Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Minha

 

Vida Pública

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Parte IX

Fundação da TFP — Livros, Atividades e Campanhas de grande repercussão na década de 1960

 

Capítulo I - “Tradição, Família, Propriedade”

Capítulo II - Expansão dos ideais da TFP na América espanhola

Capítulo III - O enorme papel do livro “Reforma Agrária—Questão de Consciência”

Capítulo IV - Patenteia-se a divisão no Episcopado e no laicato

Capítulo V - Reflexos políticos de uma campanha ideológica

Capítulo VI - “Janguismo sem Jango” no pós-64. A Reforma Agrária no Estatuto da Terra

Capítulo VII - Morte de Pio XII e eleição de João XXIII: a perspectiva do Concílio

Capítulo VIII - Nosso secretariado em Roma

Capítulo IX - Duas históricas petições não atendidas: consagração da Rússia e condenação do comunismo

Capítulo X - A liberdade da Igreja no Estado comunista (1963): algumas observações prévias

Capítulo XI - A liberdade da Igreja no Estado comunista (1963): os soviéticos necessitavam da coexistência pacífica

Capítulo XII - A liberdade da Igreja no Estado comunista (1963): teses, difusão e polêmicas

Capítulo XIII - “Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo” (1965): conteúdo e repercussões

Capítulo XIV - A batalha contra o divórcio e a derrocada da família

Capítulo XV - “Frei, o Kerensky chileno” (1967)

Capítulo XVI - Os artigos para a “Folha de S. Paulo” (1968-1990)

Capítulo XVII - Infiltração comunista na Igreja: 2.025.201 assinaturas a Paulo VI (1968)

Capítulo XVIII - O Arcebispo Vermelho abre as portas da América e do Mundo para o comunismo

Capítulo XIX - IDO-C e “grupos proféticos”: trama secreta para revolucionar a Igreja (1969)

Capítulo XX - O tumor do envolvimento de clérigos com o terrorismo (1969)

 

Capítulo I

“Tradição, Família, Propriedade”

1. Como nasceu a idéia do nome

Seria interessante explicar como surgiu a expressão “Tradição, Família e Propriedade”.

Pelo ano de 1960, realizávamos uma reunião [1] na sede da rua Aureliano Coutinho [2], quando em certo momento eu disse que a trilogia adequada para designar o nosso grupo seriam as palavras “Tradição, Família e Propriedade”.

Eu intuía que a negação desses três valores era o ponto terminal da civilização cristã do Ocidente e o início de uma ordem de coisas baseada no contrário. E que, portanto, a Tradição, a Família, a Propriedade deveriam ser o nosso título [3].

Lembro-me de ter dito também: “O nome perfeito de nosso Grupo deveria ser Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. É o modo de nós fazermos uma ação anticomunista não meramente negativista, mas afirmando três valores que, por uma erosão lenta, o comunismo quer derrubar para depois vencer” [4].

Os que estavam presentes aceitaram a sugestão com toda a naturalidade, com toda a alegria [5].

O nome foi portanto objeto de uma cuidadosa reflexão, de uma meticulosa atenção, para corresponder exatamente aos nossos ideais [6].

Três outras palavras que resolvêssemos colocar juntas não formariam necessariamente uma trilogia. Já Tradição, Família, Propriedade é uma trilogia de liames profundos, que constituem uma seqüencia* [7].

* Percebeu-o perfeitamente, mais de uma década depois, o conhecido autor belga de orientação francamente progressista, Max Delespesse, em livro com o significativo título Tradition, Famille, Propriété: Jésus et la triple contestation.

Pondera ele com acerto e precisão:

“Observadores superficiais poderiam surpreender-se diante da trilogia ‘tradição-família-propriedade’ como se se tratasse de um amálgama artificial. Na realidade, a junção destes três termos não se deveu ao acaso. [...] ‘Tradição-família-propriedade’ é um bloco coerente que se aceita ou se rejeita, mas cujos elementos não podem ser separados” (Max Delespesse, Tradition, Famille, Propriété. Jésus et la triple contestation, Fleurus, Paris, 1972, pp. 7, 8).

2. Constituição da TFP em 1960 e quais os sócios-fundadores

Com base nessa trilogia, resolvemos fundar uma sociedade civil [8] e registrá-la [9] como organização juridicamente constituída [10], e que tivesse como corpo societário o núcleo de amigos que se tinha reunido em torno do Legionário* [11].

* A data oficial de fundação da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) é 26 de julho de 1960.

Tive a iniciativa de fundar a TFP, e fui eu quem lhe deu o nome e reuni os amigos que constituíram seu primeiro núcleo [12]. E os estatutos foram redigidos por mim com muito cuidado, com muita seriedade, portanto com muita autenticidade [13]. O autor dos estatutos fui eu.

Quis o título de “Presidente do Conselho Nacional” e não “Presidente da TFP”. E tinha “n” razões para querer isto e para o querer ainda hoje assim [14].

A TFP é a única associação que eu conheça que tem duas diretorias: o Conselho Nacional e a DAFN (Diretoria Administrativa e Financeira Nacional). São duas diretorias completas. O Conselho Nacional é presidido por mim, e cuida de toda a parte intelectual, de formação e de todas as atividades da TFP, exceto as econômicas. As econômicas são atribuição da Diretoria Administrativa e Financeira Nacional, a DAFN [15].

Pelos estatutos da TFP, o Conselho Nacional é o órgão deliberativo. E a TFP tem como sócios a mim, os membros do Conselho Nacional, os da DAFN e alguns membros da Ordem Imediata [16].

*   *   *

Como se formou este corpo jurídico eu já o disse, e está na história da TFP.

Até mais ou menos 1949, o grupo era constituído apenas pelos membros do posteriormente chamado grupo da Pará e por mim, que era o presidente por ser o segundo mais velho e por condescendência do Dr. José de Azeredo Santos, um ano mais velho do que eu.

Também os rapazes da rua Martim Francisco, com o passar do tempo, tornaram-se elementos dirigentes.

Ajudou nisto o fato de que a diferença de idade entre nós do grupo da Pará e os do grupo da Martim Francisco, como é natural, foi aos poucos se adelgaçando. E então convencionou-se favorecer uma espécie de fusão entre os membros do grupo da Martim Francisco e os membros do grupo da rua Pará, mantendo-se entretanto, para estes últimos, dentro da nossa vida cotidiana, uma ordem de precedência.

Desta forma constituiu-se naturalmente a diretoria desse novo organismo.

E quando a TFP foi fundada no ano de 1960, muito naturalmente os membros do grupo da Pará e da Martim passaram a ser os sócios fundadores e ao mesmo tempo a diretoria, com uma meia dúzia de mais novos que também foram indicados para sócios. E esta ficou sendo juridicamente a TFP.

Os cooperadores, pelos estatutos, não pertencem à TFP* [17].

* Esses cooperadores, inicialmente chamados de militantes, eram os membros dos grupos do Alcácer e da Aureliano, ademais de numerosos jovens de todo o Brasil que foram aderindo aos ideais da TFP, com dedicação integral.

Mais tarde formaram-se ainda os correspondentes e esclarecedores, constituídos por famílias que, atuando em seus meios sociais próprios, apoiavam a entidade em toda medida de suas possibilidades.

Com o tempo, alargou-se também substancialmente o círculo de simpatizantes dos ideais da TFP por todo o País, o que favoreceu enormemente o êxito incomum das campanhas da entidade.

3. Uma utopia realizada

Depois de fundada a TFP, só algum tempo depois que ela começou a atuar, porque o Grupo era ainda pequeno. Era uma sociedade que existia mais no papel do que na realidade. Falava-se muito mais do “grupo de Catolicismo” do que da TFP [18]. A luta pública e a luta de rua da TFP propriamente dita iniciou-se mais tarde [19].

Se no tempo em que a TFP foi fundada alguém perguntasse: “É possível fundar uma sociedade com as características da TFP?”, a quase totalidade das pessoas responderia que seria impossível, que isso não nasce mais nos dias de hoje.

Aquilo que parecia uma utopia se realizou. E quando uma utopia se realiza isto se chama milagre [20].

Capítulo II

Expansão dos ideais da TFP na América espanhola

1. Argentina

Aspecto do ato de fundação da "Sociedad Argentina de Defensa de la Tradición, Familia y Propiedad"

Foi nesse período que começaram as viagens por outros países à procura de pessoas afins com o nosso ideário, sobretudo na América Latina, porque nós queríamos formar uma confederação mundial, queríamos agir no mundo inteiro [21].

Organizamos então uma ida de várias pessoas nossas à Argentina e fomos assim tomando contato com grupos católicos de lá [22].

A Argentina para mim foi uma revelação [23]. Era uma nação muito mais preservada, do ponto de vista religioso e do ponto de vista da prática dos Mandamentos, do que a nação brasileira [24].

Havia na Argentina daquele tempo, e deve ainda haver em alguma medida, um bloco de população seriamente católica, de alto a baixo nas várias classes sociais, compreendendo pessoas tanto da alta sociedade, quanto da média e das classes menos favorecidas. Sobretudo as senhoras eram assim, mas os homens também, e constituíam uma força enorme [25].

Vimos lá grande número de pessoas rezando nas igrejas, muito mais do que no Brasil. Igrejas lindas, sérias, imagens com fisionomias combativas, com uma dignidade, um espírito de cavalaria e de audácia que me agradaram [26].

O número de senhoras e de homens entrando e saindo para visitas rápidas ao Santíssimo era impressionante.

Era gente que estava fazendo negócios, que tinha o tempo tomado, mas que entrava um instante para saudar o Santíssimo. Outros demoravam mais. Homens de posição, de destaque, não tinham a menor dúvida de se afirmar publicamente católicos, sem respeito humano: passavam diante de uma igreja, tiravam o chapéu. Coisa que fazia gosto de ver [27].

Dei-me conta, então, de que a Argentina herdara da Espanha um teor de catolicidade único. E deduzi daí que provavelmente esta deveria ser também a herança da atuação da Espanha em todas as suas antigas colônias — hoje nações independentes na América Latina — numa dosagem de Fé católica muito maior do que eu poderia imaginar à primeira vista.

O resultado é que o nosso futuro em matéria de relações exteriores, durante muitos anos, se voltou para a América do Sul [28].

*   *   *

Conhecemos na Argentina uma direita, em cuja sombra viviam pessoas com uma vocação idêntica à nossa [29].

Foi numa dessas viagens à Argentina que encontramos um grupo que imprimia a revista Cruzada, extraordinariamente afim conosco, composto todo ele de jovens, filhos de pais pertencentes a essa direita [30].

Indo à Argentina, tomei contato com esses rapazes, e fiquei uma longa temporada lá.

Esses contatos frutificaram e em certa ocasião, no ano de 1965, fiz um simpósio com esse grupo de jovens de Buenos Aires. Eles vieram a São Paulo para resolver algumas “de las mil y mil cuestiones” entre os dois grupos. Este simpósio correspondeu a esclarecer o seguinte problema: o que somos nós?

Nossa Senhora favoreceu esse simpósio, e no final das contas eles resolveram aderir integralmente aos nossos ideais e formar naquele país uma TFP autônoma mas irmã da nossa. Nasceu assim a TFP Argentina.

2. Chile

Também em viagem ao Chile conhecemos o grupo de Fiducia, pessoas jovens que publicavam uma revista do mesmo nome.

Com eles a aproximação foi muito mais fácil. Já nos primeiros contatos nos entendemos bem. Logo depois, vieram alguns deles ao Brasil, seguidos depois de outros. E assim começaram a vir em roldana, e nos entendíamos perfeitamente. Eles se transformarem em TFP chilena foi a coisa mais fácil, mais simples, mais desembaraçada que houve.

O Sr. Patricio Larrain Bustamante lê, no Club de la Unión de Santiago, o manifesto de fundação da TFP: nasce uma força jovem e vitoriosa a serviço do Chile contemporâneo

3. Uruguai

A partir do momento em que pudemos dizer que tínhamos grupos com os mesmos ideais na Argentina e no Chile, abriram-se as portas de outros lugares.

Na Argentina informaram-me da existência de pessoas com idéias semelhantes às nossas em Montevidéu, onde de fato encontrei um grupo de homens de boa situação social, aproximadamente da minha idade, e alguns até bem mais velhos do que eu.

O mais moço desse grupo convidou-me para almoçar em casa dele, onde vi brincar pelo salão alguns meninos, dois dos quais, mais tarde, formaram um grupo em Montevidéu.

4. Viagens por outros países latino-americanos

Concomitantemente, membros dos grupos da Pará e da Martim realizaram uma série de viagens apostólicas pelos outros países da América hispânica: Dr. Fernando Furquim de Almeida, Dr. Paulo Barros de Ulhôa Cintra, Dr. Sérgio Brotero Lefèvre, Dr. Fábio Xavier da Silveira, Dr. Paulo Corrêa de Brito Filho. Eles percorreram a América do Sul em todos os sentidos [31].

De cá, de lá e de acolá, em cada país, alguns punhados de jovens respondiam positivamente [32].

De maneira que o circuito interbrasileiro de expansão dos ideais da pré-TFP se enriqueceu com o bandeirismo dos componentes do grupo de Catolicismo, bandeirismo esse que passou a ser, além de nacional, também hispano-americano.

Foram dois circuitos de viagens, igualmente épicas, igualmente trabalhosas, igualmente dispendiosas, algumas delas frustradas. Mas daí veio todo o surto de grupos afins da América do Sul.

No início, como disse, eram os meus amigos da Pará e da Martim que palmilhavam de alto a baixo toda essa zona. Mais tarde também os do grupo do Alcácer e da Aureliano empreenderam viagens semelhantes [33].

Capítulo III

O enorme papel do livro “Reforma Agrária—Questão de Consciência

1. Anti-agro-reformista desde a adolescência

Bonde na Av. Paulista em 1920

Quando ainda menino, eu ia todos os dias de bonde do bairro dos Campos Elíseos para o Colégio São Luís, localizado na Avenida Paulista.

O bonde atravessava a rua da Consolação, e certo dia vi uma faixa: “Ligas Agrárias”.

Chegando em casa, perguntei o que eram essas Ligas Agrárias.

Ah! isso é um movimento comunista, feito para dividir as terras dos proprietários.

Eu pensei com os meus botões: “É preciso fechar o passo a essa gente, porque por aí vai começar o comunismo”.

Em fins de 1959, já com os meus 50 anos, ao ver as primeiras notícias sobre a Reforma Agrária, pensei: “Aqui está o comunismo entrando” [34].

2. Vislumbre da grande luta numa pequena notícia

No ano de 1959, nosso grupo programou uma ida a Poços de Caldas para um pequeno simpósio, do qual participaram cerca de vinte pessoas*.

* Este simpósio foi realizado em setembro de 1959, durante o feriado da Semana da Pátria.

Eu me lembro que fazíamos as reuniões no terraço de um bonito hotel que dava para um jardim também muito bonito, tudo contrastando com a situação triste em que nos encontrávamos.

Estando ali, certa manhã li uma noticiazinha [35], talvez de 5 ou 10 linhas [36], dizendo que estava a pique de ser lançada no País uma Reforma Agrária [37].

Desci para o café da manhã e disse aos rapazes:

— Li no Estado de S. Paulo a notícia de que estão querendo fazer uma Reforma Agrária no Brasil. E se fizerem Reforma Agrária, eu lhes garanto que o nosso grupo intervém.

Eles ficaram meio espantados.

Eu disse: “Eu lhes garanto. É uma campanha que o nosso adversário lança prematuramente, pois a opinião nacional não está preparada para recebê-la. E essa Reforma Agrária que está sendo planejada é contrária à doutrina católica. Quando a propaganda agro-reformista estiver bem estufada, nós lançamos um golpe contra ela”.

Vi que eles ficaram esperançados, mas com certa dúvida: “Como pode um grupo tão pequeno dar uma tacada desse tamanho”? [38]

3. A Revisão Agrária de Carvalho Pinto

São Paulo era na época governado por Carvalho Pinto [39], muito conhecido meu. Ele fora meu colega na Faculdade de Direito. Era pessoa de um trato agradável, simpático. Mas, enquanto governador, lançou de repente uma grande propaganda de Reforma Agrária [40].

Logo nos primeiros meses do ano seguinte, 1960, ele enviou um projeto de Revisão Agrária à Assembléia Legislativa paulista [41], apoiado desde logo por parte da imprensa e rádio, e por quase todo o Episcopado paulista, bem como pela CNBB [42].

No próprio texto do governo estadual, tal projeto era apresentado como “um primeiro passo, na verdade pioneiro” de outras Reformas Agrárias [43]. E se transformou na lei básica que deveria ser adaptada às diversas regiões da Nação, servindo como modelo para uma lei nacional de Reforma Agrária em futuro próximo.

*   *   *

Esse projeto obedecia a uma doutrina, a uma “filosofia”, a uma “mentalidade”, conforme asseverou o Secretário da Agricultura, Sr. José Bonifácio Coutinho Nogueira, em discurso na Assembléia Legislativa de São Paulo.

A conseqüência dessa Reforma Agrária seria, portanto, a constituição de um imenso poder do Estado sobre os pequenos “proprietários”, reduzidos à escravidão. A “propriedade”, em vez de dar-lhes a liberdade, os obrigaria a vestir uma camisa de força. A perspectiva era portanto entrar em um estado de coisas socialista, preâmbulo do dirigismo estatal do comunismo [44].

4. Escrevendo o livro

Tendo essa propaganda agro-reformista subido de tom, fui a Santos para escrever a parte doutrinária do livro que depois tomou como título Reforma Agrária—Questão de Consciência. A parte econômica ficou a cargo do economista Luiz Mendonça de Freitas, que pertencia ao grupo da Martim.

Lembro-me de que passei de 15 a 20 dias naquela cidade. Era um livro difícil de escrever, pois para produzir todo o efeito que eu queria provocar supunha muita atenção.

*   *   *

Nessa estada em Santos, durante os vaivéns da elaboração do livro, tivemos uma provação muito dolorosa: o falecimento, no dia 25 de junho de 1960, do meu querido e inesquecível Dr. Antonio Ablas Filho. Ele havia se interessado muito pelo assunto.

Quanto mais avançava a redação do livro, mais eu me certificava de que, com a propaganda da Reforma Agrária solta como estava, o livro iria provocar uma enorme repercussão.

E se confirmou em meu espírito que, com essa campanha, iríamos passar, de um mero grupo que apenas os especializados em assuntos religiosos conheciam, para um grupo que teria o seu raio de ação expandido a todo o ambiente brasileiro [45].

5. Mídia, Clero e cúpulas rurais coniventes: cerco a furar

A situação do lado político era a seguinte.

Tudo quanto era jornal, jornalão e jornalzinho fazia propaganda clara ou velada a favor da Reforma Agrária.

Esses órgãos apontavam os fazendeiros como uma classe de sanguessugas que dominavam a lavoura e que a mantinham em regime de atraso.

Consequentemente, diziam eles, a lavoura no Brasil não produzia o suficiente para manter a população, por causa do espírito tacanho e atrasado desses fazendeiros e, sobretudo, pela manutenção do regime de grandes e médias propriedades, que eles consideravam, sem base nenhuma na realidade, um regime pouco produtivo.

Então, para o Brasil progredir, seria preciso acabar com a grande e a média propriedades, e passar a um sistema de apenas propriedades pequenas.

*   *   *

Desde o primeiro momento, a esquerda católica meteu-se por inteiro na campanha a favor dessa Reforma Agrária [46]. E esta era uma das mais fortes razões para se escrever o livro*.

* Dos 187 Bispos que constituíam naquela época a Hierarquia no Brasil, 49 haviam se pronunciado a favor de uma Reforma Agrária socialista e confiscatória. Eles tinham como carro-chefe o então secretário geral da CNBB, Dom Helder Câmara.

Poucos Bispos se pronunciaram contra. E a grande maioria conservava-se muda.

A seguinte poesia comunista de Vinicius de Morais, acolhida e posta em realce no semanário católico-esquerdista Brasil Urgente, dirigido pelo tristemente famoso dominicano Frei Carlos Josaphat, mostra bem a virulência da propaganda agro-reformista levada a cabo pela esquerda católica:

“Senhores barões da terra / Preparai vossa mortalha / Porque desfrutais da terra / E a terra é de quem trabalha / Bem como os frutos que encerra [...] Chegado é o tempo da guerra / Não há santo que vos valha. / [...] Queremos que a terra possa / Ser tão nossa quanto vossa / Porque a terra não tem dono / Senhores donos da terra. / [...] Não a foice contra a espada / Não o fogo contra a pedra / Não o fuzil contra a enxada: / Granada contra granada! / — Metralha contra metralha! E a nossa guerra é sagrada! / A nossa guerra não falha!” (Cfr. A escalada da ameaça comunista—Apelo aos Bispos Silenciosos, 4ª edição, 1977, Editora Vera Cruz, São Paulo).

Tal era o apoio que a agitação agro-reformista vinha recebendo dos meios religiosos, que em várias partes do Brasil os fazendeiros começaram a sentir escrúpulos de consciência de possuírem terras herdadas de seus maiores, ou legitimamente adquiridas pelo trabalho. Uns eram assim induzidos a uma atitude entreguista, e outros começavam a revoltar-se contra a Igreja [47].

Tudo isto se deu antes do Concílio Vaticano II, quando o prestígio do Episcopado no Brasil era muito maior do que hoje.

Uma palavra do Episcopado poderia ser decisiva para encaminhar o País para certo rumo. E se o Episcopado em peso desse apoio à Reforma Agrária, esta seria feita, porque os fazendeiros não tinham ninguém que levantasse a voz a favor deles, nem mesmo as associações de Agricultura. Boa parte delas eram dirigidas por cúpulas coniventes e concessivas, as quais não estavam fazendo nada de prático contra a Reforma Agrária.

Somava-se a isto o fato de que a parte da intelligentsia nacional que se ocupava do assunto manifestava-se em geral a favor do agro-reformismo*.

* Começou simultaneamente a haver agitações agrárias em alguns pontos do País: invasões de terras em Pernambuco e em São Paulo; atuação das Ligas Camponesas do deputado comunista Francisco Julião; tentativa de sindicalização comunista de trabalhadores rurais no Norte do Paraná e outras.

Tinham esses protagonistas meios de propaganda possantes, apoio dos comunistas e de certa burguesia comunistóide.

Agitação promovida pelas Ligas Camponesas em Recife, noticiada pela revista Life de 2 de junho de 1961

6. Estratégia e elaboração de RA-QC: importância da co-autoria de dois Bispos

Para nós punha-se o problema de levantar a defesa da propriedade privada, inclusive dando aos fazendeiros dois recursos que eles não tinham para se defenderem.

O primeiro recurso era mostrar que havia um livro que defendia a legítima causa deles. E o segundo era mostrar à opinião pública que, junto com dois leigos católicos, dois Bispos também lutavam contra a Reforma Agrária: Dom Mayer e Dom Sigaud.

O público precisava ver que esses dois Bispos tachavam a Reforma Agrária de comunistizante, num período em que ainda havia horror ao comunismo. E perceber que os católicos não eram unânimes em favor da Reforma Agrária, ao contrário do que dava a entender a propaganda.

Com esses dois recursos na mão, seria possível mostrar aos fazendeiros que, enquanto católicos, eles não eram obrigados em consciência a estar de acordo com a Reforma Agrária.

*   *   *

Era indispensável a revisão do texto e a assinatura dos dois Bispos — Dom Mayer e Dom Sigaud. Levei a minuta do livro para eles, pedi-lhes que o revissem e perguntei se estavam de acordo. E convidei-os a darem seus nomes como co-autores.

Essas tratativas foram realizadas durante um Congresso Eucarístico em Curitiba [48], ao qual deveriam comparecer todos os Bispos brasileiros, portanto Dom Mayer e Dom Sigaud também*.

* Era o VII Congresso Eucarístico Nacional, realizado entre os dias 5 e 8 de maio de 1960.

Eles ali, nos tempos vagos, entre um ato e outro do Congresso, foram revendo a minuta [49].

Reuníamo-nos na saleta de meu quarto no hotel. E, finda a revisão, eles concordaram em dar o nome como co-autores.

Tanto Dom Mayer como Dom Sigaud fizeram várias observações. Dom Sigaud até acrescentou páginas bem interessantes.

Dr. Plinio Xavier também foi de muita valia nessa ocasião, ajudando a examinar a parte econômica escrita pelo Dr. Luiz Mendonça de Freitas [50].

7. A revisão de Dr. Castilho

Afinal, depois de tudo acertado, confiei ao saudoso e querido Dr. José Carlos Castilho de Andrade a tarefa de fazer a revisão final do texto. Ele me pediu um número “x” de dias.

Dr. Castilho era um revisor muito competente, meticulosíssimo e implacável: não deixava passar nada. Por isso era um bom revisor. Um revisor indolente não me serviria para nada. O revisor verdadeiramente amigo é o que se coloca diante de mim como se fosse um inimigo.

O modo de ser dele era singular. Quando se encontrava diante de uma situação perplexitante, ele apertava e estalava os quatro dedos da mão e dizia: “Bem...”

Feita a revisão, ele sentou-se e me disse:

Bem, Dr. Plinio, eu não sei o que seria melhor: o senhor escrever outro livro, ou fazermos a revisão deste mesmo, porque tenho 400 objeções a levantar.

Diante da idéia de escrever de novo o livro, tive um sobressalto. Mas corrigir quatrocentos defeitos apontados pelo Dr. Castilho equivalia mais ou menos a corrigir seiscentos. Porque eu apontaria quatrocentas soluções, das quais duzentas ele acharia defeituosas.

Então eu disse:

— Não, Castilho, prefiro rever as suas objeções.

E fomos vendo ponto por ponto, sempre para a frente.

Em várias observações eu não concordava com ele, e saía discussão. Mas tomei a deliberação de, sempre que não conseguisse convencê-lo, eu optaria pela opinião dele, para não haver perigo de "torcer" por mim mesmo.

Pode-se imaginar com que plenitude de alegria vi Dr. Castilho chegar à última folha com a mesma calma com que ele havia começado a primeira, e me dizer:

Bem... então agora ... está tudo terminado, tudo revisto [51].

8. Receio de vazar a notícia do livro antes da hora

Terminada afinal a revisão do livro, tínhamos que entregá-lo a uma tipografia. A que tipografia entregar?

A questão era delicada: se o Clero esquerdista soubesse antes da hora do lançamento desse livro, poderia vir uma carta do Núncio obrigando Dom Mayer e Dom Sigaud a retirarem os seus nomes. E tirados os nomes dos Bispos, grande parte do impacto do livro cessaria*.

* Este receio não era vão. O Núncio na época era Dom Armando Lombardi, o qual, segundo o ex-deputado Márcio Moreira Alves, costumava almoçar semanalmente com Dom Helder Câmara, cujo grupo procurava sempre apoiar (cfr. Márcio Moreira Alves, O despertar da Revolução Brasileira, Empresa de Publicidade Seara Nova, Lisboa, 1974, p. 220). E pouco depois ele iria tentar fazer calar Dom Mayer e Dom Sigaud, como será dito adiante.

Batemos então de tipografia em tipografia, até chegar à que editava a Revista dos Tribunais em São Paulo. Contratamos o serviço e entregamos o texto. Tratava-se de fazer a impressão a toda pressa, mas a tipografia estava cheia de encomendas. E a impressão se arrastava.

Afinal, ela ficou pronta. Não sabemos que proteções de Nossa Senhora houve, mas a Cúria não teve notícia prévia do livro.

9. Estoura a “bomba”: best-seller nacional

Isto resolvido, apareceu mais um problema: a quem confiar o lançamento?

Havia uma grande empresa de distribuição de livros, chamada O Palácio do Livro, localizada na Praça da República, em São Paulo.

Os Xavieres foram tratar com o diretor e este manifestou muito boa vontade. E ficou combinado que ele se incumbiria da distribuição nas 50 livrarias com que tinha contrato. Grande número delas em São Paulo, algumas eram no Rio de Janeiro e outras do interior do Estado.

Ele nos sugeriu utilizarmos também, na propaganda, os serviços de uma organização chamada Clube do Livro, que possuía um fichário de milhares de leitores.

E aí começou, a partir de 10 de novembro de 1960, a grande difusão de RA-QC* [52].

* O primeiro anúncio foi publicado em página inteira na edição de setembro de 1960 de Catolicismo. No número do mês seguinte, ou seja, em outubro, saiu um artigo de Dr. Plinio contendo um largo resumo das teses centrais da obra.

E em 10 de novembro O Estado de S. Paulo publicou, pegando todo o rodapé da primeira página, o seguinte anúncio: “Em todas as livrarias do País: Reforma Agrária—Questão de Consciência — Um livro de grande atualidade que aponta os aspectos socialistas e anticristãos da Reforma Agrária” (v. O Estado de S. Paulo, 10/11/60).

Anuncio publicado no pé da primeira página da edição de O Estado de S. Paulo de 10/11/60

Foi uma superbomba! [53] O livro se espalhou pelo Brasil inteiro [54] e a certa altura foi reconhecido como best-seller nacional pela seção bibliográfica do jornal O Globo (30/6/61) [55]. Num relance, o Brasil ficou sabendo do livro.

A primeira edição, com 5.000 exemplares, esgotou-se em três semanas. A seguinte foi de 7.000 exemplares. A terceira foi de 10.000 exemplares e esgotou-se em 2 ou 3 meses.

Capas das primeiras edições do RAQC em português e espanhol

[para aceder aos textos clicar sobre a foto]

No começo do ano seguinte, publicamos a 4ª edição, de 8.000 exemplares* [56].

* Entre as medidas socialistas denunciadas no livro, figuravam a eliminação das grandes e médias propriedades pela partilha compulsória de terras, a desapropriação por preço muito inferior ao real e a instituição do regime de propriedades comunais.

De outro lado, RA-QC analisava alguns aspectos sociais e religiosos do problema: se podia existir socialismo cristão; se era justo haver desigualdades econômicas e sociais; se o fazendeiro era um parasita ou um benemérito do País; se a Reforma Agrária viria abalar a instituição da família; e ainda outros.

Na parte econômica, Dr. Luiz Mendonça de Freitas mostrava que a Reforma Agrária pretendia eliminar não só as grandes, mas também as médias propriedades. E provava com dados estatísticos que a agricultura brasileira vinha cumprindo o seu dever. Além disso, fazia a defesa de nossa estrutura rural e apontava os males do excessivo intervencionismo estatal, do confisco cambial e outras medidas do gênero.

11. Assembléia Legislativa paulista: convite para debate

O impacto causado pelo livro, como previsto, foi enorme.

Tanto é que, seis dias após o lançamento, a Comissão de Economia da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo nos convidou para falar sobre a Revisão Agrária no âmbito da Comissão* [57].

* A sessão realizou-se no dia 16 de novembro de 1960. O tema era a Revisão Agrária proposta pelo governador Carvalho Pinto.

Para isto, Dom Sigaud e Dom Mayer vieram para São Paulo, e nos preparamos para a discussão do assunto perante os membros da Comissão.

Qual não foi a nossa surpresa quando verificamos que, dado o interesse suscitado pelo assunto, a Comissão de Economia iria fazer a sessão no próprio plenário da Assembléia. Havia grande número de deputados, inclusive alguns esquerdistas, e a galeria ficou toda tomada.

Os autores do livro abordaram os vários aspectos do projeto de Revisão Agrária, ressaltando notadamente o caráter igualitário e anticristão de seus dispositivos. Fui o primeiro a falar, e em seguida os dois Bispos, Dom Sigaud e Dom Mayer. Por fim, o economista Mendonça de Freitas falou sobre os aspectos econômicos do projeto.

Enfrentamos depois um acalorado debate. Várias perguntas foram dirigidas a Dom Sigaud, a Dom Mayer e a mim. Dom Sigaud e Dom Mayer responderam muito bem. E Dr. Luiz Mendonça de Freitas expôs com sobranceria extraordinária os assuntos atinentes à sua especialidade [58].

Esse nosso pronunciamento teve em São Paulo uma repercussão enorme. Foi um belo lance da campanha anti-agro-reformista [59].

12. Na TV Tupi, polêmica com Paulo de Tarso

Realizei também um debate público em São Paulo, no programa O Grande Júri, com o deputado Paulo de Tarso, ex-prefeito de Brasília, não propriamente sobre a Reforma Agrária, mas sobre se o socialismo e o catolicismo eram compatíveis* [60].

* Neste momentoso debate, travado no dia 24/10/61 ante as câmaras da TV Tupi de São Paulo, o deputado pedecista Paulo de Tarso (ele fora prefeito de Brasília no governo Jânio Quadros e era um expoente da esquerda católica brasileira) defendia a posição de que o socialismo era compatível com a doutrina da Igreja, e o capitalismo condenado por Ela.

Com base nas encíclicas papais que tratavam do assunto, Dr. Plinio demonstrou o contrário: que o capitalismo, em si, não era condenado pela Igreja, mas tão somente em seus abusos; e o socialismo, este sim, estava condenado até mesmo nas suas formas mitigadas.

Ainda neste debate, Dr. Plinio foi colocando problemas que levaram o deputado pedecista a revelar convicções sócio-econômicas que o público não lhe conhecia. Isto contribuiu na época para desvendar, em seus reais matizes, as tendências ideológicas do chamado esquerdismo católico (cfr. Meio século de epopéia anticomunista, Ed. Vera Cruz, São Paulo, 1980).

Capítulo IV

Patenteia-se a divisão no Episcopado e no laicato

1. Dom Armando Lombardi exige silêncio dos dois Bispos e tenta amarrar as suas mãos

Dias depois, Dom Sigaud e Dom Mayer receberam uma carta do Sr. Núncio Apostólico, Dom Armando Lombardi, em que este pedia aos dois Bispos para explicar as razões das críticas que faziam à Revisão Agrária, ordenando-lhes ao mesmo tempo que “evitassem manifestações públicas sobre a matéria”*.

* Os dois Bispos responderam, em carta conjunta ao Sr. Núncio, que “tendo recebido só no dia 27 de novembro a carta de V. Excia. do dia 15 do corrente”, estavam preparando "com a devida urgência o parecer que V. Excia. pedia". Mas aproveitavam para significar a Dom Armando Lombardi a perplexidade deles diante de fatos que, "segundo supomos, não se enquadram nas perspectivas que as cartas que V. Excia. nos escreveu no dia 15 sugerem. Com efeito, desejando conhecer nossas objeções sobre o projeto de revisão agrária [...], e pedindo-nos que silenciássemos por algum tempo sobre a matéria [...], um conjunto de fatos parece prenunciar uma ofensiva pública de vários Senhores Bispos contra a atitude por nós assumida”.

Depois de se referirem a notícias confirmando esses rumores — o anunciado pronunciamento do Episcopado paulista que seria uma réplica ao livro RA-QC, o discurso de Dom Helder em Brasília, e as declarações do Sr. Cardeal de São Paulo favoráveis à Revisão Agrária — concluíam:

“A um diplomata da alta categoria de V. Excia. não escaparão desapercebidas as conseqüências a que podem conduzir os fatos aqui narrados. Embora não tenhamos recebido convite para essa reunião de Senhores Bispos, que se realizará antes mesmo de terem chegado às mãos de V. Excia. as [nossas] razões [...], não receamos para nossas pessoas qualquer refutação. Estamos certos de estar com a verdade, e, forçados a voltar à liça por um dever de honra, e segundo os princípios da justiça natural, saberemos com a graça de Deus fazer triunfar a boa doutrina. Contudo, desejamos que todas as conseqüências que dessa reunião se seguirem pesem apenas sobre os que a promovem” (cfr. carta de Dom Sigaud e Dom Mayer ao Sr. Núncio Dom Armando Lombardi, de 1°/12/60).

2. Pronunciamento dos Bispos paulistas contra o livro

Silenciados os dois Bispos, menos de um mês após o lançamento de RA-QC, Dom Helder Câmara, enquanto secretário geral da CNBB, começou a organizar um pronunciamento coletivo do Episcopado paulista contra o nosso livro e de apoio à Revisão Agrária* [61].

* Um dos sintomas dessa campanha episcopal foi o aviso que de repente começou a aparecer nos principais jornais de São Paulo, anunciando com insistência e de modo enigmático: “Reforma Agrária—Questão de Consciência: assista dia 5, às 21,30 horas, nos Canais 4, 5 e 7”.

Nesse momento, eu estava no Rio passando alguns dias [62].

*   *   *

Afinal, no dia 5 de dezembro reúnem-se os Bispos das Províncias Eclesiásticas de São Paulo, com a presença de Dom Helder Câmara, e apóiam a Revisão Agrária promovida pelo Governo do Estado.

E em sensacional programa de TV, sete Bispos divulgaram largamente o pensamento da Assembléia sobre o assunto* [63]. Todos eles fizeram declarações, não diretas, mas implicitamente contra o livro.

* Vale a pena registrar o nome desses Bispos: Dom Helder Câmara, enquanto relator e Secretário da CNBB; Dom João Batista da Motta e Albuquerque, Arcebispo de Vitória; Dom Antonio Macedo, Bispo Auxiliar de São Paulo; Dom Aniger Melilo, Bispo de Piracicaba; Dom David Picão, Bispo de São João da Boa Vista; Dom Jorge Marcos de Oliveira, Bispo de Santo André; e Dom Vicente Zioni, Bispo Auxiliar de São Paulo.

D. Helder Câmara e o Episcopado paulista tentam atenuar a força de impacto de “Reforma Agrária – Questão de Consciência” criticando o livro em programa de TV. Seus argumentos impressionam pouco, e a corrente aglutinada em torno da TFP não cessa de engrossar

Dom Helder, durante a entrevista, havia afirmado estar “expressamente autorizado por todos os Arcebispos e Bispos de São Paulo”. Perante a História cumpre assinalar que Dom Henrique Gelain, então Bispo de Lins, não compareceu à reunião do Episcopado paulista, e não consta que se tenha solidarizado com suas conclusões. Dom José Maurício da Rocha, Bispo de Bragança Paulista, e Dom Germano Vega Campón, Bispo titular de Oreo e residente no Estado de São Paulo, além de não comparecerem, solidarizaram-se publicamente com RA-QC.

O pronunciamento do Episcopado paulista deixava no ar uma perplexidade sobre que atitude devia tomar o simples fiel quando os Pastores divergem entre si. Assim, por ordem de Dom Mayer, o Secretário do Bispado de Campos, Padre João Bloes Netto, publicou um Esclarecimento, em que recordava os ensinamentos da Sagrada Teologia sobre o Magistério dos Bispos. Frisava esse Esclarecimento que, embora cada Bispo fale com autoridade própria a ele conferida pelo mesmo Cristo, seu ensinamento não tem o privilégio da infalibilidade, o qual assiste apenas ao Soberano Pontífice. Quando há divergências de doutrina entre Bispos, o fiel deve procurar conhecer o ensinamento pontifício para se conformar com ele (cfr. Um homem, uma obra, uma gesta, Edições Brasil de Amanhã, Artpress, São Paulo, 1988, pp. 69 e ss.).

Nós estávamos no nosso auditório da rua Vieira de Carvalho, com a televisão colocada na mesa de conferências e assistindo a transmissão.

Não se sabe por que, as figuras dos Bispos saíam deformadas no vídeo, uma coisa espantosa. Dom Helder, então, parecia uma obra prima de arte moderna!

Quer pelo desfiguramento das pessoas, quer porque já tínhamos difundido muito o livro, o fato concreto é que a cena não produziu nenhum efeito sobre o público e desagradou profundamente a classe dos proprietários rurais [64].

*   *   *

Um comentário muito de passagem sobre o Núncio Dom Armando Lombardi.

D. Armando Lombardi em foto de 1961

Ele e Dom Helder Câmara tinham almoços dominicais na Nunciatura Apostólica, que ainda funcionava no Rio de Janeiro. E nesses almoços eram “cozinhadas” as nomeações de Bispos inovadores* [65].

* Dom Mayer e Dom Sigaud decidiram submeter “ao alto julgamento da Suprema Sagrada Congregação do Santo Ofício, a declaração de 5 de Dezembro do Venerando Episcopado Paulista”, em ofício dirigido ao seu secretário Cardeal Alfredo Ottaviani (cfr. Ofício de Dom Mayer e Dom Sigaud ao Cardeal Ottavini, de 20/12/60).

Poucos meses depois, escreviam nova carta ao mesmo Cardeal Ottaviani, em que faziam notar “a gravidade da situação criada pela atuação perniciosa de S. Excia. Revma. Dom Helder Câmara como Secretário da C.N.B.B. Aos poucos S. Excia., fortemente apoiado pela Nunciatura Apostólica, vai levando o Episcopado das várias províncias a posições francamente socialistas. [...] A desorientação do Secretário e dos Arcebispos que dirigem a C.N.B.B. é tão grande, seus conceitos e suas teses a respeito do direito de propriedade são tão eivados de socialismo que, em uma mensagem de solidariedade que a Comissão Central da Conferência dos Bispos do Brasil enviou aos Bispos da atormentada Ilha de Cuba se lêem surpreendentes afirmações. [...] Escrevendo a Cuba, onde os católicos devem ser sustentados com firmeza em sua luta contra o comunismo e em favor do instituto da propriedade, os membros da Comissão [Central] da C.N.B.B. põem tais restrições ao direito de propriedade que no fim, quem tem razão é Fidel Castro. [...] O Episcopado Nacional está sendo tangido para um conceito socialista da propriedade pelos membros da Comissão Central, com o Sr. Dom Helder Câmara à frente. Infelizmente esta penetração de idéias vai progredindo rapidamente e vai se traduzindo em atitudes igualitárias, em fomento escandaloso de greves, em apoio a legisladores de tendências esquerdistas [...]. Sabemos que em vários Senhores Bispos estas atitudes provêm da confiança que depositam nos elementos que dirigem a C.N.B.B., que vêem bafejada pelo apoio da Nunciatura. Mas com isso se vai quebrando a resistência dos católicos, suas idéias vão se corrompendo, os Bispos que se opõem a essas idéias são apresentados como cismáticos, separatistas, sua atitude vai sendo destruída, e os espíritos vão sendo levados a abraçar idéias e soluções socialistas, sob o pretexto de que tais princípios e soluções correspondem à doutrina da Santa Igreja. Sabemos que a maioria dos Srs. Bispos tem uma grande docilidade diante dos ensinamentos da Santa Sé. Esta docilidade é de grande vantagem, pois permite à Santa Sé guiá-los com facilidade. Mas como esta docilidade não vem acompanhada de bastante ciência, discernimento, prudência e energia, facilmente acontece que a presença da Sagrada Púrpura e o nome da colenda Nunciatura façam com que a boa fé de um Bispo não dê o fruto que deveria dar” (Carta de Dom Mayer e Dom Sigaud ao Cardeal Ottavini, de 4/2/61).

3. Dom Sigaud elevado a Arcebispo de Diamantina

Estávamos no meio de toda essa polêmica quando ocorreu um episódio que iria marcar a nossa história.

Eu tinha ido passar alguns dias no Rio. Ainda no hotel, logo que acordei, lembro-me de ter feito mentalmente um balanço de nossa situação.

Desci em seguida para o hall, onde já me esperavam Dr. Paulo Barros de Ulhôa Cintra e Dr. Fábio Xavier da Silveira, que haviam me acompanhado nessa viagem.

Nisto me telefona de São Paulo o Dr. José Fernando de Camargo.

Eu disse ao Fábio:

— Você me faz um favor? Atenda o telefone e veja o que quer o José Fernando.

Volta o Fábio do telefonema dando risada. Ele era muito engraçado, muito humorista:

— O senhor não imagina o que aconteceu.

— Diga o que é.

— O Dr. José Fernando deu a notícia de que o Papa elevou Dom Sigaud a Arcebispo de Diamantina.

A nomeação de Dom Sigaud para Arcebispo de Diamantina figurou como uma aprovação indireta da Santa Sé ao livro RA-QC, e alterou em alguma medida o panorama que ia se delineando turvo*.

* Essa nomeação havia se dado a 20 de dezembro de 1960, mas a notícia só foi dada a público no dia 31 do mesmo mês. Ele tomou posse de sua Arquidiocese no dia 16 de abril de 1961. O n° 126 de Catolicismo, de junho de 1961, fez uma cobertura do evento.

Eu me lembro de que fizemos festa a respeito da passagem de Dom Sigaud para Diamantina, mandamos notícias para os jornais e realçamos que era um dos autores de RA-QC.

Os proprietários rurais, com o livro na mão, entenderam o seguinte: “Esses Bispos de São Paulo pensam tal coisa. Mas esse outro, que acaba de ser promovido pelo Papa a Arcebispo de Diamantina, pensa de outra maneira. Logo, pomos em dúvida o que dizem os Bispos paulistas, e não vamos ligar para eles”.

E assim a classe rural se firmou em sua posição contra a Reforma Agrária.

4. Difusão pública em feiras e exposições rurais

Para aumentar a venda do livro, lançamos pela primeira vez as campanhas de difusão em feiras, exposições rurais e outros eventos públicos. E isto marcou uma mudança de fase na história da TFP, recentemente fundada.

Coleta de assinaturas para o manifesto de apoio às teses de Reforma Agrária – Questão de Consciência, em abril de 1964

Nosso pessoal ainda não usava as características insígnias de campanha, ou seja, a capa vermelha e o estandarte. Tínhamos só o antigo distintivo de congregado mariano.

Os rapazes começaram também a viajar pelo Brasil inteiro, numa espécie de prenúncio das caravanas itinerantes [66].

*   *   *

Quando a campanha começou, a pré-TFP era muito pequena.

Com essas sucessivas atitudes públicas, ela foi ganhando prestígio. E a grande alta da TFP veio depois com as campanhas de rua. Aí é que ela tocou o zênite [67].

Pode-se dizer que essa pré-TFP mudou de estatuto, porque ela passou a ser um grupo já então conhecido no País inteiro, com projeção nacional.

5. Classe rural aliviada: quebra-se o mito da unanimidade em torno da esquerda católica

Premido pelas circunstâncias, na época um líder rural veio visitar-nos para agradecer o livro em nome da associação dele, e disse nessa ocasião que os fazendeiros, antes do livro, tinham a sensação de estar num incêndio sem socorro. Quando apareceu o nosso livro, eles tiveram a impressão de quem vê chegar o corpo de bombeiros jogando água e apagando o incêndio. Esta era a situação em que eles estavam [68].

Outro efeito. Dom Helder Câmara, que teve o maior apoio publicitário jamais obtido na história do Brasil por nenhum brasileiro (nem mesmo o falecido Presidente Getulio Vargas conseguira tal apoio publicitário), ameaçava o Brasil com o seu movimento de "pressão moral libertadora" de sentido fortemente agro-reformista [69].

Pois bem, com a nossa campanha, o público em geral começou a ver que aquele Prelado não era o porta-voz indiscutível da Igreja, nem levava atrás de si a massa dos católicos [70].

6. Críticas esperadas, críticas não esperadas

Estávamos certos, de antemão, de que o livro sofreria muitas críticas, e como pressupúnhamos que, dentre elas, algumas pelo menos seriam substanciosas, destras, corteses, prelibávamos os prazeres intelectuais rijos, inerentes às lutas ideológicas travadas segundo as nobres normas do cavalheirismo e da lógica.

A reação prevista veio de fato, mas quão diferente do que esperávamos! Nenhum grande artigo apareceu contra nosso livro, opondo tese a tese e argumento a argumento, com a lealdade e o vigor do torneio intelectual de boa lei.

Pelo contrário, pulularam as pequenas notas de imprensa, carregadas de invectivas pessoais ou afirmações gratuitas, que por sua inteira inconsistência não mereciam, e em rigor nem sequer comportavam, qualquer réplica*.

* Uma dessas declarações contrafeitas foi a do então Secretário da Agricultura de São Paulo, o Sr. José Bonifácio Coutinho Nogueira, o qual considerava a difusão do livro neste Estado “inoportuna, desde que poderá causar trauma ideológico no espírito dos católicos”. Dizia ele que “somente Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta está autorizado a falar em nome da Igreja em São Paulo e a ele cabe a última palavra sobre o assunto [sic!]. Sabemos que a opinião de Sua Eminência é favorável ao projeto de Revisão Agrária, conforme manifestação anteriormente feita, bem assim como de outro príncipe da Igreja, Dom Helder Câmara, do Rio de Janeiro. Os autores do referido livro [...] pertencem a uma parcela de reacionários apegados a sistemas superados” (Última Hora, São Paulo, 25/11/60).

Na época, essa declaração causou estranheza. Pois, para defender a Reforma Agrária, o Secretário da Agricultura paulista não alegou razões técnicas de sua competência, mas se erigiu em zeloso campeão do que lhe pareceu ser a boa ordem na Igreja!

Em uma tentativa de criar condições para um debate de alto nível, escrevi um artigo (Julio Verne, Homero e o agro-revisionismo, Diário de São Paulo, 11/1/61) convidando os opositores de Reforma Agrária-Questão de Consciência a modificarem o tom de suas investidas, despindo-as de seu cunho pessoal e dando-lhes mais conteúdo intelectual.

Nada consegui, pois embora a obra continuasse a figurar entre as mais procuradas nas livrarias, as críticas, que já vinham sendo menos frequentes, tanto quanto pude apurar, cessaram inteiramente.

*   *   *

Entretanto, não dava eu por frustrada a esperança de um verdadeiro e sério debate sobre a matéria. É que, antes mesmo de ser publicado meu apelo no Diário de São Paulo, ouvira dizer que o Sr. Gustavo Corção estava preparando uma série de artigos "de arrasar", contra Reforma Agrária- Questão de Consciência.

Jornalista de relevo, polemista lúcido e eficiente, dotado de sólida inteligência e boa cultura, elevaria ele, sem duvida, o debate ao nível esperado. Aguardava eu, pois, com vivo interesse, a temível investida.

Os artigos saíram, por fim, em numero de três.

Não os li desde logo, pois as semanas em que eles vieram a lume coincidiram com o período da enfermidade e morte de meu velho e querido pai*.

* Coincidiram também com a realização do I Congresso Latino-americano de Catolicismo (25-1 a 1º-2-1961). Os artigos de Gustavo Corção tinham como título Reforma Agrária: Questão de Consciência; Reforma agrária e direito de propriedade; e Harmoniosa desigualdade, publicados em O Estado de S. Paulo de 22/1/61, 29/1/61 e 5/2/61 respectivamente.

Assim que pude, entretanto, tratei de me inteirar deles. E confesso que tive uma decepção a mais, acompanhada de um vivo sentimento de perplexidade.

A decepção veio da nota panfletária do ataque. Esperei que ela não estivesse presente nos artigos, ou que pelo menos estes espelhassem algo do talento do autor, isto é, que fossem concisos, brilhantes, inteligentes. Pelo contrário, vieram opacos, prolixos e pesadamente injuriosos, sem conseguir vulnerar de fato a parte adversa.

Mas o pior da desilusão me veio da circunstância de que, logo no primeiro relance, os três artigos do Sr. Gustavo Corção me deixaram ver que o fogoso crítico não lera seriamente Reforma Agrária-Questão de Consciência.

Ora, doía-me a perspectiva de ter de afirmar isto de público, a propósito de um intelectual com quem muitas vezes não tenho estado de acordo, mas que merece, não a fúria destemperada com a qual tratou nossa obra e de algum modo nossas pessoas, mas uma real consideração*.

* Dr. Plinio respondeu a esses ataques em uma série de três artigos publicados em O Jornal, Rio de Janeiro, 17, 18 e 19/3/61 e Diário de S. Paulo, 18, 21 e 23/3/61. Catolicismo transcreveu o primeiro dos três artigos sob o título: Reforma Agrária-Questão de Consciência: livro odioso como a invasão da Hungria? (Catolicismo nº 124, abril de 1961); e depois os outros dois artigos, sob o título Reforma Agrária-Questão de Consciência - livro que o Sr. Gustavo Corção não leu (Catolicismo nº 125, maio de 1961). Nesses artigos ficava provado que o ilustre jornalista havia formulado suas críticas sem antes estudar o livro com a devida atenção. O jornal O Estado de S. Paulo, que havia publicado os artigos de Corção, não publicou as respostas.

7. Repercussão na França: polêmica com o Cardeal Motta

Outro episódio interessante dessa polêmica. Nós não tínhamos adversário mais impetuoso contra a causa que sustentávamos do que o Cardeal Motta [71]. Ele tomou desde logo uma posição francamente favorável à Revisão Agrária. Mais tarde ele se poria decididamente ao lado de Jango Goulart [72].

Enquanto Cardeal de São Paulo, deu uma entrevista para uma revista francesa, dizendo que o Episcopado Nacional era favorável à Reforma Agrária, com exceção da voz dissonante de dois Bispos*.

* A entrevista foi concedida à revista católico-esquerdista francesa Informations Catholiques Internacionales de 15/12/61.

O Purpurado afirmava que “os Cardeais, Arcebispos e Bispos do Brasil” estavam concordes “sobre a oportunidade e a urgência de uma reforma agrária digna desse nome”, não obstante “a opinião dissonante de dois Bispos, co-autores de um livro largamente difundido e, mais bem, favorável ao ‘statu quo’".

Dom Sigaud e Dom Mayer escreveram então uma carta a Dom Motta impugnando suas declarações à imprensa francesa. Mas a cortesia do Sr. Cardeal não se aplicava nas relações para conosco, de forma que não deu a menor resposta. Para ele, a política era a do fato consumado: ou se aceitava sem discutir o que ele queria, ou ficava-se acusado de cindir o Episcopado...

Dom Sigaud e Dom Mayer mandaram ainda, se não me engano, mais duas cartas no mesmo teor. Na última delas, anunciavam que se veriam obrigados a sair a público. E o Cardeal novamente nada respondeu.

Eles então publicaram nos jornais uma declaração, mostrando que o Cardeal havia desfigurado a realidade e que boa parte do Episcopado não havia se manifestado a favor da Reforma Agrária*.

* Nesse comunicado de Dom Sigaud e Dom Mayer, publicado como seção livre na grande imprensa do Rio e de São Paulo, os dois Prelados faziam notar que, dos 187 Bispos brasileiros, apenas 49 haviam feito declarações que, ora mais claramente, ora menos, divergiam de RA-QC. E que os outros 138, entre eles dois Cardeais (o do Rio e o de Salvador) não se haviam pronunciado sobre a matéria. Ademais, o livro de que eram co-autores propugnava uma reforma agrária sadia, de onde não se poder afirmar que seus autores fossem pura e simplesmente “favoráveis ao ‘statu quo’“ (cfr. Catolismo n° 136, abril de 1962).

*   *   *

Pouco depois desse comunicado, fui a uma festa de aniversário onde encontrei uma pessoa que tinha certas relações de família comigo e também com o Cardeal. E a interpelei:

— Como está a questão do Cardeal?

Ela disse:

— Naquela questão do Cardeal vocês ganharam. E o Cardeal não vai lhes dar resposta nenhuma. Mas vai sair uma reparação do governo a ele, uma coisa extraordinária.

De fato, o governo estadual promoveu atos de reparação a ele nas escadarias da Catedral, com rojões e fogos de artifício, mas sem dizer a propósito do quê era a reparação. E aquilo morreu. O público paulista não deu a menor atenção.

Esses embates, naqueles tempos anteriores ao Concílio Vaticano II, eram uma coisa nunca vista. Mas, grosso modo, graças a Deus, nesse episódio a Reforma Agrária perdeu mais uma batalha [73].

Capítulo V

Reflexos políticos de uma campanha ideológica

1. Viagem a Brasília: 27 mil agricultores contra a Reforma Agrária

Nós resolvemos, a essa altura, lançar um abaixo-assinado de fazendeiros, dirigido ao Congresso Nacional, local onde estava sendo votada uma lei de Reforma Agrária, pedindo para que essa lei não fosse aprovada: aderiram 27 mil fazendeiros do Brasil inteiro.

Encerrado esse abaixo-assinado, Dom Sigaud, Dom Mayer, Dr. Luiz Mendonça e eu, acompanhados de Dr. Plinio Xavier, fomos a Brasília para entregá-lo ao Congresso Nacional. Isto no mês de julho de 1963.

Fomos muito felizes, porque já no avião encontrei o então presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli [74]. Apresentei Dom Mayer e Dom Sigaud a ele e fui falando a respeito da questão.

Eu tinha conhecido Ranieri Mazzilli em Paris, na Chapelaria Gelot da Place Vendôme. Fui encomendar um chapéu e ele estava lá também. Ele se aproximou e me disse: “O senhor não é brasileiro?” — “Sou sim, e o senhor também?” — “Também”. Trocamos os nomes e vimos que éramos do mesmo Estado; ele é paulista da cidade de Caconde. Daí as nossas relações.

Chegando a Brasília, no dia seguinte fomos em comissão à Câmara dos Deputados e ao Senado.

Tínhamos revisto o abaixo-assinado com todo o cuidado, verificando se as assinaturas estavam em ordem. E tínhamos noticiado pelos jornais que íamos entregá-lo.

Chegamos à sala de Ranieri Mazzilli, ele nos recebeu logo. Ele é um homem de um trato muito agradável, muito gentil.

Fiz um discursinho e entreguei o abaixo-assinado, na presença de representantes da imprensa.

Conversamos um pouco e eu disse:

— Bem, Dr. Mazzilli, o senhor vai me dar licença, Dom Mayer, Dom Sigaud, Dr. Mendonça e eu vamos agora visitar o presidente do Senado e mostrar a ele o abaixo-assinado. Depois trago-o de volta para o senhor.

Ele, com toda amabilidade, me disse:

— Não, Dr. Plinio, o abaixo-assinado está entregue. Ele agora vai para os técnicos da Câmara examinarem.

Ou seja, os técnicos da Câmara iriam examinar se as assinaturas eram autênticas, que fazendeiros haviam assinado e que influência política tinham esses fazendeiros.

Graças a Deus estávamos com a consciência tranqüila [75].

Descemos em seguida e passamos pelo café onde havia vários deputados. E vejo Dom Sigaud parar e falar com um homem que eu não conhecia pessoalmente, mas que reconheci por ter visto as fotografias no jornal: Milton Campos [76].

Dali fomos ao gabinete do presidente do Senado, senador Nogueira da Gama. Ele também foi muito amável. Convocou certo número de senadores para nos receber. E depois convidou-nos para assistirmos da tribuna de honra a uma sessão do Senado, onde demoramos muito pouco.

Ao sairmos, ele nos acompanhou até o limite externo do Senado.

Foi uma viagem coroada de todo êxito [77].

2. Era janguista: à beira do comunismo pelo impulso da esquerda católica. Interpelação à Ação Católica de Belo Horizonte

Ao aproximar-se a conturbada era janguista, em que o País esteve a ponto de soçobrar na subversão [78], o esquerdismo católico que apoiou Goulart quase deitou o Brasil por terra [79].

A dramática controvérsia referente às reformas de base chegava ao auge justamente nas vésperas da queda de João Goulart.

Nessa ocasião, católicos belo-horizontinos, sob a inspiração da TFP, promoveram um grande e vitorioso movimento contra a realização na capital do Estado, de um congresso da CUTAL, organismo de orientação claramente comunista.

Logo depois, com o apoio da TFP, 210 mil brasileiros subscreveram uma interpelação à Ação Católica de Belo Horizonte.

Esta se pronunciara de modo violento contra os católicos mineiros que corajosamente haviam impedido a realização de um comício de Brizola favorável às Reformas de Base, e negara, ao mesmo tempo, que tais reformas envolvessem uma questão de consciência* [80].

* Esse documento da Ação Católica afirmava que os católicos, enquanto católicos, nenhuma oposição tinham a fazer às Reformas de Base. E nele ficava claro que, ao negar a questão de consciência, tinha como alvo o livro RA-QC.

Ainda mais: trazia o alto placet de Dom João Rezende Costa, Arcebispo Coadjutor (depois titular) de Belo Horizonte, que apôs a ele as seguintes palavras: “De boa vontade autorizo esta publicação” (cfr. O Diário de Belo Horizonte, edição de 29/2/64).

Em face desse pronunciamento, a nossa interpelação pedia à Ação Católica que definisse claramente sua posição ideológica, e que fundamentasse a estranha afirmação de que não havia questão de consciência em matéria de reformas de base (v. texto na íntegra em Catolicismo n° 160, abril de 1964).

3. Revolução de 64: Goulart passa recibo

Todos temos na memória com quanta vitalidade, com que ardor se dividiram as correntes de pensamento, os partidos políticos, as organizações de classe, no debater os prós e os contras da Reforma Agrária proposta pelo então Presidente João Goulart.

Chegou-se mesmo a afirmar na imprensa que os marcos divisórios entre os partidos políticos haviam desaparecido, só restando dois campos, o dos adeptos e o dos opositores da Reforma Agrária [81].

Um irresistível movimento de inconformidade com a orientação fortemente esquerdista do Governo João Goulart desfechara na Revolução de 64*.

* João Goulart chegou mesmo a encaminhar ao Congresso Nacional um pedido para governar em estado de sítio, mas encontrou a oposição da maioria dos parlamentares, sendo então retirado.

Entre os gravames então formulados pela imensa maioria dos brasileiros contra o presidente deposto, tinha acentuado realce a inconformidade de todo o País com as intenções agro-reformistas que aquele governo acalentava [82].

*   *   *

O que aconteceu depois faz parte da história recente e é do conhecimento de todos [83]: um movimento militar, apoiado em larga medida pela população civil, esta por sua vez inspirada na sua orientação anti-agro-reformista pelo livro RA-QC, acabou depondo o governo Jango Goulart.

Não que a TFP tivesse trabalhado para depor o governo [84]. Ela não participou do golpe de 64 [85], não participou de nenhum conciliábulo, de nenhuma reunião preparatória. Não integrou nenhuma das comissões que promoveram as célebres "Marchas"* [86].

* Essas marchas ficaram conhecidas como “Marcha da Família com Deus pela Liberdade".

Discurso no Automóvel Clube, em 30 de março de 1964, de João Goulart

O que a TFP fez foi criar um estado de espírito anti-agro-reformista, sem outras intenções. Esse estado de espírito levou a que muitos brasileiros se coligassem para a derrubada de Jango Goulart, que eles julgavam irremediavelmente comprometido com a esquerda e com as Reformas de Base, sobretudo com a Reforma Agrária* [87].

* O próprio João Goulart disto assinou recibo. No último discurso que antecedeu de um dia a sua queda, referiu-se indiretamente à ação ideológico-religiosa da TFP, ao dizer, com voz incendiada:

“O veto desta minoria reacionária ao meu governo [...] fortaleceu-se quando afirmei que as Reformas de Base são um imperativo da hora em que vivemos. [...] Passaram a acusar de anticatólicos não apenas o Presidente da República, mas o próprio Cardeal de São Paulo. Na hora em que ainda ressoam as Encíclicas Sociais de João XXIII, é demasiada audácia a desses aventureiros se atreverem a falar em nome da Igreja. Não me cabe, porém, combater essa usurpação, pois a Ação Católica de Minas e de São Paulo já tomou essa iniciativa” (O Globo, 31/3/64).

4. Cardeal Motta removido pela Santa Sé

Antes do Concílio Vaticano II, a Santa Sé tinha muito senso diplomático.

Menos de um mês depois do golpe de 31 de março de 1964, mais precisamente no dia 16 de abril, o Cardeal Motta foi transferido de São Paulo e enviado como Arcebispo para a Diocese de Aparecida [88]. Em boa parte, ele fora afastado por causa das medidas por ele tomadas.

Anteriormente, tinha havido todo o episódio do Em Defesa e a carta por mim escrita ao Episcopado pedindo o julgamento do livro, o que o deixavam muito mal.

Mais proximamente, o que provavelmente liquidou sua carreira foi a questão da Reforma Agrária. Naquela época, os proprietários rurais se tornaram muito mais reativos contra a Reforma Agrária do que hoje. E vendo, com surpresa, que uma parte ponderável do Clero tinha passado para a esquerda influenciada pelo Cardeal, isto produziu uma impopularidade em torno dele verdadeiramente enorme, o que pode ter movido o Vaticano a afastá-lo [89].

5. Declaração do Morro Alto

No meio dessas batalhas todas, começou a circular um zum-zum de que a TFP era muito negativista, pois só fazia campanhas contrárias à Reforma Agrária, mas não apresentava um projeto favorável à agricultura.

Não era verdade, porque RA-QC tratava disso. Mas, para acabar com este zum-zum, Dr. Fábio Xavier da Silveira aglutinou um grupo de fazendeiros da região de Amparo e formamos com eles uma comissão que elaborou a chamada Declaração do Morro Alto, a qual foi transformada em um fascículo contendo a nossa política positiva em matéria de agricultura. Esse livro foi também largamente espalhado pelo Brasil* [90].

* Lançado em outubro de 1964, teve duas edições em português, num total de 22.500 exemplares, além de sua transcrição integral em Catolicismo n° 167, de novembro de 1964. Foi igualmente traduzido para o castelhano e incluído na edição espanhola de Reforma Agrária—Questão de Consciência.

Capítulo VI

“Janguismo sem Jango” no pós-64. A Reforma Agrária no Estatuto da Terra

1. O “janguismo sem Jango”

Nesse ínterim, a Nação brasileira tomou conhecimento de que a Câmara dos Deputados acabara de aprovar, num enigmático congraçamento de bancadas janguistas e antijanguistas, o projeto de lei de Reforma Agrária de autoria do pedecista Aniz Badra, emendado pelo integralista Ivã Luz.

A grande maioria dos brasileiros — e mesmo dos agricultores — não conhecia senão muito vagamente o conteúdo do projeto Aniz Badra.

Entre os próprios Srs. Deputados, provavelmente muitos não conheciam o substituto Ivã Luz que festivamente aprovaram.

Convinha esclarecer urgentemente a opinião brasileira sobre essa nova lei que, numa hora de magnífica e sadia reação nacional contra o comunismo, consolava de seus dissabores o Sr. Luiz Carlos Prestes, pois ela dava um grande passo no sentido de reduzir a lavoura brasileira a escrava do Estado, tal qual acontece na URSS, em Cuba etc.

*   *   *

O projeto Aniz Badra continha dispositivos autorizando uma desapropriação confiscatória dos imóveis rurais.

O substitutivo Ivã Luz não continha essas disposições confiscatórias. Entretanto, continha em todos os seus elementos essenciais a parte talvez mais despótica e reprovável do projeto Aniz Badra.

No artigo 16, fulminava com verdadeira pena de confisco sem indenização todo o "imóvel rural susceptível de aproveitamento econômico, mantido totalmente inexplorado e sem benfeitorias por mais de dez anos". Desta duríssima penalidade não eram sequer excetuados os bens de órfãos, viúvas ou inválidos.

Ele instaurava no Brasil uma ditadura agrária cem vezes mais férrea do que todos os regimes autoritários por que tem passado o País. Ele conferia ao Presidente da República um poder discricionário sobre todos os fazendeiros, reduzidos a párias. Ele aumentava de tal maneira o poder da União que destruía na prática o regime federativo.

E, supremo paradoxo, era para pôr nas mãos do Chefe de Estado tal soma de poderes, que, aprovando tal projeto, confluíram os partidos políticos que acabavam de derrubar o Sr. João Goulart. Eles criaram uma ditadura econômico-social de sentido totalitário e janguista. Jango teria caído, e o janguismo teria triunfado.

Numa atitude respeitosa e cordial apelamos para os detentores do Poder Legislativo, na Câmara e no Senado, para que depois de madura reflexão, e no exercício de suas altas atribuições constitucionais, detivessem o passo à Reforma Agrária socialista e confiscatória que parecia na iminência de ser aprovada também no Senado* [91].

* Esse apelo foi publicado na íntegra no Diário de S. Paulo de 8 de abril de 1964 e no Estado de Minas de 11 de abril de 1964. Numerosos outros jornais publicaram resumos. O comunicado denunciava a aprovação do projeto pela Câmara dos Deputados e tinha como título “Reforma agrária Aniz Badra-Ivã Luz significa janguismo sem Jango”.

O estudo foi entregue em mãos, com uma mensagem, a cada senador e a cada deputado, e largamente difundido pela imprensa e contribuiu para sensibilizar de algum modo os congressistas. A propositura, já aprovada na Câmara na sessão do dia 7 de abril, foi sustada no Senado.

2. O Estatuto da Terra

Meses depois de empossado, o novo chefe de Estado apresentou ao Congresso o projeto de lei do Estatuto da Terra, o qual abria as portas do País para uma drástica Reforma Agrária.

A popularidade do Marechal Castelo Branco e o otimismo desavisado dos vencedores fizeram com que ninguém tomasse a sério a possibilidade da aplicação de tal Estatuto.

Para explicar sua promulgação, se lhe atribuíam as mais variadas causas, menos a explicação normal e lógica de que o Governo tinha pura e simplesmente propósitos agro-reformistas [92].

Tratava-se de um arrefecimento geral, que atingiu todos os setores da opinião pública sem discriminação e se manifestou de modo flagrante, não só no marasmo dos adversários do agro-reformismo, como na tibieza dos aplausos convencionais de quase todos os que, sendo agro-reformistas, tinham diante de si a tarefa sempre grata e atraente de bater palmas a uma medida desejada com todo o afinco pelo alto.

Acessos como este, de súbita apatia, não são muito raros na História. Eles exprimem um estado de euforia confiante, e ao mesmo tempo de extenuação e de enfastiamento de uma opinião pública que acaba apenas de sair de um período de grandes convulsões.

A Nação se encontrara, de um momento para outro, às portas do comunismo. Reagindo contra o perigo, mobilizou ela suas forças vivas para uma luta que ameaçava ser titânica.

O desfecho inesperado da crise, poupando ao País a carnificina iminente, varrendo o regime comuno-corruptor, e alçando ao poder a figura por todos acatada do ilustre Marechal Castelo Branco, teve como conseqüência uma distensão brusca e profunda.

Esta atitude, de gregos e troianos, foi um erro.

Ela teve por efeito que as notícias sucintas divulgadas de quando em quando pela imprensa sobre uma Reforma Agrária de iniciativa governamental, a quase ninguém alarmaram.

Essa causa psicológica, genérica e profunda, fez com que larguissimos setores da opinião pública assistissem "dopados" pela despreocupação eufórica do período de pós-revolução a aprovação do Estatuto da Terra.

O debate no Legislativo seria a ocasião normal para que o público se esclarecesse sobre o conteúdo do projeto.

Mas a urgência imposta pelo governo para a tramitação dele estrangulou os debates, e constituiu obstáculo a que fosse esclarecida a opinião nacional*.

* Antes de se consumar essa aprovação, os autores de RA-QC enviaram a todos os deputados e senadores o documento O direito de propriedade e a livre iniciativa no projeto de emenda constitucional nº 5/64 e no projeto de Estatuto da Terra, no qual analisavam os fortes traços confiscatórios e socialistas da emenda constitucional proposta e do projeto de lei em questão. O documento vinha datado de 4 de novembro de 1964.

Em 22 dias de debates e votação, a propositura teve de ser aprovada.

Com o apoio das bancadas janguistas, os representantes das correntes que depuseram Jango fizeram através da aprovação do Estatuto da Terra a "reforma" que Jango queria.

Consumou-se assim às carreiras um dos mais importantes fatos da vida nacional desde a Independência [93].

*   *   *

Após a açodada aprovação, pelo Congresso, do Estatuto da Terra e sua promulgação pelo governo federal, a TFP quis consignar ante a História seu respeitoso mas formal desacordo [94].

Sem recear as punições do regime ditatorial, publicamos em seção livre de página inteira de O Estado de S. Paulo um manifesto de minha autoria, que mostrava ser uma espécie de novo janguismo sem Jango essa lei do Estatuto da Terra* [95].

* O documento intitulado Manifesto ao povo brasileiro sobre a Reforma Agrária foi publicado, a partir do dia 25 de dezembro de 1964, em 22 jornais de todo o País (cfr. Catolicismo n° 431-432, novembro/dezembro de 1986, pp. 11 a 20).

"Manifesto ao povo brasileiro sobre a Reforma Agrária" publicado, entre outros, em O Estado de S. Paulo, edição de 30/12/1964

Fizemos um manifesto categórico, dizendo tudo o que tinha de ser dito. Não houve a menor réplica, o menor revide: nada! [96]

E foi a voz da TFP a única que teve a coragem de conclamar o País a uma posição de previdência e alerta contra esse janguismo sem Jango que acabava de penetrar assim na vida do campo [97].

Quando, posteriormente, o regime militar começou a fazer expropriações usando a lei assinada por Castelo Branco, fê-las de maneira tão discreta e tão na surdina, que a maior parte da população não se deu conta [98].

*   *   *

Em toda essa refrega agro-reformista, um fato era positivo: a TFP germinara, e de dentro das trincheiras do anonimato, dera tiros muito bem acertados. No final das contas, a Reforma Agrária estava impedida e a TFP conhecida no Brasil inteiro [99].

Capítulo VII

Morte de Pio XII e eleição de João XXIII: a perspectiva do Concílio

1. Eleição de João XXIII: como recebi a notícia

Primeira benção "Urbi et Orbi" de João XXIII

Lembro-me perfeitamente do dia em que recebi a notícia da eleição de João XXIII. Estávamos na sede da rua Vieira de Carvalho acompanhando pelo rádio as notícias sobre a morte de Pio XII e a eleição de seu sucessor* [100].

* Pio XII morreu no dia 9 de outubro de 1958. No dia 28 de outubro foi eleito o Cardeal Angelo Roncalli, que tomou o nome de João XXIII.

Eu tinha uma tênue esperança de que elegessem outro Pio XII, que mantivesse os assuntos da Igreja mais ou menos de pé [101].

Em certo momento ouvimos a música da Guarda Suíça do Vaticano, precedendo o anúncio urbi et orbi da eleição do novo Papa. Veio ao microfone um Cardeal e disse: “Eu vos anuncio uma grande alegria: habemus Papam, na pessoa do Cardeal Angelo Roncalli, que tomou o nome de João XXIII”.

Em seguida a Guarda Suíça tocou nova música. Eu então pressenti a derrocada de todas as tradições que viria [102]. Eu sabia perfeitamente quem era o Cardeal Roncalli [103]. Vi tudo de uma vez, e bebi toda a amargura naquele momento.

O que se seguiu foi uma tristeza muito grande. A questão era aceitar essa tristeza, mas ela potencialmente já tinha sido aceita [104].

2. A convocação do Concílio é anunciada pelo novo Papa

Três meses depois de sua eleição, João XXIII anuncia, em 25 de janeiro de 1959, sua intenção de convocar um Concílio a reunir-se em São Pedro de Roma. Seria o mais numeroso da História.

Pode-se imaginar o meu desgosto quando soube, mais tarde, que João XXIII convidara para ele observadores de todos os cultos, entre os quais os da I.O. (igreja “ortodoxa” russa) pró-comunista [105].

*   *   *

Discurso de abertura do Concílio por João XXIII

O anúncio da convocação do Concílio chegou-me durante uma das sessões da 7ª Semana de Estudos de Catolicismo, que se realizava em uma casa apalaciada, hoje demolida [106], chamada a Imperial Camargo, localizada na esquina da Avenida Angélica com a Alameda Barros, em São Paulo [107].

Dom Sigaud e eu estávamos presidindo a uma reunião [108], quando alguém, por detrás da mesa, deu-me um jornal, indicando-me a notícia do decreto de convocação.

Eu li essa notícia e depois, por debaixo da mesa, passei o jornal a Dom Sigaud.

Ele leu-o também, leu-o até detidamente.

Ele depois me contou o pensamento que teve naquele momento: “Está tudo resolvido: o Santo Padre agora vai pôr em ordem todas as cabecinhas dos Bispos e o caso da Igreja estará resolvido”. O Papa era João XXIII.

Eu pensei o contrário: “São os Estados Gerais da Igreja, o começo da Revolução na Igreja” [109].

Eu quis dizer isto a ele, mas notei que não encontraria a menor ressonância [110]. Eu via a Revolução Francesa, ele via o Reino de Maria [111].

*   *   *

Não muito tempo depois, percebi que Dom Mayer e Dom Sigaud não estavam se preparando nem estudando para os debates do Concílio. E, em separado, manifestei minha preocupação aos dois.

A Dom Sigaud eu disse: “Esta é uma oportunidade incomparável para exercermos nosso apostolado. Agora, se Vossa Excia. não estudar a fundo..."

A Dom Mayer, lembro-me que disse isto a meia voz, atravessando a Praça da República de taxi. Passávamos nessa hora bem em frente à Escola Caetano de Campos.

Quando chegaram a Roma, eles estavam “verdes” para o Concílio e se deixaram subjugar completamente por aquele ambiente [112].

Capítulo VIII

Nosso secretariado em Roma

Na primeira fase do Concílio, Plinio Corrêa de Oliveira e o secretariado do grupo de Catolicismo por ele montado em Roma atuaram com empenho em duas iniciativas de alcance histórico [ver Capítulo IX] . Na foto, Plinio e alguns membros do secretariado em frente à Basílica de São Pedro.

1. Dissabores em série

Minha presença em Roma [113] durante o Concílio não foi uma justaposição de prazeres e contentamentos de um lado, e de severos pesares de outro lado [114]. Eu estava carregado de aborrecimentos [115].

Essa estadia de tal maneira constituiu um sofrimento para mim que, quando voltei para São Paulo e pisei o chão, tive uma sensação de alívio: “Afinal acabou!”

Por que razão? Porque durante todo esse tempo, dentro do Concílio, e portanto dentro da Igreja, tudo se moveu mal e erradamente.

2. Chocante modo de ser de boa parte dos Bispos

Abertura do Concílio Vaticano II

Minha intenção primeira era ir sempre assistir às sessões do Concílio, porque significava ver a Igreja na sua maior pompa, instalada com dois mil Bispos naquele edifício colossal da Basílica de São Pedro, todos de mitra, báculo. Eu poderia ficar ali quatro a cinco horas simplesmente olhando aquele protocolo e esplendor [116].

Mas fui apenas uma vez. E depois não pus mais os pés na Basílica, a não ser quando, no encerramento da primeira fase do Concílio, fui assistir a uma Missa celebrada por Dom Mayer no altar de São Pio X.

Íamos sair todos de Roma e a Missa encerrava aquela fase de atividades. Fora disso, NÃO, de tal maneira eu estava entristecido, para não dizer mais, com o desenrolar do Concílio [117].

*   *   *

Uma coisa que me causou especial desagrado foi ver os Bispos chegarem de coletivos, e não de automóvel para as sessões.

Vinham às vezes em ônibus com nome de colégios de meninas: Collegio delle Bambine, Collegio del Sacro Cuore.

Os Bispos orientais desciam desses ônibus e na própria praça vestiam seus hábitos. Era uma coisa que não se compreendia que fizessem.

"Irmãos Separados" - Na recepção para os observadores não-católicos, chamados de "irmãos separados" , vê-se o Cardeal Bea (centro), encarregado de promover a unidade dos cristãos; e os observadores ortodoxos e protestantes [Life, Vol. 53, Nº 18, 2 de novembro de 1962]

Na saída das sessões, a mesma coisa: no átrio da igreja, tiravam aqueles hábitos com pressa, pois era preciso chegar a tempo para o almoço no colégio. Então faziam tudo correndo, e no meio de brincadeiras.

3. Presença desagradável de bispos greco-cismáticos

Desagrado maior, como já expliquei, foi causado pela presença de bispos greco-cismáticos numa tribuna do Vaticano.

Eram sete ou oito popes com aqueles chapéus pretos, bigodes em forma de um fiozinho, olhos negros reluzentes e malévolos.

Não diziam nada, prestavam atenção em tudo [118].

Em uma palavra, eram representantes do Kremlin, escravos do ateísmo comunista e entretanto estavam ali, junto a todo o episcopado da Terra [119].

4. Dom Sigaud, Dom Mayer e o “Coetus”

Havíamos alugado uma sede em um bairro muito bom de Roma, chamado Parioli. Neste bairro tínhamos uma ampla casa, e vários do nosso grupo nela se alojaram.

Em um instituto da Societas Verbi Divini, organização missionária que opera em 33 países , um grupo de Bispos relaxa com Scoth e Conhaque [ Life, Vol. 59, Nº 25, 17 de Dezembro de 1965]

Dom Mayer vinha toda tarde a esta sede e participava de uma reunião diária que fazíamos, a qual constava de duas partes.

A primeira parte versava sobre o que se tinha passado no plenário do Concílio, e outra parte sobre o trabalho de bastidores do Coetus [120] da direita: que planos tinham, como havia corrido a execução dos planos nesse dia e quais eram os planos para o dia seguinte. De si, uma coisa muito interessante e para a qual estávamos lá.

Mas ele contava também coisas jocosas acontecidas durante a sessão.

Por exemplo, ele dizia que, dentro da Basílica, montaram vários pequenos bares para os Bispos comerem ou beberem alguma coisa: um cafezinho, um chá, um refrigerante, um pequeno lanche.

Como “bar”, em hebraico, significa “filho de”, os Bispos começaram a designar esses bares: Bar Jonas, filho de Jonas, Barrabás... Ali brincavam uns com os outros, caçoavam, de um modo que absolutamente não correspondia à responsabilidade que eles tinham em um Concílio Universal.

Afinal, cansavam-se e voltavam para o plenário para tomar parte nas discussões...

Essas discussões, naturalmente, eram completamente controladas pelo Vaticano. Quem fizesse alguma coisa fora das diretrizes, expunha-se a ser severamente repreendido. Os Bispos então andavam na linha.

O Coetus dos Prelados da direita fazia planos e depois se deixava embair de modo absurdo*.

* Um exemplo disso foi o que aconteceu com a petição de condenação do comunismo assinada por centenas de Bispos, como veremos mais adiante.

Fatos desses se deram em série.

Nós sugeríamos a Dom Sigaud e a Dom Mayer tomar tal e tal atitude, mas eles não davam importância. Um funcionário de portaria de hotel tinha tanta influência no Concílio quanto nós. Isso depois de termos feito um gasto enorme — mas enorme! — para estarmos presentes e de alguma forma atuarmos no Concílio.

5. Sabotado em conferência de imprensa: conservador demais!

Os leigos da direita e os da esquerda eram convidados a promover conferências de imprensa para jornalistas e políticos sobre pontos em que estes desejassem ser informados.

Pe. Ralph Wiltgen, SVD

Tais reuniões estavam programadas para se realizar no convento dos Padres do Verbo Divino, congregação religiosa a que pertencia Dom Sigaud.

Eu também fui convocado para essas reuniões. E me dirigi para lá.

Um padre alemão do Verbo Divino, que tinha muita simpatia por nós, me acolheu muito bem: era um grande amigo de Dom Sigaud. Chamava-se Padre Ralph Wiltgen [121].

Este sacerdote me disse:

— Pela escalação, o senhor tem uma conferência agora. Vamos até a sala, pois já há pessoas esperando.

Íamos entrando e nisto aparece um padre que diz:

— Quem é esse senhor?

— É o professor Plinio Corrêa de Oliveira, de São Paulo.

— Não precisava falar. Por que ele precisa falar?

Disse assim, com essa brutalidade!

O padre nosso amigo respondeu cortês:

— Ele consta da lista de pessoas convidadas. Não há razão para ele não falar.

— Não! Não! Ele é muito antiquado, muito conservador. Não há jeito de cortar?

O Padre Ralph Wiltgen disse:

— Não, não há jeito! Professor, por favor, suba na cátedra que já estão à sua espera.

Dei então uma conferência de imprensa* para homens que eu nem sabia bem quem eram. Estava tudo mal arranjado.

* Essa conferência de imprensa realizou-se no dia 16 de outubro de 1962 e versou sobre o tema Reforma Agrária.

Terminada a conferência, um daqueles padres me disse:

— O senhor está dispensado das outras conferências. Houve um engano e o seu nome não figura na lista*.

* Boicote semelhante foi narrado pelo Príncipe Dom Bertrand em reunião plenária da TFP de 30 de junho de 1984:

“Monsenhor Zanini, redator do Osservatore Romano, teve vários contatos com o prof. Fernando Furquim de Almeida e depois entrevistou Dr. Plinio no Hotel Excelsior sobre a crise na América do Sul. Dr. Plinio desenvolveu o que há de mais ortodoxo sobre a crise moral e religiosa, dizendo que se os 97% de católicos no Brasil cumprissem os dez Mandamentos, não haveria crise nenhuma no País. Foi uma entrevista absolutamente ‘hors série’. Monsenhor Zanini, muito contente com essa entrevista, levou-a para o Osservatore Romano. Mas caiu sobre ela um veto absoluto. [...] Não havia nenhum ataque ao progressismo; mesmo assim não podia sair nem o nome de Dr. Plinio nem a tese da crise religiosa”.

*   *   *

O Padre Ralph Wiltgen escreveu depois um célebre livro, cujo título parece à primeira vista extravagante, mas tem sua plena razão de ser: O Reno deságua no Tibre.

Sendo rios que geograficamente não se encontram, era um modo de dizer que as idéias teológicas e filosóficas dos piores modernistas alemães estavam amplamente representadas entre os teólogos e filósofos do Concílio, e que, portanto, essas idéias tiveram uma grande entrada e uma grande influência*.

* O livro recebeu o nihil obstat e imprimatur do futuro Cardeal Terence Cooke, Arcebispo de Nova York. O Padre Wiltgen sofreu muitas pressões para cessar a divulgação desse livro [122].

Capítulo IX

Duas históricas petições não atendidas: consagração da Rússia e condenação do comunismo

1. Gênese da petição para consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria

Houve duas iniciativas de alcance histórico em que estivemos empenhados a fundo, também boicotadas durante o Concílio. A primeira foi o pedido de consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria e a segunda de condenação do comunismo pelo Concílio.

Quanto à primeira, a idéia nasceu de uma conversa, que deve ficar registrada nos anais de nossa história, mantida com Dom Sigaud e Dom Mayer numa sala de estar da Fazenda Morro Alto, em Amparo.

Ali tive ocasião de expor aos dois Bispos a alta conveniência de promover aquela súplica, pedindo a consagração da Rússia de acordo com a mensagem de Fátima.

Irmã Lucia havia dito que essa consagração era uma das condições colocadas pela Virgem para afastar a ameaça do castigo que pairava sobre o mundo. E Nossa Senhora havia estabelecido certos quesitos para que essa consagração fosse válida*.

* Na terceira aparição na Cova da Iria, a 13 de julho de 1917, a Virgem Santíssima havia dito: "Virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz".

E em aparição à Ir. Lúcia em 1929, Nossa Senhora veio, conforme prometido, formular o seu pedido: “É chegado o momento em que Deus pede para o Santo Padre fazer, em união com todos os Bispos do mundo, a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, apud Antonio Augusto Borelli Machado, As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia, Artpress, São Paulo, 1997, 46ª ed.).

As consagrações que Pio XII fizera do mundo em 1942 e "dos povos da Rússia" em 1952 ao Imaculado Coração de Maria não correspondiam a essas circunstâncias pedidas por Nossa Senhora.

Isto eu li em livros publicados a respeito. E também ouvi pessoalmente do Arcebispo de Coimbra, Dom Ernesto Sena de Oliveira, encarregado da guarda da Irmã Lúcia. Este afirmou que, segundo a Irmã Lúcia, essas consagrações não tinham atendido ao que fora pedido. Vê-se esta afirmação ainda em uma carta da própria irmã Lúcia ao seu confessor jesuíta, Padre José Aparício, o qual emprestou-me a carta: nela estava declarado que o pedido não havia sido atendido*.

* Nossa Senhora fora explícita: tinha de ser uma consagração feita: 1) pelo Papa; 2) em união com os Bispos do mundo; 3) da Rússia; 4) e ao Imaculado Coração de Maria.

Pio XI recebeu a mensagem, mas, por razões não divulgadas, não realizou a consagração.

A consagração feita por Pio XII, não foi “em união com os Bispos do mundo”. E tampouco foi feita “a consagração da Rússia”. Não atendeu portanto duas das quatro condições pedidas por Nossa Senhora.

Na segunda [iniciativa do secretariado], Dom Sigaud entrega a Paulo VI a petição de 510 Prelados (78 países), que rogava ao Papa consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Essa petição fazia eco ao pedido expresso de Nossa Senhora, até hoje misteriosamente não atendido.

Tanto é que, quando em 31/10/42 Pio XII consagrou a Igreja e o gênero humano ao Imaculado Coração de Maria, a Irmã Lúcia escreveu ao Pontífice comunicando, da parte de Nosso Senhor, que, como o ato “foi incompleto, fica a conversão da Rússia para mais adiante” (cfr. Antonio Augusto Borelli Machado, As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia, Artpress, São Paulo, 1997, 46ª ed., p. 41).

Em 21/11/64, Paulo VI “confiou” (não consagrou) “o gênero humano” (e não explicitamente a Rússia) ao Imaculado Coração de Maria.

Portanto, a petição dos Padres conciliares tinha todo o propósito.

Deixamos de lado o complexo problema do atendimento ou não da vontade de Nossa Senhora nas consagrações que se seguiram depois do Concílio. Apenas assinalamos que João Paulo II, em 13/5/82 e 25/3/84, consagrou o mundo (e não a Rússia) ao Imaculado Coração de Maria. O mesmo fez o Papa Francisco a 13 de outubro de 2013.

Tendo os dois Bispos aceito a nossa sugestão, Dr. Castilho estudou com cuidado toda a temática, para indicar como a consagração deveria ser feita, de modo a atender, na petição, todos os requisitos necessários para que a vontade de Nossa Senhora fosse satisfeita.

E assim Dom Mayer e Dom Sigaud foram os promotores entre os Padres conciliares da famosa petição solicitando ao Santo Padre a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.

Houve então na história de Fátima este fato importantíssimo: dois Bispos da Igreja Católica se levantaram, e esses dois Bispos conseguiram a assinatura de 510 outros Bispos, pedindo essa consagração [123].

O pedido não foi atendido, a vontade de Nossa Senhora não foi cumprida.

Mas ficou assinalado perante a História que um movimento, o de Catolicismo, foi sensível à voz de Fátima. E esse movimento, através de dois Bispos, fez o possível e o impossível para que, de um modo oficial e altamente prestigioso, essa voz de Nossa Senhora fosse ouvida e reboasse dentro do Concilio [124].

2. Petição de condenação do comunismo repercute intensamente

Também na Fazenda Morro Alto estabelecemos — Dom Sigaud, Dom Mayer e eu — a temática da petição de condenação ao comunismo, que recebeu a adesão de 213 Padres conciliares de 54 países*.

* A imprensa italiana e a internacional noticiaram com todo o relevo a entrega dessa petição por Dom Mayer, no dia 3 de dezembro de 1963, à Secretaria de Estado da Santa Sé, na pessoa de seu titular, o Sr. Cardeal Amleto Giovanni Cicognani.

Na divulgação desse documento, foi valiosa a cooperação do Divine Word News Service, que era a agência noticiosa dirigida pelo mencionado Padre Ralph Wiltgen SVD. Ela distribuíu em primeira mão a notícia da entrega dessa petição a 650 jornalistas presentes na sede do Comitê de Coordenação das Comunicações sobre o Concílio, incluídos os representantes das agências internacionais, que a divulgaram para o mundo inteiro.

Simultâneo à petição, por seu íntimo nexo com os termos do documento, foi amplamente distribuído a esses jornalistas, pelo secretariado do grupo de Catolicismo em Roma, o livro A liberdade da Igreja no Estado comunista, traduzido para o inglês, francês, espanhol e italiano. Essa distribuição também foi feita aos 2200 Padres conciliares.

Il Tempo, o maior matutino romano, noticiando no dia seguinte a entrega da petição, considerou-a, "na atmosfera conciliar", um episódio "importantíssimo para todos os católicos italianos". Já o diário Roma, de Nápoles, abriu um título em que dizia: "Uma notícia-bomba do Vaticano", considerando a petição "una pompa vera e propria""Uma própria e verdadeira bomba" (cfr. Catolicismo n° 157, janeiro de 1964).

Esta petição continha uma série de teses do livro Revolução e Contra-Revolução que era pouco comum ouvir-se de lábios de Bispos. Várias dessas teses entraram como fundamentação do pedido de condenação do comunismo [125].

3. Condenar o comunismo atrapalharia o ecumenismo com os comunistas

Reportagem de Catolicismo sobre a primeira [iniciativa do secretariado]: petição de 213 Padres conciliares (54 países) para que o Concílio condenasse o socialismo e o comunismo, e que seria escandalosamente boicotada pela secretaria do Concílio, ao omitir qualquer condenação à maior das heresias do século XX.

Qual era a meta da petição?

O Concílio Vaticano II foi numericamente o maior Concílio da História. Nunca houve tantos Bispos reunidos em um Concílio. Seria importantíssimo que nele se fizesse uma condenação do comunismo.

Até aquela data [126], a posição da Igreja se manifestava na condenação total da doutrina comunista, na proibição a todos os católicos de lerem (sem as devidas licenças) livros comunistas, de se filiarem a um partido comunista, ou de prestarem à conservação ou à expansão de órgãos comunistas qualquer forma de apoio.

Talvez a límpida rigidez dessa atitude nunca se tenha manifestado com maior coerência e força do que no famoso decreto de 1° de julho de 1949, aprovado por Pio XII, em que o Santo Ofício declarava excomungados e apóstatas da fé católica todos aqueles que professassem, defendessem ou divulgassem a doutrina comunista* [127].

* Este decreto continha as seguintes perguntas e respostas: “I. — É lícito aos católicos dar seu nome e prestar sua ajuda aos partidos comunistas? Resposta: Não é lícito, o comunismo é materialista e anticristão; com efeito, os chefes comunistas, inclusive quando dizem por palavras que não combatem a religião, na realidade, contudo, tanto pela doutrina como pela ação, mostram-se inimigos de Deus, da verdadeira Religião e da Igreja de Cristo. II. — É lícito editar, difundir ou ler livros, revistas, jornais e folhetos que defendem a doutrina ou atividades comunistas, ou neles escrever? Resposta: Não é lícito; está proibido ipso jure (cânon 1399 do Código de Direito Canônico). III. — Os fiéis que, consciente e livremente, tenham incorrido nos atos de que tratam os números I e II, podem ser admitidos aos Sacramentos? Resposta: Não podem ser admitidos, em conformidade com o princípio geral de que se deve negar os Sacramentos àqueles que não estão nas devidas disposições para recebê-los. IV. — Os fiéis que professam a doutrina materialista e anticristã dos comunistas e principalmente aqueles que a defendem e divulgam, incorrem, ipso facto, na excomunhão reservada de modo especial à Sé Apostólica, como apóstatas da Fé católica? Resposta: Sim, incorrem” (AAS., vol. XLI, p. 334. — Colocamos as respostas em seguida a cada pergunta, para facilidade de leitura. No original elas vêem depois de todas as perguntas).

Nas novas circunstâncias, uma condenação formal da doutrina comunista pelo Concílio teria sido um imenso entrave às relações ecumênicas que eviden­temente estavam se preparando com os países comunistas [128].

4. O pacto de silêncio da Santa Sé sobre o comunismo

João XXIII com Vitalij Borovoj e Vladimir Kotljarov, dois observadorers da igreja Ortodoxa Russa que participaram do Concilio Vaticano II [30 Giorni, edição em Inglês, DOCUMENT edição no. 08 - 2004 ]

João XXIII convidara para o Concílio observadores de todos os cultos, entre os quais os da I.O. pró-comunista.

Segundo constou largamente naquela ocasião, a condição imposta por esta I.O. para que se dignasse aceitar o convite, era que na Sala Conciliar fosse proibido qualquer ataque ao comunismo, e que o Concílio Vaticano II se abstivesse de dizer contra este qualquer palavra [129].

E este fora o compromisso assumido pela Santa Sé para obter que observadores russos viessem ao Concílio [130]. A não condenação do comunismo abria caminho para possíveis negociações entre o Estado soviético e o Vaticano, e também entre a Igreja “Ortodoxa” russa e Roma* [131].

* Esse compromisso nascera das reuniões realizadas em 18 de agosto de 1962 na cidade francesa de Metz, envolvendo o Cardeal Eugène Tisserant, representante da Santa Sé, e o metropolita Nikodim, então arcebispo cismático de Yaroslavl, representando a Igreja Ortodoxa Russa.

A imprensa comunista foi a primeira a revelar esse compromisso, através do semanário France Nouvelle, boletim central do Partido comunista francês (edição de 16-22/1/63): "Como o sistema socialista mundial manifesta superioridade de modo incontestável e goza da aprovação de centenas e centenas de milhares de homens, a Igreja não pode satisfazer-se com um anticomunismo grosseiro. Ela adotou o compromisso, por ocasião de suas negociações com a Igreja Ortodoxa russa, de que no Concílio não haveria um ataque direto contra o regime comunista".

Dessas reuniões nasceu o Pacto de Metz, detalhado pelo jornalista e escritor Jean Madiran em seu livro L’Accord de Metz ou pourquoi notre Mère fut muette (O Acordo de Metz ou por que nossa Mãe permaneceu muda), publicado em 2006. Ele havia denunciado esse pacto, seis meses após as reuniões de Metz, na revista Itinéraires de que era diretor.

Do Pacto resultou a aceitação, por parte dos ortodoxos russos, de enviar observadores ao Concílio Vaticano II, segundo informou o jornal católico-progressista La Croix, o qual em sua edição de 16/2/63, revelava: “em consequência desse encontro, Mons Nikodim aceitou que alguém fosse a Moscou para levar o convite, sob a condição de que sejam dadas garantias no que concerne à atitude apolítica do Concílio".

Vale recordar que o metropolita russo Nikodin, com quem o Cardeal Tisserant firmou esse acordo, era um espião pago pela KGB para infiltrar o Conselho Mundial das Igrejas, da qual chegou a ser presidente (cfr. Gerhard Besier, Armin Boyens, Gerhard Lindemann, Nationaler Protestantismus und Ökumenische Bewegung. Kirchliches Handeln im kalten Krieg (1945-1990), Duncker und Humblot, Berlino 1999, apud José Antonio Ureta, apud Catolicismo n° 742, outubro de 2012).

Mais tarde vieram à tona outros detalhes desse compromisso "quase secreto", revelados pelo Professor Romano Amerio em seu momentoso livro Iota Uno (in Studio delle variazioni della Chiesa Cattolica nel secolo XX, Milão-Nápoles, R. Ricciardi, 1985).

Corria então uma palavra de ordem imperiosa entre os Padres Conciliares e também entre os leigos mais chegados ao Concílio: podiam escrever os artigos que quisessem nos jornais, porém jamais falar contra o comunismo e não estimular ninguém a falar contra [132].

Não era uma proibição oficial, mas apenas extra-oficial, porque Paulo VI não queria tornar público que tinha assumido esse compromisso [133].

Ou seja, a Igreja, naquela ocasião máxima, havia optado por não falar contra a maior heresia dos tempos atuais.

E isto jogou a Igreja nessa posição verdadeiramente sem sentido: reúne-se um Concílio, há uma heresia que ameaça deglutir a Igreja e esta assume o compromisso de não falar contra esta heresia* [134].

* O que significou este silêncio, Dr. Plinio delineou com precisão na 4ª edição em português de Revolução e Contra-Revolução: “Dentro da perspectiva de Revolução e Contra-Revolução, o êxito dos êxitos alcançado pelo comunismo pós-staliniano sorridente foi o silêncio enigmático, desconcertante, espantoso e apocalipticamente trágico do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo.

“Este Concílio se quis pastoral e não dogmático. Alcance dogmático ele realmente não o teve. Além disto, sua omissão sobre o comunismo pode fazê-lo passar para a História como o Concílio a-pastoral. [...]

“Em outros termos, atuaram como verdadeiros Pastores aqueles que, no Concílio Vaticano II, quiseram espantar os adversários ‘minores’, e impuseram livre curso - pelo silêncio - a favor do adversário ‘maior’?

“Com táticas ‘aggiornate’ - das quais, aliás, o mínimo que se pode dizer é que são contestáveis no plano teórico e se vêm mostrando ruinosas na prática - o Concílio Vaticano II tentou afugentar, digamos, abelhas, vespas e aves de rapina. Seu silêncio sobre o comunismo deixou aos lobos toda a liberdade.

“A obra desse Concílio não pode estar inscrita, enquanto efetivamente pastoral, nem na História, nem no Livro da Vida. É penoso dizê-lo. Mas a evidência dos fatos aponta, neste sentido, o Concílio Vaticano II como uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja.

“A partir dele penetrou na Igreja, em proporções impensáveis, a ‘fumaça de Satanás’, que se vai dilatando dia a dia mais, com a terrível força de expansão dos gases. Para escândalo de incontáveis almas, o Corpo Místico de Cristo entrou no sinistro processo da como que autodemolição” (Revolução e Contra-Revolução, Artpress, São Paulo, 4ª edição em português, 1998, pp.166 a 168).

5. Petição, única estratégia possível para tentar quebrar esse acordo

Uma vez aceito pela Santa Sé o compromisso de não discutir a questão do comunismo, o único modo de contornar essa palavra de ordem seria organizar, com base na série de razões doutrinárias e históricas contidas em nossa petição, um abaixo-assinado solicitando fosse posto em votação no plenário um pedido de condenação do comunismo.

Os representantes da igreja ortodoxa russa certamente advertiriam antes a Santa Sé:

— Soubemos dessa petição da bancada de Bispos conservadores. Se eles a levarem adiante, nós nos retiraremos.

A Santa Sé teria como saída dizer a esses Bispos conservadores:

— Foi feita essa combinação e, portanto, o Santo Padre quer que os senhores retirem essa petição.

Se isto se desse, e se os membros da bancada conservadora estivessem dispostos a chegar até as últimas conseqüências, deveriam afirmar:

— Nossa consciência não nos permite fazer isso. Vossa Santidade, se quiser, exclua-nos do Concílio, mas suplicamos que declare a razão.

Se assim se fizesse, a História do Concílio, da Igreja e do mundo hoje seria outra.

Não adianta alegar que não havia o número suficien­te de membros para isso.

No Concílio, o Coetus conservador era constituído por cerca de 30 Arcebispos e Bispos (entre os quais Dom Sigaud, Dom Mayer, Monsenhor Marcel Lefebvre), dentro de um total de aproximadamente dois mil e quinhentos Arcebispos e Bispos*.

* Na sessão seguinte do Concílio (1964) o Coetus Internationalis Patrum chegou a ter mais de 250 participantes entre os Padres Conciliares.

E não seriam necessários trinta: apenas dois que fizessem isto (Dom Sigaud e Dom Mayer por exemplo), teriam virado o leme da História para o outro lado.

6. Um procedimento totalmente irregular obstruiu o encaminhamento da petição

Em vista de tudo isto, dei a sugestão de uma petição de condenação ao comunismo a Dom Sigaud e a Dom Mayer. Eles pediram-me então que lhes redigisse extra-oficialmente uma moção nesse sentido. E eu redigi essa moção.

Essa petição foi assinada por 213 Cardeais, Arcebispos e Bispos de 46 nações. E foi apresentada em tempo hábil para os trâmites necessários* [135].

* O essencial do pedido era que fosse posta em votação no Concílio, “em sua próxima sessão, uma nova condenação do marxismo, do socialismo e do comunismo, em seus aspectos filosófico, sociológico e econômico, expondo ao mesmo tempo, a doutrina social católica, e profligando os erros e a mentalidade que preparam o espírito dos católicos para a aceitação daqueles sistemas falsos”. A Secretaria de Estado enviou a petição a Monsenhor Felici, secretário do Concílio, para que a fizesse chegar à Comissão Mista encarregada da redação do esquema sobre a Igreja no mundo contemporâneo, o assim chamado Esquema XIII que desembocou na constituição pastoral Gaudium et Spes.

Mas o tempo foi passando sem que houvesse resposta [136].

7. Nova petição contra o comunismo é sabotada

Na quarta e última sessão (iniciada a 14 de setembro de 1965), o Coetus levantou um novo abaixo-assinado — desta vez com 435 assinaturas de Padres conciliares de 86 países*.

* Essa nova petição, que era uma emenda à constituição Gaudium et Spes, foi entregue no dia 9 de outubro de 1965 por Dom Geraldo de Proença Sigaud e por Monsenhor Marcel Lefebvre na Secretaria Geral do Concílio. Nela se requeria que, “depois do parágrafo n° 19 do esquema ‘A Igreja no mundo contemporâneo’, que trata do problema do ateísmo, se acrescente um novo e apropriado parágrafo que trate expressamente do problema do comunismo” (Acta Synodalia, vol. IV, pars II, pp. 898900, apud Roberto De Mattei, Il crociato del secolo XX, Piemme, Milão, 1996).

O novo documento teve que caminhar, por causa da burocracia interna do Concílio, até à mesa de Monsenhor Glorieux. Era um monsenhor, como os havia tantos no Vaticano. Tenho quase certeza de que, naquela altura, não era Bispo. Depois, talvez tenha sido feito, já que prestou um tão grande “serviço” à ala inovadora [137]. Ele é quem devia dar despacho ao documento [138].

Mas Monsenhor Glorieux não lhe deu andamento algum.

Dom Sigaud e Monsenhor Lefebvre foram então conversar com ele. E lhe perguntaram como estava o andamento da petição.

* Monsenhor Glorieux de início alegou que não a havia transmitido às comissões que estavam trabalhando na redação final do esquema, para não dificultar os trabalhos...

Dom Luigi Maria Carli, Bispo de Segni, dirigiu então à Presidência do Concílio uma carta denunciando o caráter arbitrário da Comissão Mista que havia ignorado um documento de tamanha importância. Monsenhor Glorieux defendeu-se afirmando falsamente que a petição tinha chegado fora do tempo, mas foi desmentido pelo próprio Monsenhor Pericle Felici, secretário do Concílio.

Depois de várias démarches evasivas, este monsenhor disse que tinha perdido a documentação. Equivalia a dizer que a documentação não teria andamento*.

* No dia 23/11/65, a já citada agência de notícias Divine Word Service, próxima dos prelados conservadores difundiu um longo comunicado sobre o escândalo do desaparecimento das propostas de nada menos que 435 Padres conciliares. E assim, ao mesmo tempo que o escândalo explodiu na imprensa, Paulo VI convocou uma reunião restrita de colaboradores, na qual ficou decidido que não era oportuno condenar o comunismo (cfr. José Antonio Ureta, O enigmático silêncio do Vaticano II sobre o Comunismo, Catolicismo n° 742, outubro de 2012).

A Divine Word divulgou o seguinte comentário do Padre Wiltgen: “O fato de um único homem ter tido a possibilidade de impedir que um documento tão significativo chegasse às mãos da comissão conciliar à qual era oficialmente dirigido é uma das grandes tragédias do Concílio Vaticano II e poderá passar à história como o maior escândalo a vir a prejudicar as graves deliberações desta sacra assembléia” (cfr. Roberto de Mattei, O Concílio Vaticano II — Uma História Nunca Escrita, Editora Caminhos Romanos, Porto (Portugal), 2012).

O Cardeal Willebrands acompanhado pelo Metropolita Nikodim no último dia do Concílio Vaticano II. O Pacto de Metz foi respeitado. O Comunismo não foi condenado, nem mesmo mencionado, nos documentos oficiais do Concílio.

Desse modo, o Concílio Vaticano II deixou de condenar o maior erro de nossos dias: o comunismo [139].

Não poderia deixar de figurar — absolutamente não poderia! — a atitude da Igreja face ao seu maior adversário naqueles dias. Adversário tão poderoso, tão brutal, tão ardiloso como outro igual a Igreja não encontrara na sua História então já quase bimilenar.

Tratar dos problemas contemporâneos da religião sem tratar do comunismo, seria algo de tão falho quanto reunir hoje em dia um congresso mundial de médicos para estudar as principais doenças da época, e omitir do programa qualquer referência à AIDS... * [140]

* Alegou-se na época que a Constituição Pastoral Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II, em nota de rodapé, havia se referido ao problema do ateísmo e até citado a encíclica Divini Redemptoris, de Pio XI, e outros documentos do Magistério Pontifício que condenavam, entre outros erros, também o comunismo. Daí se procurava deduzir que o Concílio não havia sido inteiramente omisso em matéria de condenação do comunismo. Mas tal alegação é frágil: por que omitir toda e qualquer referência explícita ao comunismo, e só falar de ateísmo? Por que colocar essa referência às encíclicas apenas em uma nota de rodapé?

8. Dom Mayer e Dom Sigaud: otimismo sem causa

Infelizmente Dom Sigaud e Dom Mayer entraram para o Concílio imbuídos de certa mentalidade otimista.

Eles parecem não ter medido até que ponto a Revolução havia penetrado nas entranhas mentais, ideológicas e psicológicas de incontáveis Bispos. E, sobretudo, não mediram até que ponto muitos desses Bispos estavam empenhados em implantar esses erros, face aos quais era preciso tomar uma atitude e enfrentá-los.

Ora, não terem percebido isso foi uma das razões da debilidade da atuação deles.

Era uma obrigação dos dois se prepararem seriamente, de maneira a entrarem no Concílio armados de pied en cap, dos pés à cabeça, contra os erros que poderiam encontrar, e de desenvolverem uma ação enérgica nos debates [141]. O resultado foi que Dom Sigaud e Dom Mayer acabaram por assinar sem restrições o Concílio* [142].

* Foi o que levou o professor Roberto De Mattei a comentar, com muita adequação, em seu já citado livro Il crociato del secolo XX: “Bem se pode imaginar a preocupação de Plinio Corrêa de Oliveira perante as conclusões do Concilio e, talvez, a sua perplexidade com o fato de que os dois Prelados brasileiros que lhe eram chegados, e o próprio Monsenhor Lefebvre, tivessem assinado o conjunto dos Atos Conciliares, até mesmo os documentos que tinham combatido na aula conciliar. O certo é que Plinio Corrêa de Oliveira assumiu uma postura de respeitoso silêncio, à espera de que os fatos confirmassem tudo quanto ele já previra”.

Lembro-me que, quando se delineou o rumo que o Concílio Vaticano II adotaria, fiz todas as insistências junto a eles para que tomassem uma atitude pública para deter esse rumo.

Eles recusaram terminantemente. Dom Sigaud teve esta fórmula: “Plinio! Há uma diferença entre o que Dom Mayer e eu queremos, e o que você quer. Nós queremos salvar o Concílio”.

Eu queria salvar a Igreja! Eles salvaram o progressismo.

Se uma atitude pública tivesse sido tomada no momento oportuno, com a energia necessária, a história da Igreja teria mudado [143].

Mas não fizeram o que lhes aconselhei. Por quê?

Há várias hipóteses. Mas a hipótese psicológica e tática mais admissível é a de que, levados por esse confessado otimismo, presente também em Monsenhor Lefebvre, eles julgavam que tudo o que estava acontecendo acabaria se arranjando, de um jeito ou de outro, e que portanto não valia a pena fazer esse combate frontal.

É sempre o ingênuo otimismo dos bons, que lembra a seu modo o estado de espírito de Luís XVI diante dos avanços da Revolução Francesa [144].

Dom Mayer pretendia que ele assinou o Concílio porque o assinar não queria dizer nada! Não representava nenhuma adesão ao Concílio. Era assim um ato notarial.

Ora, não há ato notarial que não queira dizer algo! [145]

9. O processo de autodemolição no pós-Concílio

A História narra os inúmeros dramas que a Igreja vem sofrendo nos vinte séculos de sua existência. Oposições que germinaram fora dela, e de fora mesmo tentaram destruí-la. Tumores formados dentro dela, por ela cortados, e que já então de fora para dentro tentaram destruí-la com ferocidade.

Quando, porém, viu a História, antes de nossos dias, uma tentativa de demolição da Igreja, já não mais feita por um adversário, mas qualificada de “autodemolição” em altíssimo pronunciamento de repercussão mundial? (cfr. Alocução de Paulo VI ao Seminário Lombardo, em 7/12/68)

Daí resultou para a Igreja e para o que ainda resta de civilização cristã, uma imensa derrocada [146].

O fato concreto é que há hoje uma ponderável corrente de católicos, ou antes de “católicos” entre aspas, que já não aceitam a religião como ela era. E lutam por um catolicismo aggiornato e comunista. Este é o fato dominante em matéria de comunismo.

Foi mais ou menos o que declarou o comunista Allende, sobre a Igreja pré e pós-conciliar, pouco depois de eleito. Ele afirmou que lera a Declaração dos Bispos em Medellin, e a linguagem que usavam era a mesma deles, marxistas. E que a Igreja já não era mais um fator de oposição ao partido dele, mas um elemento a favor* [147].

* Foram as seguintes as suas palavras: “A Igreja Católica sofreu mudanças fundamentais. Durante séculos, a Igreja Católica defendeu os interesses dos poderosos. Hoje, depois de João XXIII, ela se orientou para transformar o Evangelho de Cristo em realidade, pelo menos em alguns lugares. Tive ocasião de ler a Declaração dos Bispos em Medellin, e a linguagem que usam é a mesma que usamos desde nossa iniciação na vida política, há 30 anos. Naquela época, éramos condenados por tal linguagem que hoje é empregada pelos Bispos católicos. Acredito que a Igreja não será fator de oposição ao governo da Unidade Popular. Ao contrário, será um elemento a nosso favor, porque estaremos tentando converter em realidade o pensamento cristão” (entrevista ao New York Times, reproduzida por O Estado de S. Paulo de 4/10/70).

Capítulo X

A liberdade da Igreja no Estado comunista (1963): algumas observações prévias

1. Observações de minha época de congregado mariano

Foi durante o período do Concílio que escrevi o livro A liberdade da Igreja no Estado comunista.

Este livro tem uma velha história.

Por volta de 1930, havia em São Paulo grupos anticomunistas muito efervescentes que importavam impressos contra o comunismo de uma organização internacional suíça.

Eu era ainda um congregado mariano relativamente novo, e um sacerdote deu-me um desses impressos e me disse: “Veja, aqui é a última palavra em matéria de propaganda anticomunista, leia”.

Eu de fato li. E chamou-me logo a atenção o fato de os argumentos que eles exploravam era que o comunismo queimava igrejas, matava padres e freiras, profanava o Santíssimo Sacramento, quebrava imagens e proibia o ensino religioso.

Luigi Taparelli d'Azeglio

Ora, eu tinha lido pouco antes o Tratado de Direito Natural de Taparelli D’Azeglio [148], e havia estudado as encíclicas de Leão XIII a respeito de matéria social.

E essas fontes muito sólidas, muito seguras, apontavam outros pontos muito mais importantes sobre a incompatibilidade entre comunismo e doutrina católica. Por exemplo, mostravam que o comunismo queria eliminar a propriedade privada. E afirmavam a legitimidade dela em termos tais, que não se podia conceber uma sociedade organizada segundo o espírito da Igreja sem a propriedade privada.

Procurei mais tarde por esse padre e perguntei:

Monsenhor, aqueles impressos falam da incompatibilidade entre o comunismo e a doutrina católica, mas apenas no que diz respeito a questões de ataques dos comunistas contra o culto. Não, porém, no que diz respeito à propriedade privada. Como é que fica isto?

E acrescentei:

Se algum dia aparecer um regime comunista que diga à Igreja: “Eu organizo a sociedade sem propriedade privada, mas darei liberdade religiosa”, a Igreja vai aprovar esse regime? Desaparece com isso a razão de conflito com o comunismo?

Esse bom padre, tido como um dos mais conspícuos de São Paulo, patinou em cima da questão e não deu resposta. Ele era um homem de muita personalidade, mas não de grande inteligência. E eu pensei: “Ele, em temas doutrinários, não navega com facilidade. Provavelmente não está a par desse ponto”.

De vez em quando, para algum padre eminente, alguma pessoa de maior categoria, eu fazia essa mesma pergunta. E a resposta era a mesma patinação, quando nos documentos pontifícios a matéria está tratada de maneira meridianamente clara.

2. Observações de minha época de deputado

Minha interrogação chegou ao auge no meu tempo de deputado.

Apresentaram de repente, para ser incluído na Constituição brasileira de 1934, um artigo que dizia: “Pertencem ao Estado todas as riquezas do subsolo do país”.

Até então, pelo Código Civil, todas as riquezas, inclusive as do subsolo, pertenciam ao proprietário do imóvel. Quem tinha o solo, tinha o subsolo.

Nesse artigo vinha a disposição de que, para explorar as riquezas do subsolo, era preciso licença do governo.

Na Liga Eleitoral Católica éramos muitos deputados. Tenho má memória, mas penso que 70 ou 80 deputados, liderados pelo Tristão de Athayde, que não era deputado, mas preposto de Dom Sebastião Leme junto a nós.

Procuro o Tristão, procuro um ou outro e digo:

— Vocês não percebem? Se o Estado hoje toma conta do subsolo, amanhã toma conta do solo. Votando esse artigo de lei, vocês acabam admitindo um princípio comunista. Vejam os documentos pontifícios a respeito.

— É, mas Dom Leme não está no Rio. Está em Petrópolis.

— Telefonem para Dom Leme, vão até lá, para isso existe estrada.

— Fim de semana, ele não gosta de ser perturbado.

*   *   *

Então tomei um automóvel e fui ao Colégio Santo Inácio, onde havia o maior intelectual católico do Brasil: Padre Leonel Franca.

Eu me dava muito com ele. Ainda me lembro do jeito dele: baiano, de meia altura, calvo, mas com uma calvície inteligentíssima, dela saíam cintilações. Sentado, quieto e com um olhar... ele tinha uns olhos oblongos e cheios de pensamento.

Entrei no seu escritório, cheio de livros, de notas, de fichas. Ele, sentado:

— Como vai?

— Padre Leonel, vim falar com o senhor sobre tal e tal coisa.

— Não se preocupe, não tem importância nenhuma.

— Mas, Padre Leonel, isso é um ponto de doutrina.

— Não, mas essas coisas não são levadas tanto a sério, assim. Não se preocupe.

— Não, eu me preocupo. E vou votar contra.

Ele:

É um direito seu, como é um direito votar a favor. Faça como quiser [149].

*   *   *

Procurei ainda vários outros Padres e colocava a questão: “Padre, comunismo só é ruim quando é ateu? E quando ele não é ateu, ele não é ruim? Se viesse um regime comunista que não perseguisse o Clero, os senhores seriam contra esse regime?”

Não saía explicação. E eu fiquei percebendo que havia da parte deles uma vontade de amolecer a doutrina católica a esse respeito na primeira ocasião.

O fato concreto é que, a partir de aproximadamente 1935, nos meios católicos só se ouvia falar contra o "comunismo ateu". Não se falava mais contra o comunismo enquanto supressão da propriedade privada [150].

3. Observações na minha ida a Roma durante o Concílio

Passaram-se os anos. E viajei a Roma para a primeira fase do Concílio.

Dom Sigaud pediu-me então que eu o acompanhasse nos contatos com os Bispos da direita. E assim compareci a certo número de reuniões.

Nesses contatos, percebi da parte desses Bispos também uma vontade enorme de fazer uma conciliação entre a Igreja e o comunismo, precisamente na base clássica: a Rússia cessa as perseguições religiosas e a Igreja deixa de lutar pela propriedade privada. E achei isso uma coisa esquisita.

*   *   *

Lembro-me de uma dessas reuniões, realizada na sede da Congregação do Verbo Divino, com Dom Sigaud presente. Era um velho prédio junto a um parque, de pé direito alto.

Anoitecia, mas a luz ainda não havia sido acesa.

Estava uma reunião bonita: uma série de prelados vestidos à antiga, com corrente e cruz de ouro, alguns com expressão fisionômica muito inteligente.

Sentávamos em cadeiras que haviam sido cômodas no tempo da juventude deles, mas nas quais já podiam ser percebidas algumas molas protuberantes que cutucavam de vários lados. Era preciso certa política para sentar, como era preciso certa política para falar: duas políticas concomitantes.

A reunião caminhava para acabar em ambiente algo crepuscular [151].

Éramos talvez umas vinte pessoas na sala, falávamos a respeito de uma coisa e outra, e chegou a se comentar de raspão, qualquer coisa sobre a política do Concílio em face do comunismo [152].

Aí eu interpelei Monsenhor Roberto Ronca, o mesmo que havia publicado a Carta Pastoral de Dom Mayer na Itália. Ele participava dessa reunião.

Monsenhor Ronca era um homem bem inteligente. Alto, gordo, corado, quinquagenário, com restos de cabelo louro de cá ou de acolá pela fronte, mas com um olhar de homem que sabia fazer as contas e espírito positivo. Um varão, realmente.

Eu disse a ele:

— Monsenhor, eu queria fazer a seguinte pergunta: se os russos, amanhã, descerem na Itália e oferecerem a liberdade religiosa em troca da renúncia da Igreja em ensinar o princípio da propriedade privada, a Igreja pode aceitar esse oferecimento? Se ela aceitar, completei, acabou o regime de propriedade privada na Itália e está implantado o comunismo. E então, pobre Itália!

Como eu tinha falado isso em voz alta, e num momento em que a conversa ia morrendo, essa minha pergunta determinou um silêncio geral. Tanto mais que era um “xeque”. Não foi um “xeque ao rei” mas um “xeque ao Arcebispo” [153].

Silêncio geral! Por fim, um deles acabou dizendo: “É certo que o Papa, nesse caso, não sairá do Vaticano”, como que me respondendo.

Eu amavelmente disse que isso respondia a um ponto dentro de um círculo. Mas o que seria preciso saber é o que fariam todos os Bispos do mundo numa hipótese dessas, que diretrizes teriam: só a diretriz de não saírem de suas dioceses? E, nesse caso, a atitude seria ficar e falar, ou ficar e calar? Esta era a questão [154].

Aí o Arcebispo de Pompéia (Monsenhor Ronca) olhou para mim e disse: “Não sei, não sei... É um problema importantíssimo. Mas o que o senhor quer, professor: nós, aqui na Itália, vivemos tão ocupados com tantos problemas, que não temos tempo de estudar esses assuntos que os senhores, na América do Sul, numa vida muito mais tranqüila do que a nossa, têm.

Eu pensei com meus botões: “Está bem, então vou publicar um estudo a esse respeito, que mandarei para eles e para todos os semelhantes a eles. Porque estou notando um vácuo dentro disso que não disfarça convenientemente a falta de coragem de tratar do assunto, e de tomar, caso o problema se ponha, a atitude valente que é preciso ter. Vou entrar dentro dessa questão”.

4. Conversas com Monsenhor Ivan Bucko e Monsenhor Józef Gawlina

Ainda em Roma, procurei conhecer nessa ocasião outros escaninhos eclesiásticos, os mais diversos.

Fotograma de filme de 1964 por ocasião da visita de Mons. Ivan Bucko  a  uma exposição  sobre a " Igreja mártir" no mundo comunista, criada pelo pároco de uma paróquia romana. Monsenhor Bucko foi ele próprio um refugiado da perseguição da Igreja na Ucrânia [Arquivo histórico de Luce Cinecittà].

Por exemplo, Monsenhor Ivan Bucko [155], posteriormente elevado pela Santa Sé à dignidade de Visitador Apostólico dos ucranianos da Europa ocidental.

Tive ocasião de o conhecer em Roma, em 1962 [156], num seminário ucraniano situado em local muito bonito e com um nome muito pitoresco: Passegiata del Gianicolo.

O Gianicolo é um monte com todas as recordações da história romana. Passegiata é passeio, mas um passeio alegre, despreocupado. E nesse lugar eu arranjei um jeito de saber como estava o mundo pelos lados da Ucrânia e de notícias de detrás da Cortina de Ferro.

Colocando o mesmo problema para ele, ele me disse:

— Professor, eu gostaria de saber resolver, mas é uma questão muito embrulhada.

Eu perguntei:

— Então não seria útil que alguém fizesse um estudo sobre ela?

— Seria utilíssimo. Seria um grande serviço à causa da Igreja.

Eu disse: “Está bom”, mas não falei com ele sobre o meu desígnio de o fazer.

*   *   *

Conheci também nessa ocasião outro Monsenhor que tinha sido diretor geral das Congregações Marianas e que inclusive havia estado no Brasil. Eu não o conhecia. Era um polonês, Monsenhor Gawlina [157].

Ele tinha sido general no exército polonês durante a I Guerra. Posteriormente tornou-se sacerdote. Foi nomeado Bispo por Pio XII e morava na igreja polonesa de Roma.

Conversei com ele, levantei o mesmo problema, e ele deu a mesma resposta: é preciso que alguém faça esse estudo.

Então eu me decidi: “Eu vou fazer” [158].

Capítulo XI

A liberdade da Igreja no Estado comunista (1963): os soviéticos necessitavam da coexistência pacífica

1. A tática velha e a tática nova do comunismo

Que problemas eu tive de enfrentar para escrever esse opúsculo?

A maioria das pessoas não tinha a idéia clara de que o Partido Comunista não era uma agremiação de caráter político como as outras agremiações partidárias. E este era um erro que importava fortemente desmentir.

O comunismo não é sobretudo um partido político. Ele é um conjunto de pessoas que tem uma filosofia própria, a qual envolve uma visão do universo [159], da vida e do homem [160]. E esta filosofia quer configurar toda a cultura, toda a civilização todas as instituições — políticas, sociais e econômicas — segundo essa visão [161].

Os comunistas não querem simplesmente tomar o poder, como um partido político comum. Eles querem mudar completamente todo o estilo da vida humana e executar seu projeto em todos os países do mundo, sem nenhuma exceção [162].

Acontece que, desde 1917 até 1963, ano em que escrevi o livro, o comunismo havia fracassado, quer no Ocidente e no Oriente, no seu esforço de tentar persuadir. Tanto é que não tinham conseguido, até aquele momento, vencer nenhuma eleição livre.

Esse fracasso, entretanto, não era total. Ele tinha alcançado dois resultados muito importantes.

O primeiro deles fora o triunfo da conjuração modernista dentro da Igreja. O segundo, a criação de certa insensibilidade da burguesia em relação às reformas de base socializantes, o que amoleceu os obstáculos que ele encontraria na mentalidade ocidental.

Razão pela qual convinha aos comunistas conservar a velha tática de uma doutrinação explícita e marcada com um fundo de ameaça de violência, e ao mesmo tempo lançar mão de uma tática completamente nova, que foi a da coexistência pacífica.

2. Motivos russos para a política de distensão face à religião

Essa tática nova acentuou-se especialmente logo depois do Tratado de Yalta*.

* Realizada em fevereiro de 1945 na cidade de Yalta, na Criméia, a desastrosa Conferência de Yalta reuniu os chefes de Estado aliados da II Guerra, Roosevelt (Estados Unidos), Churchill (Inglaterra) e Stalin (URSS), na qual se estabeleceu a divisão do mundo do pós-guerra. O resultado mais catastrófico desse tratado foi a entrega vergonhosa, por parte dos países ocidentais, de várias nações da Europa oriental ao império soviético.

Quando Stalin voltou do encontro de Yalta, a primeira preocupação dele foi constituir uma igreja "ortodoxa" dirigida por eclesiásticos cismáticos que tinham se tornado comunistas pelo medo de morrer. Foi com representantes dessa igreja cismática que a Igreja Católica tratou por ocasião do Concílio Vaticano II.

Por que razão a Rússia adotou de repente essa atitude de distensão com os cismáticos?

Churchill, Truman e Stalin na conferencia de Potsdam

Pelo tratado de Yalta, completado depois pelos acordos de Potsdam, estabeleceu-se tácita ou expressamente (ninguém o sabe com precisão) que povos europeus — que gemeram depois sob a dominação comunista — seriam entregues à Rússia.

Mas Stalin percebeu que esse jugo iria criar para a Rússia um grande obstáculo estratégico.

Uma coisa é dominar um povo habituado há séculos ao domínio dos czares, o qual era um domínio absoluto, feroz. Outra, bem diferente, seria dominar povos civilizados hostis à Rússia, como o polonês, o alemão, o tchecoslovaco, o húngaro.

Se a Rússia não operasse certa distensão, não fizesse algumas tantas concessões no terreno religioso, estaria ameaçada por distúrbios para ela perigosos, porque no próprio território russo o comunismo não contava com muito apoio.

E essas foram as duas grandes razões que deram origem a essa manobra de distensão, dentro da Rússia em relação aos cismáticos, e fora da Rússia em relação aos católicos e cristãos em geral.

3. Polônia católica, país-chave na aplicação da coexistência pacífica

O ponto mais sensível para a nova política russa de distensão era a Polônia [163].

Além da Cortina de Ferro, o bloco católico mais compacto e influente era constituído pela Polônia, com seus trinta milhões de católicos.

Para se tornar efetiva, a dominação soviética encontrava dois obstáculos: a secular alergia dos poloneses ao colonialismo russo e, principalmente, a incompatibilidade entre a catolicíssima população polonesa e o regime marxista, o qual é, por definição, ateu, amoral e igualitário.

Tais obstáculos impunham para os comunistas de Moscou uma alternativa: colonizar mais uma vez a Polônia, sujeitando-a brutalmente a procônsules russos, e ao mesmo tempo desencadear no país uma perseguição religiosa neroniana; ou então conceder à nação um minimum de autonomia, governá-la por meio de comunistas poloneses e não russos, e ao mesmo tempo reconhecer à Igreja um minimum de liberdade, em condições tão precárias que, com o curso dos tempos, o comunismo conseguisse extinguir tanto a Fé quanto o sentimento nacional. Do contrário, a concessão desse minimum seria, para os soviéticos, uma capitulação [164].

No campo civil, o agente dessa nova política da Rússia foi o líder comunista polonês Gomulka.

Gomulka com Brezhnev em 1967

Assumindo o governo polonês, Gomulka deu à Polônia um pouco de independência do ponto de vista de impostos, de organização política, e um pequeno tanto de liberdade à Religião.

Ele apresentava aos católicos poloneses a seguinte tese: “Para não perderem o pouquinho que têm, apóiem-me em vez de me combater. Se eu cair, entram os russos para governar” [165].

Vendo a situação exatamente com os mesmos olhos do que seus opositores comunistas, Monsenhor Wyszynski teria optado por aceitar esse minimum [166].

Ele simplificadamente sustentava a seguinte posição: “Na situação infeliz em que a Polônia caiu, nós não podemos querer o bem maior, só podemos pensar no mal menor. O mal absoluto é a extinção da liberdade. O mal menor é Gomulka”.

E foi assim que uma grande parte do Episcopado polonês se incumbiu de desmoralizar e de reprimir severamente os católicos anti-Gomulka e anticomunistas que aparecessem.

*   *   *

Havia ainda outro argumento alegado para sustentar essa política: “Se fizermos um levante contra a Rússia, os povos do Ocidente obrigarão os respectivos governos a entrarem de nosso lado. Isto cria o perigo de uma guerra termonuclear. É melhor, portanto, a Polônia abaixar a cabeça e aceitar a servidão para evitar para o mundo essa guerra termonuclear”.

O resultado que veio desse cálculo foi a efetiva política de coexistência que se estabeleceu na Polônia: o governo polonês não dava mostras de querer extinguir a Igreja, a não ser muito remotamente. E a Igreja não tentava libertar-se do comunismo, a não ser muito remotamente também. E com isto cada um permanecia ao lado do outro, colaborando.

Esses argumentos eram válidos não só para a Polônia: com pequenas alterações valiam para o mundo inteiro.

Criou-se então no Ocidente a idéia de que um arranjo com os comunistas era uma coisa possível. Nos países onde eles dominassem, mais valia a pena não lutar, para salvar o pouco que se pudesse salvar. E assim a problemática polonesa acabou tendo uma repercussão no mundo inteiro.

4. Silêncio da Igreja, compromisso moralmente inaceitável

O que Gomulka pedia como troca aos católicos?

Ele afirmava que se suicidaria politicamente se permitisse aos católicos desenvolver uma pregação normal e sistemática a favor da propriedade privada.

Então ele pedia aos católicos poloneses em matéria de propriedade privada, o mesmo que o Estado liberal pediu à Igreja em matéria de separação da Igreja e do Estado. Nos seminários católicos do Estado liberal ensinava-se que, em tese, melhor seria a união entre a Igreja e o Estado; mas que, na prática, hoje em dia era melhor a separação. E ai do leigo ou do padre que fosse fazer o elogio da união Igreja-Estado! Era preciso não ter nem saudades, porque as autoridades eclesiásticas liquidariam quem trabalhasse por sustentar essa tese.

A mesma coisa se deu na Polônia em matéria de propriedade privada. De acordo com os Mandamentos, em tese seria melhor que houvesse propriedade privada. Mas, na prática — diziam os partidários da coexistência — houve tantos abusos do capitalismo que acabou sendo preferível estabelecer a comunidade de bens.

Em termos simplificados, tudo o que em tese é bom, na prática é ruim; e tudo quanto na prática é bom, em tese é ruim. Ficava-se assim com uma Religião em tese, e uma prática comunista completamente diferente da tese que a pessoa defendia.

O resultado era que os católicos, ouvindo isto passivamente durante vinte anos, começariam a tomar como normal a existência da comunidade de bens e eliminariam de seu horizonte mental a propriedade privada.

Esta era, em suma, a fórmula polonesa de coexistência pacífica.

Foram estas as considerações que me levaram a escrever A liberdade da Igreja no Estado comunista, apontando o que nisso havia de errado [167].

Capítulo XII

A liberdade da Igreja no Estado comunista (1963): teses, difusão e polêmicas

1. Principais teses do livro

Em meu ensaio, procurei frustrar essa manobra já em 1963, mostrando que é intrínseco ao regime comunista eliminar ou mutilar muito gravemente o instituto da propriedade privada, o que, por sua vez, é contrário à doutrina da Igreja [168]. Nenhum Cardeal, nenhum Bispo, nenhum sacerdote, nenhum fiel que queira manter a sua alma isenta de pecado, pode aceitar esse acordo, porque ele é imoral. [169].

Para ser fiel à sua missão, a Igreja não poderia deixar de combater tal regime, ainda que este lhe reconhecesse inteira liberdade de culto. Tal combate criaria um inevitável conflito entre os católicos e qualquer Estado comunista [170].

O opúsculo lançava, pois, uma divisão intencional no meio católico, entre os que queriam dobrar o joelho diante da Besta, e os que diziam: “Jamais aceitaremos tal acordo, sejam quais forem as conseqüências”.

Isto criava uma grande dificuldade no meio dos teólogos, dos moralistas, do Episcopado e em toda a opinião pública.

Se houvesse uma estirpe de católicos devotos de Nossa Senhora e resolvidos a aceitar a tese de A liberdade da Igreja no Estado comunista, esses iriam para a clandestinidade, para as catacumbas, iriam morrer mártires, mas assegurariam a aurora da Igreja e do Reino de Maria no dia de amanhã.

2. Uma noite para redigir o livro

Eu estava ainda em Roma quando escrevi, numa só noite, a maior parte desse ensaio. Amanheci com o ensaio essencialmente pronto.

Vim com ele para o Brasil, e cheguei à conclusão de que ainda não era o momento de o publicar. Ele passou seis ou oito meses engavetado.

Depois pareceu-me chegado o momento. E então publiquei-o cerca de um mês antes da segunda sessão do Concílio*.

* Estampado inicialmente em Catolicismo n° 152, de agosto de 1963, foi depois reproduzido no jornal italiano Il Tempo (4/1/64) e teve edições em português, espanhol, francês, inglês, alemão, italiano, húngaro e polonês. Essas sucessivas edições atingiram mais de 163.500 exemplares. Mais tarde foi ampliado e tomou o novo título de Acordo com o regime comunista: para a Igreja, esperança ou autodemolição? Foi ainda transcrito na íntegra em 40 jornais ou revistas da França, Alemanha, Itália, Estados Unidos, Espanha, Portugal Argentina, Chile, México, Colômbia, Bolívia e Angola, além do Brasil.

3. Os 2.500 Padres conciliares recebem a obra

Pedi ao nosso secretariado de Roma espalhar esse estudo a todos os 2.500 Prelados presentes a essa segunda sessão do Concílio.

Em resposta, recebi cartas elogiosas de alguns Bispos, mas pouco numerosas*.

* Entre essas, as dos Cardeais Eugenio Tisserant e Alfredo Ottaviani, então secretário da Sagrada Congregação do Santo Ofício; Norman Thomas Gilroy, Arcebispo resignatário de Sidney (Austrália); Sua Beatitude Paul II Cheicko, Patriarca de Babilônia dos Caldeus e alguns outros Prelados.

Lembro-me, por exemplo, de um Bispo do rito caldeu, de uma nação dominada pelos comunistas na Ásia Menor. Era uma carta excelente, pedindo-me para mandar o ensaio a todo o seu Clero, para eles aprenderem qual era o seu dever sob a ocupação comunista.

De Bispos brasileiros, não recebi praticamente nenhuma carta.

Enviamos depois o estudo a um número enorme de revistas. Um comentário excelente saiu na revista teológica de grande porte Divus Thomas, de Piacenza (Itália), que se solidarizou com as nossa teses*.

* Tal publicação se deu na edição de abril-setembro de 1964 da revista.

O estudo foi também reproduzido na íntegra em mais de trinta jornais e revistas de onze países diferentes. Bastante sintomático foi o fato de a revista Informations Catholiques Internationales, de orientação caracteristicamente progressista, sentir a necessidade de publicar uma resenha do trabalho.

4. Inesperada Carta de louvor da Santa Sé

Dom Mayer, a pedido nosso, havia oferecido o livro a todas as Congregações Romanas. E veio, de um modo totalmente inesperado, uma excelente carta da Sagrada Congregação dos Seminários e Universidades da Santa Sé [171]. A carta era dirigida a Dom Mayer.

Fac-símile da carta de aprovação da Santa Sé ao livro A Liberdade da Igreja no Estado Comunista [Clique sobre a figura para ler a tradução da carta]

Lembro-me até hoje que estávamos fazendo uma reunião na sede da rua Pará, quando me disseram que Dom Mayer me chamava ao telefone. Fui atender, ele conversou um pouco comigo, contou vários casos e no fim me disse:

— Veja, tenho aqui comigo uma carta do Cardeal Pizzardo que lhe diz respeito.

— Mas como uma carta do Cardeal Pizzardo, Dom Mayer?

— Eu vou ler.

E leu então a carta do Cardeal Giuseppe Pizzardo, Prefeito da referida Congregação, a qual também vinha assinada pelo secretário, futuro Cardeal Dino Staffa, aprovando o meu livro [172].

Eu fiquei satisfeitíssimo! Porque eu esperava tudo, menos aquela carta [173].

Pedi a Dom Mayer que ditasse o texto pelo telefone e comuniquei ao plenário. Depois ele mandou um emissário de Campos para São Paulo, especialmente para trazê-la [174].

Essa carta da Santa Sé furava de fato o paredão, e pareceu-nos intencionalmente calculada para isto. Ela declarava, em nome de um alto órgão da Santa Sé, que a nossa tese era inteiramente ortodoxa*.

* A carta, datada de 2 de dezembro de 1964, afirmava que o autor era “merecidamente célebre pela sua ciência filosófica, histórica e sociológica”, e cumprimentava-o pelo “denso opúsculo, que é um eco fidelíssimo dos Documentos do supremo Magistério da Igreja, inclusive as luminosas Encíclicas ‘Mater et Magistra’ de João XXIII e ‘Ecclesiam suam’ de Paulo VI, felizmente reinante”.

Para um católico que ama a Igreja, este é o maior elogio que pode receber de uma alta autoridade eclesiástica.

Muito significativamente, essa carta dizia ainda no seu final: “Queira o Senhor conceder a todos os católicos que compreendam a necessidade de estarem unidos ‘in uno sensu eademque sententia’ a fim de evitar as ilusões, os enganos e os perigos que hoje ameaçam internamente a sua Igreja!”

Assim noticiou o "Catolicismo" nº 173 de maio de 1965 o lançamento em público dos estandartes da TFP

Ou seja, quem escreveu a carta conhecia muito bem “as ilusões, os enganos e os perigos” da política de concessão ao comunismo que serpeavam internamente na Igreja. E apoiava o autor por denunciá-los.

A importância dessa carta para as nossas consciências e para angariar o apoio de pessoas a favor de nossas teses foi simplesmente incalculável [175]. Era de fato uma carta de alto e irrestrito apoio e aprovação [176]. Era um impacto para nossos adversários ver que TFP, soi disant mal vista pela autoridade eclesiástica, recebia uma segunda carta de elogio da Santa Sé (a primeira tinha sido a relativa ao livro Em defesa da Ação Católica)* [177].

* Ainda com relação às campanhas de difusão do livro A Liberdade da Igreja no Estado Comunista, cumpre registrar um fato altamente simbólico. Foi durante a divulgação da 3ª edição desse livro, que pela primeira vez tremularam em público os estandartes da TFP, rubros e marcados com o leão dourado, em campanha em pleno Viaduto do Chá, no centro de São Paulo. Era o dia 30 de março de 1965.

5. Kierunki: polêmica atrás da Cortina de Ferro

Nesse ínterim, emergiu a nossa polêmica com o semanário católico-esquerdista Kierunki, deixando patente que o estudo havia repercutido atrás da Cortina de Ferro.

Este semanário Kierunki, bem como o mensário Zycie i Mysl, ambos poloneses, atacaram violentamente A liberdade da Igreja no Estado comunista. A polêmica começou quando o Sr. Zbigniew Czajkowski, colaborador destes dois periódicos, publicou extensos artigos contra meu ensaio. Respondi através das páginas de Catolicismo [178].

Daí se seguiu uma polêmica, na qual interveio em apoio à minha obra o periódico L’Homme Nouveau, de Paris, pela pena de seu colaborador Henri Carton, enquanto Témoignage Chrétien — turbulento órgão comuno-progressista francês — se colocava ao lado de Czajkowski [179].

Por sua vez, o Sr. Tadeusz Mazowiecki [180], redator-chefe do mensário Wiez e deputado do grupo católico Znak à Dieta polonesa, publicou em sua revista (n° 11-12 de novembro/dezembro de 1963), em colaboração com o Sr. A. Wielowieyski, um artigo que procurava ser uma réplica ao estudo [181].

*   *   *

Até hoje não sabemos o que motivou essa polêmica [182].

Devido à Cortina de Ferro, nosso estudo não pode ter penetrado torrencialmente na Polônia. E para que um jornal tivesse que refutá-lo, pode-se presumir que ele entrou levado por alguém que fez dele uma edição clandestina em polonês e que lá essa edição tenha causado perturbação nos meios católicos colaboracionistas. Daí a necessidade de o jornal Kierunki tratar da questão [183].

O fato concreto é que nosso ensaio difundiu-se enormemente. Foram preparadas edições e traduções em diversas línguas. E a TFP as espalhou por toda parte.

Cumprimos a nossa missão, dissemos a verdade que tinha de ser dita e a disseminamos amplamente. Cabia agora a outros darem conta perante Deus do que puderam ler e não tiraram proveito [184].

*   *   *

Vinte anos depois de publicado nosso ensaio, surgiram minorias dentro do Episcopado de várias partes do mundo que, antevendo o problema da coexistência com o comunismo, propuseram-se resolvê-lo do pior modo. Houve eclesiásticos que pregaram o desarmamento nuclear unilateral das nações do Ocidente utilizando como lema: “Melhor vermelho do que morto”. O que significava: “É melhor ficar comunista do que ser morto”. Melhor portanto nos entregarmos.

Nos Estados Unidos, representantes dessa minoria episcopal sustentavam a seguinte tese: "A Rússia não se desarmará. Se nós não nos desarmarmos, será a guerra atômica. Ora, guerra atômica é um mal tão grande, que é melhor que a Rússia tome conta dos Estados Unidos. De maneira que nós vamos trabalhar pelo desarmamento unilateral dos Estados Unidos do ponto de vista atômico”* [185].

* Outro fato clamoroso nessa linha: perante o Sínodo Mundial dos Bispos reunido em Roma em 1977, o Arcebispo de Saigon, Monsenhor Nguyen Van Binh, explicou aos Bispos presentes que, sendo “impossível esconder dessas crianças vietnamitas as diferenças entre o marxismo e o cristianismo”, é preciso “explicar essas diferenças ‘não com uma atitude de oposição’ ao marxismo, mas num sentido de justiça”. E acrescentou que aos dominadores comunistas do Vietnã, “devemos mostrar uma nova face, a verdadeira face da Igreja” e “cooperar ativamente” com o governo (cfr. artigo O Arcebispo de Ho Chi Min, Folha de S. Paulo, 9 de outubro de 1977). E o mais surpreendente é que essa atitude subserviente da tal Igreja colaboracionista vietnamita não despertou nenhum protesto entre os 204 Prelados presentes ao Sínodo.

Pelo contrário, aqui no Brasil, a Regional Sul II da CNBB fez um pronunciamento em que procurava mostrar que o Episcopado e os fiéis brasileiros se devem inspirar na conduta colaboracionista da Igreja vietnamita, caso o comunismo tome conta do Brasil. Dizia: “A disposição da Igreja vietnamita leva a crer que ela não está apenas fazendo uma ‘tentativa’ de coexistência com o regime comunista. [...] Nesse momento, quem sabe, essa Igreja dos confins da Ásia nos dará o primeiro exemplo de como a Igreja pode existir e agir eficazmente na sua missão salvadora, sob um regime de ‘ditadura do proletariado’“ (cfr. “Voz do Paraná”, hebdomadário católico de Curitiba, semana de 25 de abril a 1° de maio de 1976. Dr. Plinio transcreveu essa declaração em seu livro A Igreja ante a escalada da ameaça comunista — Apelo aos Bispos Silenciosos, Ed. Vera Cruz, São Paulo, 4ª edição, 1977).

Capítulo XIII

“Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo” (1965): conteúdo e repercussões

Capas de várias edições do "Diálogo" [ para aceder ao texto do livro, em várias línguas, clique sobre a foto]

 

1. O que me levou a escrever este ensaio: torção da palavra “diálogo”

Dois anos depois de sair a público A liberdade da Igreja no Estado comunista, escrevi outro livro que de certo modo tinha relação com o primeiro. A ele dei o título de Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo.

A idéia de escrever este ensaio nasceu de uma pequena circunstância.

De há muito soavam falso a nossos ouvidos os múltiplos empregos que em certos meios vinham sendo dados à palavra diálogo.

Sentíamos a necessidade, veemente como se fora um imperativo de consciência, de protestar contra essa transgressão das regras da boa linguagem.

Aos poucos, impressões, observações, notas colhidas aqui e acolá, iam criando em nossa mente a sensação de que essa multiforme torção da palavra diálogo tinha uma lógica interna que deixava ver algo de intencional, de planejado e de metódico.

E que esse algo abrangia não só essa, mas outras palavras usuais nas elucubrações dos progressistas, socialistas e comunistas, como sejam pacifismo, coexistência, ecumenismo, democracia-cristã, terceira-força etc.

Essa torção, segundo se nos tornava claro pela observação, se fazia sempre num mesmo sentido: o de debilitar nos não comunistas a resistência ao comunismo, inspirando-lhes um ânimo propenso à condescendência, à simpatia, à não-resistência e até ao entreguismo. Em casos extremos, a torção chegava até o ponto de transformar não comunistas em comunistas.

2. Denúncia da tática da baldeação ideológica inadvertida

Este meu ensaio procurava demonstrar que o deslizar da sociedade ocidental e cristã, de uma posição esquerdista para outra com rumo final para o marxismo, era um fenômeno antigo e profundo. Constituía ele, por sua própria essência, uma baldeação ideológica mais ou menos inadvertida, que essa sociedade cristã vinha lamentavelmente realizando, ao longo de séculos, em direção do comunismo.

Nesta perspectiva, pois, o fenômeno não era novo.

Novo entretanto era o aspecto que ele assumia em razão do empenho todo especial que aqui e acolá certos círculos desenvolviam para imprimir a esse processo, por meio de artifícios diversos, uma velocidade sem precedentes.

Por outro lado, tratava-se não mais de obter que esse deslizar se operasse por etapas, do centro para a esquerda, ou de uma esquerda moderada para outra um pouco mais ousada, mas do centro ou da esquerda moderada para uma ordem de coisas que, em seu conteúdo, era categoricamente comunista.

Não só, pois, pelos já referidos artifícios modernos com que era provocado, mas também enquanto drástica, próxima e até imediatamente tendente ao marxismo, e enquanto marcado por uma celeridade e uma afoiteza sem precedentes, em proveito direto do comunismo, é que tal processo apresentava uma nota nova, um tom de um rubro intenso que outrora nele mal se entrevia.

Nova, sobretudo, era a baldeação ideológica inadvertida enquanto, de colateral que era, se tornou preponderante na tática usada pelo comunismo com vistas à conquista ideológica do mundo [186].

O livro mostrava também por que forma os comunistas se valiam do diálogo para debilitar sub-repticiamente a resistência ideológica de seus adversários, e especialmente a dos católicos.

O assunto aí versado é por demais sutil e extenso para sequer ser resumido aqui.

Uma das observações mais importantes - de ordem prática - contidas nesse estudo era que, por meio do falso diálogo, os comunistas não visavam tanto alcançar dos católicos que renunciassem explicitamente à Fé, mas que aceitassem uma interpretação relativista e evolucionista da doutrina católica.

Assim, corrompia-se a Fé, que por sua natureza exige uma certeza incompatível com o estado de dúvida inerente ao relativismo e ao evolucionismo. E, alcançado esse resultado, não era difícil à propaganda comunista induzir os católicos a esperar do diálogo com o comunismo o encontro de uma síntese... a qual bem poderia ser, em último termo, o mesmo comunismo com outra roupagem [187].

3. Chile: apreensão do livro pela polícia democristã de Frei

Falo agora de uma repercussão sobre o livro, acontecida quatro anos depois.

Em agosto de 1969, dois telegramas publicados na imprensa diária relatavam uma estranha atitude do governo chileno de Eduardo Frei face ao meu ensaio Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo.

Eu tinha publicado esse estudo primeiramente no Brasil. E por toda a parte circulou ele, criticado por uns, aplaudido por outros, sem qualquer impedimento de autoridades de qualquer natureza. Nada mais normal na vida de um livro, especialmente quando da natureza deste*.

* O livro teve uma expressiva divulgação: quatorze edições, sendo cinco em português, seis em espanhol, uma em italiano, uma em alemão e uma em inglês. Ao todo, 132,5 mil exemplares. O trabalho foi transcrito integralmente em sete jornais ou revistas de cinco países (cfr. Um homem, uma obra, uma gesta, cit.).

[Nota do Site: o texto completo das edições em Português, Espanhol, Inglês, Alemão e Italiano pode ser consultado aqui].

Acontece que a editora argentina Cruzada tinha enviado pouco antes, para serem colocados no Chile, cerca de duzentos exemplares desse meu estudo. E ficou surpresa ao saber que a alfândega chilena apreendera os volumes [188].

Passei então ao presidente Eduardo Frei um telegrama de protesto contra a arbitrariedade dos prepostos aduaneiros de seu governo. E ele, com uma grandeur à De Gaulle (só permissível aliás aos pouquíssimos mortais que têm o passado do discutido ex-presidente francês) não se dignou responder-me...

Publiquei então o meu telegrama na imprensa brasileira.

Dias depois, um porta-voz do governo chileno declarou à Associated Press quais as razões da medida. Ao lê-las na imprensa brasileira, não pude deixar de sorrir, tais eram as suspicácias demonstradas pela Gestapo alfandegária montada pelo regime pedecista chileno.

Eu tinha — afirmava o porta-voz — "ostensivo e estreito contato" com o Sr. Fábio Vidigal Xavier da Silveira, autor do livro Frei, o Kerensky chileno. Ora, este livro fora considerado "insultante" a Frei e à democracia cristã chilena pelo governo daquele país. Logo, meu livro, creio que por osmose, poderia também ser "insultante" contra o melindroso Chefe de Estado e sua grei.

Ver injúrias onde não existem, desconfiar de um livro só porque seu autor é amigo do autor de outro livro do qual não se gosta: não cheiravam a Gestapo esta susceptibilidade, esta desconfiança superexcitada, esta prontidão em adotar medidas policialescas?

Acrescentava o referido funcionário do governo do Chile: a TFP andina movia "violenta" oposição ao governo desse país. E, em conseqüência, a alfândega chilena se julgava no direito de apreender meu livro.

Pouco depois veio do Chile outro telegrama anunciando, gravemente, que meu livro fora analisado pelos poderes chilenos, e, comprovado seu caráter meramente ideológico, se lhe permitia circular... [189].

*   *   *

Vinte anos depois de lançado, esse livro teve ainda uma repercussão muito significativa.

A revista semanal chilena Hoy certo dia publicou [190] uma fotografia da mesa de reunião de Pinochet com os ministros dele. E diante de cada ministro havia uma pasta. Em cima de cada pasta, accessível a todas as fotografias, aparecia um exemplar de Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo. Não havia outros papéis. Era o único tema a estudar. E via-se que era a Presidência da República que mandava distribuir [191].

4. Também este livro transpôs a Cortina de Ferro

Tal como o livro A liberdade da Igreja no Estado Comunista, Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo transpôs a Cortina de Ferro.

No mesmo semanário Kierunki que havia se ocupado do livro A liberdade da Igreja no Estado comunista, o Sr. Z. Czajkowski escreveu artigo com um título bastante singular: No círculo de uma mistificação psicológica, ou seja, de uma polêmica com o Professor Plinio Corrêa de Oliveira — continuação*.

* Esse artigo foi publicado em Kierunki nos números 51-52 e 53 do ano de 1967.

Anteriormente, ao tomar posição contra A liberdade da Igreja no Estado comunista, o Sr. Z. Czajkowski fizera questão de enviar-me seus argumentos contra o livro que pretendia refutar.

Desta feita, entretanto, só tomei conhecimento de sua nova investida através de uma notícia publicada em uma revista polonesa editada em Varsóvia pela Associação Pax*.

* Esta revista chanava-se La Vie Catholique en Pologne - Revue de la Presse Polonaise, de janeiro de 1968.

Tal revista, destinada a informar (ou desinformar?…) o público ocidental sobre a vida religiosa naquele país e, particularmente, sobre as atividades do grupo Pax, só por acaso chegou às minhas mãos, e assim mesmo com um atraso enorme. O Sr. Z. Czajkowski desta vez não havia tomado providências para que sua argumentação chegasse à parte contrária.

Ele tinha lá suas razões para isso: a fim de melhor rebater este meu ensaio, adulterou pura e simplesmente, com a maior desfaçatez, diversos trechos que quis refutar! [192]

Capítulo XIV

A batalha contra o divórcio e a derrocada da família

1. A indissolubilidade do vínculo conjugal na Constituição de 1934

O preceito constitucional da indissolubilidade do vínculo conjugal havia sido introduzido na Constituição de 1934. E tive a alegria e a honra de ser, como deputado da Liga Eleitoral Católica, na Chapa Única por São Paulo Unido, um dos batalhadores mais entusiásticos em prol dessa grande vitória católica.

Por ela batalhou com sagacidade e empenho o Cardeal Sebastião Leme. Dispunha este do apoio dos muito numerosos deputados sufragados pela LEC no Brasil inteiro. Foi coordenando-os e estimulando-os que ele nos conduziu todos ao êxito.

Foi isto em 1934. À testa do Episcopado nacional havia um Dom Leme. E no Brasil havia uma LEC estuante de vitalidade [193].

2. O divórcio no projeto de Código Civil de 1966 gerava uma questão de consciência

Em 1966, houve uma tentativa de abalo dessa inviolabilidade do matrimônio. E a TFP iria entrar em uma batalha vitoriosa em defesa da instituição da família, contra o divórcio.

O governo federal apresentou um projeto de novo Código Civil, por achar que o antigo, de 1917, era velho. Não era nada velho. Era uma lei de 1917 que estava inteiramente em vigor. O Código era menos velho do que o Presidente da República que estava governando o País*.

* O presidente Castelo Branco havia nascido em 1897...

Constituí então, dentro da TFP, uma Comissão de Estudos composta por advogados do nosso grupo para estudar esse projeto. E eles chegaram à conclusão de que este era péssimo, inclusive na parte referente à propriedade privada.

O projeto era, portanto, socialista. Mas o que nele havia de pior era o divórcio, introduzido de maneira sorrateira em um dos seus artigos.

Nós considerávamos que a liberação do divórcio traria um mal imenso ao Brasil.

Em primeiro lugar, porque em si é uma violação da Lei da Igreja [194].

Segundo a doutrina católica tradicional, o casamento e a família se fundam em princípios inerentes à natureza humana. Dado que Deus é o autor do universo e do homem, tais princípios são a expressão da vontade divina. Por isto mesmo se consubstanciam eles em três Mandamentos da súmula perfeita do direito natural, que é o Decálogo: IV — Honrar pai e mãe; VI — Não pecar contra a castidade; IX — Não desejar a mulher do próximo.

É nestes preceitos, imutáveis como tudo quanto constitui ordenação fundamental da natureza humana, que se baseiam a família, o casamento, a unidade e a indissolubilidade do vínculo conjugal, o pátrio poder.

Da lei feita por Deus, só Deus pode dispensar. Nenhuma lei humana — ainda que ela seja eclesiástica — pode mandar validamente o contrário do que Deus preceituou.

Nosso Senhor Jesus Cristo elevou à dignidade de Sacramento o contrato matrimonial, conferindo-lhe assim um título de indissolubilidade ainda mais augusto e vigoroso. De onde, até a consumação dos séculos, o casamento cristão será indissolúvel [195].

Em segundo lugar, seria um escândalo um país de imensa maioria católica ter uma lei divorcista. Por causa do número incalculável de pecados a que a aprovação do divórcio daria lugar, esses pecados ofenderiam a glória de Deus, de um lado, e do outro teriam como efeito nocivo um castigo sobre a nação brasileira, um castigo de ordem religiosa e moral.

Era, portanto, para mim e para a TFP, uma questão de honra e uma questão de consciência fazer todo o possível para evitar que o divórcio entrasse.

3. Idéia da Pastoral coletiva contra o divórcio: frieza dos Bispos

Antes de sair à luta nas ruas, tentamos nos bastidores impedir a campanha divorcista.

Em abril de 1966, a pedido meu, Dom Mayer e Dom Sigaud fizeram sondagens junto aos Bispos para ver se eles estariam de acordo em publicar uma Pastoral coletiva desaconselhando o divórcio.

Como a força eleitoral da Igreja no Brasil era enorme, se o Episcopado todo tomasse uma atitude antidivorcista, seria fácil os deputados se darem conta do risco da não-reeleição caso aprovassem o Código Civil divorcista. Isto tornaria a aprovação do divórcio muito difícil.

Infelizmente chegaram à conclusão de que o Episcopado não estava disposto a lançar essa Pastoral, a qual entretanto poderia salvar o Brasil do divórcio.

Diante dessa inação do Episcopado, só tínhamos uma coisa a fazer: lançarmo-nos na campanha contra o divórcio.

A TFP era pequena naquele tempo. E tínhamos que tentar evitar um mal enorme, em circunstâncias particularmente difíceis. Pois, a favor do Código Civil divorcista, consciente ou inconscientemente estavam engajados os elementos mais influentes da nação brasileira: o presidente de república, Marechal Castelo Branco, que gozava naquele momento de um enorme prestígio; grande parte da imprensa, dos meios intelectuais e dos meios políticos; e até, a seu modo, a cúpula do Episcopado nacional.

Todas essas forças estavam engajadas de um modo ou de outro em fazer aprovar o Código Civil, no qual encontrava-se embutido o divórcio.

A situação para nós era crítica, mas tínhamos de ser fiéis ao nosso lema que é Tradição, Família e Propriedade. Não podíamos cruzar os braços.

4. Pródromos da campanha

O primeiro marco da campanha foi uma entrevista que eu dei ao Jornal do Brasil*

* Essa entrevista, publicada naquele matutino carioca na data de 24 de abril de 1966, sob o título O novo Código é dissolvente, foi posteriormente transcrita por bom número de jornais brasileiros.

Como os promotores do divórcio estavam querendo um debate rápido, sem dar tempo à opinião antidivorcista de se organizar, enviei um telegrama ao presidente da Câmara dos Deputados solicitando o adiamento da votação do projeto por um ano, para permitir debates sobre a matéria*.

* O telegrama era datado de 29 de maio de 1966.

E divulguei esse telegrama pelos jornais, argumentando que o Código Civil anterior havia levado anos para ser aprovado, e que era um absurdo querer aprovar de afogadilho um projeto tão importante.

5. O “Apelo aos altos poderes civis e eclesiásticos em prol da família brasileira” — A TFP nas ruas

Simultaneamente começamos uma campanha de rua consistente em colher assinaturas para um abaixo-assinado pedindo ao governo não introduzir o divórcio no Brasil*.

* Esse abaixo-assinado, que se iniciou no dia 2 de junho de 1966, constituiu um “Apelo aos altos Poderes civis e eclesiásticos em prol da família brasileira” e solicitava dos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados a retirada do projeto da pauta de votação; e do Presidente da República que designasse uma comissão para elaborar um texto de espírito diametralmente oposto, colocando-o em debate público.

Apelava também ao Venerando Episcopado Nacional “que faça ouvir sua grande e poderosa voz” para barrar o divórcio no Brasil.

Pareceu-me conveniente começar a campanha no ponto mais movimentado de São Paulo, que era naquela época o Viaduto do Chá, no qual desembocava a rua Barão de Itapetininga, funil por onde passava São Paulo inteiro na hora das compras.

Naquele tempo, era a parte mais trepidante da vida da cidade e um centro de mundanismo intenso.

Assim, com pranchetas, mesinhas e cartazes nos quatro cantos do Viaduto, levantando grandes estandartes com o leão rompante, e usando flâmulas com este símbolo na lapela, 80 sócios e cooperadores da TFP abordavam as pessoas nesse trajeto.

Mandei também colocar uma banca perto da Faculdade de Direito, um centro universitário tido como divorcista, para começar a campanha com audácia.

A campanha foi lançada ao mesmo tempo no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte.

O resultado excedeu largamente o que nós imaginávamos. A meta era de 200 mil assinaturas para toda a campanha. No primeiro dia, nessas três cidades, tínhamos alcançado 60 mil!

Desta forma, com pasmo para muitos, as pessoas das ruas que poderiam numa primeira impressão parecer tão divorcistas, acorriam em quantidade para assinar as listas. Os cooperadores não tinham pranchetas suficientes para dar aos que queriam assinar.

Nesse dia, à noite, em reunião na nossa sede da rua Pará fizemos um balanço da campanha. O clima era de euforia geral, e todo mundo não cabia em si de surpresa e de alegria diante do trabalho que estava sendo executado.

Preveni então os nossos participantes de que certamente a imprensa iria fazer campanha de silêncio, e os jornais não noticiariam a campanha.

No dia seguinte foi tal e qual. A única notícia sobre o divórcio que saiu nos jornais falava de um grupo chamado Liga das Senhoras Divorcistas, que saiu às ruas para coletar assinaturas a favor do divórcio. Foi uma notícia tão chocha que, já no dia seguinte, não apareceram mais referências a elas. E essa Liga sumiu da história, volatilizou-se pelos ares. Da campanha da TFP, nenhuma notícia!

Campanha triunfal, com dezenas de bancas no centro da cidade, estandartes. São Paulo inteiro viu. Mas os jornais não disseram uma palavra!

6. Conferências antidivorcistas em São Paulo e Minas

Ainda em plena campanha, iniciamos uma série de conferências contra o divórcio. Convidamos como conferencistas desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo. O encerramento desse ciclo foi feito pelo ministro Pedro Chaves, do Supremo Tribunal Federal. Foi um acontecimento de grande repercussão nos meios forenses*.

* Foram seis dias de conferências (de 16 de junho e 4 de julho de 1966), todas realizadas no auditório da Federação do Comércio do Estado de São Paulo.

A sessão inaugural teve como presidente de honra o desembargador Raphael de Barros Monteiro, presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Os conferencistas foram, em dias alternados, os desembargadores Joaquim de Sylos Cintra, Alceu Cordeiro Fernandes, Raul da Rocha Medeiros Junior, Italo Galli, todos de São Paulo, e o ministro Pedro Chaves, do Supremo Tribunal Federal.

A Dr. Plinio coube a conferência sobre a continuidade familiar e a tradição no Código Civil brasileiro, ocasião em que dissertou brilhantemente sobre o sentido da “asseitas” para o ser humano. Falou também de improviso o desembargador Marcio Martins Ferreira, vice-presidente do TJ de São Paulo.

Acima, o prof. Plinio Corrêa de Oliveira discorre sobre o tema “A continuidade familiar e a tradição no Código Civil brasileiro”, tendo ao lado o Desembargador Martins Ferreira, Vice-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo

[clique sobre a foto ou no link acima para aceder ao texto completo - com áudio - da conferência]

A sala estava repleta. Quando o presidente do Supremo Tribunal Federal entrou conosco para fazer a sua conferência, ele e muitos magistrados manifestaram surpresa diante da quantidade e da qualidade das pessoas presentes.

As conferências foram um verdadeiro êxito. Aí a imprensa deu notícia.

O vice-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Marcio Martins Ferreira, falando em nome do TJ, solidarizou-se oficialmente com a campanha.

Oferecemos posteriormente um banquete aos conferencistas. Então, discurso, saudação, imprensa de novo.

7. Adesão de personalidades eclesiásticas

Tudo isto fez chover assinaturas nas ruas e a campanha foi aumentando de vulto. Ela se estendeu por todo o Brasil, e começaram a chegar notícias de assinaturas de personagens eclesiásticas e civis importantes.

Um cooperador da TFP, passando pelo fundo da Catedral, viu sair o Cardeal Agnelo Rossi, que era o Arcebispo de São Paulo e presidente da Comissão Central da CNBB. Esse nosso cooperador chegou com toda a candura para o Cardeal e disse: “Vossa Eminência é contra o divórcio? Quer assinar a nossa lista?”

No dia seguinte, nos jornais: “Cardeal Rossi assina lista da TFP”* [196].

* Assinaram também nossas listas alguns altos prelados: Dom Delfim Ribeiro Guedes, Bispo de São João del Rei, Dom Epaminondas José de Araújo, Bispo de Rui Barbosa, Dom Jerônimo Mazzarotto, Bispo Auxiliar de Curitiba e Dom Rodolpho das Mercês de Oliveira Pena, Bispo titular de Apollonis. Além desses, deram declarações de público apoio o Cardeal Arcebispo do Rio, Dom Jaime de Barros Câmara, Dom Geraldo de Proença Sigaud, Arcebispo de Diamantina, Dom Oscar de Oliveira, Arcebispo de Mariana, Dom José Angelo Neto, Arcebispo de Pouso Alegre, Dom Antonio de Castro Mayer, Bispo de Campos e Dom José Mauricio da Rocha, Bispo de Bragança Paulista.

A TFP divulgou depois os nomes de ilustres personalidades do mundo político, do Clero e das Forças Armadas que assinaram o apelo. Entre esses subscritores de nosso apelo havia dezenove desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo [197].

Quem também assinou nossas listas foi Pelé. E o fato serviu para mais propaganda. Então, notícia nos jornais:Pelé: eu chuto o divórcio.

8. Diante da pressão, governo retira o projeto

No dia 14 de junho de 1966, quando a campanha já caminhava para as 600 mil assinaturas, os jornais deram a inesperada notícia de que o governo mandara retirar o projeto de Código Civil [198].

No mesmo dia, os deputados Nelson Carneiro e Jose Maria Ribeiro apresentaram como projeto de sua própria iniciativa o texto que o Presidente da República retirara. E, na fundamentação de seu requerimento reapresentando o projeto, Nelson Carneiro declarou em expressos termos ter influído a fundo, para a retirada da propositura governamental, o abaixo-assinado da TFP [199].

Passei então telegrama a todos os grupos do Brasil dizendo que não interrompessem a campanha. E que deveríamos agora ir até um milhão de assinaturas, e antes do um milhão não deveríamos nos dar por contentes* [200].

* No dia 26 de junho, foi publicado na Folha de S. Paulo o manifesto A TFP e a investida divorcista no Brasil, assinado por Dr. Plinio e todo o Conselho Nacional em que eram brevemente historiados esses últimos episódios e enfatizada a necessidade de continuar a campanha.

9. CNBB ataca: “reverente e filial” resposta da TFP

Nesse meio tempo, uma surpresa bastante inesperada.

A Comissão Central da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunida no Rio de Janeiro, publicou no dia 17 de junho três comunicados simultâneos.

Um dos comunicados visava, de maneira severa e taxativa, a TFP.

Em doloroso contraste, os outros dois se referiam de modo ameno e benigno ao projeto de Código que sub-repticiamente introduzia o divórcio em nossa legislação, e ao MEB (Movimento de Educação de Base), por muitos havido como comunistizante.

Ora, era indubitável que a Comissão Central teve grande empenho em que o documento contra a TFP saísse no momento em que saiu, isto é, enquanto ia caminhando para o zênite a campanha antidivorcista.

Com efeito, segundo os estatutos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, as deliberações desta só podem ser tomadas por dois terços dos votos presentes na assembléia geral. Só em casos muito urgentes é que a Comissão Central pode manifestar-se em nome da assembléia geral sem a consultar [201]

Era um fato paradoxal: sermos censurados pela Comissão Central da CNBB durante uma campanha que desenvolvíamos contra o divórcio! E esta dava em seu documento razões confusas que ninguém entendia bem [202].

Inexplicável, também, é que, no dia 17 de junho, em seu conhecido e popular programa radiofônico A Voz do Pastor, tenha o ilustre Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara, declarado a respeito da mesma campanha: "Chegou-nos às mãos, um ‘Apelo’ formulado pela Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Perguntaram-nos: Podemos assinar esse apelo? — Pois não! Damos-lhe inteira cobertura nesta Arquidiocese. É preciso que as Autoridades Federais saibam que o povo da Guanabara, cariocas de nascimento ou aqui residentes, repudiam o divórcio e o aviltamento da família brasileira, desejando-a respeitadora da Lei de Deus" (Diário de Notícias, Rio, 18/6/66).

*   *   *

Escrevi, em data de 24 de junho, ao Sr. Cardeal Dom Agnelo Rossi, então presidente da Comissão Central da CNBB, uma carta, entregue por portador no Palácio Pio XII, na qual externava toda a surpresa e toda a dor que nos ia na alma em razão do ocorrido.

Esta mesma missiva acrescentava achar-se o Conselho Nacional da TFP na ignorância dos fatos em que se teria baseado a Comissão Central para publicar o comunicado contra a Sociedade. Mas adiantava que, comprovados eventualmente tais fatos, o Conselho não teria dúvida em por eles pedir desculpas à Comissão Central, bem como em tomar todas as providências para que eles não se repetissem.

Ao mesmo tempo, o signatário da carta afirmava, em nome do Conselho Nacional e no seu próprio, não estar resolvido a defender através da imprensa a TFP, e considerava ainda a hipótese de que um esclarecimento privado pudesse evitar tal extremo.

Essa missiva não obteve resposta da parte de seu ilustre destinatário.

*   *   *

Diante de uma campanha contra esta Sociedade que se foi agravando mais e mais do alto de certos púlpitos e nos tapaventos de certas igrejas, órgãos católicos iam reproduzindo, com crescente insistência, comentários injustos e rancorosos para com a TFP, a respeito do comunicado da Comissão Central.

Notadamente, O São Paulo, órgão oficial da Arquidiocese paulopolitana, publicado sob a direção do Sr. Bispo Auxiliar Dom José Lafayette Ferreira Álvares [203], estampou, na sua edição de 26 de junho, uma notícia insinuando caluniosamente que a medida da Comissão Central contra a TFP se devia ao fato de haver esta última lançado um comunicado contrário ao Sagrado Concílio Ecumênico Vaticano II, tachando de esquerdistas suas últimas decisões.

Tratava-se de uma calúnia, no sentido mais estrito da palavra. O comunicado aludido não existia, nem a TFP jamais cogitou de publicar qualquer documento neste sentido.

Fac símile parcial da publicação da "Filial Mensagem" em O Estado de S. Paulo [clique sobre o mesmo para aceder á reprodução completa]

Desde logo inteirado da informação caluniosa o Emmo. Sr. Cardeal Arcebispo de São Paulo, não foi ela retificada.

Todos esses fatos, somando-se gradualmente uns aos outros, e esgotados os recursos para evitar de publicar a sua defesa [204], redigi um documento que ficou conhecido entre nós como a “Filial Mensagem” [205].

Este documento, que tomava uma página inteira de O Estado de S. Paulo (edição de 26/7/66), representou a primeira atitude oficial da TFP enquanto tal mostrando que a autoridade eclesiástica estava caminhando resvaladeiro abaixo. De maneira que teve um caráter simbólico em nossa história [206]. Punha os pingos nos “is”, pois mostrava todas as incongruências do Episcopado [207] na atitude que havia tomado.

Se todos os antidivorcistas do Brasil combatessem o divórcio segundo o diapasão do comunicado da Comissão Central, era de se temer que a indissolubilidade do vínculo conjugal estaria vivendo seus últimos dias no Brasil.

No momento em que o comunicado saiu, a TFP já estava escolhida, àquela altura, por meio milhão de brasileiros como porta-bandeira da causa antidivorcista. Era impossível querer jogar por terra o porta-bandeira sem que ao mesmo tempo por terra caísse a própria bandeira [208].

A CNBB, diante desse comunicado, ficou quieta [209].

Lembro-me de que no dia da publicação desse comunicado, mandamos colocar gente nossa nos quatro cantos do Viaduto do Chá, fazendo um inquérito junto ao público. Quase todo mundo que passava tinha lido e era favorável. Foi um resultado estrondoso [210].

*   *   *

Que eu me lembre, foi um dos documentos mais difíceis que eu tive de redigir, pois era uma tomada de posição ante a autoridade eclesiástica. E a coisa mais difícil do mundo é polemizar de joelhos!

A Igreja é nossa mãe, e nós não podemos, não devemos e não queremos dizer aos representantes dela a não ser o estritamente indispensável, e usando a linguagem respeitosa e digna com que um filho fala à sua mãe, mesmo quando se está profundamente decepcionado, triste e portanto arredio em relação a seus representantes, por se sentir não querido e exilado do afeto deles [211].

10. Viaduto do Chá e monumento do Ipiranga: comemorações da vitória

A TFP comemora sua vitória contra o divórcio (agosto de 1966), com desfile no Viaduto do Chá

Não obstante esse comunicado da Comissão Central da CNBB, a campanha continuou triunfante. No dia 25 de julho atingimos um milhão de assinaturas e a campanha chegara a um auge.

No dia 12 de agosto de 1966 a TFP realizou enfim a passeata da vitória.

O trajeto foi pequeno: atravessou o Viaduto do Chá em plena hora de trabalho. Saímos do Teatro Municipal e caminhamos em direção à Praça do Patriarca, na outra extremidade do Viaduto, ocupando boa parte da faixa central. Um carro com alto-falante tocava a marcha Pompa e circunstância [212] e toda a TFP em filas, num desfile solene. O ato encerrou-se na Praça do Patriarca, onde cantamos o Hino Nacional.

No dia 14, fizemos nova manifestação diante do Monumento do Ipiranga, lugar onde foi proclamada a independência do Brasil.

Um longo cortejo de automóveis partindo de nossa sede da rua Pará seguiu até o local. Ali assinamos uma prece a Nossa Senhora Aparecida, pedindo a Ela que não permitisse que o divórcio entrasse no Brasil*.

* Esta prece terminava assim:

Neste local em que o Brasil, logo ao nascer como nação, recebeu de Vós, ó Mãe de Deus, o primeiro sorriso e a primeira bênção, nós Vos apresentamos uma súplica humilde e filial.

"Preservai e incrementai, Senhora, a Tradição santa que recebemos de nossos maiores. Mantende pujante o instituto da propriedade, no exercício largo e ufano de sua função social. Livrai dos totalitarismos o Brasil. E sobretudo, ó Rainha onipotente, o que hoje especialmente Vos pedimos é que jamais o divórcio se implante — explícita ou sorrateiramente — na Pátria brasileira”.

No dia 28 de agosto, dei uma entrevista enfatizando que o milhão de assinaturas coletadas pela TFP representava um verdadeiro plebiscito não escrito. Foi uma campanha de todo em todo vitoriosa*.

* Foram feitas campanhas em 142 cidades, com a mobilização de 450 sócios e cooperadores da TFP atuando como coletores. Foi atingido o total de 1.042.359 assinaturas, devidamente excluídas da contagem as assinaturas duvidosas. Formava uma pilha de papéis que ia, na sede da rua Pará, do chão até o teto!

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e o Conselho Nacional da TFP no Monumento do Ipiranga, depois de terem firmado a súplica a Nossa Senhora Aparecida

[N.Site.: "Catolicismo" de Setembro de 1966 publicou uma substancial reportagem sobre o encerramento da Campanha, com o integral da Prece a Nossa Senhora Aparecida. Tal matéria pode ser vista aqui.

 

 

Vídeo histórico do desfile no Viaduto do Chá (São Paulo) e da manifestação no Monumento do Ipiranga, em comemoração aos mais de 1.000.000 de assinaturas coletadas contra o divórcio

 

11. Castelo Branco recebe o Conselho Nacional da TFP

Compraz-me ressaltar a grandeza de alma de que mais tarde deu provas o então Presidente Castelo Branco.

O projeto de Código Civil fora apresentado ao Congresso por ele. Era compreensível que se sentisse magoado com a vitoriosa atuação da TFP [213].

Depois dessa campanha, eu havia escrito a ele uma carta muito amável, mas protestando contra uma medida dele que não tinha nada a ver com o divórcio: o projeto de Lei de Imprensa.

O fato é que, estando ele em visita a São Paulo, convocou para uma audiência o Conselho Nacional da TFP, a fim de exprimir o agrado com que recebera essa nossa carta com reparos ao projeto*

* Esta visita do Chefe de Estado deu-se no dia 25 de janeiro de 1967. A carta ao Presidente fora enviada no dia 13 do mesmo mês. Nela Dr. Plinio e o Conselho Nacional da TFP pediam ao Presidente que a Lei de Imprensa naquele momento em debate na Câmara passasse “por substanciais modificações de sorte que, reprimindo embora a licença, proporcione aos órgãos de difusão escrita e falada a liberdade necessária para sua atuação”, acrescentando que "cumpre pois não coarctar a legítima expressão dela, mas antes tutelá-la zelosamente” (cfr. Catolicismo n° 196-197, abril/maio de 1967).

Castello Branco quis manifestar pessoalmente ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sua satisfação pela carta “fidalga e amável” que dele recebera

Lembro-me até hoje do dia em que me chegou esse convite de Castelo Branco.

Eu estava jantando em casa com Mamãe [214] e veio minha empregada Olga, uma lituana, aliás muito dedicada — ela tinha um tom de voz muito característico — dizendo: “Chefe da Casa Militar da Presidência quer falar”.

De início pensei que fosse uma brincadeira.

Fui ao telefone e era realmente o Chefe da Casa Militar dizendo que o Presidente Castelo Branco queria falar comigo e com a diretoria da TFP.

Fomos então alguns do Conselho Nacional e eu. A audiência deu-se no Palácio Campos Elíseos [215].

Chegamos à hora marcada, não tardamos em ser introduzidos.

Ele foi muito amável e disse que [216] ao vir a São Paulo se lembrara de ter recebido da TFP uma carta muito “fidalga e amável” (expressão textual dele), que o levou a ter [217] vontade de nos conhecer pessoalmente. Daí ter-nos convidado para aquele encontro a fim de nos cumprimentar.

Fomos também muito amáveis, conversamos um pouco, depois cumprimentos e pronto. Era um modo de indicar o respeito e a consideração dele para com nossa campanha, como quem diz: “Não me queiram mal, aquilo já está enterrado, vamos continuar bons amigos”.

Tiramos fotografia com ele, espalhada depois por nosso serviço de imprensa por todos os jornais [218].

Capítulo XV

“Frei, o Kerensky chileno” (1967)

1. Governo democrata cristão expulsa Dr. Fábio do Chile

Voltemos para o fio de nossa narrativa.

Dr. Fábio Xavier da Silveira

Depois de nossa campanha contra o divórcio de 1966, estivemos às voltas com a divulgação do momentoso livro de nosso querido e saudoso Dr. Fabio Xavier da Silveira, Frei, o Kerensky chileno.

Fábio, membro jovem e dinâmico do Conselho Nacional da TFP, interessou-se a fundo pela luta contra a Reforma Agrária socialista e confiscatória, e participou da comissão de peritos que Dom Sigaud, Dom Mayer, Mendonça de Freitas e eu consultamos para a elaboração da Declaração do Morro Alto, isto é, do programa positivo de Reforma Agrária (e, pois, anti-socialista e anticonfiscatória) que a TFP adotou por seu.

Levado pelo interesse da matéria, Fábio Xavier da Silveira foi ao Chile estudar a Reforma Agrária.

Estava ele em meio a suas indagações quando o governo de Frei, de modo arbitrário, deu a nosso patrício 48 horas para abandonar o país. Nada dissera ou fizera o diretor da TFP, que merecesse a medida brutal*.

* O que se passou ali foi o seguinte: a convite de agricultores chilenos de Temuco, Dr. Fábio pronunciou, no dia 29 de agosto de 1966, uma palestra sobre a Reforma Agrária no Brasil do tempo de João Goulart, conferência esta rigorosamente circunscrita à realidade brasileira.

Entretanto, o governo demo-cristão chileno considerou que falar no Chile, em 1966, sobre os tempos que antecederam a 1964 no Brasil, era uma intervenção indireta nos problemas internos da nação andina.

Antes de se retirar do Chile, Dr. Fábio pediu uma audiência ao Ministro Bernardo Leighton, do Interior, a quem apresentou o mais enérgico protesto contra a medida violenta e arbitrária de que estava sendo vítima (cfr. Catolicismo n° 190, outubro de 1966).

2. Observações acumuladas por Dr. Fábio

Mas dir-se-ia que a polícia de Frei usava a telepatia. Pois é bem certo que no íntimo da alma o visitante acumulava observações e reflexões contrárias à política social e econômica de Frei.

Chegado ao Brasil, confiou ele ao papel suas impressões. E daí se originou um livro. Frei, o Kerensky chileno foi o título da obra.

O autor sustentava que Frei estava realizando uma obra análoga à de Kerensky na Rússia [219].

Não é o caso de provar aqui o inteiro acerto da tese sustentada por Fábio em seu best-seller. Aliás, a prova foi feita pelos fatos, a tal ponto que quando Allende substituiu a Frei na suprema magistratura, não faltou quem chamasse - e merecidamente - de profética a clarividência do jovem autor brasileiro [220].

Frei passou por isto para a História como o Kerensky chileno. Serviu de ferrete para assim lhe marcar merecidamente a fronte o livro de Fábio* [221].

* Atestou-o de modo insuspeito Carlos Altamirano, secretário geral do Partido Socialista chileno e um dos maiores suportes de Allende no governo. Em entrevista à jornalista P. Politzer, referindo-se às relações entre Frei e Allende, declarou ele:

“Penso que a Frei o impactou muito brutalmente o livro que lançaram no Brasil: ‘Frei, o Kerensky chileno’. Foi a gota que fez transbordar o copo. Nesta época quebrou-se de forma definitiva uma larga e boa relação entre ambos [entre Frei e Allende]” (Patricia Politzer, Altamirano, p. 59-60, apud Juan Gonzalo Larrain Campbell, Catolicismo, agosto de 1997).

No mesmo sentido comentava, com fino senso psicológico e espírito francês, a revista Paris Match (edição de 22/9/73):

“Puseram-lhe uma etiqueta terrível: Kerensky. Ela lhe causa uma cólera sombria, pois se pergunta no fundo de si mesmo se não é verdadeira”.

3. Elaboração do livro e idéia do título

Assisti de perto à elaboração do brilhante trabalho.

Profundo admirador e conhecedor de todos os povos ibero-americanos, o jovem diretor da TFP tinha, no mais alto grau, a consciência de que todos os povos latinos deste continente formam uma só família, unida pela Fé, pela tradição, pela raça e pela comunidade de uma mesma missão histórica.

As divergências entre as nações nascidas da gloriosa Ibéria, ele as via como secundárias em face desta majestosa unidade fundamental. E a sobrevivência de tais divergências no século XX lhe parecia um verdadeiro anacronismo.

Isto o levava a considerar, com verdadeiro amor, as perspectivas de ascensão e os problemas de cada país irmão.

E o persuadia de que nenhum problema grave poderia ameaçar a qualquer deles sem afetar todos os demais [222].

Eu não fui o autor do livro, e sim Fábio, que morreu tragicamente, alguns anos depois, de um doloroso câncer. E lhe dei uma certa colaboração e orientação. Mas a colheita dos dados no Chile, fê-la ele, e muito inteligentemente [223].

Eu evidentemente o ajudei, propus o esquema. O Fábio o encheu com aquela verve só dele e fez um livro de atualidade muito bom [224].

Foi, isto sim, mediante uma sugestão minha que o livro ficou se chamando Frei, o Kerensky chileno [225].

Antes de fazer essa sugestão de título, hesitei muito. Eu queria deixar a escolha do título a critério dele, é claro. E em determinado momento ele quase optou pela rejeição do título sugerido.

Eu tive um aperto de alma com isto e pensei: “Se for rejeitado, é uma pena, mas eu não posso impor ao livro dele um título que ele não sinta adequado”.

Mas depois eu o vi lentamente refazer o caminho e optar pelo título Kerensky. E tive uma alegria por causa disso [226].

O fato é que Frei ficou com esse carimbo na fronte [227]. Até morrer era apontado como sendo o Kerensky chileno, em todas as rodas políticas e na opinião pública do Chile, em geral* [228].

* Neste sentido, é expressivo o comentário do escritor mexicano esquerdista José Rodriguez Elizondo:

“Por conhecer em profundidade a personalidade de Frei, a direita chilena ia obter melhores dividendos de seus ataques. Um só toque lhe bastaria para afetá-lo a fundo [...] [a direita] fazia publicar e distribuía por todo o continente um livro-denúncia intitulado ‘Frei, o Kerensky chileno’.

“No livro se lhe acusava, desde o título, de se ter convertido no aprendiz de feiticeiro que havia desatado as forças da revolução bolchevista numa posição chave da América Latina.

“Tocava, com isso, o ponto mais sensível de quem se havia apresentado — juntamente com seu partido — como a verdadeira alternativa frente à revolução socialista, que deveria servir de exemplo para o conjunto das nações do chamado terceiro mundo” (José Rodriguez Elizondo, Introducción al facismo Chileno, Editorial Ayuso S.A., México, 1976, 1ª ed., p. 62, apud Juan Gonzalo Larrain Campbell, Catolicismo, agosto de 1997).

*   *   *

O modo de ser de Fábio contribuiu largamente para o êxito de sua atuação. Para isto, era admiravelmente apta a sua personalidade.

Quem não o conheceu pessoalmente, dificilmente terá uma idéia do que era seu dom de atrair. Inteligente, culto, dinâmico, sagaz e cheio de tato, Fábio acrescentava a essas qualidades um certo charme pessoal indefinível, a que era difícil resistir.

Sua vivacidade extraordinária, a amenidade de seu trato, seu espírito incessantemente jovial, sua verve originalíssima faziam de sua conversa uma verdadeira caixa de surpresas, da qual saíam, quando menos se esperava, observações penetrantes, chistes brilhantes, lances de alma generosos e golpes polêmicos dos mais rijos [229].

É impossível não sentir saudades dele, quando a gente trata disto.

Eu quis dele que o Dr. Castilho revisse “Frei, o Kerensky chileno”.

Ele disse que teve a impressão de que Dr. Castilho cortou a pele dele. Foram para a Fazenda do Morro Alto, em Amparo, para um simpósio lixando o Frei, o Kerensky chileno. Depois Dr. Fabio reconheceu que foi de uma enorme vantagem essa revisão [230].

4. Governo Frei sente-se “ameaçado”: livro é proibido no Chile

O livro repercutiu intensamente no Chile, onde foi lido e comentado em todos os ambientes culturais e políticos [231]. O jornal oficioso democristão La Nación, o jornal comunista El Siglo, os jornais socialistas Clarín, Ultima Hora e La Tarde, todos se uniram para defender o regime “ameaçado”.

O próprio governo Frei sentiu em tal grau o alcance do livro, que lhe proibiu a circulação.

Foi inútil. Pelo correio, os exemplares chegavam de Buenos Aires aos milhares. O governo confiscou então os exemplares que entravam*.

* A notícia dessa proibição foi bombasticamente divulgada pela imprensa de São Paulo e do Rio no dia 27 de outubro de 1967. No dia seguinte, 28 de outubro, o Serviço de Imprensa da TFP distribui despacho em que noticia o protesto da TFP contra essa medida ditatorial (cfr. Catolicismo n° 203, novembro de 1967).

A curiosidade dos chilenos a respeito de Frei, o Kerensky chileno era tal, que o livro circulava largamente de mão em mão, solicitado com sofreguidão e lido com delícias por um extenso público [232].

 

Esta sugestiva fotografia, com que a revista de Santiago "7 Dias" (da editora Zig-Zag, controlada pelo governo) ilustra um artigo intitulado "O livro proibido", exprime bem o risco que há em ler no Chile o livro "Frei, o Kerensky chileno", proibido pela ditadura demo-cristã, ao mesmo tempo que o pouco êxito dos esforços desta para impedir-lhe a circulação [ "Catolicismo" nº 205, janeiro de 1968].

Organizou-se então, naquele país, um verdadeiro "câmbio negro" para a compra da obra aos numerosos turistas chilenos que, vindos de Buenos Aires, traziam em suas bagagens a edição castelhana promovida pela TFP argentina* [233].

* A revista chilena 7 Dias, por exemplo, publicou um clichê em três quartos de página, em que figura uma pessoa lendo uma edição argentina da obra, cobrindo o rosto como quem não quer ser identificado. E seu colunista, Andrés Cruz Arjona, cita o comentário de um amigo que lhe havia conseguido o livro:

"Não entendo a razão pela qual o governo pôs esta edição no 'Index', proibindo sua leitura aos chilenos. Tal medida, como não podia deixar de acontecer, transformou-se na mais eficaz propaganda para a referida publicação, que hoje circula clandestina mas profusamente. Os possuidores de cada um dos exemplares que lograram escapar ao confisco tiveram que fazer lista de precedência entre seus parentes e amigos para propiciar-lhes a leitura do livro em rigorosa ordem de inscrição" (cfr. Catolicismo n° 204, de dezembro de 1967; e n° 205, de janeiro de 1968).

*   *   *

No aeroporto de Buenos Aires, o sr. Krauss, subsecretário do Ministério do Interior do Chile, perdeu a cabeça e exigiu da polícia a prisão de jovens da TFP local, que vendiam o livro. É claro que não foi atendido! A imprensa situacionista chegou a falar em incidente diplomático.

Em suma, a polêmica ferveu, envolvendo grandes órgãos e altos personagens [234].

Ao pé da letra, o livro abalara o Chile.

Não foi só. Posto à venda em campanha de rua por sócios e militantes das TFPs ou entidades congêneres em quase todos os outros países sul-americanos, alcançou Frei, o Kerensky chileno rápido e fulgurante sucesso*.

* A obra foi publicada no Brasil (quatro edições), na Argentina (seis edições), na Venezuela (três edições, das quais uma no jornal La Verdad), na Colômbia, no Equador e por fim na Itália, num total de dezesseis edições, 128,8 mil exemplares.

O livro de Dr. Fábio, desfazendo o mito pedecista, concorreu notavelmente para que o rumo histórico do continente passasse a demandar outros horizontes [235].

5. Itamaraty sofre pressões: governo proíbe campanha também no Brasil

Um fato muito significativo se deu quando lançamos e começamos a difundir Frei, o Kerensky chileno no Brasil.

A certa altura da campanha, recebi um telefonema do Itamaraty dizendo que, da parte do Ministro do Exterior e com o aval do Presidente da República, havia ordem de nós cessarmos a nossa campanha.

Eu disse que queria saber qual era a razão dessa proibição.

Ele disse: “É uma deliberação do senhor Presidente da República”.

Eu disse: “Mas eu posso saber qual é o fundamento da opinião do senhor Presidente da República?”

Disse ele: “Nós estamos em regime de ditadura militar e portanto o senhor Presidente da República não tem que dar ao Sr. satisfações”.

Eu disse: “Mas faço notar ao senhor Presidente da República, por seu intermédio, que essa ditadura foi implantada no Brasil para combater o comunismo; nós saímos às ruas para combater o comunismo; nós recebemos uma repreensão, uma limitação de nossa atitude porque somos anticomunistas. Haverá uma contradição mais forte do que um regime ditatorial anticomunista que proíbe a propaganda anticomunista? Eu não compreendo isto”.

Ele respondeu: “Se o Sr. não compreende, eu lamento, mas isto é assim. O Sr. deve cessar a propaganda sob as penas da lei”.

Eu desliguei o telefone mas não pude fazer nada [236]. A TFP acatou, não sem protesto, a insólita decisão de nossas autoridades, que assim aceitavam uma injunção descabida do governo chileno demo-cristão*.

* Essa pressão diplomática do governo chileno “democrata-cristão” havia sido exercida através de seu embaixador no Brasil, Héctor Correa Letelier. Em Catolicismo n° 201, de setembro de 1967, é publicada na íntegra — e cabalmente refutada — uma carta sua à Redação do jornal, datada de 7/8/67.

Tais pressões deixavam a nu o mal-estar causado pelas denúncias contidas no livro Frei, o Kerensky chileno sobre o papel de Eduardo Frei na preparação do Chile para a ascensão do comunismo, o que se deu três anos depois, com a ascensão do marxista Allende.

Essa proibição veio quando já se haviam escoado vinte e cinco mil exemplares da obra aqui no Brasil.

6. Tentativas de proibição por toda a América do Sul

Em outras nações latino-americanas, a diplomacia chilena tentou igualmente, sem êxito, criar obstáculos à campanha*.

* Na Argentina, o embaixador chileno Hernán Videla Lira compareceu à chancelaria para manifestar a “inquietude do governo” chileno pela venda do livro em Buenos Aires (cfr. La Prensa, Buenos Aires, 7/3/68 e La Tarde, Santiago, 8/3/68).

No Peru, o embaixador Horacio Walker Larrain polemizou com um colunista de La Prensa, de Lima (23/11/67), que havia elogiado a obra.

Em Caracas, o encarregado de Negócios do Chile enviou cartas a La Verdad (10 e 17/11/67) para protestar contra o artigo O Índex da Revolução em Liberdade, assinado por seu diretor.

Sobre a repercussão do livro quando da subida do marxista Allende ao Poder, tratarei adiante [237].

Capítulo XVI

Os artigos para a “Folha de S. Paulo” (1968-1990)

1. Inesperado convite de diretor da “Folha”

Durante mais de 20 anos, fui colaborador da Folha de S. Paulo, que é o cotidiano de maior circulação em São Paulo.

Os textos dos numerosíssimos artigos que escrevi para esse jornal são os mais arrojadamente católicos, mais arrojadamente contra-revolucionários que se possa imaginar* [238].

* Tal colaboração teve início em 7 de agosto de 1968, com o artigo 6 lições dos 600 mil e encerrou-se em 9 de fevereiro de 1990, com o artigo Um comentário atual, uma antiga previsão.

Com este artigo o Prof. Plinio iniciou a colaboração com a Folha de S.Paulo, que se estenderia até 1990

Esses artigos na Folha nasceram de um modo totalmente inesperado.

Em certo dia de 1967, antes de eu adoecer com a crise de diabetes que me acometeu no final desse ano, Dr. Plinio Xavier foi falar com Otávio Frias [239], que era o diretor da Folha.

No meio da conversa, Frias disse: “Vocês têm uma voz que merece ser ouvida, e portanto vou abrir o meu jornal para vocês. Você pode pedir ao Dr. Plinio para ele publicar um artigo semanal aqui?”

Para nós foi um espanto enorme, porque até aquela ocasião era dificílimo conseguir qualquer publicação em qualquer meio de comunicação social. Todas as publicações eram a peso de ouro. E de repente, o diretor de um jornal da importância da Folha oferecia-nos uma coluna [240]. E notem que foi oferecida, não foi pedida [241].

Pouco depois, em dezembro de 1967, fui acometido de violenta crise de diabetes [242]. Adoeci gravemente e passei mais ou menos seis meses fora de combate. Quando me curei, achei que era tão improvável aquele oferecimento, que nem pensei mais no caso.

Alguns meses depois, Dr. Plinio Xavier teve de ir de novo à Folha. E o Frias disse: “Eu ofereci uma coluna ao Dr. Plinio Corrêa de Oliveira. Ele displicentemente deixou essa coluna rolar. Ele que escreva, que eu a todo momento estou com a coluna aberta”.

Como eu ainda estava com a saúde mais ou menos fraca, tive receio de assumir o compromisso. Então, tentei colocar outro membro da TFP escrevendo em meu lugar.

O Frias, estando com Dr. Plinio Xavier, foi taxativo: “Eu quero a colaboração do Dr. Plinio Corrêa de Oliveira e não de outro. Portanto, ou sai o artigo dele ou não sai nada”.

Eu nunca tinha visto uma coisa dessas na vida. E então comecei a escrever eu mesmo.

2. Estilo polêmico, à maneira de espadachim

Eu tinha dois caminhos a seguir em matéria de artigos na Folha.

Um caminho seria fazer colaborações muito prudentes, que não desagradassem a ninguém, para evitar reclamações. Não seria melhor publicar artigos “laranja”? Do ponto de vista puramente humano, terreno, prudencial, teria sido melhor.

Mas o homem não é feito apenas de raciocínios práticos. Há uma porção de coisas que se movem na alma dele, às quais se deve dar atenção.

Se eu optasse por escrever artigo que não fosse categórico, lutador e peremptório em nossa doutrina, eu teria uma sensação indefinível de estar me traindo a mim mesmo.

Coisa muito pior, eu teria a sensação de estar traindo a nossa causa e a nossa doutrina, de estar praticando uma ação grave e categoricamente ilícita. Eu teria uma impressão, difícil de definir, de que eu estaria agindo contra os desígnios da Providência, que, de forma indefinida — como às vezes é a voz da Providência — age no interior de uma pessoa e que me recomendava coragem e o estilo espadachim, custasse o que custasse.

De maneira que eu me joguei em artigos polêmicos. E escrevi de tudo e fiz de tudo.

Nossa Senhora abençoou essa estratégia antiestratégica e nos proporcionou anos de batalhas contínuas em que, a bem dizer, não houve um artigo que não fosse feito direta e rotundamente contra o adversário ideológico, e pisando-lhe gravemente os pontos mais doloridos.

3. Clareza, lógica, profundidade e probidade

O que eu pretendia que o leitor de um artigo da Folha pensasse?

Queria que ele visse a TFP antes de tudo muito clara no que dizia. E que, tendo um mínimo de cultura proporcionada ao artigo, o entendesse.

Quer dizer, o primeiro objetivo foi a clareza. Clareza em dois sentidos da palavra: não só facilidade de entender, mas em expressar claramente o que eu penso. Eu queria que nos artigos ficasse patente tudo quanto eu penso.

Em segundo lugar, lógica, de maneira que os leitores compreendessem que naquilo que eu escrevia havia um nexo, um fio lógico que era coerente. Não era um pensamento divagando a esmo, mas concatenado.

Em terceiro lugar, profundidade: o tema abordado, embora nos limites de um artigo de jornal, ia até o fundo da questão e não era tratado superficialmente.

E em quarto lugar, probidade: nunca afirmar algo que não fosse inteiramente real; nunca dar um argumento que forçasse qualquer coisa; nunca lançar uma acusação que fosse além do estritamente demonstrável. Dessa forma, procurar comunicar a ideia de uma honestidade rutilante, de alguém que defende uma causa bastante santa para não necessitar de nenhum truque, de nenhum ardil para persuadir e para arrastar.

4. Vivacidade unida à elevação de linguagem

Quais as coisas que eu procurava evitar nos artigos?

Como os artigos representavam a Tradição, eu tinha o cuidado de não parecerem velheiras, e tratava continuamente de temas atuais.

Além disso, por fidelidade a nossos princípios, o artigo tinha que ter uma linguagem elevada, mas ao mesmo tempo não pernóstica.

Pernosticismo seria, por exemplo, o caso de um pregador que, ao falar de um pão produzido debaixo das cinzas, citado no Antigo Testamento, tivesse empregado a expressão pão subcinerício. Cinere é cinza. Pão subcinerício seria o que está por debaixo das cinzas. Subcinerício é uma palavra correta, mas não faz parte da linguagem comum. Isto eu chamo de pernosticismo. E isto eu devia evitar.

O jeito de dar atualidade era expor os temas como quem conversa. Quer dizer, era preciso evitar aquele ar glacial que tem um artigo que convida o sujeito a sair da vida para entrar no museu gélido das idéias. Eu procurava portanto apresentar um modo de pensar lógico, o mais tradicional possível, e um modo de expor correspondente à vitalidade e ao desejo de vivacidade modernas.

5. Com os olhos postos na “intelligentsia”

Os artigos tomavam em consideração aquilo que se chama a “intelligentsia”, quer dizer, a classe de pessoas que se dedicam mais especialmente ao estudo, à vida intelectual, e cuja principal ocupação não é a de exercer uma profissão para ganhar dinheiro, mas de estudar e adquirir um alto grau de cultura, pelo menos em relação à sociedade na qual eles vivem.

A que categorias profissionais correspondia isso na sociedade brasileira em que vivíamos?

A um bom número de professores universitários, a certo número de colaboradores de jornal, a certo número de pessoas muito cultas das profissões liberais: advogados, médicos, engenheiros, economistas e outros. Também a elementos do Clero, das Forças Armadas e certos artistas.

A intelligentsia era portanto a classe especialmente letrada de um país, mas que diretamente não tinha muita repercussão junto ao público, mas sim junto aos homens influentes.

Quais eram esses homens influentes? Eram os homens que alcançavam grande êxito na respectiva carreira. Estes ouviam os letrados. E através deles os letrados influenciavam a marcha do País [243].

6. “Vocês remexem a opinião”

Quando, mais tarde, Dr. Plinio Xavier foi à Folha levar o manifesto da Resistência à Ostpolitik do Vaticano para ser publicado, o diretor da Folha que o atendeu disse: “A TFP morde muito o público. Os artigos de Dr. Plinio na Folha têm uma repercussão de uma média de 20 cartas por semana. Dessas 20, habitualmente 17 são contra e 3 a favor”.

Depois acrescentou: “Vocês são uma minoria, mas uma minoria que tem muitos simpatizantes. Vocês remexem a opinião. De maneira que eu tenho contentamento em publicar as coisas de vocês” [244].

Capítulo XVII

Infiltração comunista na Igreja: 2.025.201 assinaturas a Paulo VI (1968)

1.   O documento subversivo do Padre Comblin

Por uma feliz coincidência, os artigos na Folha começaram quando estávamos fazendo, em 1968, uma campanha de grande repercussão: o abaixo-assinado a Paulo VI pedindo medidas contra a infiltração comunista na Igreja.

Do ponto de vista puramente estratégico da luta contra a Revolução, a campanha contra essa infiltração comunista na Igreja e contra o documento subversivo do padre belga Joseph Comblin era a mais importante que nós tínhamos feito até então*.

* Este documento ficou conhecido como o Documento Comblin. Seu título era: Notas sobre o documento básico para a II Conferência Geral da CELAM.

Ele foi dado a público em primeira mão por O Estado de S. Paulo, em sua edição de 14 de junho de 1968. E sua publicação causou um enorme escândalo no Brasil.

O sacerdote belga Joseph Comblin (1923-2011) havia sido ordenado sacerdote em 1947. Veio para o Brasil em 1958.

Em São Paulo, foi professor da Escola Teológica dos Dominicanos no bairro das Perdizes, onde teve como alunos Frei Betto e Frei Tito.

A convite de Dom Helder Câmara, assumiu o cargo de professor do Instituto Teológico do Recife, onde escreveu seu tristemente famoso documento, o qual vazou na imprensa e causou estupor no Brasil, por preconizar, como meios válidos para fazer cair as estruturas sociais vigentes, a revolução na Igreja, a subversão no País, a derrubada do governo, a dissolução das Forças Armadas, a instituição de uma ditadura socialista férrea esteada em tribunais de exceção e aparelhada para reduzir ao silêncio — pelo terror — os descontentes.

Dom Helder Câmara, questionado pela imprensa, declarou que "o documento enviado pelo Padre Comblin, do Instituto de Teologia do Recife, é perfeitamente válido dentro de um contexto dum estudo pessoal sobre o documento-base do CELAM", fazendo a ressalva de não concordar "com todas as declarações nele contidas" (cfr. O Estado de S. Paulo, 13/6/68, p. 4). Ora, quem não concordava "com todas", concordava com algumas. E o documento em seu todo era inteiramente inaceitável.

A título de exemplo, eis alguns pontos desse programa subversivo:

- “Não basta fazer leis. É preciso impô-las pela força. Para a arrancada, o poder será autoritário e ditatorial. Não se pode fazer reformas radicais consultando a maioria: que a maioria prefere ‘sombra e água fresca’, prefere evitar os problemas”.

- “O poder deve contar com a força. Qual será essa força? Às vezes poderá contar com as forças armadas, outras vezes é necessário dissolvê-las. Às vezes será necessário distribuir armas ao povo. Outras vezes bastará apelar ao plebiscito em circunstâncias bem preparadas. Outras vezes o centro dos meios de propaganda será suficiente. Em todo caso será necessário montar um sistema repressivo: tribunais novos de exceção contra quem se opõe às reformas. Os procedimentos ordinários da justiça são lentos demais. O poder legislativo também não pode depender de assembléias deliberativas.”

- “O poder deve neutralizar as forças de resistência: neutralização das forças armadas se forem conservadoras; controle da imprensa, TV, rádio e outros meios de difusão, censura das críticas destrutivas e reacionárias.”

- “... será necessário fazer alianças, entrar em compromissos, ‘sujar as mãos pelas alianças sujas‘, para os progressistas derrubarem o governo e conquistarem o poder” (cfr. artigo O incólume, Folha de S. Paulo, 7 de dezembro de 1969).

Este sacerdote, cujo pensamento merecia as mais enérgicas censuras de seus superiores eclesiásticos, recebeu, pelo contrário, calorosos elogios do Arcebispo da Arquidiocese em que trabalhava, Dom Helder Câmara, bem como de seu Bispo Auxiliar, Dom José Lamartine Soares (cfr. REB — Revista Eclesiástica Brasileira, setembro de 1972, p. 697).

2. Um pouco de história: de início, a esquerda católica camuflou sua posição pró-comunista

É preciso relembrar que os precedentes históricos dessa campanha vinham dos tempos de nossa batalha em torno do liturgicismo e da Ação Católica.

Desde 1940, anos antes, portanto, da saída do meu livro Em Defesa da Ação Católica, aquela corrente esquerdista, da qual faziam parte padres, freiras, leigos e leigas, mas que era bafejada ou pela simpatia ou pela ingenuidade de grande número de Bispos e padres que não se diziam claramente da corrente, começaram a receber destes as posições de mando no Movimento Católico. Enquanto isto, esses Bispos e padres perseguiam asperamente o grupo do Legionário.

Nós sabíamos que essa corrente era esquerdista, e analisando as tendências dela percebíamos que iam acabar dando numa espécie de comunismo.

Sabíamos disso por conversas com eles e tirando conclusões de coisas que estavam nas entrelinhas dos jornais e revistas que eles publicavam. Eles diziam o que pensavam nas entrelinhas, porque percebiam que o Brasil era muito anticomunista e perderiam muitas bases se tomassem uma atitude claramente simpática ao comunismo.

A posição que então assumiam de público era apenas vagamente esquerdista. Eles insistiam muito na idéia de apoio aos pobres, o que de si é uma coisa excelente. Mas ao tratar do tema, usavam termos demagógicos, atacando de forma destemperada e de uma maneira ambígua os maus ricos.

*   *   *

A figura que mais se destacou nesse período, fundando obras de caridade e fazendo discursos demagógicos foi um padre cearense que havia sido muito integralista: Dom Helder Pessoa Câmara. Dizem mesmo que ele foi ordenado trazendo por debaixo da batina a camisa verde.

Homem muito labioso, muito amável no contato com as pessoas, tornou-se rapidamente o símbolo da esquerda católica no Brasil. Era idolatrado por muitos da classe alta do Rio de Janeiro, mas também, em alguma medida, por muitos da classe alta de São Paulo e de outros lugares do Brasil.

Nós sabíamos que essas pessoas eram comunistizantes, mas não tínhamos prova.

E assim as coisas foram se arrastando: eles falando, e nós de boca mais ou menos calada, fazendo apenas umas insinuações contra, tão veladas quanto era a propaganda deles; só poucos percebiam.

3. Na década de 1960, o arrancar de máscara

Em 1960, essa gente começou a fazer abertamente propaganda comunista. Aí os burgueses conservadores (que nesse tempo eram muito mais anticomunistas) começaram a tomar atitudes contra o Clero esquerdista, mas em pequenas rodas.

De cá, de lá e de acolá se conversava a respeito, mas com certa reserva, com certa consideração. O Clero tinha até então uma vida moral ilibada, observava as regras do Direito Canônico, pregava a doutrina ortodoxa, de maneira que se fazia respeitar. Era talvez a maior potência do Brasil.

Todos os políticos tremiam diante de um dito do Episcopado e a opinião pública acatava esse dito como indiscutível. Uma palavra do Episcopado fechava a questão. Mais ainda, nos meios católicos, a palavra de um simples vigário resolvia a questão.

Essa, de fato, devia ser a ordem normal das coisas. As organizações têm suas autoridades, as autoridades têm um profundo prestígio, e quando falam elas devem dirimir as questões.

Acontece que a ordem normal já não existia na Igreja. Mas as autoridades tinham uma aparência de prestígio que lhes vinha do tempo da ordem normal.

4. Momento ótimo para a denúncia do Clero esquerdista

Como quebrar esse tabu e mostrar a toda a opinião pública brasileira que a situação havia mudado, e que havia autoridades eclesiásticas pactuando com a propaganda criptocomunista ou comunista, de um lado; e que, de outro lado, os outros de modo geral ficavam vegetando na cadeira de balanço, de olhos fechados, sem tomar nenhuma posição? Num Episcopado, naquele tempo de duzentos Bispos, vinte Bispos, quando muito, tomavam atitude contra o perigo que se vinha delineando.

Ou a TFP escolheria o caminho de jamais denunciar esse perigo, ou deveria aproveitar alguma ocasião em que o perigo pusesse a cabeça fora da toca para dar-lhe um golpe.

Nós não poderíamos fazer nada de sério, em nenhum sentido da palavra, sem lutar contra o Clero esquerdista. E precisávamos surpreender esse Clero esquerdista na hora em que ele estivesse com a mão no bolso do vizinho, quer dizer, em flagrante delito.

Essa ocasião boa veio quando O Estado de S. Paulo publicou o famoso Documento Comblin já referido. E então resolvemos lançar a campanha.

5. A Paulo VI: coíba a infiltração comunista dentro da Igreja

A campanha consistiu em um abaixo-assinado pedindo ao Papa Paulo VI que interviesse coibindo a infiltração comunista dentro da Igreja, dando como exemplo dessa infiltração o Documento Comblin [245].

Nossa idéia inicial era conseguir duzentas a trezentas mil assinaturas, de maneira que ficasse provado que esse número de brasileiros tinha percebido que havia comunismo no Clero, e por esta forma arrancar a máscara do cripto-comunismo católico, esse enorme poderio diante do qual todos os políticos tremiam.

Então, a campanha foi gizada com a idéia de expandir esse abaixo-assinado pelo Brasil inteiro, já sabendo que viria um contravapor tremendo. E, portanto, nós teríamos que agüentar firmemente esse contravapor.

6. Calendário de fatos significativos

Para se compreender como a campanha se desenvolveu, primeiramente escrevi uma carta a Dom Helder, mostrando a ele o perigo do Documento Comblin e pedindo o afastamento desse sacerdote da Arquidiocese de Recife [246].

Se Dom Helder afastasse o padre, ele reconheceria que havia nomeado um sacerdote subversivo para professor do Seminário.

Como ele não tinha por onde sair, três dias depois da minha carta ser publicada, ele deu uma entrevista dizendo que ele não ia responder à TFP. E ficou quieto.

Portanto, ele sabia da carta e sentiu-se apertado. E quando lançamos a campanha, Dom Helder já estava meio comprometido.

No dia 25 de junho de 1968, o deputado Cunha Bueno, de São Paulo, sem nos dizer, toma o nosso documento e o lê em discurso na Câmara dos Deputados, fazendo ao mesmo tempo um elogio de nosso pronunciamento. Isto fez o documento repercutir em todo o ambiente político brasileiro.

Pouco antes, dia 23 de junho, Dom Mayer e Dom Sigaud haviam escrito uma carta ao Cardeal Rossi, com cópia para todos os Bispos, pedindo que as idéias do Padre Comblin fossem expurgadas dos meios católicos. Essa carta foi publicada no dia 30 de junho. Era uma pressão feita pelos dois Bispos, um modo de apoiar a nossa atitude.

O Cardeal Rossi, no dia 9 de julho, replicou pela imprensa, declarando que o Documento Comblin não era documento oficial da Igreja e portanto não havia razão para a Hierarquia se pronunciar sobre tais idéias.

Ainda no dia 23 de junho inicia-se a distribuição da minha carta a Dom Helder nas saídas de igrejas de São Paulo, bem como de outras capitais e cidades onde havia núcleos da TFP. As repercussões colhidas foram todas muito boas*.

* Um dos slogans dessa distribuição era: “Veneramos o Clero, mas não queremos padres subversivos”. Tal slogan virou refrão na imprensa brasileira da época, e foi repetido, por exemplo, por Ibraim Sued, conhecido colunista social do jornal O Globo, do Rio.

No dia 7 de julho, o Padre Comblin fez afinal um pronunciamento. A saída que encontrou foi dizer que o documento não era escrito para o público, mas só para especialistas.

Enquanto íamos respondendo pelos jornais aos ataques dos esquerdistas, organizávamo-nos internamente para sair às ruas, estudando a distribuição de bancas em grupos, dando instruções.

No dia 17 de julho de 1968, fomos todos para a Praça do Patriarca, onde foi deflagrada a campanha de abaixo-assinado na qual ninguém pensava.

Já no primeiro dia, foram coletadas 80 mil assinaturas, a tal ponto era grande a solidariedade popular com a nossa posição. No dia seguinte, 18 de julho, os jornais publicaram o texto da nossa mensagem a Paulo VI.

*   *   *

Cooperadores da TFP brasileira em campanha. A Esquerda não assistiu impassível à maré montante do abaixo-assinado. Registraram-se nada menos que 829 ocorrências, entre agressões, insultos e ameaças. Desses atos de hostilidade, 396 foram praticados ou açulados por Eclesiásticos ou Religiosas

o dia 20 de julho, Dom Helder lança, numa reunião da CNBB, um movimento chamado Pressão Moral Libertadora, tentando fazer-se reeleger secretário geral daquele organismo episcopal *. Mas ele estava tão desprestigiado que conseguiu apenas 7 votos. Foi assim derrotado na própria reunião do Episcopado, devido ao susto que o Episcopado tivera com as atitudes pró-comunistas dele, agravadas pelo escândalo dessa campanha pública. E resolveram não reelegê-lo.

* Dom Helder havia sido secretário geral da CNBB desde sua fundação, em 1952, até 1964. Foi substituído nesta data por Dom José Gonçalves Costa, então Bispo Auxiliar do Cardeal Dom Jaime Câmara, que exerceu o cargo até a eleição de 1968, na qual foi eleito Dom Aloisio Lorscheider, então Bispo de Santo Ângelo (RS).

Dom Helder perdeu, portanto, uma posição chave: ele, que era o verdadeiro chefe da CNBB, nessa ocasião ficou confinado a ser apenas Arcebispo de Olinda e Recife e não mais o mentor de todo o Episcopado brasileiro.

*   *   *

Nesse mesmo dia, Dª Yolanda Costa e Silva, primeira dama do País, assinou o nosso documento. Nós publicamos naturalmente a notícia nos jornais. Todos os dias apareciam notícias de personagens importantes que em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza e outras cidades tinham também assinado.

*   *   *

No dia 21 de julho, a campanha se estende para o Chile. No dia 22, era a vez da Argentina.

*   *   *

Aspectos da propaganda no Rio de Janeiro

No dia 23 de julho, por moção de Dom Mayer e Dom Sigaud, 19 Arcebispos e Bispos escrevem uma carta ao presidente Costa e Silva dizendo que estavam em desacordo com a atitude dos católicos esquerdistas existentes no Brasil, o que era um apoio enorme para nós*.

* Três dias depois (26 de julho de 1968), Dom Sigaud participou de um debate de televisão no Rio, no qual revelou a interpelação que fizera a Dom Helder Câmara sobre o tipo de estrutura social que este preconizava para o Brasil. A revista O Cruzeiro, em sua edição de 24 de agosto, publicou entrevista de Dom Sigaud sobre o episódio.

Perguntado nessa entrevista sobre o que achava do Movimento de Pressão Moral Libertadora de Dom Helder, Dom Sigaud respondeu:

"Considero este Movimento uma organização metódica de agitação nacional esquerdista. No dia 18 de julho o Sr. Dom Helder realizou uma reunião informal [...] onde se realizava uma reunião da CNBB. [...] Terminada a exposição, houve várias interpelações. Por fim, fiz a Dom Helder as seguintes perguntas: 1 — V. Excia. admite a iniciativa privada? 2 — V. Excia. considera lícita a posse de meios de produção por particulares? 3 — V. Excia. admite a propriedade particular? 4 — Em questões sociais e econômicas, qual é o papel do Estado: é supletivo ou ele é dono do campo? 5 — V. Excia. em sua sociedade 'evangélica', permite o mercado livre?

“Dom Helder não pôde, não soube ou não quis me responder. Então pedi que respondesse só a uma pergunta: na sociedade com que ele sonha, será permitido a um particular possuir meios de produção? Por exemplo, um particular poderá ser dono de uma fábrica, de uma oficina, ou o Estado será dono de tudo?

“Dom Helder respondeu que esta questão ele confiaria às Universidades para estudo. Repliquei então que os Papas já tinham falado sobre esta questão, desde Leão XIII, e dado a resposta da sociologia verdadeira. A isto Dom Helder retrucou que era melhor que eu nomeasse uma comissão de peritos e ele outra, e um dia nós discutíssemos o assunto. Então lhe respondi que há quinze anos ele agita o Brasil falando de reformas de estruturas, mas nunca disse quais as estruturas que devem ser mudadas, onde e por que. Que ele por fim nos dissesse como é a sociedade que ele quer criar.

“Dom Helder não soube, não pôde ou não quis responder. A um amigo que me perguntou se eu não entraria para o Movimento de Pressão Moral Libertadora, eu disse: — Meu amigo, não tomo um bonde se não sei para onde vai. Peço a Dom Helder, Dom Padim, Dom Jorge Marcos, Dom Fragoso: Ponhamos as cartas na mesa! Digam afinal: — aonde querem levar o Brasil? Eu e meus amigos não temos segredos. Por que S. Excias. os têm e querem levar a Nação aonde nós não sabemos? Ou a receita está no trabalho do Padre Comblin?" (cfr. Catolicismo n° 212-214, agosto-outubro de 1968).

Pouco depois, por ocasião da IX Assembléia Geral da CNBB, houve a publicação de outro documento, em que 40 Arcebispos e Bispos dirigiam-se a Dom Agnelo Rossi, então Arcebispo de São Paulo e presidente da CNBB, e denunciavam os graves erros que estavam circulando entre os católicos. Era também um documento que Dom Mayer e Dom Sigaud haviam conseguido. Quer dizer, estava claro que uma parte dos Arcebispos e Bispos brasileiros nos apoiava [247].

*   *   *

Dia 1° de agosto de 1968, a TFP elogia e apóia a encíclica Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, proibindo as pílulas anticoncepcionais.

*   *   *

No dia 28 de agosto, a Checoslováquia é invadida pelos russos. A TFP protesta contra essa invasão e no dia seguinte manda celebrar uma Missa no Rio de Janeiro pelos tchecos mortos. Eu telegrafo ao Ministro do Exterior exprimindo indignação.

*   *   *

Envio também um telegrama a Paulo VI, que nessa ocasião estava presente no Congresso Eucarístico em Medellin, Colômbia. Apresentava ao Pontífice as minhas homenagens, as minhas reverências filiais, e lhe comunicava que estava em curso a nossa campanha de abaixo-assinado, desculpando-me de não lhe entregar logo tal abaixo-assinado, pois a nossa campanha ainda continuava. Ele não respondeu.

*   *   *

Em setembro de 1968, começam a sair calúnias contra a TFP.

Dia 6: “A polícia de segurança vê técnica nazista na organização TFP”.

Dia 7: “Governo ordena investigação na TFP”. Nunca nos constou nada nesse sentido.

Dia 9: “Talvez seja a TFP que colocou o bomba no Colégio Brasil”. Nem me lembro que Colégio Brasil era este.

Mas essas notícias, de tão inverossímeis, caíram no vazio.

*   *   *

No dia 11 de setembro de 1968, anunciamos um milhão e quinhentas mil assinaturas. As revistas Veja e Realidade, que tinham grande tiragem, publicaram reportagens a respeito* [248].

* O abaixo-assinado havia se espraiado largamente pela América do Sul, tendo alcançado na Argentina, 266.512 assinaturas, no Chile, 121.210 mil e no Uruguai, 37.111.

Na contagem final, somando-se as 1.600.368 assinaturas do Brasil, foram 2.025.201 assinaturas no total (cfr. Um homem, uma obra, uma gesta, cit.).

No dia 12 de setembro houve o encerramento oficial da campanha, ainda com a cifra de pouco mais de 1.500.000.

7. Brilhante sessão de encerramento em São Paulo

Em setembro de 1968, a TFP comemora, na Casa de Portugal em São Paulo, o término de sua campanha, em que 1.600.000 brasileiros pediam providências a Paulo VI contra a infiltração comunista na Igreja. Foi o maior abaixo-assinado da História do Brasil

A sessão de encerramento foi brilhantíssima. Realizou-se na Casa de Portugal, em São Paulo. Com um auditório superlotado, no qual cabiam duas mil pessoas, o ato contou com a presença de muitas figuras da alta sociedade [249].

Na sessão falamos Dom Mayer, Dom Sigaud e eu.

Em certo momento da sessão, interrompi minha exposição para dizer que recebera uma comunicação de que os jovens caravanistas que tinham levado o abaixo-assinado a todo o Brasil, acabavam de chegar de viagem e estavam entrando para participar da sessão. E que era tal o heroísmo deles, que eu propunha que todos os recebessem de pé.

Foi uma explosão de aplausos: todo mundo se levantou e entraram as caravanas com os estandartes e se posicionaram nas laterais do auditório.

Mais adiante, outro ato muito bonito foi quando dois soldados da Polícia Militar tocaram em clarim o dobre de silêncio por todas as vítimas do comunismo. Então, todo mundo ficou de pé. Uma coisa muito bonita!

Quando terminou a sessão, o auditório todo estava aplaudindo longamente, longamente de pé.

Foi a sessão mais brilhante da TFP até aquela data. Foi também a mais brilhante que até então eu tenha visto em recinto fechado, na minha vida inteira.

A campanha de fato empolgou o Brasil.

No fim, declaramos encerrada a campanha, com mais de um milhão e quinhentos mil brasileiros aderindo.

Não adiantava à esquerda católica ou não católica protestar, porque a campanha estava ganha. Um milhão e quinhentos mil quiseram. E a campanha atingiu todo o seu êxito*.

* O significado profundo desse êxito foi captado pela revista norte-americana Time, que em sua edição de 23/8/68 comentava: “A facilidade com que a TFP coletou as assinaturas reflete o fato de que a maioria dos latino-americanos aprova ou pelo menos tolera [sic] o conservadorismo católico”.

Quando terminou a campanha, ficou patente aos olhos do Brasil inteiro que um milhão e quinhentos mil brasileiros de todo o País, das mais diversas camadas sociais e até pessoas da maior importância como Bispos, ministros de Estado, almirantes, generais, brigadeiros, professores universitários, jornalistas, deputados, senadores, homens ricos, homens médios, homens pobres, todos tinham tido notícia de que havia comunismo infiltrado na Igreja.

Quer dizer, a máscara da esquerda católica estava arrancada.

Foi este um trabalho de dois meses de campanha que uma organização pequena, à força de aproveitar as ocasiões, moveu-se com agilidade e foi favorecida por Nossa Senhora, conseguindo levá-la a cabo [250].

8. Entrega do abaixo-assinado: silêncio de Paulo VI

Um problema que se nos apresentou foi como fazer chegar ao Vaticano as incontáveis folhas do abaixo-assinado. Formavam elas — colocadas umas sobre as outras — uma pilha com cerca de 10 metros de altura*.

* Eram, repetimos, um total de 2.025.201.

Não convinha confiá-las aos meios comuns de transporte postal. Restava pedir que a remessa se efetuasse em mala diplomática do Vaticano.

Não seriam as listas por demais volumosas para transporte na mala diplomática da Nunciatura? Pareceu, assim, necessário microfilmar todas as listas.

Começou então a microfilmagem. Esta resultou na elaboração de 85 rolos*.

* Esses rolos foram acondicionados em uma caixa medindo 80 x 50, x 20 centímetros.

Em 20 de junho de 1969, escrevi uma carta a Dom Umberto Mozzoni, Núncio Apostólico no Brasil, rogando a S. Excia. a gentileza de incluir na mala diplomática o envio de histórica importância.

Imaginava eu que abaixo-assinados — importantíssimos pelo número de signatários, pela alta qualidade de muitos deles (Arcebispos, Bispos, ministros de Estado, governadores e secretários de Estado, altas patentes das Forças Armadas, parlamentares, professores universitários etc.), pelo tema que versavam — houvessem de encontrar a maior facilidade em ser transportados na mala diplomática.

O ilustre representante da Santa Sé respondeu-me, em carta de 2 de julho, que “por disposição dos superiores”, o correio diplomático da Nunciatura estava estritamente reservado às comunicações oficiais.

Os subseqüentes meses se passaram na espera de um portador de confiança. Obtivemo-lo em outubro* [251].

*A entrega, feita pessoalmente por um amigo da TFP, realizou-se no dia 7 de novembro de 1969. A importante documentação foi confiada a um minutante, na Secretaria de Estado da Santa Sé.

Esta mensagem, imponente pela gravidade do assunto, pela categoria de muitos signatários, e pelo número dos que a subscreveram ficou sem resposta [252]. O silêncio mais frio e completo seguiu-se à súplica, entretanto filial, respeitosa, submissa, angustiada, ardente.

Nada se fez que pusesse cobro à onda.

A História registrará que essa omissão teve trágica importância no drama que estava prestes a começar [253].

Capítulo XVIII

O Arcebispo Vermelho abre as portas da América e do Mundo para o comunismo

1. Dom Helder no CICOP: política de entrega ao comunismo

Ainda estava quente na memória de todos nosso abaixo-assinado a Paulo VI, quando no fim de 1969 Dom Helder Câmara resolveu fazer uma tournée pelo Velho e Novo Mundo.

Como de hábito, não perdeu ocasião alguma para promover sua costumeira política [254].

Sobretudo nas afirmações extremamente graves, pronunciadas em Nova York, em discurso de encerramento da sexta Conferência Anual do Programa Católico de Cooperação Interamericana (CICOP)*.

* Este pronunciamento foi feito no dia 25 de janeiro de 1969.

De princípio ao fim, essas declarações delineavam toda uma política de entrega do mundo, e mais particularmente da América, ao comunismo.

Dom Helder pedia que a China comunista fosse admitida nas Nações Unidas. Como a China ocupava um dos cinco lugares permanentes e com direito de veto no órgão supremo da ONU, isto é, no Conselho de Segurança, a admissão do governo de Pequim importaria forçosamente em que ao representante de Chiang Kai-Shek nesse órgão se substituísse o de Mao Tsé-Tung.

Dom Helder pedia também "a reintegração de Cuba na comunidade latino-americana [...], com o devido respeito às suas opiniões políticas".

Entre outras coisas, asseverou Dom Helder que "o primeiro problema da humanidade não é o choque entre o Oriente e o Ocidente, mas sim entre o Norte e o Sul — ou seja, entre o mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido".

Esta afirmação sibilina era de molde a adormecer a vigilância dos anticomunistas, ao mesmo tempo que relegava para um nível secundário a grande controvérsia religiosa, filosófica e cultural entre o mundo cristão e o mundo ateu, para pôr em primeira plana o problema econômico do subdesenvolvimento. Inversão de valores inteiramente conforme à doutrina de Marx.

A TFP esperou que Dom Helder Câmara desmentisse as afirmações que a imprensa nacional lhe atribuiu.

Tal desmentido não veio. E, à vista dos antecedentes, era muito de duvidar que ele viesse, pelo menos com a precisão e a franqueza indispensáveis.

Dada a extrema gravidade das declarações do referido Prelado, a TFP julgou cumprir um dever para com a Pátria, exprimindo seu inteiro desacordo com as sugestões desconcertantes a ele atribuídas* [255].

* Ao comunicado Dr. Plinio deu o título de O Arcebispo vermelho abre as portas da América e do mundo para o comunismo, pois esse era o efeito do que Dom Helder dissera.

Nele demonstrou que a política internacional preconizada por Dom Helder era inteiramente afim com a política nacional proposta pelo agitador belga Padre Comblin, a seu tempo denunciado pela TFP em vitoriosa campanha contra a infiltração comunista em meios católicos.

Dr. Plinio fazia também um apelo à Hierarquia Eclesiástica, ao Poder Público e à própria opinião nacional para que, de concerto, pusessem paradeiro a um perigo cujo alcance seria pueril ignorar.

- Este comunicado pode ser encontrado em Catolicismo n° 218, de fevereiro de 1969.

2. Dom Helder Câmara reconfortado por Paulo VI

Era triste, muito triste, isto sim [256], ver um Bispo da Santa Igreja Católica Apostólica Romana empenhando o seu prestígio, que lhe vinha da excelsa dignidade de sucessor dos Apóstolos, para tentar a demolição de bastiões dos mais preciosos da defesa militar e política do mundo livre contra o comunismo [257].

Tudo isto não seria tão importante, pois não ia além da importância de dom Helder.

Importante, realmente importante foi o que se passou com Dom Helder em Roma.

D. Helder recebido por Paulo VI [data desconhecida]

A importância, no caso, não vinha de Dom Helder mas do Papa. Pois Dom Helder — bem no meio de sua tournée lança-chamas — esteve com Sua Santidade, e depois deu uma versão própria do que ocorreu entre ambos.

O fato de essa versão ter sido espalhada aos quatro ventos, no Brasil e no Exterior, isto sim, era importante, na medida em que insinuava uma atitude do chefe da Cristandade diante das proezas de Dom Helder.

Lembremos antes de tudo que — segundo uma "fonte oficial" do Vaticano — o encontro teria sido "muito cordial".

Dom Helder falou com o Santo Padre sobre suas "experiências passadas" e seus "projetos". A julgar pelo que deixou entrever o Arcebispo, não recebeu ele a menor censura. Pelo contrário, saiu da audiência confiante e com "sua alma de Bispo reconfortada".

Mais adiante disse que, a seu ver, o Brasil "deve pensar em modelos socialistas proporcionais às nossas necessidades particulares".

E depois de dizer que — segundo pensava — esse socialismo brasileiro não coincidia com o que se praticava nos países socialistas, acrescentou: "Sonho com uma socialização que seja realmente capaz de criar condições de desenvolvimento integral do homem, como define a encíclica ‘Populorum Progressio’".

Essas declarações de Dom Helder, embora cheias das habituais sinuosidades, reticências e escapatórias, em sua linha geral não só induziam os leitores a formar a impressão de que recebeu um placet de Paulo VI, bem como a aceitar a idéia de que havia possibilidade de se construir, para o Brasil, um socialismo católico.

Acerca deste último ponto, o que sustentávamos era exatamente o contrário. Se católicos transviados, e até um Arcebispo "sonhador", quiserem construir um regime autenticamente socialista, este regime seria intrinsecamente atentatório aos dois Mandamentos da lei de Deus: "Não roubarás" e "Não cobiçarás os bens do próximo". O fato de uma violação da Lei de Deus ser praticada, não por materialistas mas por católicos ou até por clérigos, absolutamente não a batizava nem a tornava lícita.

Ora, fazendo esta apologia do socialismo, logo à saída de uma audiência papal tão "cordial" e que tanto o "reconfortou", Dom Helder fazia crer que nada do que declarou era contrário às diretrizes que — presumivelmente — acabara de receber de Sua Santidade [258].

Daí eu ter sentido a necessidade absoluta de a TFP publicar o seu comunicado, que teve enorme repercussão.

Capítulo XIX

IDO-C e “grupos proféticos”: trama secreta para revolucionar a Igreja (1969)

1. Uma campanha ousada: grupos ocultos tramam a subversão na Igreja

 

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Em 1969, Catolicismo publicou um número duplo correspondente aos meses de abril e maio, no qual dava conhecimento de dois autênticos documentos-bomba sobre a presente crise na Santa Igreja.

O primeiro deles, estampado no boletim católico Approaches, de Londres (no 10-11, de janeiro de 1968), era intitulado Dossier a respeito do IDO-C.

O segundo veio a lume sob o título Os pequenos grupos e a corrente profética, no no 1423, de 11 de janeiro de 1969, da revista Ecclesia, de Madri.

Para melhor compreensão dos leitores, cada um desses documentos vinha precedido de um estudo de apresentação contendo um substancioso resumo do texto, elaborado pela redação da folha* [259].

* Esse número duplo trazia em sua primeira página a figura de um belo crucifixo barroco venerado na sede do Conselho Nacional da TFP e seu título já constituía uma categórica denúncia: Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja.

Este título era seguido de um texto em destaque que resumia o conteúdo da edição: "No alto da Cruz, Nosso Senhor Jesus Cristo não sofreu apenas em razão dos ultrajes morais e físicos que Lhe foram infligidos por seus algozes. Padeceu também na previsão de todos os pecados que se cometeriam até a consumação dos tempos. Entre eles a trama secreta feita em poderosos meios católicos para 'reformar' a Igreja — transformando-A em uma Igreja-Nova panteísta, desmitificada, dessacralizada, desalienada, igualitária e posta a serviço do comunismo — constituiu por certo um dos mais atrozes tormentos de nosso Divino Redentor. Sim, dEle que ensinou por sua Vida, Paixão e Morte o contrário de todos esses erros clamorosos".

E com base nesse número de Catolicismo fizemos nossa campanha contra o IDO-C e os “grupos proféticos”, isto no ano de 1969 [260], a qual foi de enorme alcance* [261].

* Esse número de Catolicismo denunciava a conjuração de organismos semi-secretos cujas infiltrações, de origens remotas, já podiam ser encontradas no Brasil desde os tempos do Em Defesa da Ação Católica, em que Dr. Plinio as descrevia em termos que impressionam pela frisante analogia com as informações publicadas por Ecclesia sobre os grupos proféticos.

Campanha de difusão do número duplo de Catolicismo sobre o IDO-C e os grupos proféticos no Viaduto do Chá na capital paulista

Tais organismos eram servidos por uma superpotência publicitária, que trabalhava de acordo com áreas progressistas, e mesmo com pessoas alheias e inimigas da Igreja, para estabelecer [262] uma Igreja Nova panteísta, desmitificada, dessacralizada, desalienada, igualitária, e posta a serviço do comunismo [263].

Nunca havíamos feito uma acusação tão grave, nunca havíamos dado um passo tão ousado, nunca de um modo tão completo havíamos desmascarado tanto a audácia do adversário [264].

Não faltou quem dissesse a nossos jovens, aqui e acolá ao longo de sua imensa e vitoriosa jornada, que Catolicismo, denunciando a trama sinistra, deixava em má postura muitos sacerdotes e leigos progressistas, e produzia ipso facto um trauma perigoso nas fileiras católicas.

A objeção era fácil de responder. O ateísmo é, pela natureza das coisas, o inimigo máximo da Igreja. Se esse inimigo encontrou meios eficazes de se esgueirar nela, era preciso alertar para o fato os católicos. Omitir o alerta por medo de traumatizar a opinião católica seria como não bradar contra o ladrão que se vê entrar em uma casa, por medo de assustar a família...

Não partilharam dessa frívola objeção vários Bispos brasileiros, que por escrito se solidarizaram com nossos ataques aos dois já citados organismos de infiltração atéia: Dom Orlando Chaves, Arcebispo de Cuiabá, Dom Antonio de Almeida Moraes Júnior, Arcebispo de Niterói, e Dom Antonio Mazzaroto, Bispo de Ponta Grossa.

A essas vozes autorizadas veio juntar-se depois a do Cardeal-Arcebispo de Caracas, Dom José Humberto Quintero Parra, que em sua Carta Pastoral de 30 de julho de 1969 (quando nossa campanha já ia a meio), não temeu traumatizar toda a Venezuela, mas, pelo contrário, julgou fazer-lhe um grande bem, alertando os católicos contra os "grupos proféticos" [265].

2. IDO-C: uma máquina de propaganda progressista

O IDO-C apresentava-se a si mesmo como “um grupo internacional, com quartel-general em Roma e com uma crescente rede de ramificações que abarcam o mundo inteiro”.

Sua função específica, segundo ele mesmo a definia, “consiste em coligir e distribuir” aos especialistas interessados “documentação acerca dos efeitos estruturais e teológicos da continuada aplicação dos decretos e do espírito do Concílio Vaticano II”.

O IDO-C informava ter nascido em dezembro de 1965, da fusão do DO-C, centro de informações que servia o Episcopado Holandês durante o Concílio, com o Centro de Coordenação de Comunicações Conciliares (CCCC), que na mesma oportunidade promovia o intercâmbio de notícias entre jornalistas progressistas.

Cumpre destacar que o IDO-C controlava as seções religiosas de jornais de repercussão mundial como Le Monde e Le Figaro, em Paris, e o New York Times, nos Estados Unidos.

Era muito significativo que o funcionamento do IDO-C fosse aceito sem a menor preocupação em países dominados por governos comunistas, tais como a Hungria, a Polônia, a Checoslováquia e a Iugoslávia.

Essa máquina era destinada a inocular nos meios católicos mais ou menos veladamente, através da imprensa, do rádio, da televisão, e de conferências em auditórios públicos, uma doutrina que é o oposto da Religião Católica [266].

Tudo se unia: propaganda das mais ousadas, novidades religiosas e esquerdismo escancarado, tudo propagado em nome do “espírito conciliar” por uma central discreta [267].

3. Grupos proféticos, rede semiclandestina para operar a revolução na Igreja

Já o artigo publicado em Ecclesia nos punha ao corrente do esforço sistemático de um movimento que se generalizara cada vez mais nos meios católicos de numerosos países, o dos “grupos proféticos”.

Formado de miríades de pequenos grupos esparsos, a unidade desses organismos ressaltava, logo à primeira vista, da ideologia, das metas e dos métodos de ação que todos tinham em comum, bem como da notável colaboração que mutuamente se prestavam estes corpúsculos sem direção central aparente.

Constituíam eles células vivas de ativistas que se incrustavam nos mais variados organismos católicos — seminários, universidades, colégios, obras sociais etc. — e ali faziam a propaganda, mais ou menos velada, de um sistema ideológico que, como no caso do IDO-C, representava o contrário da Religião Católica.

Não só por seu grande número, mas pelas sutilíssimas técnicas de iniciação de membros, pressão sobre a opinião pública e agitação que usavam, os “grupos proféticos” eram uma verdadeira potência.

Eles formavam dentro da Igreja uma imensa rede semi-secreta de propaganda anticatólica, feita sobretudo verbalmente de pessoa a pessoa.

Tanto nos “grupos proféticos” quanto no IDO-C se tinha, perante o comunismo, a mesma atitude simpática.

Quanto aos instrumentos de ação, o IDO-C e os “grupos proféticos” eram profundamente diversos. E nisto se completavam.

Pois o IDO-C visava as massas católicas, sobre as quais agia pelos meios mais adequados, isto é, como dissemos, livros, revistas, jornais, televisão, rádio, conferências etc.

Os “grupos proféticos”, pelo contrário, visavam os mil ambientes-chave que dirigiam o movimento católico. E para tanto esses grupos usavam principalmente a propaganda oral discreta, a cargo, como é óbvio, de agitadores perfeitamente destros e bem colocados [268].

*   *   *

E podemos mais ou menos dizer que tudo o que se passou na Igreja de lá para cá foi a aplicação do programa do IDO-C e dos “grupos proféticos” [269].

4. Novidade marcou a fisionomia das TFPs nas ruas: a capa

No Chile, a difusão do mesmo documento em "Fiducia", órgão da TFP local. O cooperador já porta a capa recém lançada

Nessa ocasião, dezenove caravanas de jovens propagandistas percorreram, em 70 dias, 514 cidades (em vinte Estados) de nosso território. Foram então vendidos 165 mil exemplares de Catolicismo.

Foi nessa campanha que, pela primeira vez, por iniciativa minha, a TFP lançou, para uso dos seus cooperadores, a capa rubra ostentando o leão áureo [270].

A idéia nasceu de uma preocupação de propaganda de rua. Dada a importância dessa denúncia, pareceu-me que deveríamos inaugurar um processo de campanha que chamasse vivamente a atenção e marcasse a TFP aos olhos do público.

Vieram-me então à memória bustos do tempo dos romanos, com capas vagamente parecidas com a nossa.*

* Por exemplo, o busto do imperador romano Caracalla, no Museu do Louvre; ou o do imperador Marco Aurélio, nos jardins de Versalhes.

Mas eu não tinha nenhuma vontade de imitar os antigos romanos. E imaginava essa capa marcada por uma nota de heroísmo medieval. Como comunicar essa nota?

Então me lembrei de que havia visto, em certa figura medieval, uma vestimenta em forma de farpa.

Dr. Eduardo Brotero, com aquele zelo que lhe é característico, fez os modelos de farpa, baseados em um traje do Arquiduque Maximiliano, da Áustria (1459-1519), depois Imperador do Sacro Império (de 1508 até sua morte), revestido com o hábito da Ordem do Tosão de Ouro. E fomos a uma costureira, que executou a idéia. E assim surgiu a nossa capa.

Catedral de Notre Dame de Paris - Nossa Senhora defendendo o monge Teófilo contra o demônio [Tímpano do portal do Claustro]. Comentando esta foto, Dr. Plinio alertou para a semelhança das dobras do manto de Nossa Senhora com a capa de campanha que ele imaginara para a TFP.

Quando fomos medir os resultados da campanha, a capa tinha sido um sucesso [271].

Mais tarde, comentando depois num auditório da TFP a imagem de Nossa Senhora defendendo o monge Teófilo contra o demônio, representada no detalhe de um tímpano da Catedral de Notre Dame, em Paris, eu disse que me comprazia num determinado pormenor.

Pedi então aos presentes que observassem as dobras do manto de Nossa Senhora, e perguntei: os senhores conhecem essas dobras? É a capa da TFP! Oxalá aqueles que a usam saibam enfrentar a Revolução gnóstica e igualitária como Nossa Senhora fez com o demônio [272].

5. Estranhos contratempos com duas autoridades civis

Desejo tratar aqui de dois contratempos que tivemos.

Um sobre a oposição apaixonada do Sr. Secretário da Segurança Pública de Minas à realização de nossas atividades em praça pública.

Pensava eu que ele fosse o único, pois, com exceção de Minas, vendemos os jornais em todo o território nacional, recebendo, da parte das autoridades, as garantias necessárias para o exercício das liberdades que a Constituição nos assegura.

Minha ilusão de que só em Minas o Poder Público nos coarctara a ação, se desfez à última hora, pois na Bahia, na querida, gloriosa e tradicional cidade do Salvador, o Secretário da Segurança Pública nos opôs os mesmos óbices que seu fogoso colega mineiro. E isto apesar da magnífica acolhida popular que vínhamos obtendo na linda capital dos Vice-Reis.

À guisa de argumento, aquela autoridade só declarou o seguinte: a) a TFP representava, no panorama brasileiro, o extremo oposto do comunismo; logo a TFP era tão autenticamente extremista como este; b) em conseqüência, não devia ter inteira liberdade de ação, pois que não a tinham os comunistas.

Assim, em Salvador como em Minas, fomos proibidos de usar estandartes e capas, bem como de atuar em praça pública. Só o que se nos "concedeu" foi irmos de porta em porta vender os jornais, com evidente diminuição de nossa capacidade de ação*.

* Na época correu à boca pequena, em contatos de pessoas da TFP com altos funcionários do governo de Minas e da Bahia, que a proibição dos respectivos secretários se devera às pressões, em Belo Horizonte, do Arcebispo Dom João Resende Costa e, em Salvador, do Cardeal-Arcebispo Dom Eugenio de Araújo Sales. A controvérsia com os dois secretários está noticiada nas edições de Catolicismo n° 223, de julho de 1969 e n° 225-226, de setembro-outubro do mesmo ano.

6. Oposição violenta de padres progressistas

Oposição violenta, só a tivemos fora da esfera do Poder Civil. Procedeu ela, quase sempre, de curas progressistas, a capitanear magotes de arruaceiros fanatizados [273].

Toca-me dizer uma palavra sobre declarações feitas à imprensa, a propósito de nossa campanha contra o IDO-C e os "grupos proféticos", pelo Emmo. Cardeal Rossi: “Tradição, Família e Propriedade fala por ela própria e não tem correspondência com a palavra e a ação da Igreja".

Outro tópico contido na entrevista de S. Emcia. era este: "Rememorou-nos (o Cardeal) o nobre lema da Igreja de Cristo: ‘Unidade nas coisas essenciais; liberdade nas acidentais e caridade em todas as coisas’. Possivelmente haja comunistas no grande e espalhado mundo do Clero brasileiro. Mas à Igreja não cabe o papel (frisou o Cardeal Rossi) de apontar com o dedo a ovelha negra, numa denúncia. Ela é a primeira a condenar e a censurar, mas condena e censura como a Mãe e como a Mestra".

Queríamos crer que o repórter tivesse ouvido mal. Não nos pareceu crível que S. Emcia. considerasse descaridoso "apontar com o dedo" clérigos comunistas - e ipso facto apóstatas - no mesmo momento em que "aponta com o dedo" a TFP, por motivos que, a serem fundados na realidade, seriam bem menos graves [274].

*   *   *

Somando e subtraindo, tenho certeza de que a onda que nós levantamos contra o IDO-C e os “grupos proféticos” serviu muito para obrigá-los a uma linha de prudência, que retardou a ação deles no Brasil. Quer dizer, foi uma ação preventiva [275].

Capítulo XX

O tumor do envolvimento de clérigos com o terrorismo (1969)

1. O caso dos dominicanos terroristas: “affaire” Marighela

Poucos meses depois dessa nossa campanha, ou seja, em novembro de 1969, explodiu o tumor da infiltração terrorista no Clero. Isto é, da infiltração do comunismo de pior tipo, o que não se limitava a defender o ateísmo, o materialismo, o desprezo à família e a negação da propriedade, mas ia além, e apoiava a matança, o seqüestro e o saque organizados*.

Da turma de noviços dominicanos de 1965, em Belo Horizonte, cinco se tornariam militantes da ALN: da dir. para a esq., Oswaldo (segundo), Betto (quarto), Ratton (sexto), Magno (oitavo) e Ivo (12º) [Ref. aqui]

* O caso veio a furo quando, no dia 4 de novembro de 1969, em São Paulo, o chefe terrorista Carlos Marighela, que se achava foragido, foi morto pela polícia ao reagir à prisão. O fato se deu na Alameda Casa Branca, Jardim Paulista, quando Marighela se aproximava de dois religiosos do Convento de São Domingos das Perdizes, com os quais marcara entrevista através de um telefonema para a Livraria Duas Cidades, dirigida pelos Dominicanos. Os dois religiosos eram cúmplices da rede terrorista montada por Marighela e serviram de isca para atraí-lo.

De norte a sul, os jornais, as rádios e as televisões se pronunciaram sobre o escândalo. Em todas as rodas foi este o tema obrigatório das conversas.

O Brasil inteiro estava persuadido de que o grosso dos fatos narrados era verídico. E este grosso era tão grosso - tão grossíssimo, se assim se pudesse dizer - que horrorizou a opinião pública.

*   *   *

É claro que a Nação esperava encontrar na atitude das mais altas organizações e das mais categorizadas personalidades eclesiásticas um eco do que ela sentia diante das linhas gerais irrecusavelmente verídicas e protuberantemente terríveis do que fora apurado.

Entretanto, o que a Nação viu nas mais altas esferas religiosas nacionais foi o contrário: fechamento, reserva, protelação, espera circunspecta de novas informações.

Tudo na atitude dos ilustres prelados era como se eles não se tivessem refeito da surpresa enorme que presumivelmente os aturdiu. A surpreendente surpresa tinha sido tão grande, que parecia ter imobilizado a alta direção da CNBB.

Algum tempo antes meu Arcebispo, o Emmo. Cardeal Rossi, havia declarado à imprensa que desconhecia a existência de sacerdotes comunistas no Brasil.

Pouco depois, ao chegar de Roma, o Sr. Arcebispo do Rio, Cardeal Câmara, declarara haver informado ao Santo Padre Paulo VI que era inteiramente normal a situação do Clero brasileiro.

Vinha agora o caso policial. Reação das mesmas esferas: surpresa*.

* No dia 5 de novembro de 1969, deu-se o estouro do caso na imprensa.

Logo no dia seguinte, Dr. Plinio fez publicar um comunicado da TFP sobre o assunto. Esse comunicado foi estampado na Folha de S. Paulo e no Estado de S. Paulo de 6 de novembro de 1969, e em mais outros 11 jornais brasileiros, sob o título A TFP e os terroristas dominicanos. Foram distribuídas 80 mil cópias dele nas ruas centrais da cidade.

Nele Dr. Plinio manifestava “a consternação da entidade ante a notícia de que sacerdotes dominicanos participaram ativamente da conspiração terrorista”. Afirmava ser difícil imaginar “uma mais completa conspurcação da excelsa dignidade do Sacerdócio e da glória ilibada do hábito dominicano”. E lembrava a necessidade “imperiosa e inadiável de negociações oficiais do Itamarati com a Santa Sé para que, pelos meios adequados, as autoridades eclesiásticas, e na falta destas as autoridades civis, possam pôr cobro à fermentação comunista que lavra escandalosamente em meios católicos”.

A segurança interna da Igreja clamava por que a CNBB abrisse uma vasta investigação, de natureza inteiramente eclesiástica, para averiguar toda a extensão do tumor que explodira.

Mas não vi que algo disso tivesse sido feito. E, contudo, isto era, para a CNBB, o único caminho que parecia coerente com a situação catastrófica a que se havia chegado.

A Igreja, assim, estaria em condições ideais para — em colaboração com o Estado — acautelar-se a si própria e ao Brasil contra o perigo imenso. Mas, ao que parece, a surpresa, a surpresa surpreendente, criou tropeços para as providências mais necessárias... [276]

2. Chegou a hora de fazer “o jogo da verdade”

Pouco antes, fora publicada no Diário de Justiça de Belo Horizonte larga documentação sobre a famigerada Ação Popular, que tanta agitação levantou em nosso País*.

* A AP havia se embrenhado na via da tomada do poder pelo emprego da luta armada. E toda a geração de militantes havia se formado nas fileiras da Ação Católica.

Assim, vinha uma vez mais à tona a infiltração comunista nos meios católicos brasileiros.

Já que "chegou a hora de fazermos o jogo da verdade", devíamos ser claros: dos vários setores da subversão, aquele no qual menos se interveio foi precisamente o da esquerda católica*.

* Dr. Plinio havia escrito na época um artigo para a Folha de S. Paulo, aproveitando-se de um dito do Presidente Garrastazu Médici de que havia chegado a hora de fazer o “jogo da verdade”.

O artigo foi publicado em 15 de outubro de 1969, e intitulava-seO jogo da verdade” e a crise religiosa.

Esta rarefação da verdade se foi acentuando em nossa vida pública com a cooperação de quase todo o mundo. O desejo generalizado de contemporizar, de ladear questões, de evitar desentendimentos, levou a isto.

Mas, enfim, há limite para tudo.

Bastava ver o caso do Padre Comblin. Apesar de denunciado por uma petição com mais de 1.500.000 assinaturas, andava livre pelo Brasil o comunista belga. Os jovens que, persuadidos por ele, se punham a conspirar, poderiam ser punidos. Ele, o grande responsável, continuava incólume.

O que tornava o Padre Comblin quase inatingível pela lei era um anteparo muito e muito difícil de remover. Era a batina que, aliás, ele já não usava...

A complexidade do assunto estava no seguinte: pelas leis multisseculares da Igreja, o sacerdote - em princípio - só pela Igreja pode ser julgado. É este um privilégio deduzido do cunho sacral do sacerdócio.

Não posso afirmar se este privilégio ainda existe na mais recente legislação canônica. Mas o certo é que, vigente durante séculos, ele modelou a fundo a sensibilidade religiosa do povo cristão.

A esquerda católica, muito sabidamente, sempre que as autoridades civis tomavam ou ameaçavam tomar medidas contra eclesiásticos, começava a apontar o Poder civil como violador dos direitos da Igreja. Daí resultava, concretamente, a impunidade de Comblins de toda a casta*...

* O recurso ao poder civil para processar eclesiásticos que afrontam a ordem pública já vai entrando nos costumes. Assim, a respeito de um sacerdote que teria desviado dinheiro de uma paróquia na cidade de Cascavel (PR), o Arcebispo local, Dom Mauro Aparecido dos Santos, declarou: “Se um membro que está ali [na paróquia] se sentir prejudicado e quiser ir na Justiça Civil é direito deles” (cfr. Rede SBC Brasil, 14 de outubro de 2014).

Também a conhecida Agência de Notícias progressista ADITAL (Agência de Informação Frei Tito para a América Latina) informa, em despacho de 14 de outubro de 2014, que “Coletivos mexicanos, redes cristãs e entidades como o Observatório Eclesial estão divulgando uma carta aberta ao Papa Francisco”, na qual fazem “um apelo para que o Papa colabore para que a justiça civil seja aplicada aos padres que cometem crimes sexuais contra crianças e adolescentes”.

3. O remédio que o Poder Público não aplicou

Dita assim, com coragem, qual era a situação, cumpria sugerir para ela um remédio.

Ora, tal remédio só podia ser um. O Poder civil expusesse ao País, em toda a extensão, qual era a magnitude da infiltração comunista em meios católicos, de forma que mesmo nos últimos rincões não pairasse dúvida a este respeito.

Pari passu, pedisse à Autoridade Eclesiástica que remediasse a situação. Pedisse-o à CNBB, sempre tão disposta a recomendar soluções para problemas da esfera temporal. Pedisse-o ao Santo Padre, a quem já haviam se dirigido neste sentido, por iniciativa da TFP, 1.600.368 brasileiros.

Feitos estes pedidos com publicidade, com decisão, com respeito, motivos não haveria para que a Hierarquia deixasse de atender, com providências imediatas e inteiramente eficazes, os anseios do Brasil.

Não havia outro caminho adequado. A contemporização de nada adiantou. As tratativas de bastidor - era absurdo supor que não as tenha havido - deram no que se via. O bolsão esquerdista na Igreja continuava bojudo e pronto a derramar sua peçonha sobre o País na primeira ocasião. Na "hora da verdade", só atuações públicas e diretas eram oportunas [277]. E, como só se elimina um perigo quando se fazem cessar as suas causas, eu queria eliminar a influência da esquerda católica. A esquerda católica não exprimia o pensamento da Igreja. E como tal não merecia o apoio nem da Hierarquia, nem do povo católico.

Notem que não falo em privar da liberdade os elementos que constituem essa esquerda. Nem em expulsar do País os seus componentes estrangeiros. Essas medidas poderiam ser ou não ser justas e úteis, conforme cada caso concreto. Elas poderiam atenuar o perigo. Não porém eliminá-lo. Acrescento que, em alguns casos, elas poderiam ser contraproducentes.

A esquerda católica vive da influência que lhe vem do rótulo católico. Essa influência não se lhe tira só com medidas legais e judiciárias. Mais do que tudo, era preciso tirar-lhe o rótulo [278]. Nisto estava a solução.

O que nos grandes centros de todo o Brasil se sabia, isto é, que havia um ativo bolsão comunista ou comunistizante em meios católicos brasileiros, era apenas vislumbrado em muitos centros médios e pequenos.

Que se organizasse - com base nos documentos apreendidos pela polícia - um documentário farto que provasse esta triste realidade; e que providenciasse uma larga distribuição dele por todos os recantos do Brasil.

O ministro do Exterior, apoiado pelo clamor da imensa maioria do País, pedisse à Santa Sé medidas aptas a desautorar, em nome da Igreja, os Comblins de toda a casta que da Igreja se serviam para demolir o Brasil [279].

Diria algum cético que as providências da Hierarquia não viriam... Este pessimismo sombrio não nos eximiria de recorrer a elas.

Imaginemos que pouco ou nada se conseguisse. Creio que, então, o direito do Brasil à legítima defesa - direito inalienável e decorrente do mais fundo da ordem natural - inspiraria aos detentores do Poder Público outros meios de ação: prudentes e respeitosos sempre, mas também inteiramente decisivos.

E então essas medidas não feririam mais a opinião católica. Pois a doutrina católica não justifica que, à míngua de medidas, se deixasse arder indefeso um país inteiro.

O direito à legítima defesa — falo em tese — tem bastante amplitude para isto, segundo a moral cristã. É o que qualquer moralista sério sabe [280].


NOTAS

[1] SD 7/11/75.

[2] RR 6/3/ 85.

[3] SD 7/11/75.

[4] SD 14/7/73.

[5] SD 7/11/75.

[6] SD 26/7/69.

[7] CM 3/3/85.

[8] SD 26/7/69.

[9] SD 14/7/73.

[10] Entrevista à Rádio São Miguel de Uruguaiana, 21/6/90.

[11] SD 26/7/69.

[13] SD 7/2/87.

[14] Palavrinha 4/1/81.

[15] SD 7/4/79.

[16] — A chamada Ordem Imediata — expressão que foi utilizada até o falecimento de Dr. Plinio — era constituída, como o nome indica, de pessoas imediatamente abaixo dos sócios fundadores e diretores, mas que tinham a vários títulos um papel de especial destaque, e mesmo de direção de setores, dentro do grupo de Catolicismo. Algumas dessas pessoas eram sócias, outras não.

[17] SD 7/9/74.

[18] SD 26/7/69.

[19] SD 16/6/73.

[20] RR 15/8/92.

[21] CCEE 8/11/92.

[22] SD 21/7/73.

[23] SD 17/6/89.

[24] SD 21/7/73.

[25] CM 21/5/89.

[26] SD 21/7/73.

[27] Jantar 16/1/92.

[28] SD 21/7/73.

[29] SD 17/6/89.

[30] SD 21/7/73.

[31] SD 24/11/73.

[32] CCEE 8/11/92.

[33] SD 21/7/73.

[34] SD 1/12/73.

[35] SD 14/7/73.

[36] CCEE 8/11/92.

[37] — Apesar do esforço de pesquisa, não conseguimos localizar essa notícia lida por Dr. Plinio. Constatamos apenas que, durante a Semana da Pátria de 1959, saíram diversas notícias batendo na tecla da Reforma Agrária.

[38] SD 14/7/73.

[39] — Carlos Alberto Alves de Carvalho Pinto (1910-1987) foi professor universitário, advogado, político e técnico em assuntos administrativos e econômicos. Sobrinho-neto do antigo Presidente da República Rodrigues Alves, tornou-se governador de São Paulo a 31 de janeiro de 1959. Em julho desse ano, certamente por encomenda do governo paulista, a revista Manchete publicou bombástica matéria de capa cujo título era: “Carvalho Pinto já faz em São Paulo Reforma Agrária”. Nesse mesmo mês, pelo decreto 35.090, ele criou uma comissão incumbida do “estudo de medidas visando a melhor utilização das terras inaproveitadas públicas ou particulares do Estado” (cfr. Célia Aparecida Ferreira Tolentino, in O Farmer contra o Jeca, Cultura Acadêmica Editora, São Paulo, 2011). Comissão esta que seria propulsionada pelo seu secretário da Agricultura, José Bonifácio Coutinho Nogueira, tendo como assessor José Gomes da Silva, futuro presidente do INCRA no governo do Presidente José Sarney.

[40] Conversa 20/1/93.

[41] — O projeto de lei 154/60, apresentado em 1° de abril de 1960 e aprovado a 28 de dezembro do mesmo ano, foi sancionado por Carvalho Pinto no dia 30, passando a constituir a Lei n° 5.994 (cfr. site da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo - http://www.al.sp.gov.br e também Célia Aparecida Ferreira Tolentino, in O Farmer contra o Jeca, op. cit.). Mas não conseguiu sair do papel.

[43] SD 1/12/73.

[44] Relatório analítico sobre a Revisão Agrária paulista enviado a Roma em 1962.

[45] SD 14/7/73.

[46] SD 17/7/73.

[48] SD 14/7/73.

[49] SD 1/12/73.

[50] SD 14/7/73.

[51] Chá 30/4/93.

[52] SD 1/12/73.

[53] SD 16/7/88.

[54] CCEE 8/11/92.

[55] Conversa 20/1/93.

[56] SD 1/12/73 — Reforma Agrária—Questão de Consciência teve doze edições: no Brasil, cinco edições, a mais recente delas no primeiro trimestre de 2011, comemorativa dos 50 anos de lançamento; na Argentina (1963), Espanha (1969) e Colômbia (5 edições), num total de mais de 43 mil exemplares.

[57] Simpósio 26/2/66 (I).

[58] SD 14/7/73 — Ver reportagem em Catolicismo n° 121, de janeiro de 1961.

[59] Simpósio 26/2/66 (I) — Um registro escrito por um membro do grupo de Catolicismo, não assinado, fornece alguns dados interessantes: “Os debates havidos produziram um grande efeito, a ponto de que deputados agro-revisionistas tentaram organizar um trabalho junto à imprensa especializada visando evitar a publicação de qualquer notícia a respeito. Mas isto foi inútil. Em pouco tempo a notícia se espalhou, vários jornais a comentaram, a visita foi filmada e apresentada na televisão e mais tarde exibida em noticiário cinematográfico nos principais cinemas de São Paulo, devendo a seguir ser passada em todo o Brasil”.

[61] Relatório para o Cardeal Ottaviani, 20/12/60.

[62] SD 8/12/73.

[64] SD 14/7/73.

[65] RR 7/5/77.

[66] SD 14/7/73.

[67] SD 8/12/73.

[68] SD 14/7/73.

[71] SD 14/7/73.

[72] SD 16/7/88.

[73] SD 14/7/73.

[74] — Pascoal Ranieri Mazzilli (1910-1975), político brasileiro, chegou a exercer interinamente a Presidência da República em duas ocasiões. Primeiramente, de 25/8 a 8/9/61, após a renúncia de Jânio Quadros, estando ausente o vice-presidente João Goulart, em visita à China comunista. A segunda vez foi de 2 a 15/4/64, logo depois do golpe militar, até a posse do Marechal Castelo Branco, eleito pelo Congresso Nacional.

[75] SD 14/7/73.

[76] RR 24/10/87.

[77] SD 14/7/73.

[81] Manifesto ao povo brasileiro sobre a Reforma Agrária, Catolicismo n° 169, janeiro de 1965.

[84] Entrevista à Rádio São Miguel de Uruguaiana, 21/6/90.

[85] SD 14/7/73.

[87] Entrevista à Rádio São Miguel de Uruguaiana, 21/6/90.

[88] SD 14/7/73.

[89] CSN 24/9/94.

[90] SD 17/7/73.

[94] A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista, cit.

[95] Entrevista à Rádio São Miguel de Uruguaiana, 21/6/90.

[96] SD 14/7/73.

[98] Entrevista à Rádio São Miguel de Uruguaiana, 21/6/90.

[99] SD 14/7/73.

[100] Reunião com os mais antigos do movimento 4/12/77.

[101] CSN 10/7/82.

[102] Reunião com os mais antigos do movimento 4/12/77.

[103] RR 4/4/92.

[104] Reunião com os mais antigos do movimento 4/12/77.

[105] A I.O. no “water shoot”, Folha de S. Paulo, 3/10/71 — Numa série de artigos que escreveu para a Folha de S. Paulo a partir de 25 de julho de 1971, Dr. Plinio denominou pela abreviatura "I.O." a igreja greco-"ortodoxa" russa. E explicou porque usava a palavra "ortodoxa" entre aspas e porque lhe aplicava o adjetivo cremliniana:

“Algum leitor estranhará que eu escreva sempre ‘ortodoxo’ entre aspas. Não o faço nem de longe com o intuito de espicaçar ou agredir. É que, como católico, não posso, em rigor de lógica, reconhecer como ortodoxa (já que ortodoxo quer dizer, em grego, opinião reta) senão a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

“É bem verdade que o uso tem levado incontáveis católicos a dispensar as aspas como inúteis, por se entender como óbvio que um católico não pode aceitar como verdadeiramente ortodoxa uma igreja separada de Roma. Mas nestes tempos de ecumenismo delirante, parece-me perfeitamente legítimo que tanto os católicos leais à fé como os ‘ortodoxos’ coerentes queiram evitar qualquer confusão. E que para isto usem medidas excepcionais.

“— E ‘cremliniana’? Por que uso este neologismo? — Muito simplesmente porque a realidade dos fatos manda que se diga e com quanta alegria o digo — que uma boa fração dos ‘ortodoxos’ russos e não russos recusa qualquer comunhão com os lacaios mitrados que o Kremlin pôs à testa do arremedo de Igreja e de Hierarquia, que em Moscou funciona sob os auspícios do Estado ateu.

“Esses ‘ortodoxos’ anticremlinianos — hierarcas e leigos sofrendo perseguições e pressões de toda ordem — se conservam irredutíveis em considerar os ‘cremlinianos’ como sinistros farsantes. A nobre firmeza desses ‘ortodoxos’ merece um aplauso caloroso, que todo católico verdadeiro lhes dá com gosto” (v. artigo Lições no jardim do vizinho, Folha de S. Paulo, 25/7/71).

[106] RR 20/4/85.

[107] RR 11/5/85.

[108] RR 20/4/85.

[109] RR 9/9/89.

[110] RR 20/4/85.

[111] RR 25/6/88.

[112] Reunião com os mais antigos do movimento 2/3/87 — Em entrevista concedida a Catolicismo (março de 2011), o professor Roberto De Mattei, vice-presidente do Centro Nacional de Pesquisas da Itália, catedrático da Universidade Européia de Roma e autor do momentoso livro O Vaticano II: uma história jamais escrita, discorrendo sobre “a rede de relações desse setor progressista, que preexistia ao Concílio”, afirmou que ela era “forte, ramificada, e incluía, além das cúpulas das conferências episcopais, algumas ordens religiosas de ‘vanguarda’ e grupos lingüísticos. Incluía sobretudo laboratórios ideológicos, como os de Cuernavaca, no México, de Bolonha, na Itália, e de Louvain, na Bélgica”. Perguntado pelo repórter se do lado conservador não havia algo parecido, foi taxativo: “Nem um pouco! Os Bispos e teólogos fiéis a Roma reagiram muito tardiamente e sem a habilidade estratégica de seus adversários. Segundo uma pesquisadora americana, Melissa Wilde, a minoria progressista prevaleceu graças à sua melhor estratégia e organização” (destaques nossos).

[113] — Dr. Plínio chegou a Roma no dia 10 de outubro de 1962, abertura do Concílio. Vinha em companhia de Dom Sigaud, Dom Mayer, Frei Jerônimo Van Hinten, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, Dr. Fernando Furquim de Almeida, Dr. Paulo Corrêa de Brito, Dr. Luís Nazareno Teixeira de Assumpção Filho, Dr. Sérgio Brotero Lefevbre, Dr. Fábio Vidigal Xavier da Silveira, Dr. Murilo Maranhão Galliez, Dr. João Sampaio Neto, Dr. Otto de Alencar de Sá Pereira e dos srs. Domimique Pierre Faga, Umberto Braccesi, Emílio Scherer, Carlos Alberto Soares Correia e Pedro Paulo Figueiredo.

[114] Chá 21/2/95.

[115] Palestra 26/8/70.

[116] Chá 21/2/95.

[117] SD 5/5/73.

[118] Chá 21/2/95.

[119] SD 10/8/83.

[120] — O Coetus a que Dr. Plinio se refere, também chamado “Petit Comité” “Pequeno Comitê”, foi um grupo de estudos/trabalho que reunia participantes do Concílio Vaticano II em desacordo com os rumos progressistas que se delineavam no mesmo. Mais tarde aumentou o número de participantes dando origem, em outubro de 1963, ao Coetus Internationalis Patrum.

[121] — Padre Ralph Wiltgen (1921-2007), sacerdote norte-americano da Sociedade do Verbo Divino. Presente ao Concílio Vaticano II, e notando as lacunas das informações distribuídas pelo Vaticano, montou seu próprio escritório Divine Word News Service, com 3.100 assinantes em 108 países. Ele colocou em realce as conferências de imprensa de vários Bispos que eram boicotados pela mídia. Recebeu por isso pressões para cessar os seus trabalhos, mas outros Bispos o encorajaram a continuar.

[122] Chá 21/2/95.

[123] — No dia 3 de fevereiro de 1964, Dom Sigaud entregou pessoalmente a Paulo VI essa petição subscrita por 510 Prelados de 78 países.

[124] SD 22/3/65.

[125] Palestra 20/8/64.

[126] RR 24/8/91.

[127] Inquebrantabilidade vence astúcia, Folha de S. Paulo, 9/7/84.

[128] RR 26/8/89.

[130] RR 23/4/73.

[131] RR 13/1/90.

[132] RR 16/12/89.

[133] RR 26/8/89.

[134] RR 16/12/89.

[135] RR 26/8/89.

[136] RR 13/1/90.

[137] — Monsenhor Achille Marie Joseph Glorieux (1910-1999) foi, de fato, posteriormente galardoado com cargos de importância, sendo escolhido em 1966 como secretário do Pontifício Conselho para os Leigos. Em 1969, tornou-se Bispo Titular de Beverlacum e Pró-Núncio Apostólico junto à Síria e em 1973, foi escolhido como Pró-Núncio junto ao Egito.

[138] RR 26/8/89.

[139] RR 13/1/90.

[141] RR 25/6/88.

[142] RR 15/5/85.

[143] Reunião com os mais antigos do movimento 28/9/86.

[144] RR 25/6/88.

[145] RR 15/5/85.

[147] Religião a serviço da irreligião, Folha de S. Paulo, 11/7/71.

[148] — Luigi Taparelli d'Azeglio (1793-1862) foi um sacerdote jesuíta que aprofundou o papel do princípio de subsidiariedade na organização social. Sua vocação religiosa foi despertada pelos exercícios espirituais de que participou, pregados pelo Venerável Pio de Bruno Lanteri, fundador da Congregação dos Oblatos de Maria Virgem. Co-fundador em 1850 da Civiltà Cattolica, seus ensinamentos sobre matéria social inspiraram o Papa Leão XIII na redação da encíclica Rerum Novarum. Escreveu o famoso Saggio teoretico di dritto naturale appoggiato sul fatto, em 5 volumes publicados pela primeira vez em Palermo, na Stamperia d'Antonio Muratori, 1840-1843. Dr. Plinio o leu em sua tradução francesa.

[149] SD 5/5/73.

[150] Reunião Normal 1/3/65.

[151] SD 5/5/73.

[152] SD 10/8/83.

[153] SD 5/5/73.

[154] SD 10/8/83.

[155] SD 5/5/73 Monsenhor Ivan Bucko (1891-1974) sacerdote ucraniano, foi Bispo Auxiliar de Lviv, Ucrânia, depois Bispo Auxiliar da colônia ucraniana nos Estados Unidos, e por fim Bispo Titular de Leucas, quando foi incorporado ao serviço da Cúria Romana, aí permanecendo até sua morte.

[156] Não, não e não, Folha de S. Paulo, 26/3/72.

[157] — Monsenhor Józef Felix Gawlina (1892-1964), Arcebispo Titular de Madito.

[158] SD 5/5/73.

[160] SEFAC 25/1/65.

[161] Conferência em Belo Horizonte 15/8/65 e SEFAC 25/1/65.

[162] SEFAC 25/1/65.

[163] Reunião Normal 1/3/65.

[164] O Cunctator: um maximalista?, Folha de S. Paulo, 24/8/78.

[165] Reunião Normal 1/3/65.

[167] Reunião Normal 1/3/65.

[169] Reunião Normal 1/3/65.

[171] Reunião Normal 1/3/65.

[172] SD 5/5/73.

[173] Palavrinha 26/8/83.

[174] SD 5/5/73.

[175] Reunião Normal 1/3/65.

[176] SEFAC 25/1/65.

[177] Reunião Normal 1/3/65.

[178] — O primeiro artigo de Kierunki foi publicado no seu nº 8, de 1º/3/64, sob o título Carta aberta ao Dr. Plinio Corrêa de Oliveira; ver emAtrás da cortina de ferro”, em “Catolicismo”, n.° 161, de maio de 1964 (Nota no fim do texto); Dr. Plinio respondeu com o artigoCarta aberta para além da cortina de ferro”, Catolicismo n° 162, de junho de 1964; Outras peças da polêmica se seguiram e podem ser acompanhadas nos seguintes números de "Catolicismo":Jornal católico francês responde à carta aberta publicada em Kierunki, n.° 165, de setembro de 1964; “Continua acesa a polêmica em torno de A liberdade da Igreja no Estado Comunista”, n° 166, de outubro de 1964; “Resposta à carta aberta do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira / 2ª carta aberta do Sr. Zbigniew Czajkowski, publicada nos periódicos Kierunki e Zycie i Mysl, de Varsóvia”; e “Diálogo, coexistência e hecatombe termonuclear / 2ª carta aberta para além da cortina de ferro”, n° 170, de fevereiro de 1965.

[180] — Tadeusz Mazowiecki foi membro do movimento Pax, do sindicato Solidariedade e primeiro-ministro da Polônia entre 1989 e 1991.

[182] Reunião Normal 1/3/65.

[183] RR 1/3/74.

[184] SD 5/5/73.

[185] SD 10/8/83.

[186] Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo, Editora Vera Cruz, São Paulo, 5ª ed., 1974.

[188] — Cfr. El Diario Ilustrado, Santiago, 7/8/69.

[189] A clareza, essa polidez, Folha de S. Paulo, 13/8/69 — Publicado também em El Diario Ilustrado, El Mercurio e La Tercera, todos de Santiago, 8/8/69.

[190] — Edição de 2 de setembro de 1985.

[191] Jantar EANS 12/10/91.

[193] 34-75-77, Folha de S. Paulo, 25/7/77.

[194] SD 19/1/74.

[195] Projeto de Constituição angustia o País, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1987.

[196] SD 19/1/74.

[198] SD 19/1/74.

[200] SD 19/1/74.

[202] SD 19/1/74.

[203] — Dom José Lafayette Ferreira Álvares (1903-1997) foi Bispo Auxiliar de São Paulo de 1965 a 1971, e Bispo Diocesano de Bragança Paulista de 1971 até 1976, quando resignou. Antes de sagrado Bispo, foi secretário particular de Dom José Gaspar e depois do Cardeal Dom Carlos Carmelo, e em várias ocasiões mostrou-se hostil às Congregações Marianas e ao grupo do Legionário.

[205]“Filial Mensagem" era a forma simplificada de referir-se, dentro da TFP, ao manifesto cujo título era mais longo: “Respeitosa defesa em face de um comunicado da Veneranda Comissão Central da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil — Filial convite ao Diálogo”. Esse comunicado foi publicado no dia 26 de julho de 1966, página 7, como matéria paga, em O Estado de S. Paulo e em vários outros jornais do País. Catolicismo n° 188, de agosto de 1966, também o publicou na íntegra.

[206] SD 26/7/69.

[207] SD 19/1/74.

[209] SD 14/8/76.

[210] SD 26/7/69.

[211] SD 18/8/73.

[212]Pompa e Circunstância designa um conjunto de cinco marchas para orquestra, cujo nome é inspirado no terceiro ato de Otelo de Shakespeare. O autor é o compositor inglês Edward Elgar (1857-1934). Na passeata da TFP foi tocada a de nº 1. Nessa ocasião, Dr. Plinio, os membros do Conselho Nacional e os cooperadores da TFP, todos usavam na lapela uma flâmula vermelha na qual estava estampado em dourado o leão rompante, símbolo da entidade.

[213] Um diálogo que se tornou impossível, Catolicismo n° 196-197, abril/maio de 1967.

[214] SD 19/1/74.

[215] SD 21/7/73.

[216] SD 19/1/74.

[217] SD 21/7/73.

[218] SD 19/1/74.

[219] Sucesso internacional de um brasileiro, Folha de S. Paulo, 8/1/69 — Alexander Fyódorovich Kérensky (1881-1970), líder revolucionário russo, desempenhou papel primordial na queda do regime czarista e, no governo provisório que então se estabeleceu, foi primeiro ministro durante menos de quatro meses, período em que preparou a ascensão do comunismo ao poder por meio dos bolcheviques de Lenine.

[220] Fabio Vidigal Xavier da Silveira, Folha de S. Paulo, 2/1/72.

[223] Entrevista à revista Cosas, 19/7/91, apud Tradición Familia Propiedad, Santiago (Chile) n° 87, 1991.

[224] Despacho Argentina 9/8/91.

[225] RR 2/10/93.

[226] RR 31/1/76.

[227] SD 23/1/76.

[228] Entrevista à Rádio São Miguel de Uruguaiana, 21/6/90.

[230] EXT 31/7/73.

[236] SD 20/9/91.

[238] CCEE 9/10/94.

[239] — Otávio Frias de Oliveira (1912-2007), carioca de nascimento, foi um jornalista, editor e empresário brasileiro. Pertencia a uma família tradicional do Rio de Janeiro: seu bisavô fora o barão de Itambi, político influente no Segundo Reinado. Tendo a família se mudado para São Paulo, Frias estudou no Colégio São Luís, da Companhia de Jesus. Notabilizou-se por transformar a Folha de S. Paulo em um dos mais influentes veículos de comunicação do País. A Folha, sob sua direção, endossou a idéia da abertura política do regime militar, abriu suas páginas para todas as tendências de opinião e aumentou o teor crítico de suas edições. A partir de 1986, tornou-se o matutino de maior circulação nacional.

[240] SD 18/8/73.

[241] RR 11/8/73.

[242] Declaração de Dr. Plinio à revista Madre del Buon Consiglio, editada pelos padres Agostinianos de Genazzano (Itália), julho-agosto de 1985, p. 28.

[243] SD 18/8/73.

[244] RR 10/4/74.

[245] SD 26/1/74 — Esse abaixo-assinado tinha como título Reverente e Filial Mensagem ao Papa Paulo VI. Seu texto integral, bem como ampla cobertura dos lances dessa campanha, podem ser encontrados em Catolicismo, nos números 211, de julho de 1968; 212/214, de agosto-outubro de 1968; 216, de dezembro de 1968; e 218, de fevereiro de 1969.

[246] Esta carta, datada de 21 de junho de 1968, foi dada a público em jornais de São Paulo e Recife no dia 23 de junho de 1968.

[247] — Esses documentos podem ser encontrados no n° 212-214 de Catolicismo.

[248] SD 26/1/74.

[249]Catolicismo n° 212-214, de agosto-outubro de 1968, publicou em número triplo uma reportagem de 25 páginas sobre esta campanha contra a infiltração comunista na Igreja, sendo um dos tópicos o Solene encerramento da campanha, à p. 18.

[250] SD 26/1/74.

[253] Toda a verdade sobre as eleições no Chile, Folha de S. Paulo, 10/9/70 e Catolicismo n° 238, outubro de 1970.

[255] O manifesto O Arcebispo vermelho abre as portas da América e do mundo para o comunismo foi publicado nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo no dia 1°/2/69, e em dias subsequentes em 26 jornais da imprensa brasileira.

[259] Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja, Catolicismo n° 220-221, abril-maio de 1969.

[260] RR 25/8/73.

[261] Reunião Extra com sócios e cooperadores 13/6/69.

[262] RR 14/8/71.

[264] Palavras na saída das caravanas 23/6/69.

[265] Para não assustar a família, Folha de S. Paulo, 1°/10/69.

[269] RR 16/6/73.

[271] SD 21/7/73.

[272] SD 23/9/69.

[275] RR 25/8/73.

[276] Surpresa surpreendente, Folha de S. Paulo, 16/11/69.

[277] O "jogo da verdade" e a crise religiosa, Folha de S. Paulo, 15/10/69.

[278] — Grupos que promovem causas perniciosas e mesmo antinaturais sabem perfeitamente que, se usarem o rótulo de “católicos”, conseguirão maior penetração na opinião pública e se sentirão mais resguardados. Caso característico é a ONG pró-aborto que se autodenomina “Católicas pelo direito de decidir”.

[279] Carta a Ministros ignotos, Folha de S. Paulo, 26/10/69.