Seção II

 

N° 18

 

 

 

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Um homem, uma obra, uma gesta – Homenagem das TFPs

a Plinio Corrêa de Oliveira
 

EDIÇÕES BRASIL DE AMANHÃ
Rua Javaés 681 – São Paulo
Impressão e acabamento
Artpress – Papéis e Artes Gráficas Ltda.
Rua Javaés 681 – São Paulo
s/d (1989)

18. Plinio Corrêa de Oliveira, as TFPs  e os camaleônicos “modelos” revolucionários

 

A MODA... Quem nunca abriu um figurino antigo e não se surpreendeu com o encanto de gerações passadas por tal ou tal vestimenta que hoje parece inexpressiva ou ridícula? Um espírito lógico não deixaria de refletir em seguida: será que o mesmo não vai acontecer com aquilo que hoje está no vento?

"Estar no vento é a ambição das folhas mortas", disse espirituosamente alguém. Mas nem por isso o número das pessoas que desejam "estar no vento" se torna menor. Em nossa época, pelo contrário, a capacidade de atração dos modismos aumentou. É que o homem de hoje vai abandonando o hábito de refletir e, segundo a consagrada expressão de Paulo VI, vive a "civilização da imagem" (1). Assim sendo, as "folhas mortas" proliferaram prodigiosamente, sendo incalculável o número daqueles que estão sempre à procura de imagens novas e de brilhos efêmeros.

O ágil marketing revolucionário não poderia deixar de levar em conta tal circunstância e de adaptar-se às características específicas de nossa época. Foi o que fez, servindo-se da imagem como elemento preeminente de seu proselitismo individual e coletivo. Mais do que isto: passou a utilizar largamente a dramaturgia política em nível internacional, como maneira de atrair ou desviar a atenção, entreter e/ou arrastar as massas.

Os recursos para tal são numerosos, e alguns vêm sendo empregados desde que o mundo é mundo. Mas é interessante considerar em particular um deles, que tem sido largamente utilizado sobretudo desde a II Guerra Mundial.

O processo, na realidade, é simples. Consiste ele em levantar modelos, ora de socialismo, ora de comunismo, ora de outras estruturas revolucionárias, os quais gozem do benefício da novidade e explorem as debilidades de certos setores da opinião pública mundial, em um momento dado.

Tais modelos surgem como auroras carregadas de esperanças. Elevam-se gradualmente como o sol, acima da linha do horizonte, e atingem o zênite da força e da irradiação. Depois entram em declínio, o mais das vezes de maneira inglória.

Logo a seguir, geralmente de onde não se esperava, surge novo modelo, e descreve um périplo parecido. Todos os olhos se voltam esperançados para suas figuras-símbolo, enquanto se desviam do modelo da véspera, quase como um menino afasta um brinquedo de que já se cansou.

 

 

1939. A Alemanha nazista e a Rússia assinam pacto de não agressão / 1941. Segundo ato: inopinadamente a Alemanha rompe o pacto e invade a Rússia / 1945. Em Yalta, Stalin joga... e vence. A expansão territorial do comunismo em poucos meses vai além de toda imaginação 

 

O novo modelo mantém-se geralmente alguns anos na ribalta, até tornar-se monótono e sem graça. É seu envelhecimento. Antes de mergulhar na decrepitude, cede lugar a outro... e assim sucessivamente.

Uma variante desse estratagema da guerra psicológica revolucionária é constituída pelos modelos que não levantam propriamente esperanças, mas exploram o prestígio da força. Tais modelos, alternando-se com os precedentes ou sobrepondo-se a eles, fazem com que as massas fiquem sob o influxo ora do medo, ora da simpatia, mas geralmente sob a ação simultânea de ambos (2). 

As vantagens carreadas pelo lançamento dos modelos são muitas. A maior delas, entretanto, é certamente a de atenuar, desviar, quando não eliminar, as reações de caráter contra-revolucionário. Tão sutil e bem executado tem sido o manobrar da dramaturgia revolucionária que, como se disse acima, numerosos são os que se têm deixado embair por ela. Tal, entretanto, por proteção da Providência, não tem sucedido com as TFPs. E, uma vez que o objeto desta obra é narrar a história das 15 entidades coirmãs e autônomas, pareceu interessante rememorar rapidamente aqui qual foi o evoluir dos modelos na história recente, e qual a atitude de previsão ou de diagnóstico precoce (3) que face aos mesmos tomou, desde o início de sua vida pública, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, e depois, as diversas TFPs, nas ocasiões que se têm apresentado em suas respectivas pátrias. 

 

I. O nazi-fascismo 

O nazismo foi certamente um modelo. O fascismo foi sua versão italiana. Este modelo foi depois copiado, com maior ou menor fidelidade, em várias países do mundo.

A atitude anti-nazi-fascista de Plinio Corrêa de Oliveira e de seus companheiros de luta já foi objeto de comentário em outra parte do presente volume, onde se publicam estatísticas até o momento inéditas.

Para os efeitos da presente temática, é interessante recordar, entretanto, que geralmente até mesmo os que se opunham ao nazismo o consideravam adversário autêntico do comunismo.

Por isso, não foi sem surpresa que muitos leram no "Legionário", no dia 1º de janeiro de 1939, as seguintes palavras de Plinio Corrêa de Oliveira:

"Efetivamente, enquanto todos os campos se definem, um movimento cada vez mais nítido se processa. É o da fusão doutrinária do nazismo com o comunismo. A nosso ver, 1939 assistirá à consumação dessa fusão" (ver também "Legionário", 28-8-38; 12-2-39; 14-5-39; 14-1-40; 16-6-40).

Muitos leitores do "Legionário" com certeza se lembraram deste aviso quando em agosto de 1939 – apenas  oito meses depois de escritas estas linhas – a Alemanha e a Rússia assinaram o pacto de não agressão conhecido como Ribbentrop-Molotov, bem como protocolos secretos sobre a determinação das esferas de influência alemã e soviética na Europa do Leste.

Assinado o tratado, Plinio Corrêa de Oliveira assim o comenta (17-9-39):

"Foi uma inabilidade sob este ponto de vista [o do desmascaramento do nazismo] o pacto teuto-russo. É possível que dentro em breve, Hitler e Stalin brinquem novamente de inimigos, `pour épater les bourgeois' e despistar o público" (grifos nossos).

Insistia em 8-12-40: "O `Legionário' já tem afirmado reiteradamente que a mascarada nazi-soviética pode de um momento para outro recomeçar e que, hoje ou amanhã, bem pode ser que Moscou e Berlim reencetem a comédia de seu recíproco antagonismo com a qual tão sensíveis vantagens auferiram há algum tempo atrás".

Dizia, por fim, em 18 de maio de 1941: "Como todos vêem, a colaboração germano-russa está atingindo seu auge, pela intervenção ativa da Rússia ao lado da Alemanha, na política asiática. O `Legionário' já previu longamente tudo quanto se está  passando. E, exatamente agora, quando parece ter chegado a seu zênite esta colaboração, permitimo-nos adiantar mais uma coisa a nossos leitores, coisa esta que certamente lhes causará surpresa: no pé em que estão estas relações, tanto é possível que durem longamente, quanto que de repente a Alemanha agrida a Rússia. E tudo isto sem que deixe de ser perfeitamente real a simbiose nazi-comunista. `Qui vivra, verra"' (grifos nossos).

Um mês depois, a Alemanha iniciava sua ofensiva contra a Rússia (22-6-41). Os preparativos foram feitos dentro do sigilo mais absoluto, como o atestou, entre outros, o general Guderian em Nuremberg (cfr. Raynard Cartier, Comment Hitler a perdu la bataille de Moscou, in "Historama", nº 246, maio/72, p. 58).

 

 

II. O comunismo internacional 

No período anterior à última Guerra Mundial (1939-1945), o comunismo se apresentavacomo agressivo, e disposto a conquistar o poder nos diversos países, ou por revoluções, ou por guerras externas. Os PCs locais, fiéis a Moscou, no primeiro caso preparariam e executariam o golpe de mão. No segundo, atuariam como quinta-colunas.

Tal procedimento naturalmente provocava uma sadia reação de desconfiança no mundo inteiro. Em 1943, entretanto, Stalin dissolveu a III Internacional (4) e acenou com a possibilidade de democratização da Rússia, produzindo certa distensão em todo o mundo livre.

"O comunismo era uma heresia declarada – comentou o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Ao menos sob este ponto de vista não era tão nocivo. Agora, no único ponto em que podia piorar coisa tão péssima, piorou o comunismo. Também ele diz hoje em dia: `não existo"' (5).

Na mesma ocasião, o ilustre catedrático paulista teceu  considerações cujo acerto os acontecimentos posteriores haveriam de confirmar.

Afirmava ele:

"Morto em aparência o próprio expansionismo comunista, a opinião mundial aceitaria com muito menor relutância uma dilatação territorial da Rússia na Europa" (6). 

Foi realmente o que aconteceu. A dissolução da III Internacional produziu no Ocidente uma prodigiosa baixa na vigilância, e criou clima propício para as ominosas concessões feitas aos comunistas na Conferência de Teerã (novembro-dezembro de 1943), nas conversações de Moscou (outubro de 1944) e na Conferência de Yalta (fevereiro de 1945), de que resultou a incorporação da Europa oriental ao regime soviético.

Mas as piores conseqûências da dissolução da III Internacional deveriam dar-se no plano psicológico. Plinio Corrêa de Oliveira vê desde logo o perigo e o denuncia com as seguintes palavras:

 "O `camarada Stalin' já insinuou em sua carta à Agência `Reuters' (7) que deposita as maiores esperanças nos grandes movimentos ideológicos de sentido igualitário e nivelador que em todos os países aliados lentamente se organizam. E, com isto, mostrou claramente que a Rússia espera intensificar seu movimento confusionista, criando novas e vastas `frentes populares' no mundo inteiro. Simplesmente, para melhor iludir, já não se limita a ocultar o caráter bolchevista destas `frentes': vai mais longe. Oculta a existência da III Internacional. E ilude assim os incautos, cujo número é infinito segundo diz a Escritura: `stultorum infinitus est numerus"' (grifos nossos) (8). 

De fato, dissolvida a III Internacional, os partidos comunistas oficialmente já não mais se viam obrigados a confessar a obediência a um poder estranho. Ficava aberto o caminho para que cada um deles aparentasse jogar seu próprio jogo e é o que muitas vezes têm feito, e continuarão fazendo. Em outros termos, ampliou-se assim enormemente a capacidade de manobra do comunismo.

A dissolução da III Internacional constituía, pois, motivo para preocupação e não para distensão. Funestas conseqüências haveriam de advir desse ato de Stalin. Foi o que Plinio Corrêa de Oliveira soube ver, e exprimir com clareza desde a primeira hora. 

* * *

Em breve, as próprias conquistas da Rússia a levariam a lançar mão de novos recursos no terreno da guerra psicológica revolucionária. Pois diante da fabulosa expansão do poder comunista decorrente das concessões diplomáticas obtidas na Conferência de Yalta, uma onda de reação surgiu no mundo ocidental. O macartismo constituiu sem dúvida sintoma expressivo da existência de uma reação, não apenas norte-americana, mas mundial, contra o marxismo.

 

 

1948-49. Tito encena ruptura com Moscou e passa receber ajuda ocidental

 

 

(1) 1956: Kruschev inaugura a “desestalinização” e lança a “coexistência pacífica”. Na foto, o ditador comunista com o Presidente Kennedy em Viena, 1961. (2) 1958: a ruidosa briga da China de Mao com a Rússia permite ao comunismo colher abundantes frutos propagandísticos e estratégicos. (3) 1959: desde o primeiro momento, Plinio Corrêa de Oliveira indica Cuba como cabeça de ponte do imperialismo russo. Em Angola, Brezhnev dá instruções a Fidel Castro

 

É impossível deixar de dizer, de passagem, que McCarthy lançou um novo estilo de propaganda anticomunista. Notando que as razões filantrópicas para ser contra o marxismo eram as que mais tocavam o público, ele insistiu nelas até o último ponto, dando um realce menor aos argumentos doutrinários. Assim, o anticomunismo, que até então fora um movimento sobretudo ideológico e racional, passou a ter caráter notadamente instintivo e sentimental. Quando surgiu uma aparente atenuação do cunho policialesco do comunismo, a reação tendeu a se evanescer, porque as razões doutrinárias para a oposição à hidra vermelha tinham sido esquecidas.

Essa evanescença do anticomunismo, contudo, haveria de se processar lenta e gradualmente. Seus efeitos ainda não se faziam sentir no imediato pós-guerra. O que se via então, é que por toda parte as conquistas vermelhas alarmavam a opinião pública.

Em conseqüência, o comunismo internacional foi levado a mudar seu facies mais uma vez. Ele o fez, ostentando aparatosas divisões internas, que causavam a impressão de que seu aspecto monolítico estava se desfazendo em pedaços, e enchiam de esperanças a grande multidão dos ingênuos.

Assim, em 1948/49, Tito rompe com Moscou e assina tratados comerciais com os países do Ocidente. Em 1952 passa a receber ajuda financeira e militar dos Estados Unidos.

Em janeiro desse mesmo ano, afirma o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

"É evidente que muitos elementos anticomunistas estão tomando a sério esta divisão, e aceitando sofregamente a colaboração dos líderes vermelhos que abriram um cisma em relação a Moscou. Que valerá a sinceridade deste cisma? Que valerá a sinceridade desta nova colaboração? Aceitar no âmago da resistência anticomunista estes novos aliados o que é, senão abrir as muralhas a algo de muito parecido com o cavalo de Tróia e aumentar a confusão?" (9). 

Depois do "cisma" titoísta, veio o de Mao Tsé-Tung. Em 1958, segundo o noticiário, Moscou e Pequim tiveram os primeiros estremecimentos em suas relações. Nos anos seguintes, travou-se enfática polêmica entre os dois maiores países vermelhos, a propósito das teses do XXI Congresso do PC soviético e da coexistência pacífica de Kruchev. A ruidosa querela foi se desenvolvendo até chegar, em 1962, à ruptura aberta.

Nas páginas de "Catolicismo", escrevia o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em janeiro de 1960:

"Assim se vai acentuando a bicefalia do mundo comunista: uma cabeça está em Moscou e outra em Pequim.

"E essas cabeças têm fisionomia e linguagem diversa. Uma [Rússia] olha gentil, sorri, e começa a parecer fraca. A outra [China] carrega o olho, ameaça, e vai-se tornando sempre mais forte. ....

"A Rússia tenderá a anestesiar e dividir o Ocidente, cada vez mais, enquanto a China irá tomando paulatinamente ares de flagelo mundial. Parecerá necessário aceitar o amplexo russo, a aliança do Kremlin, para fazer face ao monstro chinês. Nesse amplexo com a lepra, esta nos contagiará. Teremos para com o novo aliado todas as fraquezas, as condescendências, as imprudências que tivemos para com Tito. E assim a hidra comunista irá progredindo. ....

"A China, dizíamos, vai lentamente começando a intimidar e a imobilizar os poltrões do Ocidente. A Rússia, cada vez mais, agrada, ilude e atrai os tolos. Uns e outros, poltrões e tolos, tendem a recuar, transigir, conciliar a todo custo. E, francamente, quando alguém tem de seu lado todos os tolos e todos os poltrões, pode jactar-se de dispor de uma esplêndida maioria" (10). 

Esta bicefalia China-Rússia, como se sabe, foi um dos componentes marcantes da cena da política internacional durante cerca de três lustros, carreando para o comunismo abundantes frutos propagandísticos e estratégicos. 

 

* * *

 

Entrementes se desenvolve o chamado "degelo" promovido por Kruchev (1953), acompanhado das aparatosas "desestalinizações" (1955 e 1960). Nesse "degelo", talvez o principal acólito do chefe russo tenha sido o polonês Gomulka, cuja estrela começa a atingir o zênite por ocasião da "primavera polonesa" de outubro de 1956.

Sobre o assunto, escreve o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: "A `bobeira' – não há outro termo – com que em certos círculos do Ocidente se estão acolhendo os sorrisos de Kruchev e Bulganin resulta do mesmo estado de espírito. No mais fundo da alma dos senhores do Kremlin o sol do sorriso lançou os primeiros raios de uma aurora, que já ninguém conseguirá deter. É preciso concordar com eles em tudo, aceitar tudo, crer em tudo. Com nossa boa vontade, adoçá-los-emos ainda  mais. E dentro de algum tempo a Rússia terá sido vencida, não com tiros de canhão, mas com os doces jatos de glicerina de nossos sorrisos" (11). 

E isto foi escrito em 1956, não nos tempos de Gorbachev...

 

* * * 

 

Quase ao mesmo tempo, Fidel Castro assume o poder em Cuba (1959). Ele descera a Sierra Maestra com uma medalha de Nossa Senhora no pescoço. Não se declarou comunista nos dois primeiros anos – apenas o fez em 1º de maio de 1961 – e despertou ilusões em todo o mundo livre.

Em janeiro de 1960, entretanto, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira já denunciava o caráter comunista do regime de Havana, que este procurava escamotear. Escrevia: "Para responder se o primeiro-ministro cubano é ou não um agente soviético, o que importa, pois, é saber se sua ação acelera a evolução para o comunismo. Neste sentido, pode-se dizer que a resposta afirmativa se impõe com uma clareza solar" (grifos nossos) (12). 

Aliás, no próprio ano da tomada do poder por Castro, "Catolicismo" publicara dois artigos de autoria de Sergio Antônio Brotero Lefevre, denunciando o regime castrista como "a mais séria infiltração do comunismo em terras livres da América". Intitulavam-se eles Como se lançou no mercado internacional o `produto' Fidel Castro (agosto de 1959) e Como Fidel Castro fraudou os católicos cubanos (setembro de 1959). 

 

* * *

1964: com a ascensão do democrata-cristão Frei à presidência do Chile, aparece a nova fórmula da “revolução na liberdade”. 1970: sobre a “via chilena para o socialismo” de Allende se acendem os holofotes da propaganda internacional

 

 

1971: Berlinguer, Carrillo y Marchais (da esquerda para a direita) põem em moda o “eurocomunismo” 

 

Em 1970 sobe ao poder no Chile o marxista Salvador Allende, inaugurando o modelo designado como "via chilena para o socialismo". É do conhecimento geral que o livro Frei, o Kerensky chileno, de Fabio Xavier da Silveira, diretor da TFP brasileira já falecido, previra em 1967 que o governo democrata-cristão de Eduardo Frei abriria o caminho para o comunismo no país andino (ver no presente livro TFPs: ações conjuntas em âmbito internacional nº 3).

Ao mesmo tempo, a propaganda comunista julgou que poderia aspirar a metas mais ambiciosas, e tentou manobra de grande porte, tendo como objeto a Europa ocidental. 

 Para compreender o que se passou, é preciso levar em conta que em alguns países, como a Itália e a França, os respectivos PCs gozavam de não pequena força eleitoral. Tal força poderia tornar-se ainda muito maior, se por meio de uma hábil evolução pudessem eles incorporar setores do centro, e adormecer ainda mais a reação anticomunista.

Foi assim que, em 1971, Berlinguer propôs em reunião do Partido Comunista Italiano – o mais importante do Ocidente – um distanciamento em relação a Moscou e Pequim, e certa liberalização política e econômica no programa do PCI. Estava lançado o assim chamado "eurocomunismo".

Plinio Corrêa de Oliveira pergunta, naquela ocasião:

"Essa heresia será autêntica? Ou constitui mera manobra? ....

"Normalmente, a proposta `herética' e explosiva [de Berlinguer] deveria ter sido acolhida com indignação por todos os presentes. Ela deveria ter abalado as bases do partido e causado protestos em toda a Itália. Pequim e Moscou deveriam ter `excomungado' o `herege'. E os diversos PCs europeus, por sua vez, deveriam ter declarado de público sua repulsa às propostas de Berlinguer. Só isso é que seria lógico se Berlinguer tivesse agido por conta própria, sem prévio acordo com ninguém.

"Ora, muito ao contrário, os jornais não nos referem uma só manifestação de repulsa – ou pelo menos de surpresa – da parte de qualquer governo, partido ou grupo comunista.

"Logo, parece que todos estavam concertados de antemão com o que Berlinguer iria dizer. A sugestão deste indica, pois, um rumo que o comunismo internacional deseja realmente ver seguido pelos PCs da Europa livre.

"– Que lucraria, com tão sinuosa manobra, a causa do comunismo? – objetará algum leitor. ....

 "Na Europa ocidental nenhum PC jamais obteve uma autêntica maioria eleitoral. Para eles, o único modo de galgar o poder é uma coligação ....

"Ora, acontece que, na Europa livre, as esquerdas não comunistas se têm mostrado sempre relutantes em aceitar uma coligação com o comunismo. Impressionadas pelo que ocorreu na Checoslováquia e em outros lugares, temem elas que o PC, uma vez no poder, instaure uma ditadura e as expulse do governo.

"Nestas condições, ou o comunismo finge mudar de face e de mentalidade, apresentando-se à chilena, e propondo às esquerdas uma vasta coligação para fazer a `revolução na liberdade', ou continuará estacionário" (13).

 

* * *

 

1979: o modelo revolucionario sandinista nasce da simbiose entre a guerrilha castro-comunista e o “marxismo cristão”

 

Mais alguns anos se passam.

A partir de 1979 passa a ocupar lugar na ribalta o assim chamado modelo sandinista, da Nicarágua. Em conseqûencia, várias TFPs publicam sobre o tema estudo especial (cfr. cap. IV do presente livro), denunciando a estranha simbiose do progressismo católico com essa forma de comunismo, proclive a fomentar a guerrilha em toda a América Latina.

Em 1980-81, atinge seu climax na Polônia o sindicalismo da organização "Solidariedade", liderada pelo eletricista Lech Walesa. Este último levanta esperanças em todo o mundo livre, tendo assumido, depois, uma atitude abertamente colaboracionista em relação às autoridades comunistas, mal e mal disfarçada por alguns atritos de quando em vez.

Como se viu em outro local do presente volume, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira denunciou a manobra. Além disso, um cooperador da TFP brasileira, a serviço doBureau para a representação das TFPs com sede em Roma, interpelou pessoalmente o líder sindicalista (ver TFPs: ações conjuntas em âmbito internacional nº 11). 

 

* * *

 

Assim, de modelo em modelo chega-se até os presentes dias.

Ocupa o centro da cena Mikhail Gorbachev, iniciando algum tempo depois de sua ascenção ao Poder (1985) a chamada perestroika, com a aparente atenuação da tirania policialesca que sempre caracterizou o comunismo, bem como certa mitigação do caráter centralista da economia soviética. Ao mesmo tempo, as relações com os Estados Unidos se vão distendendo. Uma grande ofensiva publicitária no Ocidente acompanha presentemente o desenrolar desse processo.

O caráter enganoso da perestroika vem sendo denunciado seguidamente por "Catolicismo" (14). Os Jóvenes Bolivianos Pro Civilización Cristiana publicaram, em novembro de 1987, manifesto em que denunciavam a "manobra da autogestão, proposta hoje por Gorbachev em sua perestroika que está confundindo a tantos não comunistas" (15). O órgão "Cristiandad informa", da coirmã boliviana da TFP, em seu número de janeiro/fevereiro de 1988 apresenta as reformas em curso atrás da cortina de ferro como uma pokazuka, termo russo que significa: algo feito só para enganar. Ao mesmo tempo, o boletim da TFP brasileira "Informando, comentando, agindo..." (16) publica o estudo Autogestão, essa `novidade' de há 100 anos, expondo em suas linhas gerais o pensamento da entidade a respeito da perestroika e da glasnost; osYoung South Africans for a Christian Civilization – TFP estampam no boletim "TFP Newsletter" estudo análogo, intitulado Glasnost and Perestroika: Real change? Or a new make-up? (17). 

Uma cuidadosa análise deste recente modelo lançado pelo comunismo internacional pode ser encontrada no livro lançado pela TFP castelhana  Espanha - anestesiada sem o perceber, amordaçada sem o querer, extraviada sem o saber. A obra do PSOE (cap. VI, VIII). 

* * * 

 

Havia algo no ar que fazia pressentir a eclosão de manobra como a perestroika em um momento dado. Algum tempo atrás, Plinio Corrêa de Oliveira escrevia as seguintes palavras:

"Análogas considerações se devem fazer sobre a atual tendência para um tal ou qual restabelecimento da livre iniciativa na Rússia.

"De um lado, se esta, desistindo por ora de uma guerra suicida, quer competir com os Estados Unidos em clima de coexistência pacífica no terreno da produção, deve necessariamente apelar para o restabelecimento, ainda que muito rudimentar, da livre iniciativa. Pois a experiência soviética prova que de outro modo nenhum progresso é possível nos setores em que mais insuficiente se mostra a produção.

"Mas esse restabelecimento não será utilizado propagandisticamente para outros fins?

"Por exemplo, não poderá ele provocar uma desmobilização dos espíritos no mundo livre, preparando-os para a ilusão de que a Rússia estaria a caminho de um regime democrático apenas semi-socialista, e que os perigosos contrastes entre os dois mundos poderiam ser eliminados caso o Ocidente, no interesse da paz, consentisse em se socializar fortemente ao mesmo passo que a Rússia se capitalizasse um pouco?

"Essa ilusão .... a que recuos, a que capitulações poderia predispor as nações livres!"

Tais palavras, republicadas hoje sem menção de data, seriam vistas por toda parte como um luminoso comentário dos passos gorbachevianos. Vieram elas a lume, entretanto, em janeiro de 1966, ou seja, cerca de vinte anos antes da perestroika! (18).

                                        

III. Um modelo à parte: a revolução da Sorbonne, de 1968 

Mas a problemática dos modelos não se cinge exclusivamente ao âmbito do comunismo declarado. Se se quiser dar mais um passo para compreender a questão em toda a sua amplitude, é interessante considerar, ainda que rapidamente, a chamada revolução da Sorbonne.

Em maio de 1968 estoura em Paris o levante estudantil. Erguem-se barricadas, coloca-se em questão a sociedade contemporânea como um todo. O movimento se inspira em boa parte no anarquismo e no marxismo. Seu lema é: "proibido proibir".

Muito se tem escrito a respeito desta revolução. Sem dúvida o texto abaixo, com data de 1959, de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira, fornece interessantes subsídios para a interpretação do que sucedeu:

"O processo revolucionário nas almas .... produziu nas gerações mais recentes, e especialmente nos adolescentes atuais que se hipnotizam com o `rock and roll' um feitio de espírito que se caracteriza pela espontaneidade das reações primárias, sem o controle da inteligência nem a participação efetiva da vontade; pelo predomínio da fantasia e das `vivências' sobre a análise metódica da realidade: fruto, tudo, em larga medida, de uma pedagogia que reduz a quase nada o papel da lógica e da verdadeira formação da vontade. ....

"A efervescência das paixões desregradas, se desperta de um lado o ódio a qualquer freio e qualquer lei, de outro lado provoca o ódio contra qualquer desigualdade. Tal efervescência conduz assim à concepção utópica do `anarquismo' marxista, segundo a qual uma humanidade evoluída, vivendo numa sociedade sem classes nem governo, poderia gozar da ordem perfeita e da mais inteira liberdade, sem que desta se originasse qualquer desigualdade. Como se vê, o ideal simultaneamente mais liberal e mais igualitário que se possa imaginar” (19)

 

IV. Nos meios não declaradamente comunistas, ou até supostamente anticomunistas 

Evidentemente, não é apenas o comunismo que manobra e lança modelos. Na realidade, toda a esquerda o faz periodicamente, desde os sinuosos democrata-cristãos até os socialistas marxistóides ou marxistas declarados. É óbvio que, quando o comunismo, com voz dulçurosa, bate à porta do mundo livre, é preciso que alguém do lado de dentro abra. As forças de esquerda acima aludidas reservam para si esse funesto papel.

Bom exemplo deste tipo de modelos foi o socialismo autogestionário, que Mitterrand tentou lançar em 1981. A respeito de tal empreitada as então 13 TFPs publicaram nos principais jornais dos cinco continentes a célebre Mensagem de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira (20). 

Em nossos dias, uma manobra semelhante está em fase de execução na Espanha. Trata-se do socialismo "modernizador" de Felipe González, que coloca sua ênfase na "revolução cultural" contra o qual TFP-Covadonga realiza brilhante campanha de esclarecimento (21).

 

 

1980. Walesa coloca nas manchetes o "modelo" polonês; 1981. Mitterrand lança o "socialismo autogestionário" francês; 1982. Felipe González inicia na Espanha sua "revolução cultural" socialista; 1985. Gorbachev dá o sinal de partida para novo "modelo": "glasnost",  "perestroika"

 

* * *

 

No meio católico, infelizmente também há muitos elementos – e freqüentemente bastante graduados – que favorecem o trabalho dos lobos com pele de ovelha, ou aplaudem a quem se presta a essa tarefa.

O "progressismo católico" é um modelo? A "Teologia da Libertação" é outro modelo? Ou constituem estruturas doutrinárias, por sua vez geradoras de modelos? As opiniões a respeito desse problema de terminologia talvez possam divergir. Num ou noutro caso, não deixam de ser tragicamente verdadeiras as seguintes palavras:

"O progressismo, instalado por quase toda parte, vai convertendo em lenha facilmente incendiável pelo comunismo a floresta outrora verdejante da Igreja Católica .... O alcance desta transformação é tal, que não hesitamos em afirmar que o centro, o ponto mais sensível e mais verdadeiramente decisivo da luta entre a Revolução e a Contra-Revolução se deslocou da sociedade temporal para a espiritual, e passou a ser a Santa Igreja, na qual, de um lado, progressistas, criptocomunistas e pró-comunistas, e de outro lado, antiprogressistas e anticomunistas se confrontam" (22). 

Ninguém pode deixar de reconhecer ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que escreveu as linhas transcritas acima, o mérito de, no âmbito brasileiro, ter discernido desde os primeiros sintomas o mal que assola hoje a Santa Igreja. Pois uma descrição bastante detalhada de tais sintomas está consignada em seu livro Em defesa da Ação Católica, prefaciado pelo Núncio Apostólico D. Aloisi Masella, e publicado em 1943 (23). Aproximações bastante significativas poderiam ser feitas entre o conteúdo desse livro e o do célebre Rapporto sulla Fede (24), do Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger. Entretanto, mais de quatro décadas separam a publicação das duas obras, o que mostra como foi realmente precoce o diagnóstico do catedrático paulista. 

Mas este assunto levaria muito longe...

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Notas:

(1) Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi de 8-12-75. Documentos Pontifícios nº 188, Vozes, Petrópolis, 1984, 6ª ed., p. 30.

(2) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Baldeação ideológica inadvertida e diálogo, Ed. Vera Cruz, São Paulo, 1966, Cap. I, 9.

(3) "Diagnóstico precoce": expressão médica que significa o conhecimento ou determinação de uma doença pelos primeiros e mais tênues sintomas dela.

(4) Órgão de coordenação dos PCs no mundo inteiro.

(5) "Legionário", 13-6-43.

(6) "Legionário", 30-5-43.

(7) A carta continha esclarecimentos a propósito da dissolução da III Internacional.

(8) "Legionário", 13-6-43.

(9) "Catolicismo", janeiro de 1952.

(10) "Catolicismo", janeiro de 1960.

(11) "Catolicismo", julho de 1956.

(12) "Catolicismo", janeiro de 1960.

(13) "Folha de S. Paulo", 21-11-71.

(12) Cfr, n°s 436, abril de 1987, 437, maio de 1987; 442, outubro de 1987; 443, novembro de 1987; 447, março de 1988; 452, agos­to de 1988, etc.

(15) Cfr. "Presencia" e "El Diario", ambos de 26-11-87.

(16) N° 26 de janeiro/fevereiro de 1983.

(17) Pereslroika: mudança real? ou nova maquiagem? (1988, n° 30).

(18) "Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo", cap. 1, 9, C, nota 4, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1966.

(19) Revolução e Contra-Revolução, Ed. Diário das Leìs, São Paulo, 2' ed., 1982, p. 33.

(20) Ver TFP: ações conjuntas em âmbito internacional nº 12.

(21) Ver “O brado e o programa de TFP-Covadonga: continue a Espanha a ser espanhola", na parte III do presente volume.

(22) Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Ed. "Diário das Leis", São Paulo, 2ª ed., 1982, p. 68.

(23) Cfr. histórico estampado nas primeiras páginas do presente volume.

(24) Rapporto sulla Fede, Edições Paulinas, Milão.

 


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