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Revista “Catolicismo", junho de 1990, nº 474 (www

Revista “Catolicismo", junho de 1990, nº 474 (www.catolicismo.com.br)

 

Declarações do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e do Eng. Antonio Augusto Borelli Machado a "30 Giorni"

 

30 Giorni – Como nasceu e quais são as finalidades do movimento "Tradição, Família, Propriedade"?

Prof. Plinio Corrêa de Oliveira – A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade nasceu na cidade de São Paulo (Brasil) em 1960. Constituiu-a um grupo de católicos militantes, impressionados pelo ímpeto do esquerdismo católico (e também do progressismo), então na sua primeira fase de expansão no mesmo pais.

Os fundadores da TFP não quiseram fazer obra meramente negativa, isto é, anticomunista, anti-socialista etc., mas obra também positiva. Para isto, deliberaram empenhar-se em que três alvos da ação demolidora esquerdista fossem especialmente tonificadas e bem compreendidas pelo grande público: a tradição, a família, e a propriedade.

A finalidade da TFP está definida no artigo 1º dos respectivos estatutos, o qual diz expressamente que a Sociedade "tem caráter cultural e cívico, visando esclarecer a opinião nacional e os Poderes públicos, sobre a influência deletéria exercida sempre mais, na vida intelectual e na vida pública, pelos princípios socialistas e comunistas, em detrimento da tradição brasileira e dos institutos da família e da propriedade privada, pilares da civilização cristã no País".

Face ao direito canônico, a TFP se qualifica como uma associação de inspiração católica, integrada por fiéis leigos que atuam no campo temporal, sob sua única e exclusiva responsabilidade (cfr. Código de Direito Canônico, cânon 227), norteados pelo ensinamento tradicional do Supremo Magistério da Igreja, e estruturada juridicamente segundo as leis civis.

Desse modo, se considerada do ângulo das leis do Estado, ela é uma associação cívica, cultural e beneficente, regida por estatutos civis; se vista do ângulo das leis eclesiásticas, cabe vê-la como uma associação particular, constituída pelo livre acordo de fiéis entre si, no uso do direito de que gozam de fundar e dirigir livremente associações "para fins de caridade e piedade, ou para fomentar a vocação cristã no mundo" (cânon 215).

30 Giorni – Em que consistem as dificuldades que o movimento tem com a Hierarquia eclesiástica? Esta formulou alguma censura eclesiástica com relação aos Srs.? Que ligações têm o movimento com Dom Lefèbvre?

Prof. PCO – A TFP visa, dentro dos limites de seus fins específicos, trabalhar pela ordenação da sociedade temporal segundo a doutrina tradicional da Igreja. Precisamente nesse campo, é notório que as divergências de opinião entre os católicos não têm feito senão agravar-se consideravelmente, em quase todos os países. E, pois, também naqueles em que existem TFPs.

Como é geralmente conhecido, essas divergências não existem apenas entre leigos, mas igualmente entre eclesiásticos, inclusive Bispos.

Não é de espantar, pois, que tais divergências existam também entre numerosos prelados brasileiros de um lado, e a TFP de outro lado. O que leva o grosso da opinião pública a qualificar de "direita" ou de "extrema-direita" a TFP, ao mesmo tempo que qualifica múltiplos Srs. Bispos de "esquerda" e alguns até de "extrema-esquerda".

"Censura eclesiástica" no sentido canônico e próprio do termo, a TFP não recebeu nenhuma. Mas, procedentes de Srs. Bispos, Arcebispos, ou até Cardeais, houve ao longo da história da TFP vários pronunciamentos discordantes. Esses pronunciamentos versaram sobre temas como nossas campanhas contra o divórcio e contra a Reforma Agrária socialista e confiscatória, bem como nossa apreciação sobre a impunidade do avanço esquerdista nos meios católicos, e temas correlatos. Em todos os casos, a TFP respondeu com respeitosa firmeza aos venerandos objetantes.

A TFP não tem vínculos com o movimento de Mons. Lefèbvre. Não os tem depois de haver sido este excomungado, porém igualmente já não os tinha muito tempo antes.

 

30 Giorni – Gostaria que me indicasse os "números" do movimento (em particular no tocante à sua difusão no Brasil); os países de maior difusão, o número de aderentes e os critérios com que é avaliado, as revistas (nomes e tiragens das principais) e as eventuais casas editoras que possuam, os locais de culto, o número de sacerdotes que aderem aos Srs.... e tudo aquilo que o Sr. considera útil para mostrar a amplitude do movimento.

 

Prof. PCO – No Brasil, a TFP conta com cerca de 23 mil sócios (no sentido amplo e mais moderno do termo, que abrange também os supporters, simpatizantes, e quantos tomam parte, de um ou de outro modo, no esforço comum da TFP). Neste número se incluem evidentemente pessoas diversas pela idade, pelo estado civil, pelas condições sociais, nível de cultura etc. Esse número cresce incessantemente.

Entre tais sócios da TFP são sobretudo numerosos os jovens. Também cresce o número de nossos correspondentes (agentes locais), que formam núcleos nas periferias urbanas, ou seja, nas camadas menos abastadas da sociedade.

Para ser benfeitor ou simpatizante da TFP, ou para prestar a esta uma colaboração esporádica, não há critérios de aceitação inteiramente definidos. Em tese, a boa vontade basta. Sempre que – é claro – não se trate de pessoa cuja posição doutrinária ou moral aberrante dos principias e das normas de ação da TFP, provoque no público explicável escândalo. Quanto ao mais, devem ser católicos praticantes, de vida correta, que se professem aderentes sinceros das doutrinas e metas da entidade, e o demonstrem por seu procedimento e abnegada atuação.

É necessário que sejam todos católicos? A TFP tem recebido como principiantes, ateus, protestantes, greco-cismáticos, maometanos, budistas etc. Porém, sem nenhuma exceção, todos os que, nessas condições, permanecem na TFP, se convertem.

Ao contrário do que se poderia imaginar, os opositores mais radicais e acesos da TFP se situam em certa alta sociedade mundana, qualificada de jet set, bem como entre os clérigos e religiosos mais preocupados em se mostrarem "no vento" das diversas modernidades, e também nos meios profissionais da midia.

A expansão da TFP se deve, em muito larga medida, às caravanas da entidade que desde 1970 palmilham incessantemente nosso país-continente: 4 milhões de quilômetros percorridos (equivalente a 10 viagens até a Lua), 20 mil visitas a cidades 1,4 milhões de publicações vendidas. E também às brilhantes campanhas de rua promovidas pelos setores juvenis que atuam em caráter permanente nas respectivas cidades.

Sua pergunta sobre os "países de maior difusão" pede uma precisão. Em cada país no qual haja uma entidade – não necessariamente denominada TFP – em relações fraternas com a nossa, constitui ela uma sociedade com diretoria própria, estatutos próprios, e recursos pecuniários também próprios. Em outros termos, cada entidade da "família" TFP é absolutamente autônoma. Como vínculo de união entre elas, existe a comunhão de doutrina e de metas resultante da livre adesão de todos ao conteúdo do livro "Revolução e Contra-Revolução", e da analogia dos métodos de ação adotados.

Para entreter e desenvolver esses vínculos, os dirigentes e membros das várias TFPs costumam visitar a cidade de São Paulo, ponto de partida do impulso inicial do movimento TFP em todos os continentes, onde tem sua sede principal a entidade mais antiga e mais experiente, e na qual reside o fundador da TFP brasileira. Essas visitas constituem também ocasião para o intercâmbio de contatos entre as mais diversas TFPs. Ser-me-ia ingrato discriminar, entre as várias TFPs irmãs, quais são as "de maior difusão". Ademais, os critérios para classificar essa difusão não são simples. Por exemplo, uma TFP mais numerosa pode contar cada ano com um número maior de aderentes novos do que uma TFP pouco numerosa. Mas o índice de crescimento desta última, proporcionalmente ao número dos aderentes já inscritos, pode ser muito maior que os da primeira.

Só para não deixar sem alguma resposta sua pergunta, permita que eu lhe dê em ordem alfabética a lista das TFPs, bem como a dos bureaux da TFP. TFPs: África do Sul, Argentina, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, Estados Unidos, França, Peru, Portugal, Uruguai e Venezuela (esta última dispersa pelo mundo, em conseqüência de um decreto de fechamento do Governo Lusinchi, decreto esse tão injusto que os próprios tribunais venezuelanos – em sentença definitiva – reconheceram a improcedência das acusações então assacadas contra a entidade). Bureaux TFP: Frankfurt, Londres e Edimburgo, Paris, Roma, San José da Costa Rica, Sydney, Auckland (Nova Zelândia).

Quanto a nossos núcleos na Ásia, razões de prudência que o leitor facilmente compreenderá, nos levam a achar prematura a divulgação de dados informativos.

Quanto ao número de sacerdotes que aderem às diversas TFPs, varia consideravelmente de país a país. Mas em sua maior parte são bastante discretos no manifestarem sua adesão. Preferem até fazê-lo por carta, o mais das vezes com certo caráter de confidencialidade, a fazê-lo por contato pessoal. As razões deste fato são óbvias.

Passo a elencar os órgãos das TFPs: "TFP Newsletter" (África do Sul); "Pregón de la TFP" (Argentina); "Catolicismo" (Brasil); "TFP Newsletter" e "TFP Informe" (Canadá); "Tradición, Família, Propiedad" (Chile); "TFP Informa" (Colômbia); "TFP Informa" (Equador); "Covadonga Informa" (Espanha); "TFP Newsletter" (Estados Unidos); "Aperçu" (França); "TFP Lusa Informa" (Portugal); "Lepanto" e "TFP Informa" (Uruguai); "TFP Standpunkt" (Frankfurt); "TFP Informa" (San José); "TFP Newsletter" (Sydney); "Christendom" (Auckland). Não lhes conheço a tiragem. "Catolicismo" tem uma tiragem de 12.000 exemplares.

Mas é preciso notar que o público brasileiro está enormemente absorvido pelas televisões e rádios e, em medida infelizmente não pequena, pelas revistas pornográficas. O que torna difícil a existência de uma revista séria como "Catolicismo". Mas posso acrescentar com alegria que nosso esforço de expansão, o qual está sendo feito por meios modernos e eficientes, vai correspondendo a nossa expectativa.

De momento, com a urgência com que nos foram pedidas as respostas a seu simpático questionário, não me lembro dos nomes das várias editoras de TFPs. Aliás, em via de regra não são das TFPs, mas empresas autônomas com as quais as TFPs mantêm convênio. As editoras com as quais a TFP brasileira trabalha são a Editora Vera Cruz, que edita os nossos livros, e a Empresa Padre Belchior de Pontes, que edita "Catolicismo". E me ocorre casualmente à memória a brilhante editora "Fernando III el Santo", que serve à TFP espanhola.

30 Giorni – O Sr. acha que as mudanças que estão acontecendo no império soviético são relacionadas com a aparição de Nossa Senhora em Fátima e com a consagração "da Rússia" que João Paulo II fez em 1984? O Sr. considera válida esta consagração? Se não a considera válida, como pensa que possam ser interpretados os atuais acontecimentos no Leste?

Prof. PCO – A correlação entre a mensagem de Nossa Senhora em Fátima e as atuais transformações pelas quais, ao que parece, começa a passar a Rússia, é evidente.

As aparições de Fátima ocorreram em 1917, pouco antes da queda do regime czarista. Em conseqüência, tomou especial clareza a afirmação – bastante nebulosa antes disso – de que "a Rússia (...) espalhará seus erros pelo mundo..." (aparição de 13 de julho). E aí estão eles, isto é, os erros do marxismo-leninismo, com adeptos no mundo inteiro.

A pergunta que os atuais acontecimentos da Rússia poderiam despertar, a propósito da mensagem de Fátima, se enunciaria mais bem nos termos seguintes:

"Com a ruína do capitalismo de Estado, que o Sr. Gorbachev vai levando a cabo, desaparece da Rússia o comunismo. E este entrará forçosamente em declínio no mundo inteiro.

"Desta forma, o comunismo não será mais um "erro da Rússia", e estará em vias de minguar por toda parte. A disseminação do comunismo, prevista em Fátima, não terá sido senão um longo e doloroso episódio da História já relegado ao passado. E a guerra mundial, também prevista em Fátima em nexo com a expansão comunista, não se realizará. Pois o Sr. Gorbachev é um dos grandes agentes mundiais da paz.

"Em conseqüência, Fátima é igual a zero".

Todo esse raciocínio é vão. Ele se baseia na idéia falsa de que o comunismo é algo de co-idêntico com o capitalismo de Estado. De onde a infundada afirmação de que, destruído este, desaparece aquele.

Na realidade, segundo a doutrina comunista, o capitalismo de Estado não é senão uma etapa na evolução histórica rumo ao comunismo integral, no qual a autogestão em todo os níveis da sociedade tornará desnecessária a própria existência do Estado. É o que diz o Programa do Partido Comunista da União Soviética, em sua nova redação aprovada em 1º de março de 1986 (já na era Gorbachev): "O comunismo significa a transformação do sistema de autogestão socialista do povo, da democracia socialista, na forma superior de organização da sociedade, a autogestão comunista da sociedade. À medida que forem amadurecendo as premissas sócio-econômicas e ideológicas necessárias, que todos os cidadãos foram incorporados na gestão, o Estado socialista, conforme assinalou Lênin, irá tornando-se, em medida cada vez maior, existindo as respectivas condições internacionais, forma transitória do Estado para o não-Estado. A atividade dos órgãos estatais irá adquirir um caracter não-político e gradualmente desaparecerá a necessidade do Estado como instituto político especial" (Edições da Agência de Imprensa Nóvosti, Moscou, 1986, p. 27).

Este é o verdadeiro sentido da demolição do capitalismo de Estado, promovido pelo Sr. Gorbachev. Este mesmo o tem afirmado em várias declarações largamente divulgadas pela imprensa, e no próprio livro "Perestroika" (cfr. Harper and Row, Nova York, 1987, pp. 36-37).

A autogestão, para a qual vai caminhando o comunismo, não é senão um comunismo de micro-sociedades, que se tornarão cada vez mais numerosas, à medida que forem minguando as macro-cidades.

Tudo isso pode fazer sorrir ao leitor que imaginará ver em minhas palavras um arranjo, talvez hábil, para "salvar" a mensagem de Fátima.

No entanto, é precisamente isto que eu previ, com base nos acontecimentos políticos da época, quando publiquei a mais recente edição de "Revolução e Contra-Revolução". Estávamos no ano de 1976, e o Sr. Giovanni Cantoni, com quem eu mantinha relações de amizade ainda recentes, teve a gentileza de me pedir um prefácio para a edição dessa minha obra em língua italiana. Essa edição seria lançada pela Alleanza Cattolica que aquele meu amigo brilhantemente preside. Em lugar do prefácio, enviei a Giovanni Cantoni uma parte nova de "Revolução e Contra Revolução" – a terceira – para sua edição, o que ele gentilmente aceitou. Basta ao leitor destas linhas consultar as páginas 175 e 190 do livro italiano. Ou, então, as páginas 64 e 71 da edição brasileira consecutiva à edição italiana:

"O sucesso dos costumeiros métodos da III Revolução [o comunismo] está comprometido pelo surgimento de circunstâncias psicológicas desfavoráveis, as quais se acentuaram fortemente ao longo dos últimos vinte anos. – Tais circunstâncias forçarão o comunismo a optar, daqui por diante, pela aventura?" (p. 64).

"Como é bem sabido, nem Marx, nem a generalidade de seus mais notórios sequazes, tanto “ortodoxos" como “heterodoxos" viram na ditadura do proletariado o lance terminal do processo revolucionário. Esta não é, segundo eles, senão o aspecto mais quintessenciado, dinâmico, da Revolução universal. E, na mitologia evolucionista inerente ao pensamento de Marx e de seus seguidores, assim como a evolução se desenvolverá ao infinito no suceder dos séculos, assim também a Revolução não terá termo. Da I Revolução já nasceram duas outras. A terceira, por sua vez, gerará mais uma. E daí por diante...

"É impossível prever, dentro da perspectiva marxista, como seria uma Revolução n.º XX ou L. Não é impossível, entretanto, prever como será a IV Revolução. Essa previsão, os próprios marxistas a fizeram.

"Ela deverá ser a derrocada da ditadura do proletariado em conseqüência de uma nova crise, por força da qual o Estado hipertrofiado será vitima de sua própria hipertrofia. E desaparecerá, dando origem a um estado de coisas cientificista e cooperativista, no qual – dizem os comunistas – o homem terá alcançado um grau de liberdade, igualdade e fraternidade até aqui insuspeitável" (p. 71).

A Rússia continua a caminhar, pois, nas vias de seu erro. Pior: ela o vai requintando, e a mensagem de Fátima não está desmentida, mas pelo contrário confirmada. Pois o new look gorbacheviano da perestroika está penetrando na simpatia dos burgueses do mundo inteiro, muito mais do que o conseguira o comunismo.

Em conseqüência, os atuais acontecimentos no leste poderiam ser vistos como o triste resultado da invalidade da consagração feita por João Paulo II, a julgar segundo os que tenham tal consagração por inválida.

 – (Desdobramento da pergunta 4) o Sr. considera esta consagração válida?

Eng. Antonio Augusto Borelli Machado – O Bispo de Leiria-Fátima, D. Alberto Cosme do Amaral, admite que a consagração feita por João Paulo II preencheu as condições impostas por Nossa Senhora (é obviamente neste sentido que a palavra "válida" é tomada na pergunta), porque, se bem que não tenha havido uma "totalidade matemática" de Bispos que se uniram ao ato do Santo Padre, houve – segundo ele – uma "totalidade moral" .

Consta-nos, efetivamente, por relatórios colhidos aqui e acolá, que houve uma adesão expressiva de alguns episcopados à consagração feita por João Paulo II. Em que medida isto se passou com todos os episcopados do mundo? Não sabemos. Mas no que se refere ao Brasil, não nos consta que a consagração tenha sido feita senão por uns pouquíssimos Bispos, contáveis nos dedos da mão. Ou foi tão discreta, por parte de alguns mais, que não chegou ao conhecimento do público. Ora, o Episcopado brasileiro é o terceiro maior do mundo; e o Brasil é o país com o maior número de dioceses (233 em 1983).

Assim, a declaração do venerável Bispo de Leiria-Fátima, a respeito de uma "totalidade moral", não nos persuade. Em todo caso, se ele fala em tal, é porque deve possuir dados concretos, e nessa matéria ninguém deve estar mais bem informado que Sua Exa. Seria muito confortador para os fiéis do mundo inteiro e para os devotos de Fátima em particular, que esses dados fossem divulgados.

Por outro lado, no que se refere à intenção de João Paulo II de consagrar o mundo, "com menção especial pela Rússia" – conforme pedido por Nossa Senhora – é bem sabido que esta nação não consta da fórmula da consagração. Mas o Pontífice incluiu vários circunlóquios que podem ser vistos como alusões indiretas. Assim, diz ele: "De modo especial Vos entregamos e consagramos aqueles homens e aquelas nações (grifo do original) que desta entrega têm mais necessidade". E mais adiante: "A força desta consagração (grifo do original) permanece por todos os tempos e abarca todos os homens, os povos e as nações".

Sentindo, talvez, que estas alusões não eram bastante explícitas, o Santo Padre intercalou, na última hora (a frase não consta da fórmula enviada aos Bispos), a seguinte imprecação: "Mãe da Igreja! (...) Iluminai especialmente os povos dos quais esperais a nossa consagração e a nossa entrega" (cfr. "L’Osservatore Romano", 26/27-3-84).

Dir-se-ia que, na ânsia de chegar o mais perto possível da fórmula pedida por Nossa Senhora, o Pontífice foi tão longe quanto lhe permitiam os condicionamentos da Ostpolitik vaticana. Pois é bem de supor que uma menção nominal da Rússia desagradaria os déspotas do Kremlin.

Então o problema se desloca: quando Nossa Senhora pediu uma "menção especial pela Rússia", isto significa que Ela exigia uma menção nominal, ou se contentava com alusões mais ou menos claras e indiretas?

Cabe lembrar que na Carta Apostólica Sacro Vergente Anno, de 7 de julho de 1952, Pio Xll consagrou ao Imaculado Coração de Maria os povos da Rússia. Com o que esse Pontífice parece ter entendido – como sempre se entendera até agora – que era preciso uma menção nominal.

Pelo que fica dito e em vista dos dados de que temos conhecimento, nossa tendência é achar que a consagração feita por João Paulo II também não preencheu os requisitas estipulados por Nossa Senhora em Fátima. Porém, não nos cabe destrinchar uma questão cuja elucidação compete mais bem aos Pastores, teólogos e historiadores da Igreja e, evidentemente, mais do que a ninguém, ao próprio Pontífice.

30 Giorni – A Irmã Lúcia teria dito que a consagração foi feita. O Sr. pensa que se trata de uma manipulação de suas palavras?

Eng. AABM – A simples hipótese de que as palavras da Irmã Lúcia estejam sendo manipuladas – por quem? – arrepia os ouvidos pios, pelo menos deste lado do Atlântico.

Temos realmente conhecimento de que a Irmã Lúcia passou a considerar "válida" (sempre no sentido de que preenche os requisitos postos por Nossa Senhora) a consagração feita por João Paulo II em Roma, no dia 25 de março de 1984. Mais ainda, estamos informados de que vem sendo divulgado o texto facsimilar de uma carta dirigida a uma amiga particular, na qual ela analisa as várias consagrações feitas anteriormente pelos Pontífices (inclusive a de João Paulo II em Fátima, em 13 de maio de 1982), que, em contraposição, ela considera "inválidas".

Sabemos que há quem conteste a autenticidade dessa carta, cujo estilo parece fugir ao habitual da Irmã Lúcia.

Evidentemente, não temos condições de esclarecer esse imbroglio.

O que nos parece estranho é que, em se tratando de um assunto de tal magnitude, e estando a vidente ainda viva e gozando de boa saúde, não se lhe peça uma declaração com todas as garantias de autenticidade. Seria a maneira mais direta de acabar com qualquer manipulação, se é que ela existe.

É claro que a Irmã Lúcia, pelo simples fato de ter sido uma das privilegiadas videntes de Fátima, não goza do carisma da infalibilidade na interpretação da altíssima mensagem que recebeu. Por isso caberia, mais uma vez, aos historiadores, teólogos e Pastores da Igreja analisar a coerência desta nova eventual declaração da Irmã Lúcia com suas declarações anteriores.

Uma palavra direta da Irmã Lúcia pareceria, pois, mais do que nunca oportuna.

 

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Texto de “30 Giorni” (publicado em seu número de março de 1990)

 

Na variegada galáxia que reporta a Fátima, existem também grupos que fizeram dessa mensagem o estandarte de seu anticomunismo. É o caso das TFP (Sociedade de defesa da tradição, família, propriedade), um movimento extremamente conhecido e difundido (23 mil membros) no Brasil, presente na cena pública há várias décadas. E que agora está se propagando por muitas nações do continente latino-americano. Além de suas enérgicas campanhas contra a reforma agrária ou a introdução do divórcio, a notoriedade deste grupo está ligada às procissões públicas organizadas por ocasião do dia 13 de maio, aos desfiles com trajes da "ordem dos templários" pelas ruas das cidades ao nicho existente no exterior da sede de São Paulo onde, diante de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, se revezam em turnos de 24 horas militantes das TFP para recitar o rosário. Uma imagem muito discutida. Embora nunca tenha recebido censuras eclesiásticas, numerosíssimas são as criticas dirigidas às TFP pelo episcopado brasileiro, e na Venezuela o governo ordenou de fato sua dissolução por um certo período. O fundador é Plinio Corrêa de Oliveira, 81 anos, ex-deputado e professor universitário. As mudanças na Rússia? De Oliveira não tem dúvidas: "A Rússia continua a caminhar nas vias do seu erro – explica – e ainda por cima vai o requintando. - O "new look" gorbacheviano da perestroika está penetrando nas simpatias dos burgueses do mundo inteiro mais do que teria podido fazer o comunismo. Em conseqüência, os atuais acontecimentos no Leste poderiam ser vistos como triste resultado da invalidade da consagração feita por João Paulo II, segundo o juízo daqueles que a consideram inválida".

Em suma, o problema da validade da consagração da Rússia ao Coração Imaculado de Maria é um pouco a pedra de escândalo de toda discussão sobre o assunto.

 

 

Carta do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a "30 Giorni"

 

Sr. Redator de "30 Giorni"

 

No nº de março, em que essa revista trata do interessante tema "Milagre no Leste? E a Virgem prometeu...", encontro, na p. 11, várias afirmações a respeito da TFP. Pedem elas importantes retificações, que solicito sejam publicadas integralmente no próximo número de "30 Giorni".

 

30G: 1. "TFP (...) um movimento extremamente conhecido e difundido (...) no Brasil (...). E que agora se está propagando em muitas nações do continente latino-americano ".

TFP: Há TFPs em todos os países da América do Sul, na América Central, nos Estados Unidos e no Canadá. Ademais há TFPs ou Bureaux TFPs em Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia. E estão em formação TFPs em mais dois países, que é prudente não mencionar ainda.

30G: 2. "A notoriedade deste grupo está ligada às procissões públicas organizadas por ocasião do dia 13 de maio, aos desfiles com trajes da "ordem dos templários" pelas ruas das cidades".

TFP: "Nenhuma TFP realiza procissões, no sentido canônico do termo, mas apenas desfiles de caráter cívico ou, sobretudo, campanhas de venda em público, dos impressos por elas editados. É absolutamente inverídico que em qualquer das TFPs os respectivos membros usam hábitos da "ordem dos templários".

30G: 3. "...no nicho existente na parte externa da sede de São Paulo onde, diante de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, se revezam em turnos de 24 horas militantes da TFP para recitar o rosário. "

TFP: Na cidade de São Paulo (Brasil), existe um oratório de Nossa Senhora, dando diretamente para a rua. A imagem aí exposta à veneração dos fiéis não é de Nossa Senhora de Fátima, mas de Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

30G: 4. "Uma imagem muito discutida. Embora nunca tenha recebido censuras eclesiásticas, numerosíssimas são as críticas dirigidas à TFP pelo episcopado brasileiro".

TFP: O Brasil tem atualmente 375 Bispos, e não foram muitos os que se pronunciaram, de forma aliás isolada, contra a TFP. Houve um Bispo do Nordeste que o fez pelo rádio usando até palavras baixas (possuímos a gravação). Quanto aos pronunciamentos coletivos, houve alguns, em relação aos quais a entidade se defendeu publicamente, sempre em termos respeitosos. É portanto exagerado dizer que são "numerosíssimas" as críticas que recebeu por parte do episcopado brasileiro. Tais críticas versam quase todas sobre desacordos em matérias sócio-econômicas.

30G: 5. "Na Venezuela o governo tinha de fato ordenado sua dissolução por um certo período ".

TFP: O fechamento da TFP venezuelana se deu em 1984, sendo Presidente daquele país o Sr. Lusinchi, atualmente processado por corrupção ante o Poder Legislativo do país. Uma decisão da Suprema Corte daquela República, em data de 15 de maio de 1986, declarou que não havia nenhuma ilegalidade nos atos atribuídos à TFP que serviriam de base para o decreto do governo Lusinchi.

Atenciosamente

Plinio Corrêa de Oliveira

Presidente do Conselho Nacional

 

 

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