Plinio Corrêa de Oliveira

 

Não existe educação sem confiança
 
O gosto pelo vocabulário é muito mais importante do que apreciar música

 

 

 

 

 

 

Santo do Dia, 6 de maio de 1989, sábado

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A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.



 

 

Depois de uma longa interrupção, nós devemos retomar o fio de umas memórias ainda mais longas do que a interrupção. Assim, eu tinha ficado de conversar com os senhores a respeito de alguns livros que marcaram profundamente a minha formação.

Alguns foram anteriores e um foi posterior à minha eleição para deputado. Mas, todos eles fazem parte do mesmo período de minha vida e da mesma fase do meu desenvolvimento intelectual e espiritual. De maneira que eu vou tratar destes assuntos agora.

* O livro "Tratado de Direito Natural" de Taparelli d'Azeglio

O primeiro dos assuntos que devo tratar é o livro do Taparelli D'Azeglio, do qual eu falei aos senhores mais ou menos rapidamente, cujo nome é: Tratado de Direito Natural.

O que vem a ser esse "Tratado de Direito Natural"?

Há uma porção de noções – boas, verdadeiras e sérias – que o homem tem na cabeça, mas que não sabe justificar. Uma delas é a da propriedade privada; outra é a da indissolubilidade do vínculo conjugal; e outra ainda é a respeito da origem do Poder. O Poder entre os homens tem origem divina ou não? A que título e com que olhar devemos ver aqueles que nos são superiores? São realmente representantes de Deus na Terra? A que título o são? Como se prova isso?

* A origem divina do Poder

Toda a cerimônia da coroação de um rei, toda a cerimônia da investidura de um homem que ocupa um cargo público tem um caráter religioso. Vamos dizer, por exemplo, alguém que, num país em que a Igreja é unida ao Estado, é nomeado para integrar um tribunal importante.

O ato pelo qual toma posse de sua função de ministro desse tribunal, é um ato de fundo religioso. Geralmente, há sobre a mesa um crucifixo bonito; um Evangelho é colocado ali perto; acendem-se duas velas; o homem enverga uma toga de magistrado, muito imponente; aproximam-se dois deles que servem de padrinhos na função. Ele, então, faz um juramento, de estilo variado, de acordo com o país. Poderia ser, por exemplo, com uma das mãos sobre o Evangelho e com a outra levantada; ou com uma das mãos colocada nos pés do Crucificado, ele pronuncia um juramento de ser sempre fiel no cumprimento de suas obrigações, de jamais prevaricar no exercício da Justiça etc. Tomando Deus como fonte dos atos de justiça que ele vai executar.

De fato, que relação há entre Deus e esse ato pelo qual esse homem se torna um detentor de poder de julgar outros homens? E como esse poder de julgar outros homens se liga até Deus?

Tudo isso era uma porção de problemas, a respeito dos quais a maior parte das pessoas tem umas ideias mais ou menos vagas, sumárias e instintivas.

* A origem do Direito de Propriedade

Qual é a origem do direito de propriedade? A grande maioria dos proprietários ignora a origem do direito de propriedade. E vivem desse direito. Se não fosse esse direito, não seriam nada. Os que não são proprietários são sempre muito mais numerosos do que os que não são. De maneira que estes poderiam arrancar as propriedades daqueles com um peteleco. Por que não arrancam? Porque no fundo estão certos de que aquele homem tem direito àquele objeto. A única razão, afinal, é essa.

Dirão: "Não, chama os soldados". Resposta: Mas, os soldados também não são proprietários. Na hora de intervir dirão: “Não, senhor. Isso não vai ficar nem com um nem com outro, vai ficar comigo. Eu vou levar isso para casa”.

Então, por que razão é que esse direito de propriedade existe? Uma pessoa tem ideia de que esse direito é legítimo, mas de um modo completamente instintivo, à primeira vista.

* Primitivamente, tinha a impressão de que eram noções instintivas, sem fundamento racional

Eu era muito moço ainda, quando eu li esse trabalho do Taparelli D'Azeglio. Teria entre vinte e vinte e três anos, assim... Como nunca tinha visto um artigo de jornal tratando disso, nunca tinha ouvido numa conversa alguém falar desse direito, eu tinha a impressão de que isso eram coisas instintivas, e que não tinham fundamento racional. Foi, para mim, uma verdadeira surpresa, uma verdadeira maravilha, quando li esse livro do Taparelli d'Azeglio: "Saggio di Diritto Naturale" (Ensaio de Direito Natural), em que ele desenvolvia esses assuntos magnificamente. E colocava as questões com equilíbrio, com ponderação, com decisão, dando assim a fundamentação de quase todos os elementos essenciais da sociedade burguesa, na qual nós vivíamos naquele tempo.

* Eu aderia ao direito de propriedade porque ele constitui uma hierarquia

Então, por exemplo, o Direito de Propriedade. Qual é a sua origem?

Quando começou a demonstração, eu perguntei-me: quero ver que explicação ele dá para isso, porque eu não encontro explicação nenhuma. Eu adiro a tal direito. E adiro por uma razão: o direito de propriedade constitui uma hierarquia. Basta constituir uma hierarquia para ser uma coisa a ser vista com simpatia, porque o mundo deve ser hierarquicamente organizado. Mas, uma explicação direta não a tinha.

Vou ao Taparelli d'Azeglio e encontro a explicação do Direito de Propriedade.

* Como discorre o Taparelli sobre o Direito de Propriedade

A ideia fundamental era esta:

Está em dois Mandamentos da Lei de Deus: não roubar nem cobiçar as coisas alheias. Os Dez Mandamentos da Lei de Deus são uma enumeração dos direitos que o homem tem, segundo a própria natureza das coisas. As leis de Deus são uma revelação. Mas também eles resultam da própria ordem natural das coisas.

Do que resulta o Direito de Propriedade?

Eu vou evidentemente encurtar a coisa, dando-a de um modo simplificado. Mas é para os senhores tomarem o gosto da demonstração.

Eu já fiz alguma vez aqui no auditório uma demonstração exata do Direito de Propriedade ou não?

* Direito de Propriedade por ocupação

O princípio abreviado – que já é suficiente – é este (o princípio e a demonstração completos são mais longos):

O homem foi constituído por Deus de tal maneira que o seu organismo tem necessidades, sua alma tem necessidades e, estas, pela sua inteligência percebe-as e vê no que consistem. De outro lado, tem sentidos, membros, corpo para as satisfazer. Ele que tem, por meio desse conjunto, a capacidade de conhecer as suas necessidades, e de as satisfazer. Por sua própria natureza tem direito de as satisfazer.

A sua alma e o seu corpo lhe foram dados – entre outras coisas – para conhecer e poder preencher essas necessidades. De modo que tomando o homem como ele existiu sobre a Terra, vamos dizer, quando Adão e Eva foram expulsos do Paraíso e os filhos começaram a nascer, eles tiveram o direito de se apropriar das coisas, porque era assim: estavam com fome, e vendo uma fruta pendurada num galho, percebe que dá para ser comida; aplica sobre aquela fruta o seu engenho (compreende que tem que dar três passos, agarrar a fruta, puxá-la para baixo e abrir para a comer, experiências importantes quando se faz pela primeira vez), come e se sente saciado.

Depois olha para um riozinho que há perto, e fica com vontade de beber aquela água: vai até ele e bebe de sua água. Sente-se saciado. Ele comeu a fruta que não tem dono, bebeu da água que não tem dono, tendo, por isso, direito de se tornar dono da fruta e da água. Por quê? Porque Deus criou aquilo para seu uso. Ele foi criado de modo a poder usar aquilo para si. Exercendo sobre aquilo o seu poder, se tornou dono. É o cumprimento de um desígnio de Deus.

Ele não se tornou só dono da fruta que colheu. Mas, se, por exemplo, fez noutro dia um raciocínio: "Eu vou colher agora cinco frutas aqui, guardar, e, assim, quando tiver fome, tenho-as à mão para comer". Ele, pelo fato de as ter reservado, e apenas comido uma, guardando quatro, ficou dono delas todas, porque não tinham dono. Estavam ali para uso do homem. Como ali ele aplicou a sua inteligência e o seu poder, ficou dono daquilo. Ele constituiu um vínculo entre ele e aquela coisa. Qual é esse vínculo? É desígnio de Deus que o homem se apropriasse de frutas para comer. Portanto, apropriando-se, no fundo exerce um poder que Deus lhe deu sobre aquela coisa. Portanto, é de origem divina o poder que ele tem sobre aquelas frutas.

* O Direito de Propriedade é um desígnio de Deus

O mesmo homem percebe que a fruta nasce de uma árvore. E percebe que, quando caem as sementes, nascem outras árvores. Como ele vê que as suas necessidades se renovam, ele, então, para garantir melhor as suas necessidades, ele planta. Se ele plantou, ficou dono do solo que não tinha dono, ficou dono da árvore que plantou e ficou dono das frutas que aquela árvore der. Ele é um proprietário na força do termo. Um proprietário pela natureza das coisas, é bem certo. Mas, também e principalmente, porque realiza desta forma um desígnio de Deus. Deus quer que o homem se sirva de sua inteligência para conseguir atender estavelmente às necessidades que ele tem e que vão se renovando. Então, ele se torna o dono daquilo.

* Como o Direito de Propriedade se estende à mulher a aos filhos

Como se estende à sua esposa? Naturalmente. O vínculo nupcial é de tal maneira que marido e mulher se tornam um. Diz-se na Escritura: "Serão dois numa só carne". Portanto, o que é do marido se estende à mulher, e o que é da mulher se estende ao marido. O vínculo nupcial comunica propriedade. Portanto, ela também é dona.

E os filhos? É tão evidente que, quase, nos sentimos mal à vontade em demonstrar. O filho é a continuidade do pai. Ele é carne da carne e sangue do sangue de seu pai e de sua mãe. Portanto, é natural que aquela propriedade do pai (ou da mãe), que plantou para que ele, sua mulher e seus filhos comecem a vida, quando o pai morre, fica com os filhos. É uma coisa evidente. Se não fosse por outra razão, o pai tem sempre a intenção de que seus filhos herdem o que é dele e pode dar em vida o que é seu: "Olhe aqui, quando eu morrer, isto é de vocês". Morre e fica dado. É uma extensão do direito de propriedade. Ele é dono.

Há um outro modo pelo qual se também se demonstra bem. Este modo que acabei de descrever se chama direito de propriedade por ocupação. O solo estava desocupado, a fruta não tinha dono e a árvore não tinha dono... Dizia respeito aos primeiros homens.

Mas, hoje em dia, que as frutas, as árvores e quase tudo já tem dono? Isso pertenceu a outros homens, que venderam entre si, que herdaram... transmitiram legitimamente uma propriedade, que originariamente era uma propriedade adquirida segundo a lei de Deus.

* Outro modo de demonstrar o Direito de Propriedade

Há um outro modo de demonstrar isso muito facilmente. Um homem, por sua natureza, é dono de seu corpo, dono de sua inteligência. Já não me vou reportar aqui aos começos longínquos do início do mundo. Mas na cidade de São Paulo, por exemplo: um homem está com fome, tem filhos e esposa que quer manter; é livre e dono de si mesmo. Toca a campainha de uma casa e pergunta: "Há aí trabalho para mim?"

Se lhe disserem "há", ele trabalha. Mas, pelo fato de trabalhar é dono do fruto de seu trabalho. Por quê? Porque é dono de si mesmo, e, portanto, dono do que ele produz. O produto de trabalho é dele. Trabalha, ganha um salário, com o que compra o que é necessário para si e para os seus, ele é dono!

O direito de propriedade nasce do direito do homem sobre si mesmo. O homem não é um escravo, porque tem o direito de adquirir coisas para si, por sua própria natureza, logo é um proprietário.

* É uma demonstração de nos alegrar

Os senhores não podem fazer ideia do maravilhamento de minha alma, quando eu li essa demonstração! Fiquei encantadíssimo! E pensei: "Mas essa discussão idiota com os comunistas? Com três piparotes reduz-se isso a nada! Quero saber: um comunista responde o que a isso? Responde que não reconhece a Deus. Está bom, eu reconheço! Para mim, isto é assim. Depois, se ele não reconhece a Deus é porque está de má fé. A existência de Deus é acessível ao intelecto humano, tanto ao meu como ao dele. Se ele nega, está de má fé. Não posso tomar a sério a má fé dele. Fora com ele! Eu organizo a coisa como tem que ser organizada, de acordo com a vontade de Deus. Lá vai!"

É uma demonstração de alegrar a gente.

* Indissolubilidade do vínculo conjugal

Indissolubilidade do vínculo conjugal. Por que razão o homem e a mulher hão de estar ligados a vida inteira?

Quando se tem vinte anos, já se viu muitos casais brigarem. Às vezes os mais próximos a nós. Não foi o meu caso. E percebe-se muitas vezes que marido e mulher custam a se aguentar, e que aquilo é uma canga que os dois vão suportando ao longo do tempo. Isso é uma coisa evidentíssima. Essa coisa do casal de pombinhos... Para bobo está muito bem, mas para quem tem uma experiência mínima da vida sabe que não é assim. Por que se hão de aguentar?

* Qual a finalidade do ato conjugal?

A explicação vem: a finalidade do ato conjugal é a procriação. Se não fosse a procriação, o ato sexual não seria legítimo. É legítimo por causa da finalidade: a procriação. De tal maneira que, se uma pessoa pratica esse ato, sem a intenção da procriação, com a vontade expressa de evitá-la, ele peca, porque não é legítimo.

Sendo a procriação, a ordem natural pede que a criança seja educada por seus pais. Seja educada conjuntamente pelo pai e pela mãe. E com aquela dupla forma de autoridade, dupla forma de respeito, dupla forma de afeto, que está inerente à natureza do pai e à da mãe. Uma criança que tem pai e não tem mãe, muito mais ainda uma criança que tem pai e não tem mãe, é digna de compaixão. Por quê? Porque há certas coisas, sobretudo do afeto materno, que são insubstituíveis. Não há carinho que substitua o afeto materno. A seu modo também o afeto paterno.

* A criação dos filhos

Os dois, pelo fato de terem procriado uma, duas, cinco, dez crianças ficam obrigados a dar-lhes uma educação conveniente. Essa educação conveniente supõe que vivam juntos e em harmonia para que seja boa.

O resultado é que há um direito dos filhos a que os pais vivam juntos. A ordem natural das coisas exige isso. Então, é preciso que o casal, por causa disso, seja indissolúvel.

Sem o casamento indissolúvel não pode haver uma educação conveniente das crianças, por uma razão: elas têm que ter, sobretudo na idade mais tenra, muita confiança em seus pais. Mas, se a mãe e o pai podem a qualquer momento divorciar-se, não confiam entre si. E se não confiam entre si, fica uma coisa evidente que aparece aos olhos da criança. E se ela percebe que o pai não confia na mãe, e que esta não confia naquele, ela pergunta em quem vai confiar...

Não tendo confiança, uma educação que se faz sem ela, não é educação. A vontade de Deus, que criou assim o homem, e que quer, portanto, que ele proceda desta forma, pede que o homem seja vinculado ou casado de tal maneira que não possa divorciar-se, que seja um casamento indissolúvel.

* De onde vem ao homem o direito de governar outros homens?

Origem divina do Poder. De onde vem o fato de um homem ter o direito de governar outro?

Por exemplo: Dª. Erundina [então Prefeita de São Paulo, n.d.c.]. De onde vem o fato de Dª. Erundina ter o direito de nos governar? Deus criou a ordem humana de tal maneira que os homens precisem de viver juntos. Não podem viver isolados. Está na natureza social do homem.

Em segundo lugar, os homens vivendo juntos, precisam ter quem mande neles. De contrário, não colaboram bem. É preciso haver uma autoridade para coordenar. Logo tendo que haver uma autoridade, há que obedecer-lhe.

Então, Deus quer que haja autoridade e, logo, obedecendo a esta, obedece-se a Deus.

Caso de Dª. Erundina. Deus quis que houvesse cidades. As cidades têm que ter uma autoridade, chamado prefeito. Assim, obedecendo aos respectivos prefeitos, os homens fazem a vontade de Deus.

* Toda a desigualdade baseada na vontade Deus, deve agradar ao homem

Essas coisas todas representavam para mim um maravilhamento, porque não sabia que eram assim!

Eu já disse aos senhores que fui criado num ambiente que tinha uma influência monárquica acentuada. E toda a vida ouvia falar de reis que se coroavam. Achava as cerimônias muito bonitas. Simpatizava muito com aquilo, que tinha, por sua vez, muita afinidade com o meu modo de ser, com o meu caráter etc. Mas a justificação racional onde estava?

Aqui vem uma justificação racional, e, mais do que tudo, não só tal, mas de caráter religioso. Em última análise, todo o poder, toda a desigualdade que não seja baseada em Deus, no fundo o homem não obedece e não liga. Mas, baseada em Deus, tudo tem a sua razão de ser. Daí vem a ordem humana.

* Muita segurança de raciocínio muita confiança na razão humana baseada na fé

Isso deu-me muita segurança de raciocínio, muita confiança na razão humana baseada na Fé, e a ideia de que eu podia, valentemente, meter o pulso, assenhorear-me desses argumentos e jogá-los em cima dos outros, numa discussão, porque são cidadelas e muralhas que ninguém expugna.

Eu lembro-me de ter parado na leitura, maravilhado com a demonstração e procurar imaginar o que se poderia dizer em sentido contrário. E não havia o que resistisse. Tudo era bobagem. Muitas vezes, o próprio Taparelli dava os raciocínios dos principais autores que até o tempo dele (ele viveu até meados do século passado) tinham escrito contra o que ele afirmava. E fazia as refutações. Eram claras, simples e luminosas. Não eram feitas para serem literárias. Não eram bonitas. Eram muito mais do que bonitas, eram verdadeiras. Fica provado e acabou-se!

Eu aí compreendi melhor uma coisa que, na minha inexperiência e jovem idade, não estava ainda inteiramente clara: como a doutrina católica é sólida! como é segura! como é bem pensada! Como a conhecendo bem, pode-se enfrentar qualquer coisa de peito aberto. É questão de estudar e conhecer bem. Enfrentar de peito aberto, meter-se nas discussões mais perigosas, nos assuntos mais árduos de demonstrar, estudando-se bem, sai a demonstração e dá-se o “knock out” [nocaute] no adversário.

* Gosto pela polêmica para preservar as almas do erro

Os senhores estão vendo que a meta de dar o “knock out” no adversário era uma meta amadíssima! Por que amada? Não era por um vão gosto da polêmica. O gosto da polêmica, eu tenho-o. Acho muito bonito duas pessoas conduzirem, uma contra a outra, uma discussão ordenada, em que se vê o raciocínio de um apertar o outro no canto, e... "como é agora?" Acho muito bonito. Era muito mais do que isso: era preservar as almas do erro, encaminhá-las para a Santa Igreja Católica e um dos instrumentos para implantar na Terra o Reino de Maria.

O principal instrumental para se implantar na Terra o Reino de Maria não é arma nenhuma, não é nada. É saber raciocinar. Raciocinar!

* Entusiasmo pelo raciocínio

Então permitiam-me que eu diga um pouco mais... Para se saber raciocinar, há que tomar entusiasmo pelo raciocínio.

Para se entusiasmar com o raciocínio, tem que se tomar entusiasmo pela possibilidade de se desenvolver o raciocínio. E pende aí uma coisa muito bela: a facilidade de expressão. Para isso, gramática boa, vocabulário abundante... Quando se quer dizer uma coisa, ocorrer ao espírito dois, três... quatro modos de a dizer. Escolher ali com facilidade... tocar para a frente! O que exige, meus caros, exige esforço. É um esforço que se ama.

De vez em quando, em certas épocas do ano, quando...

(...) na leitura do Taparelli e noutras leituras que eu fiz depois, admirei-o muito pelo modo como ele encontrava as palavras adequadas para dizer as coisas. A palavra mais exata, mais adequada para dizer a coisa melhor, mais bem feita, mais certa. Procurar e dizer:

"Vamos ver, Plinio, procure substituir esta palavra neste texto. Você encontra outra?" – "Não, não a encontro!" Está dita com uma perfeição admirável. É preciso aprender isto. Então, tal palavra é assim, tal outra palavra é de outro jeito etc.

* Estudar principalmente português

Eu sei que os senhores estão estudando qualquer coisa desse gênero: línguas etc. Disseram-me que até português os senhores estão estudando! Eu ousaria dizer: principalmente português! Um indivíduo que não se sabe exprimir bem na sua língua materna, não saberá bem as outras línguas, depois. Tem que conhecer a língua materna.

Eu fiquei muito satisfeito quando o soube. Mas, queria aproveitar a ocasião para que aprendessem, tomassem o gosto pela língua. Quer dizer, compreender que num idioma quase cada palavra é uma pedra preciosa ou semi-preciosa. Deve-se compreender a beleza da língua, a beleza desta palavra, daquela outra... Há palavras que são lindas, há outras que são bonitas e ainda outras que são aceitáveis. Há até palavras que são feias. Deve-se ter tudo isto qualificado segundo os padrões do bom gosto que se tem. E sem isso não há cultura.

Também a alma cultivada tem outro prazer de viver e a vida é para ele outra realidade.

Aqui fica um estímulo, de passagem... Não sei até se alguém gostaria de me fazer uma pergunta a esse respeito... Com muito gosto, eu diria...

(Aparte: O Sr., praticamente, não ia a dicionário...)

Não.

(Aparte: Então, como é que o Sr. chegava a saber o significado das palavras?)

Mais ou menos era um puzzle em sentido negativo: eu pegava as palavras de uma frase e entendia... vamos dizer, quase tudo, com exceção de uma ou duas. O resto era comum... Adivinhar o sentido da palavra que falta pelas que estão, faz um bonito jogo. Eu achava agradável fazer esse jogo...

* As línguas são netas de Deus

...Dante dizia que as obras do homem são netas de Deus, porque Ele é Pai dos homens, e, portanto, avô das coisas que o homem faz. O vocabulário humano é todo ele neto de Deus. Como é bonito estudar-se o vocabulário humano, ver como o homem se exprime ou não se exprime... (Estou saindo um pouco do tema, mas logo a ele voltarei.)

* Estudar o mesmo tema em várias línguas

Mesmo quando se fica mais velho e se estuda, por exemplo, Direito. Meu pai tinha uma muito boa biblioteca jurídica. Ele era advogado. Pegar um livro francês e estudar nele um determinado tema. Depois, estudar o mesmo tema num livro italiano. Depois estudar o mesmo tema num livro alemão. E, assim, fazer com três ou quatro línguas... Ver como é a índole e o gênio de cada povo, através do modo pelo qual trata o tema jurídico. Depois, chegar aos juristas: é um encanto!

* As Ordenações Afonsinas, em Portugal

As Ordenações Afonsinas (1446), de Portugal – deixa falar um pouco bem de Portugal, pois há uma porção de portugueses aqui... e, assim falamos bem, um pouco, de nós mesmos... – são as mais antigas leis do reino de Portugal.

Ordenação são as ordens, o que o rei mandava fazer. As leis feitas pelo rei. Rei Afonso V de Portugal. A técnica do Direito não estava tão desenvolvida quanto se tornou depois. Vê-se que o legislador quebrava a cabeça para dizer a coisa com clareza, mas acabava conseguindo-o e dizendo a coisa com uma limpidez encantadora. Um português arcaico simples, agradável, encantador...

* Conselheiro Lafayette: um grande jurista brasileiro

Eu poderia falar aqui um pouco sobre o modo jurídico de cada povo apresentar sua linguagem, como é uma coisa bonita, uma coisa própria. Meu pai – não me disse assim para me ensinar (podia tê-lo dito), mas não foi o que fez – uma vez diante de mim fez um elogio de um jurista brasileiro que deu o nome a uma cidade de Minas Gerais, onde existe um grupo da TFP: Conselheiro Lafayette.

Esse Lafayette era um conselheiro do Império e um grande jurista. Meu pai disse-me só isto: "É um português lindo o que ele fala, com uma simplicidade total e um clareza total. De maneira que não se lê uma página do Lafayette com necessidade de voltar para traz para se ler de novo". Eu pensei: Esse é um taco! Eu quero conhecê-lo.

Numa hora que meu pai não estava, para eu poder fazer isso sozinho sem ele se meter dentro, fui lá à estante, peguei o conselheiro Lafayette e li. Uma maravilha! Uma maravilha!...

* A conversa inefável entre Jesus e Maria

Entra-se nessas coisas, começando-se pelos grandes doutrinadores. Então, pelos doutrinadores que dão o Direito Natural, que dão as provas da existência de Deus etc. Nos grandes pensamentos nasce a compreensão do grande papel das palavras, e, assim, se adquire gosto pelo vocabulário. É muito mais importante do que gostar de música, porque a mais bela harmonia que há na natureza, antes do pecado original, eu acho que era a palavra do homem. Era mais belo do que o canto de qualquer pássaro, do que o ruído da água de qualquer regato, do que o barulho de qualquer vento... do que qualquer coisa. O mais bonito era a palavra do homem.

Como deveria ser bonita a palavra do homem sem pecado original. Como seria bonita uma conversa de Nosso Senhor com Nossa Senhora... Coisa superior a qualquer juízo! Eu imagino São José, concebido no pecado original, grandíssimo Santo (alguns acham que ele logo depois e ter nascido foi limpo da culpa original; mas foi concebido nele), vendo às vezes Nosso Senhor conversar com Nossa Senhora. Vendo Nossa Senhora contar para o Deus que a criou uma historieta de criança para Ele se distrair... Ele olhando, prestando atenção... e fazendo meditações. Não sei se os senhores já se imaginaram atrás de uma porta olhando para São José, que podia estar atrás de outra porta, vendo o Menino conversar com Nossa Senhora... Poderiam ter ideia da beleza da palavra humana sem pecado original.

Depois do pecado original, conservou alguma coisa de belo.

* Prestar atenção nas coisas altas, nos convida a não pensar nas bagatelas

Aprende-se isso... Aprende-se, meus caros, uma coisa muito boa: em prestar atenção! De tanto prestar atenção nessas coisas altas, mais tarde, fica-se com dificuldade de prestar atenção nas bagatelas. Bem podem imaginar quanto eu desejo isso aos senhores.

Sei bem que o ensino hoje é escasso nessa matéria, e que comunica pouco. Já no meu tempo comunicava pouco, faço ideia, agora, no tempo dos senhores... Isso explica, em parte, porque ao chegar aos meus vinte anos, lendo esses livros, eu tinha a impressão de que eram céus que se abriam para mim. Porque, em parte, o ensino secundário tinha-me preparado para compreender isso; e, em parte, porque não tinha me preparado, eu ficava surpreso de encontrar. Tudo isso fazia a alegria dessa fase da minha vida.

Chegou o momento de deixar o Taparelli e passar para...

* A análise lógica

 

(Aparte: Não sei se o Sr. poderia dizer uma palavra que seja sobre o seguinte: sempre ouvi dizer que o Sr. gosta muito de análise lógica...)

Muito!

(Aparte: Por que o Sr. gosta? Qual é a beleza que o Sr. vê nela? O que fala de Deus na análise lógica?)

A análise lógica é tida a justo título – justo título, hem! – como uma das coisas mais aborrecidas do ensino secundário. Compreender o que é o sujeito, o verbo, objeto direto e indireto já não é fácil. Depois, chegar à frase e dizer: aqui está o sujeito, o verbo... já é mais difícil. Agora, pegar o bom Camões e um de seus versos – todos muito bonitos – encharravascados como só ele...

* A palavra encharravascado

Está aí uma palavra da linguagem corrente. Não é uma palavra clássica. Eu hesitei em empregá-la pela respeitabilidade de nossa reunião. Contudo, resolvi soltá-la para ver se causava efeito junto aos senhores ou não. Os senhores riram... Talvez nunca tenham ouvido falar em encharravascado. Mas perceberam pelo som da palavra o que encharravascado quer dizer, e tomaram um certo sabor da realidade enquanto banal, enquanto trivial, mas com um certo som de real, que pega na coisa... É uma das quali-dades da língua portuguesa: pegar a realidade ali!

Então, encharravascado diz o que quer dizer...

* Analisando um pouco um verso de Camões

Os versos de Camões parecem numa ordem toda torta, mas vai-se ver e nota-se que têm ordem. Então, percebe-se que o que Camões pôs , belamente, em ordem indireta, fica compreensível sobretudo quando se põe na ordem direita. Eu não tenho boa memória e não estou lembrando-me aqui de um verso em ordem indireta feita pelo Camões. Mas, se eu tivesse aqui um trecho do Camões, sobretudo se tivesse quadro negro para pôr na ordem direta, eu faria... No sábado que vem se me puserem o Camões aqui no quadro negro... Os senhores têm aula de Português, não é preciso fazer... Ponham um verso qualquer de Camões e nós enfrentaremos o negócio.

Apenas se ele vier com aqueles personagens mitológicos, perfeitamente imbecis, de que ele é abundante, como os do tempo dele, em todas as línguas... Então, por exemplo:

"Trouxe o filho de Japeto do ceo

O fogo que ajuntou ao peito humano;

(...)

Ou:

"Que com o Thebano tinha assento igual,

(...)

Quem é Japeto e Thebano? Que solenidade tem ele e o seu assento. É preciso saber quem é, pois assim eu saboreio a frase e entendo o negócio.

* A beleza da ordem indireta; o português de gala e o comum

Eu diria uma palavrinha sobre isso... Não sei se todos os senhores percebem a beleza da ordem indireta. Como uma palavra lucra, quando o adjetivo é posto antes do substantivo!

Uma coisa é, por exemplo, eu dizer a alguém: Que coisa bonita você disse. Outra é: Que bela coisa você disse. Eu substituí o bonito por belo, e inverti a ordem. Uma coisa bonita – ordem direta: substantivo, depois adjetivo. Na segunda frase fiz o contrário: Que bela coisa. Poderia ter posto que "bonita coisa", mas ficava menos belo.

 O senhor tem aí uma das peculiaridades do português. Na língua portuguesa há quase dois vocabulários: um, de gala; outro, comum. Eu ao dizer que uma coisa é bonita, apresento a coisa na sua roupagem comum. Dizer que ela é bela, apresento a coisa em seu vocabulário de gala.

É bom aprender tudo isso, tomar-lhe o gosto...

* Comentando um verso de Camões

Então, meu Dustan, diga o que há...

(Aparte: Há um verso de Camões, muito bonito, que nada tem a ver com a mitologia, talvez o Sr. o pudesse comentar...)

Qual é?

(Aparte: "Ó tu, que descanso buscas com cuidado // Neste mar do mundo tempestuoso, // Não esperes achar nenhum repouso // Senão em Christo Jesus Crucificado".)

Muito bonito! Muito bonito!

(Aparte: Se o Sr. pudesse comentá-lo, à luz do que o Sr. acabou de dizer agora.)

Esse não é enchavascado, é mais simples... Mas, repita um pouco...

(Aparte: "Ó tu, que descanso buscas com cuidado.)

"Ó tu, que descanso buscas" já é a ordem inversa, porque a direita é: "Ó tu, que buscas descanso".

Por que fica mais bonito dizer: "que descanso buscas" do que "que buscas descanso"? Porque valoriza a palavra descanso. "Que descanso buscas com cuidado" fica mais acentuada a ideia do descanso do que a ideia de buscar. Por quê? Porque como fica posta numa ordem inversa, ela atrai mais a atenção.

"Ó tu, que descanso buscas com cuidado". O cuidado do Camões não é o nosso cuidado: procurar direitinho, arranjadinho; mas, quer dizer: com empenho, com esforço, com afã. Isto é que é propriamente cuidado. "Com cuidado" indica com quanto esforço buscas o descanso. Valoriza ainda mais o descanso. É uma coisa que cansa encontrar, mas quando se encontra: Que delícia!

Não sei se estou... Bem, precisamos de ver um pouco a hora... Continue mais um pouquinho...

(Aparte: "Neste mar do mundo tempestuoso".)

Ele podia ter dito: "Nesse mar tempestuoso do mundo". Não podia ter dito? Perde ou não perde muito a expressão? Por quê? Porque neste "neste mar do mundo tempestuoso", joga a palavra tempestuoso para o fim da frase. E fica muito bonito: "neste mar do mundo", porque o mundo, até certo ponto, pode ser comparado a um mar. E deslocar a palavra tempestuoso para o fim chama a atenção sobre esta palavra, e dá uma impressão – pelo som anterior "neste mar do mundo" – de uma tempestade bonita, não é?! É uma tempestade com gala. Um fausto camoniano. É faustosa a expressão. Continue, então...

(Aparte: "Não esperes de achar nenhum repouso, // Senão em Christo Jesus crucificado.)

É muito bonito! "Não esperes de achar nenhum repouso". O "de" é meio arcaico, mas fica muito bonito. Em vez de dizer "Não esperes achar", diz "Não esperes de achar", uma palavra quase inútil no meio põe um quê dentro disso que acentua a ideia de como é difícil achar... Como é o resto?

(Aparte: "Não esperes de achar nenhum repouso, senão em Christo Jesus crucificado.)

Aqui não é a ordem inversa, mas a cadência: "Senão em Christo Jesus crucificado".

* O nome mais lindo que há é de Jesus Cristo

Christo Jesus... Eu sustento que o nome mais bonito que jamais alguém ousou é Jesus Cristo, por causa do seu som. O som Jesus Christo... Som rumoreante, silencioso, aveludado... Depois, o tom alegre do "i" de Christo que emerge assim como uma gota de luz, que, paradoxalmente sai da terra e vai para o céu. Depois o "o" de Christo põe uma nota forte.

Às vezes é mais bonito dizer Christo Jesus do que Jesus Cristo, porque estamos tão habituados a dizer Jesus Cristo que Christo Jesus varia um pouco ao nosso ouvido, e dá uma forma muito bonita.

* Um paradoxo: buscar o repouso em um crucificado

Então, que "Cristo Jesus" já é muito bonito na ordem inversa... Crucificado... Quer dizer, ele faz uma alusão à palavra de São Paulo que dizia que não sabia pregar senão Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado. Então "Christo Jesus" e "crucificado"! Aqui é um paradoxo: encontrar o repouso na mais terrível agonia que houve, há e haverá na História?! Encontrar naquela aflição, naquele "Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes" encontrar, ali, o repouso?! É fazer sentir algo que nasce de sacrossanto e de aveludado de dentro das chagas de Cristo, da dor de Cristo, do gemido de Cristo que nos faz compreender que, Ele, do alto da Cruz, e gemendo daquele jeito, dava coragem de gemer a todos os homens que gemerão até o fim do mundo.

Então, fica muito bonito... Não é, meu Dustan?

(Sr. Dustan: Magnífico! Magnífico! Camões invejaria...)

Camões é o supra-sumo!...

* Outro livro importante: "As Confissões" de Santo Agostinho

Mas, essas são considerações de passagem, são hifens para ligar as referência de um livro a outro.

Depois de Taparelli há "As Confissões" de Santo Agostinho. Este livro li-o em francês. Era uma tradução de um tal Arnault Dandigni, que era um chefe jansenista.

Os jansenistas eram uma espécie de protestantes calvinistas, velados, que havia na França desde o século XVII e duraram até ao XVIII. Um pouco já havia também no século XVI. E que Luís XIV espadagou de dentro da França do mais belo modo.

* Luís XIV e os protestantes: Eu não vos amo e não vos temo! Fora!

Eu não resisto à tentação de lhes contar o que Luís XIV fez aos calvinistas...

Precisam imaginar o décor de Versailles e o esplendor do rei-sol. Quando se chegava ao fim do ano, os principais grupos do país iam visitar o rei, apresentando-lhe suas homenagens... Era no fim do ano e começo de ano. É um costume que se conserva até hoje em vários lugares. Entre os que o costumavam visitar, iam os protestantes. Horríveis, portanto.

O rei Henrique IV era avô de Luís XIV e calvinista. Subiu ao trono com muita dificuldade, porque os católicos disseram-lhe que não tinha o direito de ser rei, já que era herege. Combateram-no ali! Verifica que não conseguia subir ao trono, a não ser fingindo converter-se à Igreja Católica. Então, ele abjurou em Saint Denis e foi sagrado em Chartres, tendo dito: "Paris valia bem uma Missa". Expressão vil, que dava a entender a insinceridade com que ele a assistia. Quer dizer, vale bem assistir a uma Missa para conquistar Paris. O prêmio não era a Missa, mas Paris. Ora, Paris, qualquer cidade do mundo ou elas todas juntas valem infinitamente menos que uma Missa, que é a renovação incruenta do Santo Sacrifício do Calvário!

Henrique IV era protestante. Velado, mas era-o. Luís XIII, filho do precedente, pelo contrário, era católico. Era sinceramente católico, mas se sentia fraco diante do poder dos protestantes, e tratava-os com um certo cuidado.

Luís XIV, que era um rei de pulso, subiu ao trono e fez do poder real um poder vigoroso, absoluto. Quando chegou o momento em que ele viu que era chega a hora de acabar com o protestantismo na França, ele esperou – coincidiu com o fim do ano – e vieram os protestantes todos visitá-lo. Naquela corte de Versailles, com todo aquele esplendor, todos de preto, com umas golas brancas... Abaixo de zero! Apresentaram-se para lhe prestar homenagens. Ele disse:

– O rei, meu avô, vos amava e vos temia; o rei, meu pai, não vos amava, mas vos temia; eu nem vos amo nem vos temo. Fora! Rua!

Pouco depois, ele baixou um decreto expulsando da França todo o mundo que não se convertesse à religião católica. Então, emigraram em quantidade para os principados protestantes da Alemanha. Depois, para a Suécia, Dinamarca e aquilo tudo... Era um dito forte, vigoroso e bonito!

* O talento magnífico de Santo Agostinho

Arnault Dandingi era jansenista. Mas, eu não sabia e li na minha boa fé. Comprei-o numa livraria católica. Eu tinha lido algumas coisinhas de literatura, incluindo Camões... Mas, eu não sabia que se pudesse ver nos escritos de um homem uma coisa magnífica, que já é magnífica nos pássaros e nos animais, e logo no talento do homem – aonde é mais bela ainda do que nos pássaros e nos animais... É muito bonito os senhores verem em filmes, em fotografias e quadros uma águia que levanta voo... No momento em que está levantando seu vôo é muito bonito. É muito bonito os senhores verem um navio que vai mar adentro e some no horizonte... São coisas muito bonitas...

Porém, eu não imaginei que o pensamento humano se pudesse exprimir de um modo tal que se pudesse ver o seu vôo. Esse vôo tem-no Santo Agostinho em seus ímpetos de alma, incomparavelmente. Ele raciocina muito bem. É muito talentoso, muito erudito, muito profundo... Um talento de primeiríssima ordem! Isto eu sabia: que se podia ser talentoso. Não sabia que se pudesse voar daquele jeito... Passar, de repente, de um tema bonito para um tema admirável. E, neste, percebe-se o espírito dele se “déployer”, abrir as asas e voar.

Quando eu li "As Confissões" dele, li tudo junto: a profundidade de sua alma; a retidão de seu coração de convertido; ouvi nas linhas as pancadas de seu coração arrependido pelo pecados que tinha cometido; a narração do efeito que sobre ele produzia o grande bispo de Milão, Santo Ambrósio... Entrando no palácio de Santo Ambrósio... São coisas para contar oportunamente, se é que já não contei aqui... Eu vi esses grandes vôos da alma de Santo Agostinho como não pensei que a alma humana pudesse voar.

* A fé católica é um céu onde se pode voar

De um lado, eu percebi bem que esses vôos eram porque a fé católica é um céu onde se pode voar. E que a inspiração que levava um homem a voar tão alto dali vinha: a fé católica. Mas, de outro lado, também, como a alma humana, banhada pelo sol da fé católica fica bela! E como é belo ser homem, quando se tem a fé católica.

* As três passagens das “Confissões” que mais me impressionaram

Ele tem três passagens – uma um tanto longa – das quais me lembro especialmente, e que li no êxtase de minha alma. Um, era a sua conversão... Ou, melhor, em ordem histórica: um, o contato dele com Santo Ambrósio; outro, a conversão dele; e, finalmente, a conversa dele com sua mãe, Santa Mônica, antes dela morrer. A conversa com Santa Mônica é, talvez, a mais fácil de descrever.

Ele converteu-se. E, creio que logo depois, foi sagrado Bispo. Santo Agostinho e Santa Mônica eram originários do Norte de África, da cidade de Cartago. Resolveram, depois de ele convertido, voltar à cidade de Hipona, para exercer a missão sacerdotal lá.

* A conversa de Santo Agostinho com Santa Mônica no porto de Óstia

Chegaram a um porto, de uma importância secundária, do Sul da Itália, chamado Óstia, que fica até perto de Roma. Neste porto, instalaram-se, diz-se hoje num hotel, naquele tempo, numa hospedaria, até que chegasse um navio. Como os navios eram muito pequeninos, era uma dificuldade atravessar o Mediterrâneo. Hoje é zero. E não era certo o dia em que o navio chegava nem o que partia, como certas empresas de navegação de hoje, que têm tudo calculado. E, muitas vezes, ficava-se sem ter o que fazer no lugar, esperando o navio chegar...

Estavam, assim, no porto de Óstia, hospedados, quando, em determinado momento se recostaram junto ao peitoril de uma janela, que dava para um jardim interno da tal hospedaria. Os dois conversavam a respeito de Deus... Ele descreve a conversa dele com ela, e como os dois foram alternando, dizendo coisas a respeito de Deus. Ele percebeu como a alma da mãe dele ia subindo, e como era elevada. Ele era-lhe gratíssimo. Primeiro, porque era mãe dele. Em segundo lugar, e principalmente, porque o tinha convertido. Ela tinha sofrido, tinha chorado, tinha rezado... Ela arrancou Santo Agostinho das mãos do demônio, numa batalha épica, durante trinta anos. Passou trinta anos tentando converter Santo Agostinho! Ele viu o amor de Deus se desdobrando na alma dela, se mostrando... Eu daria tudo para ter ouvido esse colóquio.

Quando o colóquio terminou, ele percebeu que a mãe ia morrer. Tinha chegado a um tal estado de elevação que não tinha mais onde chegar, e que, depois, era só morrer. A morada do céu estava aberta para ela.

De fato, muito poucos dias depois ela expirou. Ele conta, então, toda a dor que teve etc. Depois, acompanharam o cadáver até um cemitério onde ela recebeu sepultura cristã, católica... E volta para casa.

E aí diz uma coisa, que fiquei pasmo de encontrar num livro tão alto, que trata das coisas tão alto. Ele conta com toda a simplicidade que, chegando ao hotel, tomou banho. E que este banho o tinha ajudado a aguentar o peso da dor que tinha sofrido. Ele recomendava a todos os leitores que, quando tivessem um aborrecimento muito grande, tomassem um banho. [risos do conferencista e do auditório]

Uma coisa encantadora de candura, depois dos mais altos vôos... Pensar no grande Santo Agostinho que, parando diante de nós ou de qualquer desconhecido (para mim, para os senhores), diz: "Meu filho, de passagem, tome um banho quando estiver muito aborrecido, porque ajuda a carregar os infortúnios da vida".

Foi tanta caridade, tanta bondade, que me deixou também encantado. Tudo resplandecia e reluzia do livro.

* Este livro deu-me muito mais vontade de algum dia vir a ser santo

Abriu-me outras possibilidades a respeito do espírito humano e da santidade, e me deu muito mais vontade de algum dia ver a ser santo.

Bom, meus caros, com isto terminamos a nossa reunião. Eu tenho ainda uma outra... e precisamos de ir andando, pelo que vou pedir ao Padre Antônio para rezar as nossas orações.


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