Auditório São Miguel, 30 de dezembro de 1988, Santo do Dia
A D V E R T Ê N C I A
Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.
Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.
As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.
Nós chegamos ao fim do ano, à última reunião do ano. Qual é a reflexão que me vêm ao espírito a respeito disso?
Eu tenho a impressão de que quando nós olhamos a história da Revolução, e depois a história da Contra-Revolução, há um princípio que não está narrado na RCR — porque não era possível colocar tudo no livro, sairia uma enciclopédia — mas é um princípio que é se precisa ter muito em vista quando se considera essa enorme rotação do auge do esplendor da civilização medieval, como aos poucos se foi manifestando em verme roedor, que foi corroendo gradualmente aquela ordem de coisas magnífica, que prometia subir, subir, indefinidamente até altitudes inexcogitáveis pelo espírito humano. Mas que, pelo contrário, em determinado momento caiu, caiu, chegou ao ano de 1988, em que o processo baixou até profundidades inexcogitáveis também pelo espírito humano.
Tão alto subiu que não se poderia imaginar antes, que pudesse subir tanto. E foi apenas uma metade do caminho. Tão fundo caiu, tão baixo se degradou, tão completamente se esfilparrou, que não se poderia imaginar também que caísse mais baixo e que fosse pior do que está.
Como é que essas coisas se deram? Por que razão se deram? Porque um determinado princípio, que é de sabedoria comum, mas que é negligenciado por um grande número de pessoas de responsabilidade decisiva em acontecimentos históricos, esse princípio não foi tomado em consideração, não foi aplicado nos momentos em que o deveria ter sido. O resultado é que a História apresenta essas derrapagens tristes, e poderia apresentar, pelo contrário, altitudes e ascensões magníficas se se tivesse esse princípio em consideração.
Qual é o princípio?
É o seguinte, é o contrário do que o modo de ver comum das coisas, isso que se poderia chamar a sabedoria comum, costuma ver as coisas.
O princípio é o seguinte: nós devemos considerar que no que diz respeito ao Bem e ao Mal nada é sem importância, por pequeno que seja; nada é sem perigo por insignificante que seja; nada é digno de ser passado por alto sem uma providência, sem um remédio, por débil que seja. Mas assim que a gente nota em qualquer canto, em qualquer ponto da mentalidade de qualquer pessoa, uma concessão ao mal, a gente só não deve combater energicamente se a pessoa já está tão entregue ao mal que a gente não pode desde logo aplicar a energia. Felizes são aqueles com quem se pode ser enérgico!
Os Srs. imaginem dois doentes, ambos sofrendo em condições físicas análogas pela idade, mas ambos sofrendo da mesma doença. Um vai ao médico e o médico lhe diz: “O Sr. está sofrendo de tal doença, está começando apenas, mas é uma doença de uma evolução insidiosa, rasteira, disfarçada, subtil, perigosa e rápida. E por causa disso o Sr. precisa ser operado imediatamente”.
Ao outro ele diz a mesma coisa: “O Sr. está sofrendo etc. mas o Sr. não está em condições de ser operado agora, o Sr. precisa passar por um tratamento que lhe prepare para a operação, porque eu estou lhe achando em condições débeis, o Sr. não aguenta o processo operatório, e, portanto, a doença tem que progredir durante algum tempo enquanto o Sr. se prepara para a operação. Ela vai ser realizada em condições mais desfavoráveis porque o Sr. teve que esperar. Mas que remédio tem? O Sr. estava doente, precisa sarar antes dessa doença secundária para poder enfrentar a operação primária”. É uma coisa que se compreende.
Qual dos dois é mais feliz? Os Srs. imaginem que alguém diga: “Feliz aquele que não teve que se operar logo, ao menos ele fica mais alguns dias se abanando, ou algumas semanas, alguns meses, enquanto o outro já vai entrando para a faca”. Nós diremos: Esse é um tonto. Feliz é aquele que pode se operar logo! Esse é o forte, esse é o bem constituído, é aquele que pode aguentar o trauma operatório desde logo, e portanto, enfrentar a doença quando ela ainda está no começo. O infeliz é o outro, que não pode suportar porque é fraco, porque tem o organismo mal constituído, ele não pode suportar a interferência operatória logo. E então a doença vai crescendo nele até que se apresente uma conjuntura — apresentar-se-á? — em que ele esteja pronto para ser operado. Se ele nunca estiver pronto para ser operado, nunca, a doença acaba liquidando a ele. Está acabado.
* Exemplo: quem pode ser avisado que contraiu uma doença grave?
Então, feliz aquele no qual a gente notando um começo de mal, a gente pode imediatamente chamá-lo e dizer: “Fulano, tenha paciência, você tem ido bem, eu lhe quero, você tem sido para mim fonte de muita satisfação, mas você me inquieta por tal sintoma assim”. E a gente menciona uma coisa insignificante, na aparência insignificante. E diz: isto que na aparência é insignificante, tem um significado profundo, é um sintoma. Um sintoma muitas vezes é insignificante. Pode ser uma coceirazinha aqui, uma coisa que pode ser produzida por inseto. Mas quem sabe se uma coceira aqui quer dizer tal e tal outra doença?
Então eu chego para ele e digo: “Você está com este sintoma, esse sintoma é de um mal muito grave e você precisa ser operado amanhã”. Feliz dele porque ele ao menos aguenta o trauma da advertência. Diz: “Você precisa ser avisado hoje porque você tem força, você tem coerência, você tem amor de Deus e avisado já, você resiste. Feliz de você!”
* Quem pode ser avisado que entrou nas vias da apostasia?
Agora, eu chamo e lhe aviso: “Vou lhe contar qual é o processo normal deste seu defeito. Você deve estar sentindo internamente tais, tais e tais defeitos. Você deve estar sentindo, por outro lado, tais, tais e tais aspirações. Mas você não quer ver de frente e o não ver de frente é o pior sintoma de sua atual situação. Abra os olhos porque senão – agora é o começo do ano – antes do ano terminar você está na rua, e você está na triste vala comum dos apóstatas”. Feliz aquele a quem se pode dizer isso de frente.
Pelo contrário, é infeliz aquele em quem a gente nota um defeito e nota que ele não está preparado para receber a advertência. Então a primeira coisa que a gente tem que fazer é sorrir para ele, e fazer de conta que não notou nada. Deixar passar o tempo, até que apareça uma boa ocasião para falar, porque do contrário a psicologia dele reage em sentido oposto. Não quer dizer que ele se revolte. Mas quer dizer que — ele pode se revoltar, conforme o caso, ou se não se revoltar, pode receber com modorra, com indiferença, com preguiça, ou qualquer coisa, essa advertência. A gente tem que poupar o momento da advertência. Ele vai se arriscando, arriscando, arriscando.
Aquele que em todas as coisas age assim, e nos menores fatos que são sintomas de situações espirituais, ou políticas, ou sociais, ou quaisquer outras, sabe discernir desde logo o mal e pula em cima do mal e apaga o mal, este pode ser um homem de Deus.
Bem, qual é o tipo do que não é homem de Deus? A gente nota uma pessoa e diz a ele: “Olha, eu notei tal coisa em fulano”. [O outro:] “Ah, não, não dá para inquietar porque ele é muito bom. Ele por si mesmo se emenda. Se ele não se emendar — vamos esperar mais ou menos um ano, se ele não se emendar, aí a gente fala. Porque ele tem muitas reservas, ele é muito bom, e ele aguenta um ano, certamente, sem que a gente tenha que chamar a atenção dele”.
Fico com vontade de dizer, para um indivíduo que me objetasse isso: “Mas você? Você está precisando imediatamente um extintor de incêndio em você! Porque você está pegando fogo, meu filho! Esse seu otimismo tranquilo, `não, Dr. Plinio… não dá nada!’, etc., prova que você perdeu uma das condições mais preciosas da integridade da alma, da integridade da virtude, que é de compreender a importância enorme dos pequenos sintomas, para intervir logo, antes que eles se tornem monstros“.
É interessante que nós vemos instituições ruírem, desaparecerem; nós vemos civilizações caírem; nós vemos passar de tudo, diante destes olhos fechados para o mal, que fazem com que a pessoa não compreenda os sintomas o que querem dizer, fecha os olhos por preguiça de combater, por preguiça de ser solerte, por preguiça de ser enérgico, e por causa disso as coisas vão ruindo, vão se esboroando, vão apodrecendo, vão dando em nada!
* O Conselheiro João Alfredo e a queda do Império
Eu me lembro aqui — com licença de Dom Bertrand — de um fato que era contado na minha família. Eu tive um tio-avô, irmão de meu avô, o Conselheiro João Alfredo. Ele tinha sido o primeiro-ministro do Império há pouco, pouco antes da Proclamação da República. Tinha sido primeiro-ministro do Império. Ele era conselheiro, membro do Conselho do Imperador, e era, do outro lado, senador vitalício. De maneira que ele tinha várias responsabilidades dentro do regime monárquico.
Quando foi proclamada a República ele viu que não recebia nenhuma convocação do Imperador para confabularem, para tomarem alguma providência, nem nada. Nem lhe constou que estivesse havendo nenhuma resistência. Ele foi então ao palácio e pediu audiência. O guarda do palácio bateu continência, como habitualmente se fazia, ele entrou. Lá dentro pediu para falar com o Imperador. Foram avisar, o Imperador estava sozinho, o palácio vazio, numa calma completa.
O Imperador recebeu-o imediatamente. Estava tranquilo, lendo junto à escrivaninha dele. Ele era um grande leitor de livros etc., homem muito cultivado, espírito muito cultivado. Meu tio aproximou-se dele e disse: “Majestade, eu peço permissão para ponderar que a situação está assim, a República foi proclamada, e Vossa Majestade está prisioneiro aqui no palácio. A guarnição, se Vossa Majestade quiser sair, não deixará sair. A guarnição republicana tomou conta do palácio. E é preciso tomar uma providência qualquer para enfrentar essa situação”. O Imperador diz a ele – na intimidade chamava de João, o nome era João Alfredo Corrêa de Oliveira: “Não, João, não há sinal disso! Está tudo perfeitamente normal”.
Meu tio deu alguns argumentos. Enquanto ele estava argumentando, o Imperador o ouvia… assim, com uma cara de ligeira condescendência, de ligeira compaixão diante do zelo sem objeto, do espírito imaginoso dele, o imperador ouvia, quando de repente alguém bate à porta. O Imperador dá uma voz para entrar, e entra o homem, era o oficial que comandava a guarda do Palácio. Nova continência para o Imperador e diz o seguinte: “Vossa Majestade tem ordens a dar?” O Imperador ouviu com comprazimento e disse: “Não, obrigado, não tenho ordens a dar”. Ele se retirou e o imperador disse: “Você está vendo, João? Você disse que a guarnição me prendeu. O chefe da guarnição veio me pedir ordens!”
Ele de fato estava preso. Meu tio saiu, viu que não tinha nada que fazer. Não muito tempo depois o cerco em torno do Imperador se apertou. E o Barão de Ladário quis entrar para falar com o Imperador e foi morto pela sentinela assim, pan-pan-pan.
Quer dizer, o otimismo do Imperador, a quietude, o não querer atender para sintomas de si muito graves, mas pequenos, que chegavam ao conhecimento dele, levou-o a perder o trono. Diretamente. É um trono que rui, a raiz está exatamente em não atender para os pequenos sinais, para os pequenos indícios, não correr imediatamente para apagá-los, para extinguí-los, etc. Isso chega a essa situação.
* A queda de Constantinopla
Eu creio ter falado o outro dia aqui da tomada de Constantinopla, pelos turcos, no século XV.
Constantinopla era um dos portos mais famosos do Mediterrâneo naquele tempo. E é até hoje um porto importante no Mediterrâneo. Uma cidade lindíssima que era a capital do Império Romano do Oriente, que abrangia os Balcãs, algumas zonas da Ásia Menor e da África. Era um Império que tinha sido muito poderoso.
No tempo do General Belisário tinha chegado quase até a orla do Atlântico. Ocupou todo o norte da África, no Mediterrâneo, enquanto o Império Romano do Ocidente ocupava todo o litoral europeu do Império Romano. Assim, os romanos podiam dizer orgulhosamente que o Mediterrâneo era um lago romano, mare nostrum, o nosso mar, onde nós romanos somos donos de tudo. A cidade de Bizâncio famosa pela sua riqueza, pela sua grandeza etc., e a corte bizantina famosa pelo seu luxo, pelo seu esplendor, e pelo seu cerimonial complicado, etiqueta refinada etc. A cultura dos homens de letras de Bizâncio era extraordinária. Era uma das maiores metrópoles do mundo naquele tempo.
Aos poucos os turcos foram corroendo os territórios dos bizantinos na Ásia. Depois caíram os territórios bizantinos na África e Bizâncio ficou quase reduzida apenas à Capital, que vivia de umas terrinhas que tinha em volta, mas que evidentemente não bastavam para entreter todo aquele luxo. Em vez de eles reagirem, e se oporem e declararem a guerra, não aceitarem a situação, preverem que a ruína pior deles os estava ameaçando, e, portanto, tomarem a situação a sério; pelo contrário, eles foram deixando se arrastar.
No fim a situação de Bizâncio era assim: nas grandes festas da corte os principais dignatários compareciam coroados, com coroas de ouro, com gradações diversas, mais ou menos como acontece hoje em dia com a coroação da Rainha da Inglaterra, em que o lordes, depois que a Rainha se coroa, eles põem na cabeça, eles próprios, uma coroa correspondente ao que era antigamente o seu feudo, mas uma coroa de ouro que pela forma, pelos ornatos, indica qual é a gradação que aquele lorde ocupa no conjunto da classe dos lordes.
Em Bizâncio naturalmente tudo se renova. Também os dignatários da corte se renovavam, entravam novos dignatários. É natural. Então era preciso mais coroas de ouro. Como Bizâncio estava empobrecida, eles não tinham mais dinheiro para pagar coroas de ouro. Mandavam fazer coroas de couro e não de ouro, pintadas de dourado e punham na cabeça e faziam a festa do mesmo jeito, sem compreender a pobreza, a decadência que aquilo queria dizer, que entretanto furava os olhos.
Afinal aconteceu que a esquadra turca se impostou diante de Bizâncio e começou o ataque. O ataque foi terrível, o Imperador era católico, lutou energicamente contra os turcos, pereceu na batalha, os bizantinos foram quase todos exterminados, muitos fugiram pelos Balcãs e chegaram até a Itália onde os turcos não conseguiram chegar, de maneira que se salvaram levando até objetos de arte, tesouros, que eles vendiam para poder sobreviver etc. Mas o Imperador morreu e morreu em condições tão trágicas que o corpo dele foi encontrado numa montanha de cadáveres e só foi reconhecido porque os imperadores de Bizâncio usavam sapato vermelho — só eles usavam — e foi encontrado um cadáver, irreconhecível no resto, mas de sapatos vermelhos. Por aí eles perceberam que o Imperador bizantino tinha morrido, tinha sido morto pelos turcos durante a batalha.
Em certo momento, como não podia deixar de ser, os turcos, que eram maometanos, inimigos muito encarniçados da Fé Católica, irromperam na Basílica de Santa Sofia, famosa basílica por sua beleza, uma das igrejas mais célebres do mundo de então, e entraram fazendo um barulho tremendo etc. Qual não foi a surpresa deles notando que alguém tocava um violino muito delicado dentro da igreja. No coro da igreja havia um monge alheio a tudo que tocava violino. Eles subiram ao coro, mataram o monge e quebraram o violino. É claro! Não podia acontecer outra coisa, ele tinha preparado isso. A cidade inteira entregue ao drama, aquela Cristandade devastada, sujeita à pior miséria, ele tocando seu violino, calmo como se estivesse vivendo uma manhã normal. O fim dele era o símbolo do merecem as pessoas que não observam este princípio de obstar desde logo e no começo, aos primeiros sintomas verdadeiramente perigosos, esmagando, esmagando, esmagando.
* Grão de milho
Em sentido oposto, muita coisa boa tem se deixado de fazer na História, porque existe a possibilidade de a gente, com muito poucos recursos, tentar coisas colossais, e não tenta porque não percebe que assim como uma coisa pequena e má pode desenvolver-se e transformar-se num perigo, assim também uma coisa pequena e boa pode desenvolver-se e transformar-se numa salvação.
Não há nenhum princípio que favoreça o mal de tal maneira que as batalhas sejam sempre ganhas por ele. E assim, em virtude disso, o bem tem possibilidades, as vezes quando ele é do tamanho apenas de um grão de arroz, há a possibilidade de a partir desse bem, se fazer um bem colossal.
Os Srs. sabem com que facilidade o milho se frutifica, cresce etc. Um indivíduo com um grão de milho pode ser que faça um milharal. Com um milharal pode ser que ele faça uma fortuna, porque ele soube não desanimar quando ele tinha no bolso apenas um grão de milho.
* Sacrifico do corpo e da alma
É bem verdade que se nós considerarmos apenas a ordem natural das coisas, nós veremos que nesta terra, por causa do pecado original e por causa do demônio, é mais fácil ao mal vencer, do que ao bem. Porque o mal oferece o atrativo de um gosto, de um deleite, de um prazer. E o homem muito facilmente atende ao convite do prazer.
O bem, pelo contrário, oferece um ideal, oferece uma grande perspectiva de ordem espiritual, mas ele pede o sacrifício do corpo e muitas vezes pede o sacrifício da alma.
Vamos dizer por exemplo: um homem, que não tem o vício da bebedeira, mas passa por uma bodega qualquer e vê ali homens que estão bebendo. Ele olha fortuitamente para um que está bebendo com tanta delícia, que ele pensa: “Está vendo? Isso eu não tenho para mim. Eu não sei aproveitar o álcool dessa maneira. É um prazer a menos na minha vida. E a minha vida é tão pesada, tão cheia de coisas difíceis, por que eu não vou entrar aqui, pedir uma garrafa desse vinho e beber também? É verdade que aquele homem lá está bêbado. Mas aquele é um viciado, eu não sou assim. Eu nunca bebi! Nunca me embriaguei! Não há perigo de eu ficar bêbado”. Entra e manda vir a garrafa. Pode ser que seja a primeira de uma série em que ele acabe um bêbado como aquele.
O bem é mais difícil de seguir, encontra mais resistências. Mas o bem tem de seu lado algo que o mal não tem: a graça de Deus, a ajuda de Nossa Senhora. Isto tem o bem e não tem o mal.
Alguém me dirá: “Mas tem o demônio”. Eu pergunto: “Quem pode ter de seu lado a vencedora que é Nossa Senhora, vai ter medo de outro que tem de seu lado um vencido que é o demônio?”. Não faz sentido. Mas não faz nenhum sentido.
De maneira que na realidade, quem tem confiança em Nossa Senhora ousa tudo em favor do bem. E assim como ele viu o mal brotar de insignificâncias, e vencer, ele vê que o bem, ainda mais quando favorecido por Nossa Senhora — e sem isso não vai – o bem favorecido e protegido por Nossa Senhora, Medianeira Universal de todas as graças, este pode também vencer, e vencer muito mais brilhantemente.
* O exemplo de Covadonga
Um exemplo tão conhecido entre nós, mas que é tão magnífico que não pode deixar de ser mencionado nestas circunstâncias, o exemplo magnífico é o dos resistentes espanhóis em Covadonga.
Os Srs. conhecem o fato. Os árabes maometanos invadem a Península Ibérica, entram pelos territórios atualmente integrantes do reino da Espanha e de Portugal, vão invadindo, invadindo, e as populações dos católicos visigodos moles, traídos por um bispo medonho, chamado Dom Opas – traidor medonho – vão sendo entregues, vão se submetendo ao domínio dos maometanos.
E um grupo pequeno de últimos resistentes, já próximos do mar, mas ao norte da Espanha – onde não tinham outra coisa para fazer senão se atirar no mar para fugir –, estes, reunidos na gruta de Covadonga, rezam. E ali, no último momento, Nossa Senhora aparece a eles, e lhes promete que Ela dirigirá a reação e que os mouros vão ser expulsos da Espanha.
Qual é o efeito dessa promessa? Esses últimos resistentes podiam muito pouco, eram pouco numerosos, [eram trânsfugas. Eles vinham fugindo, eles traziam dentro de si todos os defeitos da mentalidade do homem fujão, mas com a mão de Nossa Senhora, ubi Sanctissima posuit manus, onde a Santíssima Mãe de Deus pôs sua mão, não se discute!] Eles começam uma reconquista que termina oitocentos anos depois, oito séculos — mas começam a reconquista. E com esse começo dessa reconquista eles levam até expulsar os mouros de Granada e consumar a unidade católica da Espanha. Enquanto por seu lado, os portugueses em vitórias também gloriosas, expulsavam os árabes de Portugal e a Península Ibérica inteira passou a ser uma península cristã, católica.
* Um pequeno elemento de resistência pode vencer tudo
Agora, isto tudo quer dizer: um punhadinho de gente que está fugindo, com mulheres, com crianças, talvez com animais para irem comendo pelo caminho, estes, protegidos pela Providência, protegidos por Nossa Senhora, vão até a última vitória. Tiveram que confiar durante oitocentos anos, mas a glória deles foi: durante oitocentos anos eles confiaram e lutaram. Venceram com a fórmula de Santo Antônio Maria Claret, espanhol, catalão: A Dios orando y con el mazo dando. Mas venceram. De uma vitória das mais brilhantes da História. Por quê? Eles compreenderam que um pequeno elemento de resistência poderia vencer tudo.
A Providência – e com isto eu encerro estas nossas considerações – quis dar aos homens um sinal sensível disso que eu estou dizendo. E dois fenômenos que mais caem debaixo da atenção do homem e mais se repetem, infatigavelmente, infatigavelmente, infatigavelmente, abrem os nossos olhos para isso.
Os Srs. tomem o nascer do sol. Nasce o sol. Ele nasce e cada vez mais vai se tornando esplendoroso. Os Srs. têm as belezas da aurora, os srs. têm a beleza do meio-dia em que o sol está a pino, e se diria: ele venceu sobre as trevas uma batalha tão grande, que daqui até o fim do mundo vai haver um dia permanente e uma luz de sol que nunca mais acabará.
Mas quando o sol está mais a pino, um ou outro mais… com uma vista mais penetrante, mais sensível, percebe de repente que no seio da vitória do sol, de repente uma luz se apaga um pouco, o grau de sua luminosidade se apaga um pouco. Ele mesmo duvida: “Será isto? Ou será que a luz muito forte do sol me ilude? Eu acho que deve ser uma ilusão. Um tal sol, tão maravilhoso, nunca mais vai se por”. Dali a pouco ele nota que não: a claridade do sol decresceu um pouco. Ele diz: “Bom, mas não tem importância. Para quem tem tais graus de claridade perder um pouquinho não tem importância nenhuma”.
Daqui a pouco o sol perdeu mais um pouco e ele, otimista, diz: “Isso também não tem importância, porque em última análise até está mais agradável. Eu estava com a vista cansada, quem sabe se esta diminuição de luminosidade vai me trazer um certo repouso. É uma coisa sábia, feita por Deus. Ele vai diminuir um pouco essa claridade, eu vou conseguir dormir melhor, porque já estou começando a ficar um cansado”.
Quando a coisa vai mais para a frente, ele primeiro começa a se inquietar um pouco, porque ele percebe que no mato próximo, onde ele entrou para passear um pouco, apareceu um fenômeno que no campo raso ele não notou. O mato está começando a se encher de trevas. A luz do sol penetra menos no matagal e com isso a noite no matagal vai fazendo suspeitar a sua presença. Ele olha para cá, para lá [e se pergunta[: “Isso será natural? Até no meio-dia é escuro no matagal. Mas será que vai isso até o obscurecimento total do sol? Não pode ser! Eu vi o sol ao meio-dia, tão glorioso, tão bonito, isso não pode ser”. Ele continua despreocupado.
* Quomodo obscuratum est aurum?
Em certo momento ele se sente cansado, senta-se ao pé de uma árvore e dorme. Quando ele acorda, está tudo mudado. Fez-se noite, os animais que ele vira acordados estão dormindo, e os outros animais que ele não tinha visto durante o dia estão esvoaçando, estão emitindo rugidos, estão emitindo piados, estão voando com estilo que durante o dia ele não viu.
Tudo é sinistro e tudo em torno dele faz pensar que aquela noite é a derrota completa do sol, e que agora, até o fim do mundo, só haverá trevas.
Ele anda pelo campo, olha de um lado para outro, vê estrelas muito bonitas, mas pensa: “Essas estrelas são pedacinhos de sol , derrotados e esmagados que ficaram espalhados pelo céu.
Daqui a pouco elas se apagam também e eu estou diante de uma situação sem remédio. Eu não sei como viverei neste ambiente confuso, neste ambiente onde eu não conheço as feras, onde minha natureza se sente mal, onde até as aves que costumam me encantar são outras e me metem medo”.
Ele olha para uma coruja e a coruja: “quá, quá, quá”, por cima dele. “O que é isto? O que aconteceu? Aquele esplendor no que se apagou? Quomodo obscuratum est aurum?
De que modo é que o ouro se obscureceu? O ouro que luzia no mais alto dos céus. Como foi se obscurecer esse ouro? Oh, oh… Então, agora é noite”.
* A aurora que nasce no meio das trevas
Ele, de duas uma: ou espera ou não espera. Ele que não soube interpretar os primeiros sinais da noite que vinha, ele olha para o céu e em certo momento, ele tem a impressão que, em certo lugar, um pouquinho de luz se formou. Ele esfrega os olhos e olha de novo. Será? Ele diz: “Não, não pode ser. Eu estou abatido, eu entrego os pontos, eu não tenho coragem nem de esperar. Eu vou meter a minha cabeça dentro das mãos e chorar. Vou ver se durmo durante todo o tempo que esta escuridão existir. Se a morte me acolher nesta escuridão, bem-aventurada morte! Porque eu afundo no negrume dela, mas eu ao menos não tenho mais conhecimento de nada, é tudo escuridão em torno de mim'”.
Reclina-se, não consegue dormir. Ao cabo de uma hora mais ou menos, ele volta para aquele lugar e olha. E diz: “Bom, é inegável. Um pouco de luz aí há”. Mas repete o mesmo raciocínio errado que ele fez a respeito do sol. “Uma treva tão dura! O que pode esse pequeno pinguinho de luz que eu estou notando aí, o que ele pode contra isso? Luz que começas a luzir, tu me incutes uma esperança enganosa. Tu mentes. Eu não consinto em me alegrar com teu aparecimento, porque tu não és senão uma ilusão”.
Depois, aos poucos, a luz vai vindo e ele começa a pensar: “Será que se repete a coisa com que se deu com o sol? Será que essa luz vai crescendo aos poucos como cresceram as trevas? Será que em determinado momento a luz tomou conta de tudo? Será que eu vou ver ainda o sol no seu esplendor? Se for isto, eu não aguento. Eu não aguento uma vida de luta, em que as torcidas contra as trevas e a torcida pela luz se tornam tão extensas e deixam a vida tensiva, pesada, difícil. Eu não aguento, isso não é páreo para mim. Eu não quero saber disso”. Desfalece.
Logo mais, no meio do sono dele, ouve um cântico de um passarinho conhecido. Abre os olhos, a terra toda está iluminada. Ele se levanta, está alegre e pensa: “Agora chegou a vez do sol tirar desforra. E agora o sol não vai deixar se deglutir, vou voltar para o sol perpétuo”. Quando vem a outra noite ele diz: “Não, não adianta nada, o sol não tem juízo, a noite é que tem juízo e a noite é perpétua”.
E assim ele vai rolando até ficar louco e acabou o nosso homem.
Qual teria sido o erro desse homem?
Ele, primeiro, não compreendeu que Deus tudo faz segundo sua Providência e que mesmo os acontecimentos que parecem mais absurdos, mais contrassenso, num plano geral da Providência se encaixam. E que se Deus quer que haja sol, Ele também quer que haja trevas, e que as trevas e o sol se sucedam para o bem do homem e não para tensionar o homem, para criar um ambiente em que o homem descanse; e depois um ambiente em que o homem acorde alegre, e se sinta em condições para trabalhar.
Um ambiente, e à noite, em que o homem se lembra da morte, se lembra de sua própria ruína, compreende o efêmero dos dias de sol, e que só uma coisa presta, que paira por cima do sol e da noite: é Deus em Sua eternidade. Só para Ele nós devemos olhar, só nEle nós devemos confiar. Bem entendido, na Sua Mãe Santíssima, que é a Medianeira de todas as graças junto a Ele.
Ele não entende que Deus cria com isso as condições por onde podemos viver na terra. Uma terra perpetuamente escura, uma terra perpetuamente de sol, é uma terra que não é viável, como uma vida de perpétua alegria — tantos homens querem ter essa vida –, ou uma vida de perpétua desgraça — tantos homens acham mais cômodo se habituar a essa ideia do que esperar, rezar e lutar –, essas vidas são opostas à natureza do homem.
* Deus nos deu um sinal: tudo é efêmero, tudo passa, o homem deve lutar, a luta é o sentido da vida
Deus nos dá com essa rotação o sinal do seguinte: tudo é efêmero, tudo pode passar, tudo pode levar a resultados inesperados, o homem deve lutar e a luta é o sentido da vida. Luta contra si mesmo, contra os seus defeitos que a todo momento estão procurando renascer e arrastá-lo para o mal; luta por outro lado contra o adversário externo, extrínseco a si, é o demônio, são os agentes do demônio que querem arrastá-lo para o pecado; luta em todos os sentidos da palavra; luta contra a doença, luta contra as carências, contra a indigência, essa luta se chama o trabalho.
Esta luta é um elemento sem o qual a vida não seria vivível, ela se tornaria mais insuportável do que a vida de um mendigo, de um miserável; que isto é o normal da vida. E que nesse normal da vida o que a gente deve é procurar guiar os acontecimentos na quota de direção que Deus nos entregou a respeito deles. Deus nos deu meios de dentro desta invariabilidade de muitos fenômenos, podermos variar muita coisa. Mas desde que nós conheçamos o princípio de que é preciso lutar e que sem luta não há vida; e, em segundo lugar, nós conheçamos o princípio de que com a graça dEle nós temos — é uma palavra que saiu do vocabulário — a solércia, que dizer, a agilidade, a prontitude no julgar, no perceber, no discernir para agir logo no começo e obter “in ovo” vitórias brilhantíssimas e prolongar assim o glorioso reinado do Bem.
Mas do outro lado, que nós devemos também compreender que o mesmo é com o mal. E mesmo quando o mal parece mais poderoso, mais possante, a vitória dele parece mais inabalável, quem confia, confia, confia e reza a Nossa Senhora, assistirá ainda a aurora do Bem e a aurora da vitória dEla.
Esta reflexão tem uma particular aplicação para esta mudança de ano. Nós passamos de 1988 para 1989. Nós estamos chegando ao fim do milênio, daqui a onze anos nós estamos no ano 2000. E aí é uma mudança de século, mas é uma mudança de milênio também. Uma coisa importantíssima para a história dos homens. Nós vamos nos aproximando disso. E em que condições nós chegamos a esse milênio?
O meio-dia da Idade Média está apagado. Restam alguns sinais apenas daquela fidelidade exímia que marcou a Igreja e marcou a Civilização Cristã durante a Idade Média. Dir-se-ia que são como estrelas que restam no Céu a iluminar a escuridão deste reino de Satanás. A Igreja é santa, Ela é indestrutível, nela haverá sempre um elemento de santidade, de verdade, de santidade e de beleza: Verum, bonum, pulchrum.
Mas pode-se dizer que tanto quanto esses fenômenos podem parecer invisíveis, eles parecem invisíveis em nossos dias. E tanta coisa tem caído, tanta coisa tem desaparecido, tanta coisa se tem transformado de um modo infeliz na Igreja! E então, na civilização cristã nem se fala. Não se pode falar mais de uma civilização cristã. Há uma civilização post-cristã, uma civilização ex cristã, há um cadáver da civilização cristã, sujeito a um processo de putrefação. Mas já não há civilização cristã, de tal maneira ela morreu, ela desapareceu.
* Dir-se-ia que quase todas as estrelas do firmamento caíram
No meio dessa tristeza toda, dir-se-ia, que quase todas as estrelas do céu caíram também. E que todas as aves sinistras, todas as feras de mau agouro, todos os fenômenos nocivos ao homem, estão nos cercando de todos os lados. Nós estamos em situação pior do que os heróis de Covadonga. Eles ainda tinham o mar para fugir. Nós não temos nada, nada, nada, a não ser, a não ser a virtude da confiança que nos leva ao manto e aos braços de Nossa Senhora.
Nós vamos nos perguntar: quando é que, afinal de contas, virá o Grand-Retour? Quando virá a Bagarre? Quando virá o Reino de Maria? Há quanto tempo nós esperamos!
Nossa Senhora fez as revelações de Fátima em 1917! Nós já passamos de 1987. Setenta anos e nada daquilo se confirmou. Por outra, tudo quanto é pecado cresceu e está desafiando a Deus; a extensão do poder mundial da Rússia se tornou algo de desalentador. Praticamente o mundo ocidental está nas mãos do comunismo como um passarinho está nas mãos de um homem que o caçou. O passarinho ainda está vivo, mas o homem sente o coração do passarinho que bate, se ele apertar um pouco, ele estrangula o passarinho. Se os russos quiserem – os russos, heim… – eles estrangulam a civilização. Só com uma diferença: é que o passarinho ainda tem instinto de conservação e o seu coração bate desesperadamente. No homem ocidental, o coração não bate…
Os Srs. saem à rua e vejam como ele está considerando esta passagem de ano. Estupidificado, numa atonia completa, ele cuida só de “festocas” para amanhã à noite — não de oração –, e se ele não cuida de “festocas”, ele pensa em passar nhonhozamente [pachorrentamente] a noite, dormindo. Porque a meia-noite para ele não significa mais nada. A passagem do dia, a passagem do ano, a passagem do milênio, se a passagem do milênio tiver que se passar ainda vendo inatingido o poder deste monstro que é a Revolução, ele não liga, não dá importância a isso, isso não é nada. Para ele só o que é algo é o prazerzinho dele, a “vidoca” dele, a degradação deliciosa na qual ele está.
* Esperanças para o ano 2.000
Eu tenho muita esperança que no ano 2000 o Reino de Maria já esteja implantado! Os Srs. tenham passado pelos esplendores do Grand-Retour. Os Srs.? Nós, mais provavelmente, tenhamos passado pelos esplendores do Grand-Retour.
Quando os sinos das igrejas começarem a bater e convocar os fiéis — o número dos sobreviventes não será excessivamente grande –, para celebrar uma liturgia inocente, que é a continuação da liturgia esplêndida como ela era antes do Concílio Vaticano II, cultivada, magnífica, inteligente, impregnada de Fé, santificante em cada um de seus gestos, em cada uma de suas canções, em cada uma de suas palavras. E nós formos – eu, no extremo da velhice, se até lá Deus me conservar –, os Srs., mesmo os mais novos, já na idade madura, formos à noite para a igreja, talvez nós nos lembraremos deste Santo do Dia. Os Srs. se lembrarão dessa horrível noite que tornava negros até os meios-dias, e que era o clima de pecado e de tristeza desse reino de Satanás.
Os Srs. dirão: “Mas nós olhamos para o Coração Sapiencial e Imaculado de Maria, e compreendemos que aquilo era, para nossa vista de simples mortais, o começo da primeira aurora desta magnificência!”
E é possível, é possível, que nessa hora um demônio — os haverá sempre — sussurre no ouvido dos eternamente tentados de desânimo: “Do que adianta? Já uma vez houve uma coisa assim, e, ahah, eu consegui esgueirar-me entre eles e consegui exercer uma influência sobre eles. Lembra-se daquela noite medonha, que era noite até o meio-dia, agora vou fazer a mesma coisa. Ah, ah!”. Então alguém diz: “Do que adianta? Adianta de tão pouco!”
* Condições para durar o Reino de Maria
Aí a resposta virá. A coisa durará na medida em que: 1º: formos muito devotos de Nossa Senhora, que é a nossa vida, nossa doçura, nossa esperança, o elo de nossa união com Nosso Senhor Jesus Cristo, Homem-Deus e nosso Salvador; 2º: desde que neste dia admirável que afinal raiou, nós saibamos desconfiar das menores coisas e interviermos com rapidez, imediatamente, sem preguiça, sem otimismo imbecil ou criminoso, para extinguir qualquer coisa que não preste!
A resposta é: mas então o Reino de Maria não terá fim? Terá. Está escrito no Evangelho. Virão os últimos dias, virá o fim do mundo, mas depois de chegar à derrota final, não haverá mais derrota. Aí os últimos homens que tenham perseverado, não morrerão. Os mortos serão ressuscitados, os maus serão julgados pelo Filho de Deus que terá baixado sobre a terra em grande pompa e majestade, para destruir tudo quanto é mal, para mandar os demônios todos para o inferno, e os bons subirão com Ele para o Céu. E lá não haverá mais absolutamente oportunidade para pecar, nem para temer. Haverá apenas ocasião para injuriar.
* Luta entre Céu e Inferno
O famoso Cornélio A Lapide admite a hipótese de que os demônios no inferno façam ouvir sua voz no Céu, contendo uivos e brados de ódio e de blasfêmia, contra os homens que estão em cima e que eles quiseram perder e não conseguiram, e que estão ali brilhando e vencendo sobre eles.
Quer dizer, cada um dos Srs. tome para si a coisa. Pode ser que no momento em que estou falando um demônio esteja tentando algum dos Srs. Saibam que os Srs. resistindo, este demônio vai reconhecê-los de baixo, vai insultá-los, mas aos Srs. será dado o poder de replicar triunfalmente. E assim de esmagar. Os demônios não se contentarão em injuriar os homens, eles injuriarão os Anjos. E aos Anjos da guarda que nos guardaram na terra, nós em homenagem a eles, por união e coesão de todos os que habitam no Céu, nós faremos coro com os Anjos injuriados, como os Anjos injuriados farão coro com os homens injuriados, para cantar a glória de Deus contra aquela coisa que o demônio está afirmando. O demônio ousará blasfemar contra Nossa Senhora, contra Nosso Senhor Jesus Cristo, contra a Santíssima Trindade, e o Céu inteiro cantará de indignação! Mas já numa paz sem fim, numa vitória que não conhecerá derrotas, numa eternidade que esta sim será verdadeiramente eterna.
Na passagem do ano, amanhã, quando estivermos nos esplendores das belas cerimônias que ali se realizarão, sobretudo quando o Santo Sacrifício da Missa chegar ao seu ápice, quer dizer, no momento da Consagração em que Nosso Senhor Jesus Cristo renovará de maneira incruenta o Santo Sacrifício do Calvário, então aí nos lembremos destas considerações. No momento em que o padre dirá as palavras da Consagração em que se operará a Transubstanciação, peçamos a Nossa Senhora, e por meio dEla a Nosso Senhor Jesus Cristo, o Adveniat Regnun Tuum, para que venha logo o Vosso Reino. E nós teremos passado um Ano-Bom bem-aventurado!
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