quer dizer isto? É que é um brasileiro que reúne em si as qualidades comuns do brasileiro (e os defeitos, hein?). Mas de um modo especial aquilo por onde o brasileiro nas suas qualidades e nos seus defeitos é diferente das outras nações. Então, a gente olha para aquele e diz: aquele é típico. Não é isso?

Dentro do Brasil há tipos. Um pode ser um gaúcho típico, um catarinense típico, um paraense típico, um paulista típico, um carioca típico... Nós percorreríamos toda a lista dos Estados. Cada Estado tem seu tipo. Quer dizer, ele tem os traços que todos têm (ele tem também). Mas aquilo por onde naquele Estado as pessoas são diferentes das outras, ele tem muito marcado. Então aquele é um tipo daquele Estado. É um tipo.

* O arquétipo possui na plenitude as características do tipo

O arquétipo é o tipo multiplicado pelo tipo. Então vamos dizer (eu não quero mencionar aqui nenhum Estado, porque somos de todos os Estados possíveis, nem nenhum país também, não é fácil), mas vamos mencionar no mundo da lua: Fulano é um siamês típico... Suponho que... até filipino já há, mas siamês ainda não há. Suponho que ele tem tudo quanto é próprio a alguém que nasceu na Indochina onde havia o antigo reino do Sião; então ele tem tudo quanto é próprio de quem nasceu no antigo reino de Sião, mas tem de um modo caraterístico, que o diferencia dos outros. Bom, mas ele é arquétipo quando esse tudo que ele reúne, é “tudíssimo”. E o que diferencia o diferencia muito, então ele é o arquétipo. Ele tem aquilo levado ao mais alto grau. Está mais ou menos claro isso?

Agora, então a tese é essa: Deus Nosso Senhor criou as coisas de tal maneira que toda a espécie de pedras, vamos dizer, acaba tendo uma pedra que é arquetípica. Há pedras comuns, pedras-tipos e pedras-arquétipos. Os srs. pode imaginar um rubi a quem um joalheiro pega com uma pinça. Perguntam-lhe que pedra é essa. Ela analisa, pensa um pouco etc., etc., e diz: será um berilo? Será uma turmalina vermelha? São pedras vermelhas. Será uma granada? É uma outra pedra vermelha. Pensa, pensa e diz: não, isto aqui é um rubi! Agora, se lhe dão uma pedra, ele olha um pouco e diz: o, isso é um rubi! Este um tipo.

 O primeiro é um rubi meio apagado, meio que se confunde com outras coisas. O segundo, não. É rubi típico, não é?

Agora, se lhe mostram um rubi da coleção dos antigos Xás da Pérsia, um rubi multiplicado pelo rubi, ele diz: “Oh! que rubi!!”

* Deus, até o fim do mundo, terá criado uma coleção completa de cada espécie

Bem, se os Srs. tomarem a coisa mais [singela]: o esquilo. Os srs. já viram esquilo brincando em árvore, naturalmente. Bem, é um bichinho, tão engraçadinho (um pouquinho parecido de mais com o rato para o meu gosto). Mas são muito engraçadinhos… e fazem coisas que tem muita coisa de engraçadinho.

Bem, nós entendemos, e há certos fundamentos disso em S. Tomás, etc., que todos os esquilos que Deus criou desde o começo do mundo até ao fim do mundo não são criados a esmo. Mas que formam uma coleção. De maneira que todos os modos de ser, principais, possíveis, no gênero esquilo, acabam até o fim do mundo existindo. E formam uma coleção de esquilos que morrem. Mas Deus terá criado essa coleção de esquilos.

Assim, tudo é em coleções no universo. Mais perfeitas, mais graduadas, menos graduadas, mas tudo forma coleções.

Eu me lembro que uma vez eu li, que num lugar do Polo Sul, por debaixo da neve... os srs. sabem que o Polo Norte é todo feito de água consolidada, não tem terra embaixo; no Polo Sul tem terra; terra é um modo de dizer, há um corpo sólido, corpos  sólidos ali; mas uma parte é água consolidada, que entra pelos meandros daquele corpo sólido, forma golfos, baías, mas tão duras quanto corpo sólido, porque pelo frio virou gelo. E há cardumes de camarões tão numerosos, que através do gelo meio transparente se percebe o róseo passar. O róseo, não digo bem. Não é bem o róseo, mas é a cor típica daquele camarão. Percebe-se que passa.

 Todo os camarões desde o começo do mundo até ao fim, todos os camarões, no fim, esgotam uma coleção. De maneira que se fosse possível ver todos os camarões que houve e haverá até ao fim do mundo, compreenderia que é uma verdadeira beleza.

Naturalmente, os srs. poderão dizer:  mas por que Deus faz isso? Porque se estes bichos desaparecem, Ele é eterno, e Ele tem em Si toda as perfeições. Ele não tem as perfeições, Ele é as perfeições! Que lucro ele em ver esses bichinhos?

* Os anjos cantam a glória de Deus ao contemplar cada coleção

Para dar uma resposta numa reunião que já começa tarde e não pode ser longa, é claro, para dar uma resposta, basta que os Anjos vejam para se justificar. Porque os Anjos assistem a tudo isso. E eles estão colocados, de algum modo, fora do tempo. E para eles tudo é, de algum modo, simultâneo. De algum modo, eu estou simplificando. Então, eles têm essa noção, eles cantam glórias a Deus...

 Os srs. dirão: mas quando acabar o mundo acabará isso também. Não, porque na recordação deles fica. Fica na nossa admiração, porque nós não vemos como eles, mas podemos imaginar como é. E então é uma bonita coisa a gente olhar, por exemplo, para um esquilozinho e perguntar: quantas modalidades de esquilo houve e haverá até ao fim do mundo? Em cada gênero, quantas espécies? Em cada espécie, quantas famílias?

 Em cada família, quantos indivíduos? Que riqueza da obra de Deus! Que maravilha há dentro disso! Dá para uma meditação muito bonita...

Seria interessante, um dia a gente fazer com uma certa calma, numa reunião, onde eu consiga chegar mais cedo, a gente tomar alguns exemplos, analisar, etc. Seria uma coisa muito adequada, muito boa!

Agora, por que em última análise isso?

Imaginem todas as criaturas, então, já não apenas cada gênero formando uma coleção, mas todas as criaturas que há, ou houve na terra, formando uma coleção de coleções… (notem que os Anjos vêem isso assim!)

* No pináculo de cada coleção, um arquétipo, que é o rei da coleção

Os Srs. podem imaginar a variedade. E depois, em cada pináculo de uma coleção, um arquétipo, que é como que o rei e o monarca daquela coleção. Várias modalidades de arquétipo, porque a natureza, vamos dizer, dos esquilos, é tão rica, que não basta ver um para dar uma ideia do tipo-esquilo, oito, cinco, cinquenta, cinquenta mil arquétipos de esquilos. Mas depois, alguns que vão mais… No fim, pode-se imaginar o rei dos esquilos!

Os Srs. não acham que isto que eu estou falando é acessível, é fácil de entender? E não acham também que distrai o espírito? Por exemplo, os Srs. não encontram um certo repouso tratando disso? Ora, a matéria que nós estamos tratados é filosófica... Se convidasse os Srs. para uma reunião sobre filosofia, que susto, hein! Mas eu acredito que sendo apresentada a coisa de um modo humano, de um modo vivo e não apenas de um modo esquelético, as coisas da filosofia podem atrair e aqui está um exemplo concreto.

* Cada elemento da coleção exprime de algum modo a perfeição infinita de Deus

Agora por que é que Deus criou tudo isto? É para os anjos verem, está bem. Só por isso? Haverá uma outra razão? Há. É que todas essas coisas exprimem de algum modo a perfeição infinita dEle. E cada ser que existe é como que uma mensagem de Deus, que nos diz: “Meu filho, note, Eu também sou isto. O esplendor de todas as auroras, a majestade de todos os meios-dias e a dignidade vitoriosa de todos os ocasos, tudo isto reflete-me a mim. E se Eu devesse ser conhecido apenas neste filme fantasmagórico que representasse todas as auroras, todos os meios-dias e todos os ocasos de todos os lugares do mundo, em toda a História, ainda Eu nem de longe, estava esgotado, para tu teres uma idéia do que Eu sou. Mas, enfim, aqui está uma coleção que pode dar uma idéia genérica, uma idéia global do que sou Eu, debaixo desse ponto de vista. Mas olhe agora para o esquilo! E na agilidade do esquilo, e naquilo do esquilo que faz sorrir, compreenda que há algo por onde Eu sou infinitamente aprazível, infinitamente atraente, infinitamente distensivo. Eu tenho também, sendo infinito - parece-nos dizer Ele – Eu tenho em mim a matriz infinita daquilo por onde o esquilo é engraçadinho. Poder-se-ia dizer: eu sou o mimo, Eu sou a graça, Eu sou a majestade, eu sou a bondade, eu sou aquilo, aquilo e aquilo outro. Veja, meu filho! São mensagens que eu dou!”

Os Srs. querem ter um exemplo? Os Srs. têm por aí: há uma imagem muito bonita. Aliás, são duas imagens meio parecidas: uma é a de Notre Dame de Paris, que é muito conhecida, está na fachada da Igreja de Notre Dame, e é Nossa Senhora com o Menino Jesus no braço. Ela está complacente, muito materna com ele. Ele repousando, posto nos braços dela com uma intimidade, é Mãe e Filhinho criança. Mas Ela régia. O Menino Jesus, Homem-Deus, não terá feito algumas coisas à maneira de criança, e com graça de criança para Ela olhar?

Outra imagem parecida é La Virgen Blanca! Foi mandada para a Catedral de Toledo pelo primo-irmão do rei S. Fernando da Espanha, S. Luís, rei de França. Ele mandou-a para a catedral de Toledo, onde é conservada na veneração que os Srs. Podem imaginar.  É uma obra prima. Eu creio que é nessa imagem (Não tenho memória muito boa, é muito ruim até), que aparece Nossa Senhora com o Menino Jesus no braço, e Ela mostra a Ele uma bola, ou qualquer coisa assim. Ele sorri. E Ela tem uma expressão ligeiramente “entretenida” da reação infantil de Deus! De Deus em face dEla. E Ela, que é Filha do padre Eterno, Mãe do Verbo Encarnado e Esposa do Espírito Santo, que conhece Deus como jamais criatura humana conheceu igualmente, e que tem a idéia de todas as majestade e todas as grandezas de Deus de modo como nenhuma criatura humana teve, Ela sabe que Deus, das excelsitudes de Suas perfeições A está fazendo sorrir.

Não sei se os Srs. não sentem o envolvimento do carinho, da bondade. Um incitamento à confiança na misericórdia…. Se tudo isto não dá aos Srs. mil idéias sobre Ele, que é o ápice de tudo. É a ponta, o mais alto cume de tudo.

 Mais ainda, Ele não é só o mais alto cume. É mais do que isso. Tomem (uma vez vi uma coluna assim que me impressionou, infelizmente não guardei a fotografia) uma ruína, de um lugar de civilização grega ou romana, da Ásia menor, uma ruína; no meio da cacarecada uma só coluna de pé. Quer dizer, tinha acontecido de tudo, mas aquela coluna tinha ficado de pé sozinha! Eu senti assim um arrepio olhando para aquela coluna.

Eu pensei, mas por que esta coluna… (um cilindro com uma base ornada um pouco, e um capitel (era uma coluna de ordem coríntia, muito mais ornada, com as folhas de acanto, e tal, mais ornada…) por que razão estou tendo essa impressão? Por que chegou a me arrepiar? É porque esta coluna lembra de muito perto certo tipo de resistências que o homem pode opor, quando tudo em torno dele cai, mas ele continua de pé.

Havia uma altiva família de príncipes em Roma, que se chamava Colona. Colona quer dizer coluna. O brasão deles era uma coluna e embaixo estes dizeres: “Sua mole stat” - por seu próprio peso, por sua própria figura, está de pé!

Aí eu percebi a razão pela qual aquela coluna me tinha arrepiado. Eu começo por dizer que não me arrepio com arte grega ou romana… Tem coisas muito bonitas, mas não é para o meu gosto especial… Cada um é lá de um jeito. O meu jeito é este.

* Os seres inanimados refletem o homem, que os transcende

Aquela coluna me impressionou, não por ser de estilo grego, mas por estar de pé daquele jeito. Eu entendi: é que a coluna lembrava uma ordem de seres, uma categoria de seres, muito superior a ela, que é o homem. O fato de lembrar o homem e sem ser homem, indica que o homem transcende a coluna por sua natureza: ele é muito mais. E que a coluna tem apenas em pedra ou em tijolo o que o homem tem em alma, tem de espírito. A firmeza de alma, esta firmeza de alma, o homem-coluna tem!

 Por exemplo, Santo Atanásio chegou a ser tão perseguido porque ele combatia os arianos, no tempo do Império Romano do Ocidente e do Oriente, mas já cristãos, católicos, ele combatia os arianos com muito vigor. Mas o mundo inteiro, de repente ficou ariano e ele ficou quase sozinho na luta dele. Tão perseguido que, em certo momento, ele não teve outro remédio para evitar de ser morto do que entrar na sepultura dos pais e morar na sepultura dos pais escondido. Mas ele lutou contra tudo e contra todos; e o Concílio de Nicéia, com um gáudio enorme acabou definindo algo sobre a relação entre a natureza humana e da natureza divina de Nosso Senhor Jesus Cristo de acordo com a verdadeira doutrina e contra o que Ario queria. E daí decorria (dessa posição), que Nossa Senhora era a Mãe de Deus. Então, quando os Bispos todos em Nicéia definiram o dogma sobre essa relação entre a natureza humana e divina, e o caráter materno de Nossa Senhora, era já noite e todos saíram com tochas cantando na cidade de Nicéia aclamações a Nossa Senhora. Santo Atanásio pode ser chamado a coluna da Igreja. Pobre da coluna que eu vi de pé no meio das ruínas! Um terremoto a derruba... Nada derrubou Santo Atanásio. Ele tinha a graça de Deus, que o ajudou, mas ele correspondeu. A muitos Deus oferece a graça e não correspondem. A ele não, Deus lhe ofereceu, e ele correspondeu largamente, generosamente. O nome dele ficou com uma espécie de glória de fogo na História da Igreja.

Então, Santo Atanásio transcende as colunas. Quer dizer, ele é de uma natureza superior; aquilo que a coluna tem por analogia, Santo Atanásio tem com muito mais propriedade, pois está na natureza humana.

Bem, Deus é transcendente absolutamente. E o que tem o esquilo, tem o rubi, tem a coluna, tem Santo Atanásio, Deus é tão superior, mas tão superior, que Ele transcende a isso. Quer dizer, é de uma superioridade que é um abismo entre Ele e nós. Para lá desse abismo está a perfeição dEle. Pelo seguinte: nós podemos dizer que Santo Atanásio era fiel, que Santo Atanásio era forte. Ele (Deus) não é nem fiel, nem é forte. Ele é “a” fidelidade. Ele é “a” força. Todo o mundo que é fiel o é por uma participação dEle. Porque Ele movimenta, Ele é o Motor Imóvel. Tudo subsiste porque Ele sustenta. Por cima de tudo está Ele.

Para nós compreendermos esta relação {{e para se ter uma certa noção da infinidade de Deus}}, Deus criou esta coleção enorme de coleções, de tipos e de arquétipos. E depois, por cima (o homem não é o arquétipo da coluna; Santo Atanásio está para com a coluna numa relação não igual, mas um tanto parecida com a relação entre Deus e o homem) e Deus não tem ninguém acima de Si, ele é supremo, perfeito, infinito.

* A inocência procura os arquétipos instintivamente

Bem, então, o que acontece com natureza humana? Quando a natureza humana é reta, os Srs. percebem que ela instintivamente procura os arquétipos. Experimentem uma criança deitada no berço. Ponham diante de uma criança, que apenas sabe dizer “mama”, e que de alguns objetos assim ela tem uma certa noção. Pega os objetos e se põem diante dela. Os Srs. amarrem num fio de linha uma bolinha de pingue-pongue, branca e comum. Façam assim diante da criança. O seu instinto lhe diz que algo existe. E ela procura, desajeitadamente, com os braços pegar a coisa. Quando pega, ela tem o instinto de propriedade. A gente quer tirar e ela não deixa. Bem, mas há uma coisa que não falha: os Srs. viram essas bolas bonitas que se põem nas árvores de Natal, nem sei bem de que material é aquilo (hoje devem ser de uma matéria plástica qualquer, porque o mundo todo está ficando de matéria plástica.) Mas antigamente era de uma coisa vagamente à maneira de vidro, nunca perguntei bem. Mas eram bolas bonitas, com cores reluzentes, dourado, verde, vermelho, azul, etc., cores lindas! E suspendam ao mesmo tempo diante da criança a bolinha de Natal e a bolinha de pingue-pongue. Ela tem um movimento para o maravilhoso, ela vai para aquilo que tem mais luz. É uma coisa instintiva.

Os Srs. ponham para uma criança, vamos dizer, um instrumento de música que bata: pam! pam! pam! – um só som. A criança se habitua e não nota. Os Srs. imaginem que se ponha um pouquinho de música. A criança estando um pouco mais desenvolvida presta mais atenção. É por quê? A sua natureza, apetente de maravilhoso (no fundo apetente de Deus) se ela de algum modo, nos seus sentidos, ela fosse tocada por Deus, ela inteira se voltaria para Ele. A criança apetente do maravilhoso e no fundo, nisto mesmo, apetente de Deus, a criança, quando se coloca sempre algo de mais excelente, ela tende para aquilo que é mais excelente. Isso é reto. Pode ser que, depois, a criança abuse, tenha a mania de ter uma coisa, desordens próprias da natureza humana. Mas, em si, este primeiro movimento é um movimento reto. É um movimento pelo qual o homem quer aquilo que é mais excelente, que lhe convém mais.

E por causa disso, a criança tem uma imaginação muito fértil. Ela facilmente atribui aos brinquedos que tem uma qualidade que o brinquedo não tem.

 Uma vez, eu passei por uma cruel decepção… Eu tinha, talvez, três anos e meio para quatro, e eu tinha um brinquedo comum: um cavalinho de pano posto sobre umas rodinhas com eixo de metal. E havia um laçozinho pelo qual eu podia puxar o cavalo. O cavalo para meus braços era um cavalo muito grande, eu tinha uma certa dificuldade de segurar o cavalo. Então, eu chamava o cavalo de “Enorme”. Quando eu ia brincar, eu pedia para me darem o meu “Enorme”! Bem, depois, minha mãe adoeceu. Eu fui com ela para a Europa, para ela ser operada, etc., e guardaram num armário o “Enorme” para eu brincar quando eu voltasse.

 Bom, quando eu voltei (durante a viajem à Europa, de vez em quando eu falava do “Enorme”), eu tinha talvez um ano mais, e nesse período um ano faz uma boa diferença. Então, eu voltei e disse: “Quero o meu Enorme!” Então me levaram, e me lembro como se fosse hoje, para um quarto no andar térreo da casa onde havia um armário onde se guardavam os brinquedos de minha irmã, de minha prima e meus. Estava tudo trancando, porque a minha prima e todo o mundo esteve fora nesse período. Então, tiraram e me deram o “Enorme”.

A minha primeira reação foi: “Esse não é o meu “Enorme”! Risadas de duas ou três pessoas em torno de mim. Risadas achando que era o “Enorme”. E era terrivelmente parecido com o “Enorme”, mas terrivelmente mais poca do que o “Enorme”. Qual é a razão?

 Em parte, eu tinha crescido, e o “Enorme” tinha deixado de ser enorme. Em parte, eu notava muito que o “Enorme” era de pano, quando fiquei mais velho, e que era um boneco. Quando eu fui, eu quase o imaginava um ente vivo. Não imaginava diretamente isso. Mas era quase como se fosse em ente vivo. Eu atribuía, portanto, ao “Enorme” algumas qualidades que um cavalo devia ter, e que um boneco não podia ter. Eu estava, no fundo, à procura da arquetipia do brinquedo de cavalo, estava à procura de alguma coisa que transcendesse até: era o cavalo vivo! E coisas dessas são movimentos que existem na alma de todas as crianças. É uma das coisas que faz a maravilha da criança é exatamente isto.

 Por exemplo, a árvore de Natal. Não há um só nesta sala que, em criança, não se tenha extasiado diante de uma árvore de Natal. Mas o que é a árvore de Natal?

A gente pode imaginar que ela seja a figura de uma árvore como poderia existir no Paraíso terrestre. O homem, como está na terra do exílio, não tem as coisas como são no Paraíso. No Paraíso as coisas são muito mais bonitas. O que no Paraíso é mero tipo, para a Terra é um arquétipo não alcançado. Então o homem imagina a árvore de Natal e a criança se encanta, porque a sua alma é desejosa de uma perfeição não existente nas coisas que existem. E ela quereria uma ordem de coisas, quereria uma natureza, quereria outras pessoas, quereria tudo como não existe, porque a sua alma foi feita para coisas maiores, e deseja essas coisas maiores.

 Isso continua claro? (Sim!)

* Como deveria ser uma educação verdadeiramente católica

Bem, agora, porque ela deseja essas coisas maiores acontece que ela tem uma forma de talento, por onde ela como que advinha a perfeição que tudo deve ter. E por causa disso também, a criança tem uma imaginação muito criativa e tem o senso do maravilhoso levado a um alto grau.

Numa educação verdadeiramente católica, os pais deveriam fazer o quê?

Ensinar às crianças a realidade inteira. Quer dizer, o que tem aqui é isto. É assim, porque estamos numa Terra de exílio, foi cometido o pecado original, depois nós  também pecamos. O que merecemos é isto. O que tem é isto. Isto é muito bonito. Então, o esquilo é muito bonito.

Mas se quiser imaginar que haja esquilos no Paraíso (pode imaginar), esquilos se movimentando no Paraíso como é que seriam, “oh!… oh!…” E quando passa às vezes um bicho muito extraordinário: uma borboleta azul e prata, um beija flor, alguma coisa assim, a gente tem a impressão de que se extraviou do Paraíso e foi parar na Terra!

E é por isso que quando uma criança que tenha assim uma dessas coisas como rede para pegar borboleta, vê passar num jardim brasileiro, num parque (num jardim não dá, num parque brasileiro ou num mato brasileiro ou sul-americano em geral, eu suponho) uma borboleta azul e prata voando, a criança fica louca e quer pegar de todo o jeito. É algo de maravilhoso que ela quer pegar.

 Bem, essa tendência, um pai ou uma mãe deveria dizer: “está vendo, Deus fez assim o Paraíso. Isto aqui era o ponto de partida. Isto aqui está aqui para você ter idéia de como as coisas poderiam ser e não são. Procure imaginar, olhe para o que Deus fez de mais maravilhoso, procure prestar atenção, procure imaginar como seria o Paraíso. Procure fazer com que tudo quanto você mexa, você modele, tenha alguma coisa que exprima essa sua tendência para o Paraíso. Rume para a perfeição!

Mas, pobre Paraíso terrestre em comparação com o Paraíso celeste!

No paraíso celeste não há flores, há Anjos! E os Anjos estão disposto desta maneira, daquela outra etc., se dividem assim (a doutrina Católica descreve tudo isso.) As maravilhas como são, etc. E por cima de tudo, por cima de tudo, está Nossa Senhora! Pausa. Mais sua Mãe do que o é sua própria mãe. Porque ela te ama mais do que todas as mães juntas amariam o filho único que tivessem. A você! E se você se sente um ratinho para ser amado assim por Nossa Senhora, acredite porque é de Fé, a cada ratinho humano Ela ama assim! Creia e confie! Alegre-se e reze! Cuide de servi-La, de batalhar por Ela.

Mas, olhe para os olhos de Nossa Senhora, você vera que no fundo há um lumen que vai muito além do dEla. Ela está olhando para você, mas ao mesmo tempo está olhando para o alto, para alguém: o Divino filho dela! Há um lumen Christi, uma luz de Cristo nEla que já vai além do humano. É humano, mas é divino. Mais ainda, Ela está vendo Deus face a face! Olhe para os olhos dEla e é como se você olhasse num espelho para ver o Sol: o maravilhoso do maravilhoso do maravilhoso, a perfeição de todas as perfeições!

 Se todos homens tivessem isso diante de si, os Srs. não acham que o mundo seria outro? Os Srs. calculam bem que bem faria se nas Igrejas se fizessem sermões sobre isso? Por exemplo, um sermão sobre isso numa Igreja, os Srs. não gostariam de ouvir. Realçado por algo que tem a palavra do padre que a palavra do leigo não tem: é a graça do sacerdócio. Realçado pelo púlpito, pela dignidade do edifício sagrado, pelas bençãos especiais que Deus põe no edifício sagrado que é a Igreja. Tudo isto ali reunido e um padre dizendo isso para os Srs. Os Srs. não se comoveriam? Não era capazes de chegar meia hora, uma hora antes para reservar o lugar para ouvir o sermão?

* Para a pedagogia moderna, a arquetipia é bobagem, e só vale o dinheiro e a saúde

Bem, isto é assim e assim deveriam ser os homens. Quanta gente eu vi em torno de mim, já naquela remota época em que eu era pequeno, em que a formação era dada (não era dita assim, mas era isso): “Essas coisas são bobagens de infância, não pense nisso! Tudo quanto é maravilha é sonho. E você perde a partida da vida, se você pensar em coisas dessas. Seja prático! E para ser prático, você precisa de duas coisas: tem saúde e ganhar dinheiro.

 Saiba responder a esta pergunta: como ter saúde? Saiba o que é que lhe faz bem, o que é que lhe faz mal, faça os seus exercícios, mova-se de maneira a ter saúde, porque a doença é um horror. Outra coisa que é preciso ter é ganhar dinheiro. Seja rico! Porque a pobreza é a mais triste das condições. Aprenda a como ganhar dinheiro. Saiba sorrir, saiba agradar, saiba bajular, saiba dar rasteiras, saiba dar golpes, saiba avançar, saiba recuar, saiba fazer tudo, contanto que te caia nas mãos esta coisa incomparável: o ouro! Corra atrás do ouro! Não sonhe com as coisas nesta ordem. Que dinheiro te dão? Que saúde te dão? Feche seu horizonte e fique só nisso. Toque para a frente na vida! Você terá o prazer, você terá a riqueza!

Isto é o contrário da formação TFP. Se os Srs. quiserem saber como a TFP não é, é assim! A resposta pode vir assim: Mas está bem Dr. Plínio. Se a gente não der 100% de reflexão para ganhar dinheiro, a gente morre mendigo.

Alguém… Alguém com “A” maiúsculo e letras de ouro; Alguém que é o próprio Homem-Deus disse: “não vos preocupeis (noli solicitis sitis). Olhai os lírios do campo, não tecem nem fiam - tecer e fiar eram profissões lucrativas no tempo dEle, não tinha máquina, então o trabalhador manual muitas vezes era tecelão, fiava e tecia – não tecem e não fiam, entretanto, nem Salomão em toda a sua glória, se vestiu como eles.”

Quer dizer, confiai! Confiai, porque isto se arranja. O que não tem a saúde, pode ser recuperada. Pode ser recuperada a fortuna que se perde. Pode ser ganha a fortuna que não se teve. Pode ser obtida a saúde que não se perdeu. É possível, não digo que é certo, mas é possível. Uma coisa não se recupera: é o tempo perdido!

Os Srs. já sabem, aliás, fugit irreparabile tempus… E é preciso uma graça muito grande para que uma alma que se tenha deixado trancar nesses horizontes mais baixos, volte a compreender e querer o maravilhoso. É uma verdadeira conversão. E para essa conversão é preciso ter graças muito grandes e muito especiais. Uma graça assim se chama o “tau”!

Quando os Srs. começaram a conhecer a TFP, não é verdade que os Srs. viram, de longe… ouviram falar de longe da TFP, mas quando os Srs. começaram a tomar contato com a TFP nas suas cidades, nos seus países, não é verdade que os Srs. sentiram que era um pórtico espiritual que dava para um jardim espiritual maravilhoso e que à medida em que foram conhecendo os Srs. tiveram muitas vezes a sensação assim: isto vai além do que eu esperava. Nunca tiveram uma sensação assim: isto é contra o que eu esperava. Desde o primeiro momento do “thau”, tudo estava contido naquela primeira graça. Foi isso ou não foi isso? (Sim!) Foi.

 Está bem, então, saibamos compreender o nosso “thau”. Esse estado de amor ao maravilhoso, de amor desinteressado ao maravilhoso que é um dos aspectos por onde se vê o amor a Deus (Amar a Deus sobre todas as coisas - primeiro Mandamento). Este aspecto, esse amor ao maravilhoso, que é um modo de se focalizar o amor a Deus. Eu não falei, porque meu tema se tornaria inesgotável, o amor, o ver, por exemplo, as grandes figuras históricas canonizadas que refletiram a Deus de um modo, de outro modo, como é que é, como foi, etc., etc. Por exemplo, na Basílica de S. João de Latrão (nota: atualmente encontra-se logo na entrada da Basílica de São Pedro, n.d.c.), onde mostram para a gente, no chão, a laje de pedra sobre a qual estava ajoelhado Carlos Magno, na noite de Natal, quando o Papa Leão III entrou e o corou imperador, sem ele saber.

 Se qualquer um de nós fosse dono dessa pedra, dava até a sua vida para defender essa pedra. É um maravilhoso muito mais do que rubi, do que flor do que não sei o que… Papa, Vigário de Cristo, representada de Cristo na Terra, com o poder de ligar e desligar, o que ligares na  terra estará ligado no céu, o que desligar e na Terra estará desligado no Céu, coroado o imperador do Sacro Império.

Deixa rubi, deixa tudo longe, a perder de vista… Não tem comparação. Pobre rubi, pedregulho engraçadinho, diante da majestade dessa cena. Os sinos da Cidade Eterna bimbalhando, o Papa que entra, Carlos Magno majestosamente humilde, ajoelhado naquela pedra para rezar, e o papa que manda trazer uma coroa com que ele não contava e o coroa ali Imperador do Sacro Império. Funda o Sacro Império! Ah, que beleza!

É ou não é verdade que os Srs. tiveram na sua adolescência, desejos que na sua vida vissem maravilhas assim e que às vezes lendo cenas assim, os Srs. devem ter pensado: mas por que se tornou impossível que na nossa época haja coisas assim? Eu pensei isto inúmeras vezes. Os Srs. devem ter pensado também. Isto tudo são os desejos da inocência.

Quando uma alma conserva essa inocência, ela encontra o “thau” mais ou menos como uma flor que está para se abrir encontra, de manhã, o primeiro raio de sol que bate.

Às vezes, nós chegamos a certa idade com a inocência reduzida a cacos. Mas, oh, cacos preciosos! Eles são como aqueles peixes e aqueles pães da multiplicação dos pães. Bondosamente, Nossa Senhora os toma e os apresenta a Nosso Senhor. “vede que cacos, meu filho…” Ele recompõe.

Aí os Srs. têm a TFP! Forte, pura, unida e se regozijando com coisas tão espirituais.

Vejam esse pessoal fora. Eles passaram a semana inteira correndo atrás da saúde e do dinheiro. Todos eles estão trabalhados pelo medo de perder a saúde: “homem, quem sabe, eu não me estou sentindo hoje inteiramente bem. Eu senti hoje uma pontadazinha aqui neste osso. O que será, hein? Será câncer? Uh… preciso ver um cancerólogo na segunda!” Vai ver um não sei o que; vai ver o outro não sei o quê… Passa a semana correndo atrás de médicos, ou correndo atrás de banqueiro, ou correndo atrás de qualquer coisa que dê saúde ou dinheiro. Não olham para outras coisas. Sabem qual é o resultado? Nervosos, ansiosos, excitados. A alma deles têm felicidade? Pelo contrário, eles correm atrás da felicidade, mas a felicidade não corre atrás deles.

Em quem assim os Srs. conhecem a forma de bem-estar de alma que está havendo aqui nesta sala neste momento?

Isso tudo nos leva a muito altas considerações, nos leva à idéia de que nós devemos pedir a Nossa Senhora essa inocência. Devemos pedir para nós, devemos pedir para os nossos irmãos de vocação. Devemos pedir para todas as criaturas de Deus, porque Deus é infinito no seu desejo de bem e quer abarcar com sua grandeza e com sua bondade a criação inteira.

Para todas as criaturas de Deus, eu digo para todas as criaturas inteligentes, racionais. As outras são incapazes de um movimento por vontade própria, por intelecção própria, nessa direção.

Então, nós compreendemos o seguinte: há uma coisa nesta época que tem uma beleza comparável à beleza de Carlos Magno sendo coroado, sabem qual é? É lutar contra isso! Para que esse sol volte a iluminar o mundo. Esse Sol é Deus, é Nosso Senhor Jesus Cristo! O vitral por onde entra esse Sol é Nossa Senhora!

 Com isso, meus caros, fugit irreparabile tempus!

* Como era a noite e a árvore de Natal em sua infância

(Pergunta: Como é que na infância o senhor via a árvore de Natal nos dias de Natal?)

 Eu via a árvore de Natal precisamente como eu acabo de descrevê-la. Eu a achava linda, brilhante, muito bem ornada, sempre dotado de bom apetite, me parecia que realçava muito a árvore de Natal ver balas, bombos, doces, pendurados no meio dos enfeites. E não duvido muito que eu fosse, em geral, o primeiro menino a comer as coisas da árvore de Natal. Meu modo de ser era esse. E não era idade de faz nem penitência nem regime. De maneira que eu me entregava a isso de bom grado.

Posso dizer que, sempre amigo das cores, eu gostava sobretudo, para a árvore de Natal, de umas balas que havia naquele tempo (não se ainda existem hoje, até não eram muito caras), feitas de açúcar, oca dentro, com licores de cores variadas. E formavam às vezes números, às vezes um bichinho ou qualquer coisa. A gente percebia que aquilo era gostoso de mastigar pelo licor que tinha dentro e porque o meio quebradiço daquela açúcar era gostoso de… de… E a minha atenção rapidamente pousava sobre essas balas. E lá ia… mas não era só isso. Era o festim de todas as crianças.

 Nossa casa tinha um porão alto, tipo construção antiga como esta aqui (enormemente maior e de outra qualidade do que esta aqui no fundo; mas era desse gênero.) No que se podia chamar meio andar térreo, meio porão, havia uma sala grande onde Dª Lucília armava a árvore de Natal. As crianças desciam cantando hinos de Natal, umas pegando pelas mãos as outras. Portanto, minha irmã, minha prima, meus primos, minhas outras primas… a criançada toda da família descia assim quando se chegava a uma certa hora da noite.

Mas antes disso, nós estávamos naquela pressa e víamos mistérios: bandejas que desciam, cochichos etc. Víamos de tudo… e nos deixava assanhados. Ficávamos numa sala mais de cima sem prestar atenção no que se conversávamos uns com os outros. Todo o mundo queria saber o que é que ia acontecer. Em certo momento, mandavam o aviso, mas às vezes quando chegávamos embaixo, a porta ainda não estava aberta. Então, era o que os Srs. fariam também: pancadas do lado de fora, “quando é que fica pronto? Faz favor, abra logo!” Seguido de um silêncio cheio de promessas do lado de dentro. Afinal, abriam, e eu não posso ocultar que era para mim de um deleite enorme: dentro havia Dª Lucília sorridente.

Daí a pouco nós tínhamos parado de cantar e ela organizava a roda em torno da árvore de Natal, cantando as canções de Natal também.

As canções de Natal mais bonitas que há no mundo são as alemãs. Nós todos subíamos alemão e cantávamos em alemão.

 Eu não me lembro bem se era antes ou depois disso, rezávamos de joelhos, ela puxava as orações, diante de um Presepe colocado aos pés da árvore de Natal. Num oratório do Coração de Jesus que está no quarto de dormir dela há um Menino Jesus. Esse era o menino Jesus desse Presepe… Cada ano, no tempo em que havia árvore de Natal em casa, cada ano ela fazia um vestidinho novo para o Menino Jesus.

Rezávamos. Era uma oração um pouco longa, mas é que ela queria marcar muito a nota religiosa do Natal. Depois, levantávamo-nos e então era campo livre.

Havia, não me lembro bem, se uma ou algumas mesas com comida, com bebida etc. Depois havia pequenos presentes que distribuíam e estava feito o Natal.

 A certa altura, as frauleins: “Kinder rapft[?]!” Elas não sabiam latim, se não diriam: fugit irreparabile tempus!...


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