18. Plinio Corrêa de Oliveira, as TFPs e os camaleônicos “modelos” revolucionários
A MODA... Quem nunca abriu um figurino antigo e não se
surpreendeu com o encanto de gerações passadas por tal ou tal vestimenta que
hoje parece inexpressiva ou ridícula? Um espírito lógico não deixaria de
refletir em seguida: será que o mesmo não vai acontecer com aquilo que hoje
está no vento?
"Estar no vento é a ambição das folhas
mortas", disse espirituosamente alguém. Mas nem por isso o número das
pessoas que desejam "estar no vento" se torna menor. Em nossa época,
pelo contrário, a capacidade de atração dos modismos aumentou. É que o homem de
hoje vai abandonando o hábito de refletir e, segundo a consagrada expressão de
Paulo VI, vive a "civilização da imagem" (1). Assim sendo, as
"folhas mortas" proliferaram prodigiosamente, sendo incalculável o
número daqueles que estão sempre à procura de imagens novas e de brilhos
efêmeros.
(1) Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi de
8-12-75. Documentos Pontifícios nº 188, Vozes, Petrópolis, 1984, 6ª ed., p. 30.
O ágil marketing revolucionário não poderia
deixar de levar em conta tal circunstância e de adaptar-se às características
específicas de nossa época. Foi o que fez, servindo-se da imagem como elemento
preeminente de seu proselitismo individual e coletivo. Mais do que isto: passou
a utilizar largamente a dramaturgia política em nível internacional, como maneira
de atrair ou desviar a atenção, entreter e/ou arrastar as massas.
Os recursos para tal são numerosos, e alguns vêm sendo
empregados desde que o mundo é mundo. Mas é interessante considerar em
particular um deles, que tem sido largamente utilizado sobretudo desde a II
Guerra Mundial.
O processo, na realidade, é simples. Consiste ele em
levantar modelos, ora de socialismo, ora de comunismo, ora de outras
estruturas revolucionárias, os quais gozem do benefício da novidade e explorem
as debilidades de certos setores da opinião pública mundial, em um momento
dado.
Tais modelos surgem como auroras carregadas de
esperanças. Elevam-se gradualmente como o sol, acima da linha do horizonte, e
atingem o zênite da força e da irradiação. Depois entram em declínio, o mais
das vezes de maneira inglória.
Logo a seguir, geralmente de onde não se esperava,
surge novo modelo, e descreve um périplo parecido. Todos os olhos se voltam
esperançados para suas figuras-símbolo, enquanto se desviam do modelo da
véspera, quase como um menino afasta um brinquedo de que já se cansou.
1939. A Alemanha nazista e a Rússia assinam pacto de não agressão
1941. Segundo ato: inopinadamente a Alemanha rompe o pacto e invade a Rússia
1945. Em Yalta, Stalin joga... e vence. A expansão territorial do comunismo
em poucos meses vai além de toda imaginação
O novo modelo mantém-se geralmente alguns anos
na ribalta, até tornar-se monótono e sem graça. É seu envelhecimento. Antes de
mergulhar na decrepitude, cede lugar a outro... e assim sucessivamente.
Uma variante desse estratagema da guerra psicológica
revolucionária é constituída pelos modelos que não levantam propriamente
esperanças, mas exploram o prestígio da força. Tais modelos,
alternando-se com os precedentes ou sobrepondo-se a eles, fazem com que as
massas fiquem sob o influxo ora do medo, ora da simpatia, mas geralmente sob a
ação simultânea de ambos (2).
(2) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Baldeação
ideológica inadvertida e diálogo, Ed. Vera Cruz, São Paulo, 1966,
Cap. I, 9.
As vantagens carreadas pelo lançamento dos modelos
são muitas. A maior delas, entretanto, é certamente a de atenuar, desviar,
quando não eliminar, as reações de caráter contra-revolucionário. Tão sutil e
bem executado tem sido o manobrar da dramaturgia revolucionária que, como se
disse acima, numerosos são os que se têm deixado embair por ela. Tal,
entretanto, por proteção da Providência, não tem sucedido com as TFPs. E, uma
vez que o objeto desta obra é narrar a história das 15 entidades coirmãs e
autônomas, pareceu interessante rememorar rapidamente aqui qual foi o evoluir
dos modelos na história recente, e qual a atitude de previsão ou de diagnóstico
precoce (3) que face aos mesmos tomou, desde o início de sua vida pública, o
Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, e depois, as diversas TFPs, nas ocasiões que
se têm apresentado em suas respectivas pátrias.
(3) "Diagnóstico precoce": expressão médica
que significa o conhecimento ou determinação de uma doença pelos primeiros e
mais tênues sintomas dela.
I. O nazi-fascismo
O nazismo foi certamente um modelo. O fascismo
foi sua versão italiana. Este modelo foi depois copiado, com maior ou menor
fidelidade, em várias países do mundo.
A atitude anti-nazi-fascista de Plinio Corrêa de
Oliveira e de seus companheiros de luta já foi objeto de comentário em outra
parte do presente volume, onde se publicam estatísticas até o momento inéditas.
Para os efeitos da presente temática, é interessante
recordar, entretanto, que geralmente até mesmo os que se opunham ao nazismo o
consideravam adversário autêntico do comunismo.
Por isso, não foi sem surpresa que muitos leram no
"Legionário", no dia 1º de janeiro de 1939, as seguintes palavras de
Plinio Corrêa de Oliveira:
"Efetivamente, enquanto todos os campos se
definem, um movimento cada vez mais nítido se processa. É o da fusão
doutrinária do nazismo com o comunismo. A nosso ver, 1939 assistirá à
consumação dessa fusão" (ver também "Legionário", 28-8-38;
12-2-39; 14-5-39; 14-1-40; 16-6-40).
Muitos leitores do "Legionário" com certeza
se lembraram deste aviso quando em agosto de 1939 – apenas oito meses depois de escritas estas linhas –
a Alemanha e a Rússia assinaram o pacto de não agressão conhecido como
Ribbentrop-Molotov, bem como protocolos secretos sobre a determinação das
esferas de influência alemã e soviética na Europa do Leste.
Assinado o tratado, Plinio Corrêa de Oliveira assim o
comenta (17-9-39):
"Foi uma inabilidade sob este ponto de vista [o
do desmascaramento do nazismo] o pacto teuto-russo. É possível que dentro em
breve, Hitler e Stalin brinquem novamente de inimigos, `pour épater les
bourgeois' e despistar o público" (grifos nossos).
Insistia em 8-12-40: "O `Legionário' já tem
afirmado reiteradamente que a mascarada nazi-soviética pode de um momento para
outro recomeçar e que, hoje ou amanhã, bem pode ser que Moscou e Berlim
reencetem a comédia de seu recíproco antagonismo com a qual tão sensíveis
vantagens auferiram há algum tempo atrás".
Dizia, por fim, em 18 de maio de 1941: "Como
todos vêem, a colaboração germano-russa está atingindo seu auge, pela
intervenção ativa da Rússia ao lado da Alemanha, na política asiática. O
`Legionário' já previu longamente tudo quanto se está passando. E, exatamente agora, quando parece
ter chegado a seu zênite esta colaboração, permitimo-nos adiantar mais uma
coisa a nossos leitores, coisa esta que certamente lhes causará surpresa: no pé
em que estão estas relações, tanto é possível que durem longamente,
quanto que de repente a Alemanha agrida a Rússia. E tudo isto sem que
deixe de ser perfeitamente real a simbiose nazi-comunista. `Qui vivra,
verra"' (grifos nossos).
Um mês depois, a Alemanha iniciava sua ofensiva contra
a Rússia (22-6-41). Os preparativos foram feitos dentro do sigilo mais
absoluto, como o atestou, entre outros, o general Guderian em Nuremberg (cfr.
Raynard Cartier, Comment Hitler a perdu la bataille de Moscou, in
"Historama", nº 246, maio/72, p. 58).
II. O comunismo internacional
No período anterior à última Guerra Mundial
(1939-1945), o comunismo se apresentavacomo agressivo, e disposto a conquistar
o poder nos diversos países, ou por revoluções, ou por guerras externas. Os PCs
locais, fiéis a Moscou, no primeiro caso preparariam e executariam o golpe de
mão. No segundo, atuariam como quinta-colunas.
Tal procedimento naturalmente provocava uma sadia
reação de desconfiança no mundo inteiro. Em 1943, entretanto, Stalin dissolveu
a III Internacional (4) e acenou com a possibilidade de democratização da
Rússia, produzindo certa distensão em todo o mundo livre.
(4) Órgão de coordenação dos PCs no mundo inteiro.
"O comunismo era uma heresia declarada – comentou
o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Ao menos sob este ponto de vista não era tão
nocivo. Agora, no único ponto em que podia piorar coisa tão péssima, piorou o
comunismo. Também ele diz hoje em dia: `não existo"' (5).
Na mesma ocasião, o ilustre catedrático paulista
teceu considerações cujo acerto os
acontecimentos posteriores haveriam de confirmar.
Afirmava ele:
"Morto em aparência o próprio expansionismo
comunista, a opinião mundial aceitaria com muito menor relutância uma dilatação
territorial da Rússia na Europa" (6).
Foi realmente o que aconteceu. A dissolução da III
Internacional produziu no Ocidente uma prodigiosa baixa na vigilância, e criou
clima propício para as ominosas concessões feitas aos comunistas na Conferência
de Teerã (novembro-dezembro de 1943), nas conversações de Moscou (outubro de
1944) e na Conferência de Yalta (fevereiro de 1945), de que resultou a
incorporação da Europa oriental ao regime soviético.
Mas as piores conseqûências da dissolução da III
Internacional deveriam dar-se no plano psicológico. Plinio Corrêa de Oliveira
vê desde logo o perigo e o denuncia com as seguintes palavras:
"O
`camarada Stalin' já insinuou em sua carta à Agência `Reuters' (7) que deposita
as maiores esperanças nos grandes movimentos ideológicos de sentido igualitário
e nivelador que em todos os países aliados lentamente se organizam. E, com
isto, mostrou claramente que a Rússia espera intensificar seu movimento
confusionista, criando novas e vastas `frentes populares' no mundo inteiro.
Simplesmente, para melhor iludir, já não se limita a ocultar o caráter bolchevista
destas `frentes': vai mais longe. Oculta a existência da III Internacional. E
ilude assim os incautos, cujo número é infinito segundo diz a Escritura:
`stultorum infinitus est numerus"' (grifos nossos) (8).
(7) A carta continha esclarecimentos a propósito da
dissolução da III Internacional.
De fato, dissolvida a III Internacional, os partidos
comunistas oficialmente já não mais se viam obrigados a confessar a obediência
a um poder estranho. Ficava aberto o caminho para que cada um deles aparentasse
jogar seu próprio jogo e é o que muitas vezes têm feito, e continuarão fazendo.
Em outros termos, ampliou-se assim enormemente a capacidade de manobra do
comunismo.
A dissolução da III Internacional constituía, pois,
motivo para preocupação e não para distensão. Funestas conseqüências haveriam
de advir desse ato de Stalin. Foi o que Plinio Corrêa de Oliveira soube ver, e
exprimir com clareza desde a primeira hora.
* * *
Em breve, as próprias conquistas da Rússia a levariam
a lançar mão de novos recursos no terreno da guerra psicológica revolucionária.
Pois diante da fabulosa expansão do poder comunista decorrente das concessões
diplomáticas obtidas na Conferência de Yalta, uma onda de reação surgiu no
mundo ocidental. O macartismo constituiu sem dúvida sintoma expressivo da
existência de uma reação, não apenas norte-americana, mas mundial, contra o
marxismo.
1948-49. Tito encena ruptura com Moscou e passa receber ajuda ocidental
1958-62. Mao Tsé-Tung alardeia novo "cisma"
1959. Fidel Castro, corifeu de novo "modelo"
1961. Kruschev e Kennedy durante o chamado "degelo". O comunismo
"fatura" em propaganda
É impossível deixar de dizer, de passagem, que
McCarthy lançou um novo estilo de propaganda anticomunista. Notando que as
razões filantrópicas para ser contra o marxismo eram as que mais tocavam o
público, ele insistiu nelas até o último ponto, dando um realce menor aos
argumentos doutrinários. Assim, o anticomunismo, que até então fora um
movimento sobretudo ideológico e racional, passou a ter caráter notadamente
instintivo e sentimental. Quando surgiu uma aparente atenuação do cunho
policialesco do comunismo, a reação tendeu a se evanescer, porque as razões
doutrinárias para a oposição à hidra vermelha tinham sido esquecidas.
Essa evanescença do anticomunismo, contudo, haveria de
se processar lenta e gradualmente. Seus efeitos ainda não se faziam sentir no
imediato pós-guerra. O que se via então, é que por toda parte as conquistas
vermelhas alarmavam a opinião pública.
Em conseqüência, o comunismo internacional foi levado
a mudar seu facies mais uma vez. Ele o fez, ostentando aparatosas divisões
internas, que causavam a impressão de que seu aspecto monolítico estava se
desfazendo em pedaços, e enchiam de esperanças a grande multidão dos ingênuos.
Assim, em 1948/49, Tito rompe com Moscou e assina
tratados comerciais com os países do Ocidente. Em 1952 passa a receber ajuda
financeira e militar dos Estados Unidos.
Em janeiro desse mesmo ano, afirma o Prof. Plinio
Corrêa de Oliveira:
"É evidente que muitos elementos anticomunistas
estão tomando a sério esta divisão, e aceitando sofregamente a colaboração dos
líderes vermelhos que abriram um cisma em relação a Moscou. Que valerá a
sinceridade deste cisma? Que valerá a sinceridade desta nova colaboração?
Aceitar no âmago da resistência anticomunista estes novos aliados o que é,
senão abrir as muralhas a algo de muito parecido com o cavalo de Tróia e
aumentar a confusão?" (9).
(9) "Catolicismo",
janeiro de 1952.
Depois do "cisma" titoísta, veio o de Mao
Tsé-Tung. Em 1958, segundo o noticiário, Moscou e Pequim tiveram os primeiros
estremecimentos em suas relações. Nos anos seguintes, travou-se enfática
polêmica entre os dois maiores países vermelhos, a propósito das teses do XXI
Congresso do PC soviético e da coexistência pacífica de Kruchev. A ruidosa
querela foi se desenvolvendo até chegar, em 1962, à ruptura aberta.
Nas páginas de "Catolicismo", escrevia o
Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em janeiro de 1960:
"Assim se vai acentuando a bicefalia do mundo
comunista: uma cabeça está em Moscou e outra em Pequim.
"E essas cabeças têm fisionomia e linguagem
diversa. Uma [Rússia] olha gentil, sorri, e começa a parecer fraca. A outra
[China] carrega o olho, ameaça, e vai-se tornando sempre mais forte. ....
"A Rússia tenderá a anestesiar e dividir o
Ocidente, cada vez mais, enquanto a China irá tomando paulatinamente ares de
flagelo mundial. Parecerá necessário aceitar o amplexo russo, a aliança do
Kremlin, para fazer face ao monstro chinês. Nesse amplexo com a lepra, esta nos
contagiará. Teremos para com o novo aliado todas as fraquezas, as
condescendências, as imprudências que tivemos para com Tito. E assim a hidra
comunista irá progredindo. ....
"A China, dizíamos, vai lentamente começando a
intimidar e a imobilizar os poltrões do Ocidente. A Rússia, cada vez mais,
agrada, ilude e atrai os tolos. Uns e outros, poltrões e tolos, tendem a
recuar, transigir, conciliar a todo custo. E, francamente, quando alguém tem de
seu lado todos os tolos e todos os poltrões, pode jactar-se de dispor de uma
esplêndida maioria" (10).
(10) "Catolicismo",
janeiro de 1960.
Esta bicefalia China-Rússia, como se sabe, foi um dos
componentes marcantes da cena da política internacional durante cerca de três
lustros, carreando para o comunismo abundantes frutos propagandísticos e
estratégicos.
* * *
Entrementes se desenvolve o chamado "degelo"
promovido por Kruchev (1953), acompanhado das aparatosas "desestalinizações"
(1955 e 1960). Nesse "degelo", talvez o principal acólito do chefe
russo tenha sido o polonês Gomulka, cuja estrela começa a atingir o zênite por
ocasião da "primavera polonesa" de outubro de 1956.
Sobre o assunto, escreve o Prof. Plinio Corrêa de
Oliveira: "A `bobeira' – não há outro termo – com que em certos círculos
do Ocidente se estão acolhendo os sorrisos de Kruchev e Bulganin resulta do
mesmo estado de espírito. No mais fundo da alma dos senhores do Kremlin o sol
do sorriso lançou os primeiros raios de uma aurora, que já ninguém conseguirá
deter. É preciso concordar com eles em tudo, aceitar tudo, crer em tudo. Com
nossa boa vontade, adoçá-los-emos ainda
mais. E dentro de algum tempo a Rússia terá sido vencida, não com tiros
de canhão, mas com os doces jatos de glicerina de nossos sorrisos" (11).
(11) "Catolicismo",
julho de 1956.
E isto foi escrito em 1956, não nos tempos de
Gorbachev...
* * *
Quase ao mesmo tempo, Fidel Castro assume o poder em
Cuba (1959). Ele descera a Sierra Maestra com uma medalha de Nossa Senhora no
pescoço. Não se declarou comunista nos dois primeiros anos – apenas o fez em 1º
de maio de 1961 – e despertou ilusões em todo o mundo livre.
Em janeiro de 1960, entretanto, o Prof. Plinio Corrêa
de Oliveira já denunciava o caráter comunista do regime de Havana, que este
procurava escamotear. Escrevia: "Para responder se o primeiro-ministro
cubano é ou não um agente soviético, o que importa, pois, é saber se sua ação
acelera a evolução para o comunismo. Neste sentido, pode-se dizer que a
resposta afirmativa se impõe com uma clareza solar" (grifos nossos)
(12).
(12) "Catolicismo",
janeiro de 1960.
Aliás, no próprio ano da tomada do poder por Castro,
"Catolicismo" publicara dois artigos de autoria de Sergio Antônio
Brotero Lefevre, denunciando o regime castrista como "a mais séria
infiltração do comunismo em terras livres da América". Intitulavam-se eles
Como se lançou no mercado internacional o `produto' Fidel Castro (agosto
de 1959) e Como Fidel Castro fraudou os católicos cubanos (setembro de
1959).
* * *
Em 1970 sobe ao poder no Chile o marxista Salvador
Allende, inaugurando o modelo designado como "via chilena para o
socialismo". É do conhecimento geral que o livro Frei, o Kerensky
chileno, de Fabio Xavier da Silveira, diretor da TFP brasileira já
falecido, previra em 1967 que o governo democrata-cristão de Eduardo Frei
abriria o caminho para o comunismo no país andino (ver no presente livro TFPs:
ações conjuntas em âmbito internacional nº 3).
Ao mesmo tempo, a propaganda comunista julgou que
poderia aspirar a metas mais ambiciosas, e tentou manobra de grande porte,
tendo como objeto a Europa ocidental.
1970. Salvador Allende abre a "via chilena para o socialismo"
1971. Berlinguer, Carrillo e Marchais (da esquerda para a direita) põem em
moda o "eurocomunismo"
1979. Demarra na Nicarágua o sandinismo "cristão". As
metralhadoras invadem os campanários
Para compreender o que se passou, é preciso levar em
conta que em alguns países, como a Itália e a França, os respectivos PCs
gozavam de não pequena força eleitoral. Tal força poderia tornar-se ainda muito
maior, se por meio de uma hábil evolução pudessem eles incorporar setores do
centro, e adormecer ainda mais a reação anticomunista.
Foi assim que, em 1971, Berlinguer propôs em reunião
do Partido Comunista Italiano – o mais importante do Ocidente – um
distanciamento em relação a Moscou e Pequim, e certa liberalização política e
econômica no programa do PCI. Estava lançado o assim chamado
"eurocomunismo".
Plinio Corrêa de Oliveira pergunta, naquela ocasião:
"Essa heresia será autêntica? Ou constitui mera
manobra? ....
"Normalmente, a proposta `herética' e explosiva
[de Berlinguer] deveria ter sido acolhida com indignação por todos os
presentes. Ela deveria ter abalado as bases do partido e causado protestos em
toda a Itália. Pequim e Moscou deveriam ter `excomungado' o `herege'. E os
diversos PCs europeus, por sua vez, deveriam ter declarado de público sua
repulsa às propostas de Berlinguer. Só isso é que seria lógico se Berlinguer
tivesse agido por conta própria, sem prévio acordo com ninguém.
"Ora, muito ao contrário, os jornais não nos
referem uma só manifestação de repulsa – ou pelo menos de surpresa – da parte
de qualquer governo, partido ou grupo comunista.
"Logo, parece que todos estavam concertados de
antemão com o que Berlinguer iria dizer. A sugestão deste indica, pois, um rumo
que o comunismo internacional deseja realmente ver seguido pelos PCs da Europa
livre.
"– Que lucraria, com tão sinuosa manobra, a causa
do comunismo? – objetará algum leitor. ....
"Na Europa
ocidental nenhum PC jamais obteve uma autêntica maioria eleitoral. Para eles, o
único modo de galgar o poder é uma coligação ....
"Ora, acontece que, na Europa livre, as esquerdas
não comunistas se têm mostrado sempre relutantes em aceitar uma coligação com o
comunismo. Impressionadas pelo que ocorreu na Checoslováquia e em outros
lugares, temem elas que o PC, uma vez no poder, instaure uma ditadura e as
expulse do governo.
"Nestas condições, ou o comunismo finge mudar de
face e de mentalidade, apresentando-se à chilena, e propondo às esquerdas uma
vasta coligação para fazer a `revolução na liberdade', ou continuará
estacionário" (13).
(13) "Folha
de S. Paulo", 21-11-71.
* * *
Mais alguns anos se passam.
A partir de 1979 passa a ocupar lugar na ribalta o
assim chamado modelo sandinista, da Nicarágua. Em conseqûencia, várias TFPs
publicam sobre o tema estudo especial (cfr. cap. IV do presente livro),
denunciando a estranha simbiose do progressismo católico com essa forma de
comunismo, proclive a fomentar a guerrilha em toda a América Latina.
Em 1980-81, atinge seu climax na Polônia o
sindicalismo da organização "Solidariedade", liderada pelo
eletricista Lech Walesa. Este último levanta esperanças em todo o mundo livre,
tendo assumido, depois, uma atitude abertamente colaboracionista em relação às
autoridades comunistas, mal e mal disfarçada por alguns atritos de quando em
vez.
Como se viu em outro local do presente volume, o Prof.
Plinio Corrêa de Oliveira denunciou a manobra. Além disso, um cooperador da TFP
brasileira, a serviço do Bureau para a representação das TFPs com sede
em Roma, interpelou pessoalmente o líder sindicalista (ver TFPs: ações
conjuntas em âmbito internacional nº 11).
* * *
Assim, de modelo em modelo chega-se até
os presentes dias.
Ocupa o centro da cena Mikhail Gorbachev, iniciando
algum tempo depois de sua ascenção ao Poder (1985) a chamada perestroika,
com a aparente atenuação da tirania policialesca que sempre caracterizou o
comunismo, bem como certa mitigação do caráter centralista da economia
soviética. Ao mesmo tempo, as relações com os Estados Unidos se vão
distendendo. Uma grande ofensiva publicitária no Ocidente acompanha
presentemente o desenrolar desse processo.
O caráter enganoso da perestroika vem sendo denunciado
seguidamente por "Catolicismo" (14). Os Jóvenes Bolivianos Pro
Civilización Cristiana publicaram, em novembro de 1987, manifesto em que
denunciavam a "manobra da autogestão, proposta hoje por Gorbachev em sua
perestroika que está confundindo a tantos não comunistas" (15). O órgão
"Cristiandad informa", da coirmã boliviana da TFP, em seu número de
janeiro/fevereiro de 1988 apresenta as reformas em curso atrás da cortina de
ferro como uma pokazuka, termo russo que significa: algo feito só para
enganar. Ao mesmo tempo, o boletim da TFP brasileira "Informando,
comentando, agindo..." (16) publica o estudo Autogestão, essa
`novidade' de há 100 anos, expondo em suas linhas gerais o pensamento
da entidade a respeito da perestroika e da glasnost; os Young
South Africans for a Christian Civilization – TFP estampam no boletim
"TFP Newsletter" estudo análogo, intitulado Glasnost and
Perestroika: Real change? Or a new make-up? (17).
(14) Cfr, n°s 436, abril
de 1987, 437, maio de 1987; 442, outubro de 1987; 443, novembro de 1987; 447,
março de 1988; 452, agosto de 1988, etc.
(15) Cfr.
"Presencia" e "El Diario", ambos de 26-11-87.
(16) N° 26 de
janeiro/fevereiro de 1983.
(17) Pereslroika: mudança
real? ou nova maquiagem? (1988, n° 30).
Uma cuidadosa análise deste recente modelo lançado
pelo comunismo internacional pode ser encontrada no livro lançado pela TFP
castelhana Espanha - anestesiada
sem o perceber, amordaçada sem o querer, extraviada sem o saber. A obra do PSOE
(cap. VI, VIII).
* * *
Havia algo no ar que fazia pressentir a eclosão de
manobra como a perestroika em um momento dado. Algum tempo atrás, Plinio Corrêa
de Oliveira escrevia as seguintes palavras:
"Análogas considerações se devem fazer sobre a
atual tendência para um tal ou qual restabelecimento da livre iniciativa na
Rússia.
"De um lado, se esta, desistindo por ora de uma
guerra suicida, quer competir com os Estados Unidos em clima de coexistência
pacífica no terreno da produção, deve necessariamente apelar para o
restabelecimento, ainda que muito rudimentar, da livre iniciativa. Pois a
experiência soviética prova que de outro modo nenhum progresso é possível nos
setores em que mais insuficiente se mostra a produção.
"Mas esse restabelecimento não será utilizado
propagandisticamente para outros fins?
"Por exemplo, não poderá ele provocar uma
desmobilização dos espíritos no mundo livre, preparando-os para a ilusão de que
a Rússia estaria a caminho de um regime democrático apenas semi-socialista, e
que os perigosos contrastes entre os dois mundos poderiam ser eliminados caso o
Ocidente, no interesse da paz, consentisse em se socializar fortemente ao mesmo
passo que a Rússia se capitalizasse um pouco?
"Essa ilusão .... a que recuos, a que
capitulações poderia predispor as nações livres!"
Tais palavras, republicadas hoje sem menção de data,
seriam vistas por toda parte como um luminoso comentário dos passos
gorbachevianos. Vieram elas a lume, entretanto, em janeiro de 1966, ou seja,
cerca de vinte anos antes da perestroika! (18).
(18) "Baldeação
ideológica inadvertida e Diálogo", cap. 1, 9, C, nota 4, Editora
Vera Cruz, São Paulo, 1966.
III. Um modelo à parte: a revolução da
Sorbonne, de 1968
Mas a problemática dos modelos não se cinge
exclusivamente ao âmbito do comunismo declarado. Se se quiser dar mais um passo
para compreender a questão em toda a sua amplitude, é interessante considerar,
ainda que rapidamente, a chamada revolução da Sorbonne.
Em maio de 1968 estoura em Paris o levante estudantil.
Erguem-se barricadas, coloca-se em questão a sociedade contemporânea como um
todo. O movimento se inspira em boa parte no anarquismo e no marxismo. Seu lema
é: "proibido proibir".
Muito se tem escrito a respeito desta revolução. Sem
dúvida o texto abaixo, com data de 1959, de autoria de Plinio Corrêa de
Oliveira, fornece interessantes subsídios para a interpretação do que sucedeu:
"O processo revolucionário nas almas ....
produziu nas gerações mais recentes, e especialmente nos adolescentes atuais
que se hipnotizam com o `rock and roll' um feitio de espírito que se
caracteriza pela espontaneidade das reações primárias, sem o controle da
inteligência nem a participação efetiva da vontade; pelo predomínio da fantasia
e das `vivências' sobre a análise metódica da realidade: fruto, tudo, em larga
medida, de uma pedagogia que reduz a quase nada o papel da lógica e da
verdadeira formação da vontade. ....
"A efervescência das paixões desregradas, se
desperta de um lado o ódio a qualquer freio e qualquer lei, de outro
lado provoca o ódio contra qualquer desigualdade. Tal efervescência
conduz assim à concepção utópica do `anarquismo' marxista, segundo a qual
uma humanidade evoluída, vivendo numa sociedade sem classes nem governo,
poderia gozar da ordem perfeita e da mais inteira liberdade, sem que desta se
originasse qualquer desigualdade. Como se vê, o ideal simultaneamente mais
liberal e mais igualitário que se possa imaginar” (19)
(19) Revolução e
Contra-Revolução, Ed. Diário das Leìs, São Paulo, 2' ed., 1982, p.
33.
IV. Nos meios não declaradamente comunistas,
ou até supostamente anticomunistas
Evidentemente, não é apenas o comunismo que manobra e
lança modelos. Na realidade, toda a esquerda o faz periodicamente, desde os
sinuosos democrata-cristãos até os socialistas marxistóides ou marxistas
declarados. É óbvio que, quando o comunismo, com voz dulçurosa, bate à porta do
mundo livre, é preciso que alguém do lado de dentro abra. As forças de esquerda
acima aludidas reservam para si esse funesto papel.
Bom exemplo deste tipo de modelos foi o socialismo
autogestionário, que Mitterrand tentou lançar em 1981. A respeito de tal
empreitada as então 13 TFPs publicaram nos principais jornais dos cinco
continentes a célebre Mensagem de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira (20).
(20) Ver TFP: ações conjuntas em âmbito internacional
nº 12.
Em nossos dias, uma manobra semelhante está em fase de
execução na Espanha. Trata-se do socialismo "modernizador" de Felipe
González, que coloca sua ênfase na "revolução cultural" contra o qual
TFP-Covadonga realiza brilhante campanha de esclarecimento (21).
(21) Ver “O brado e o programa de TFP-Covadonga:
continue a Espanha a ser espanhola", na parte III do presente volume.
1980. Walesa coloca nas
manchetes o "modelo" polonês
1981. Mitterrand lança o
"socialismo autogestionário" francês
1982. Felipe González inicia
na Espanha sua "revolução cultural" socialista
1985. Gorbachev dá o sinal de
partida para novo "modelo": "glasnost", "perestroika"
* * *
No meio católico, infelizmente também há muitos
elementos – e freqüentemente bastante graduados – que favorecem o trabalho dos
lobos com pele de ovelha, ou aplaudem a quem se presta a essa tarefa.
O "progressismo católico" é um modelo? A
"Teologia da Libertação" é outro modelo? Ou constituem estruturas
doutrinárias, por sua vez geradoras de modelos? As opiniões a respeito desse
problema de terminologia talvez possam divergir. Num ou noutro caso, não deixam
de ser tragicamente verdadeiras as seguintes palavras:
"O progressismo, instalado por quase toda parte,
vai convertendo em lenha facilmente incendiável pelo comunismo a floresta
outrora verdejante da Igreja Católica .... O alcance desta transformação é tal,
que não hesitamos em afirmar que o centro, o ponto mais sensível e mais
verdadeiramente decisivo da luta entre a Revolução e a Contra-Revolução se
deslocou da sociedade temporal para a espiritual, e passou a ser a Santa
Igreja, na qual, de um lado, progressistas, criptocomunistas e pró-comunistas,
e de outro lado, antiprogressistas e anticomunistas se confrontam" (22).
(22) Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e
Contra-Revolução, Ed. "Diário das Leis", São Paulo, 2ª ed.,
1982, p. 68.
Ninguém pode deixar de reconhecer ao Prof. Plinio
Corrêa de Oliveira, que escreveu as linhas transcritas acima, o mérito de, no
âmbito brasileiro, ter discernido desde os primeiros sintomas o mal que assola
hoje a Santa Igreja. Pois uma descrição bastante detalhada de tais sintomas
está consignada em seu livro Em defesa da Ação Católica, prefaciado pelo Núncio
Apostólico D. Aloisi Masella, e publicado em 1943 (23). Aproximações bastante
significativas poderiam ser feitas entre o conteúdo desse livro e o do célebre Rapporto
sulla Fede (24), do Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé,
Cardeal Joseph Ratzinger. Entretanto, mais de quatro décadas separam a
publicação das duas obras, o que mostra como foi realmente precoce o
diagnóstico do catedrático paulista.
(23) Cfr. histórico estampado nas primeiras páginas do
presente volume.
(24) Rapporto sulla Fede, Edições Paulinas,
Milão.
Mas este assunto levaria muito longe...